Híbrido
57 Burned, Melted and Run!
Notas iniciais
Sentia um cheiro agradável de ervas. Inspirei mais uma vez roçando meu nariz em algo torneado, depois de alguns segundos, ainda de olhos fechados, percebi que estava sobre a pele de alguém, ou melhor, sobre um peitoral, que subia e descia em um ritmo lento. Senti algo pesado em minhas costas, e percebi que se tratava de um braço. Logo identifiquei as pontas dos dedos também. Abri meus olhos, sentindo uma forte dor nas têmporas. Enterrei meu rosto mais ainda, deslizei minha mão e tive certeza que eu estava dormindo no peito de Jared.
Pisquei mil vezes antes de enfim abrir os olhos com muita dor. Lembrava-me vagamente da noite passada. Mexi-me, mãos fortes me empurraram mais para o seu corpo, pude também perceber que eu vestia uma blusa grande, e nada mais que isso. Eu estava sem calcinha. Oh, Luna. Levantei os olhos para Jared que dormia serenamente.
"Jared." o chamei, sentindo mais dor pelo tom da minha voz ecoando nos meus ouvidos fazendo minha cabeça latejar.
"Hmmm..." murmurou.
"Jared, o que aconteceu ontem?" apoiei meu queixo em seu peitoral.
"Hmmm." suspirou e se virou jogando a perna sobre mim, enterrando o nariz no meu pescoço. Senti-me esmagada por seu peso.
"Jared" tentei afastá-lo. "Jared!" dei-lhe um pequeno tapa e ele murmurou um xingamento. "O que aconteceu ontem?"
Ele esfregou os olhos com os nós dos dedos. "Você me viu nu e desmaiou de emoção" murmurou rouco e se sentou na cama coçando a cabeça e bocejando. Olhou-me e franziu o cenho de repente, seus olhos ainda muito sonolento, seu rosto estranhamente suave e as bochechas rosadas.
"Não se lembra de nada da noite passada?" perguntou, curioso.
Balancei a cabeça negativamente.
Ele fez uma cara de ofendido, pondo a mão no peito.
"Katherine Savage, você acabou de ferir meu ego." falou com uma expressão de dor. Ele estava me zoando.
"Por que diz isso?"
"Transou comigo ontem e não se lembra?"
Oh merda!
O avaliei por um tempo, ele segurava um sorriso no rosto, estava me enganando.
Peguei um travesseiro e joguei nele com força. Pelo menos, com o máximo de força que eu dispunha o que não era muito. E para piorar, doeu mais em mim, pois minha cabeça não parava de latejar.
"Idiota." murmurei cerrando os olhos devido a dor de cabeça.
"Se não fosse pelo banho gelado que te dei ontem, estaria pior." Falou com naturalidade, sem qualquer tom de zombaria.
"Banho? Você me..."
"Sim, banho. Aquela coisa com água, sabonete, e tudo mais." Fez um gesto exasperado com a mão e prosseguiu: "Aí você me agarrou, pediu pra eu te comer, eu tirei a roupa, já que você já tinha tirado a sua na pressa, então você desmaiou." Olhou-me e sorriu. "De emoção." Repetiu com uma centelha de orgulho nos olhos.
Puxou-me para baixo de si, e pude senti-lo, estava entre minhas pernas. Beijou-me passando a mão por minha coxa, até minha cintura, onde continuou, subindo a camisa deixando minha pele na sua, deslizou descendo-a, pegando em minha perna, pondo em volta de sua cintura. Pressionou-se em cima de mim e eu arfei ao sentí-lo novamente. Sorriu em meus lábios. Agarrei seus cabelos da nuca, depois deslizei as unhas por suas costas, fazendo-o estremecer.
Então algo muito estranho aconteceu, um turbilhão de flashs de imagens, imagens minhas quando criança. Jared estava lá com um homem alto com cabelos encaracolados cor de pinho. Reconheci-o imediatamente, era Isaac. Também vi um avião...
Jared me mordeu com muita força, e senti o gosto de sangue preenchendo minha boca, levantou-se arfando, ficando de joelhos sentando-se sobre as próprias panturrilhas, os olhos cerrados e o nariz sangrando. Sentei-me e peguei em seu rosto febril.
"Jared?" o chamei, mas ele desviou apressadamente do meu toque e saiu correndo para longe, para fora do quarto.
De novo, foi quase!
Levantei-me e fui até o banheiro e aquela sensação de estar abafada voltou. Por que eu sentia isso?
"Kate?" chamou Em.
Olhei para Emma. Ela vestia uma camisola, estava com os cabelos desgrenhados e a cara amassada.
"Bom dia." Cumprimentei-a.
"Sonhei com umas coisas..." falou entrando no quarto e eu a segui. "Estávamos dançando, depois rindo e caindo no chão da sala..."
"Acho que isso não foi sonho." Eu ri para ela. "Ou eu não estaria de ressaca."
"E tinha uma mulher..." ela prosseguiu ignorando meu comentário. "Ela estava nua. Não, seminua. E saiu correndo daqui do apartamento, depois eu vi uma bunda que parecia muito..."
"Peraí," interrompi-a de repente. "Mulher nua?" repeti. Então flashs da noite passada vieram a minha mente, uma delas de Jared com uma vadia no seu colo, os dois estavam completamente nus. Ah, não. Ele não fez isso...
Vesti um short e fui até o banheiro, mas já não havia mais ninguém lá, Jared também não estava no quarto. Cacei-o pela casa com passos firmes e por fim encontrei-o na bancada da cozinha, recém-banhado, comendo fruit loops despreocupadamente. Filho de uma cadela! Marchei com raiva até ele e dei-lhe um tapa na nuca, fazendo-o cuspir um pouco de leite.
"O que é...." o interrompi enchendo-lhe de tapas. Segurou-me pelos pulsos. "Ficou maluca?" perguntou com um olhar incrédulo.
"Você transou com aquela puta no nosso apartamento!" gritei e suas mãos se afrouxaram.
"Exatamente. Nosso apartamento, não seu. Eu tenho o direito de transar com quem eu quiser! Você não abre as pernas pra mim, mesmo." minha mão estalou em seu rosto.
Ele acariciou o rosto rindo debochado.
"Eu nunca teria feito isso com você." Declarei com a voz fria e a expressão seriamente ofendida.
"Isso é o que você diz agora." Ele disse encarando-me desafiadoramente parando a poucos centímetros de mim. Seus olhos passaram da raiva para um divertimento traiçoeiro e junto com aquele olhar, veio o sorriso arrepiante. "Você é uma garota fácil, Kate. É só dizer umas sacanagens no seu ouvido e você já fica gemendo. Só não chega a ser uma puta formada porque ainda é virgem."
Senti a raiva inflamar-se dentro de mim mais do que nunca na vida ao ouvir aquelas palavras. Num impulso, ergui a mão para dar-lhe um soco, mas ele displicentemente segurou meu punho no ato.
"Nem ouse." Ele disse franzindo o cenho. "Você só não deu para o Raymond porque queria que ele fosse eu. Eu vejo isso nos seus olhos. Você sempre soube o que eu penso de você e que tipo de cara eu sou. Sabe também que tenho sido muito paciente com você, eu garanto que quando essa paciência acabar, vou fazer você implorar de quatro pra eu te comer."
Engoli em seco tentando engolir toda a amargura da minha raiva. Não rolou. Ele deve ter percebido alguma coisa no meu rosto, pois seu olhos se arregalaram quando concentrei toda a força do meu corpo na minha perna direita e dei-lhe um belo chute entre as pernas. Ele se curvou, pondo as duas mãos lá em baixo, seu rosto ficando vermelho. Acho que aquele foi o melhor chute da minha vida e senti orgulho de mim mesma.
"Pergunte à Wanda se ela gosta de ovos mexidos."
Dei as costas para Jared e comecei a andar em círculos, pensando no que eu deveria fazer. Aproximei-me de Jared e ele ainda estava curvado, recuperando-se rapidamente. Eu parei bem à sua frente, o suficiente para beijá-lo, vi em seus olhos, fitos em meus lábios, que ele estava confuso.
"Lembra Jared, do quanto você ficou vermelho quando uma menininha beijou seu rosto?" seus olhos foram pros meus e com raiva.
"Do que está falando?" semicerrou os olhos me avaliando.
"Você se lembra do quanto sentiu a falta dela, porque a amava? Ela te amava também." ele ia controlando a respiração e dando passos para trás "Amor infantil," eu disse dando um toque teatral em minha voz. "É a coisa mais pura do mundo."
Ele continuava me encarando, sua raiva se misturando à genuína fúria e à dor.
"Responda, Jared! Você se lembra do quanto sofreu quando ela foi embora?" gritei. "Eu, digo, ela" me corrigi rapidamente e acho que ele não percebeu meu deslize. "Foi a única coisa que você amou..." olhava-me incrédulo "E você ainda ama"
"Katherine." Pronunciou meu nome entre os dentes.
Foquei-me em todas as lembranças que havíamos compartilhado, então Jared se contorceu, caindo de joelhos á minha frente. Vi as imagens passando em sua mente, como um filme, uma lembrança turva, mas que aos poucos começou a se tornar cada vez mais clara. Seus punhos estavam cerrados e seu nariz sangrava. Agora eu sabia por quê. Ele estava lutando com ardor contra aquelas memórias.
"Bruxa." Soltou um grunhido do fundo da garganta, feito um rosnado e então ele gemeu baixinho, vulnerável pela agonia dilacerante.
Mantive as lembranças em sua mente até haver uma grande poça de sangue no chão. Ela caiu sobre ela, de cabaça baixa. Eu podia ouvi-lo arfar e murmurar palavrões e protestos. Confesso que por um lado comecei a me sentir má, impiedosa e cruel com Jared, mas até então essas eram as únicas coisas que realmente o feriam. Eu achava que ele merecia aquilo, talvez até coisa pior, mas havia o centro que queria se ajoelhar ao lado dele, acariciar lhe os cabelos e beijar suas costas. Mas naquele momento, feri-lo era meu desejo dominante.
Marchei com postura até meu quarto, onde massageei minhas têmporas que já doíam pelo meu recente esforço. Avisei a Emma que iríamos sair e fui tomar um banho para tirar o estresse. Jared havia insinuado que eu era uma vadia, e aquilo havia me machucado pra valer, se fosse qualquer outro garoto eu não teria me importado tanto, não me sentiria, em parte, o desgosto que eu estava sentindo naquele momento, mas não, era ele, ele que me causava todas as coisas mais pervertidas em mim.
Quando percebi já estava chorando com suas palavras ecoando em minha mente, sofrimento e raiva eram o que sentia. Tentei evitar a dor, me concentrar somente na raiva e no ódio que eu alimentava no momento por Jared. Saí do banheiro vendo determinação e um brilho maníaco em meus olhos, coisa que eu só via nos olhos dele.
Vesti um short, uma blusa básica e um par de coturnos. Entrei em seu quarto pegando sua carteira e chave sem avisar e fui atrás de Emma, que conversava com ele no sofá.
"Vamos?" a chamei, ambos me olharam, evitei Jared.
"Vamos." suspirou Emma se levantando e saindo comigo do apartamento.
Passamos a tarde no shopping, rindo, paquerando os vendedores das lojas de skate, coisas que eu não fazia há tempos. Quando saímos do cinema, decidi que ainda não queria ir para casa, então Emma começou a dirigir sem rumo, estudando a cidade.
"Então, para onde vamos?" perguntou.
"Ali" apontei para um grande parque de diversão luminoso bem á nossa frente.
Crianças passavam correndo por nós e seus pais atrás delas. Ficamos na fila para comprar os tickets para brincar. Fomos a todos os brinquedos praticamente, faltava a casa monstro e os carrinhos bate-bate.
"Agora, me deixa apertar bem os cintos..." falou o rapaz do brinquedo enquanto me prendia ao carrinho "porque seria uma pena você voar do carro e estragar esse rostinho lindo." sorriu para mim dando uma piscadinha, ele era bonito, cabelos raspados curtos, um sorriso cativante, pele bronzeada e braços torneados.
Olhei para Emma e ela fez um gesto com a mão que simulava as garras de um felino. Nós rimos da expressão tímida do rapaz e começamos nosso jogo.
Batíamos em todo mundo, principalmente uma no outra, não sabia exatamente por que, mas eu ria descontroladamente, até vê-lo.
Jared cochichava no ouvido de uma garota, cabelos pretos e longos presos numa trança e eu me perguntei se ela seria a mesma vadia da noite passada, mas não. Era uma nova garota, outra vadia.
Acelerei no carrinho em direção á eles, e bati fortemente na barra de proteção, o impacto havia me lançado para frente, senti uma forte pressão no peito.
Jared me encarou, semicerrando os olhos, e depois sorriu cafageste. Que ódio dele!
"Ei, você está bem?" o rapaz de sorriso cativante perguntou preocupado.
"Ah...sim, mas...pode me ajudar a sair?" perguntei.
Ele sorriu e me soltou do carrinho, levando-me até a saída.
"Tem certeza de que está bem?" perguntou.
"Sim." sorri. "Obrigada." estendi a mão gentilmente para ele. "Meu nome é Katherine."
"Allen." sorriu, e vi que seus olhos eram verdes escuros. Encaramo-nos por um tempo, ele tinha lábios desenhados e bem carnudos. "Hm, meu expediente acaba daqui a 30 min, poderíamos nos encontrar na praça de alimentação para eu te pagar um cachorro quente, quem sabe." Sugeriu, sorridente.
"Claro!" concordei.
Emma saiu do brinquedo falando ao telefone.
"Amiga, meu ruivo-maravilha está aqui, vou encontrá-lo, depois a gente se vê." Falou enviando-me beijinhos pelo ar e saiu correndo ainda com o celular colado na orelha.
Despedi-me de Allen e procurei mais algum brinquedo.
Avistei uma barraca de tiro ao alvo, com ursos na exposição. Pelúcias que eu adoraria ganhar.
Dei o ticket e ganhei cinco pedaços de madeira, a espingarda era de pressão, e eu tinha que acertar os cinco patos que se moviam em tantos outros, logo esses que me fariam ganhar o urso panda que eu já estava namorando de longe.
Atirei, mas acertei um pato qualquer. Posicionei-me melhor na bancada, e mirei como se estivesse mirando na cabeça de alguém, como aqueles caras. Mas os patos estavam se movimentando rapidamente, eu só havia acertado em alvos parados.
Respirei fundo, frustrada. Me imaginei numa situação de vida ou morte, o pato era um Nephilim, ou pior, era Jared. Um sorriso desconhecido e maligno nasceu em meus lábios.
Acertei o primeiro pato de alto ponto. Mordi o lábio com um sorriso orgulhoso, me posicionei de novo, mas quando ia apertar o gatilho, o pato que estava na minha mira, havia sido acertado.
Olhei para o lado, ver quem estava concorrendo comigo, e descobri um alvo mais divertido que o pato-Jared de 500 pontos. Era o próprio Jared.
Olhou-me de canto e sorriu debochado. Estava numa postura totalmente diferente da minha. Sua postura era ereta, a arma erguida na altura dos seus olhos. Vestia uma camisa branca e justa, que ficava quase como uma segunda pele nele.
Revirei os olhos e voltei a minha postura inicial, mirando em outro pato-Jared, e acertei. Jared verdadeiro acertou um pato qualquer.
"Uma aposta." Falou sem olhar pra mim.
"Não quero nada com você." atirei errado.
"Posso saber o motivo?"
"Você me ofendeu." errei de novo.
"E você me agonizou." senti sua aproximação em minha orelha. "Bruxa" sussurrou.
Virei a arma pondo em seu queixo, levantando seu rosto pra cima, ele levantou as mãos e sorriu canalha.
"Ei menina!" chamou a senhora da barraca "Não pode fazer isso! vai machucar o garoto!" falou com seu pior sotaque texano, bem caipira.
"Katherine?" alguém me chamou.
Era Allen.
"Oi." sorri e ele franziu o cenho olhando perdendo um pouco o foco de mim. "Oh" tirei a arma do queixo de Jared.
"Seu..." apontou para Jared.
"Não." Eu o interrompi antes que ele terminasse a pergunta. "Não se preocupe com ele. Ele não é nada." Olhei para Jared de solsaio.
"Vamos comer aquele cachorro-quente?" perguntou.
"Ah, ótimo! Cachorro-quente. Estou morrendo de fome." falou Jared
"Você não vai." Rosnei pra ele.
"Então você também não vai." colocou as mãos nos bolsos "Não até eu te ganhar." desafiou-me.
Olhei para Allen, ele me encarava confuso e preocupado. Eu realmente queria sair com alguém que não fosse o Jared, mas ele estava me desafiando, e eu tinha que ganhar dele.
"Compra mais munição." ditei para Jared e me virei para Allen "Vou acabar com ele em três minutos e já vou com você."
Pegamos as munições e a senhora da barraca levantou os patos derrubados.
"Agora." falou Jared e começamos a atirar. Eu havia acertado em dois patos de 500 pontos, e três patinhos qualquer. Jared só havia acertado os de baixa pontuação.
"Ganhei." Falei soprando simbolicamente a ponta do tubo da minha arma.
"Empate." falou Jared
"O que?Eu acertei quatro de 500 pontos!"
"Claro que não, você acertou dois, e eu acertei outros dois."
"Você perdeu!"
Ele me encarou semicerrando os olhos.
"Mais munições." bateu no balcão.
Mais duas rodadas, eu ganhando e ele não aceitando a perda.
"Você é patético." Ri, meus olhos lacrimejavam.
"Vá a merda. Mais munições"
Enfim eu havia acertado os cinco patos. Pulei de felicidade em cima do Jared, que me encarava emburrado e me afastava.
A senhora me entregou o lindo panda e eu virei Jared para mim, pegando-o pelas bochechas.
"Não fica triste, um dia você me ganha." dei-lhe um selinho, pondo o urso em seu peito "Toma pra você. É o panda da consolação."
Ele pegou o urso e o encarou, em seguida olhou-me nos olhos dando aquele sorriso forçado de criança e começou a puxar a cabeça do panda, até arrancá-la. Eu ri de sua encenação.
"Mau perdedor" ri.
"Vamos em outro brinquedo." resmungou jogando o corpo do panda de um lado e a cabeça do outro, no chão.
"Não, eu tenho que..." olhei em volta procurando Allen, mas ele havia sumido. "Droga." murmurei e olhei para Jared que se afastava caminhando pesadamente.
Catei meu panda despedaçado no chão e por algum motivo me sentia alegre, com vontade de andar saltitando, de repente eu já não estava com tanta raiva de Jared por ter insinuado que eu era uma vadia, por ter transado com uma e estar com uma nova a minutos atrás. Eu só queria ficar do lado dele, rindo dele, rindo com ele, apenas estar ao seu lado, como estávamos agora.
Aproximei-me de Jared e por impulso da minha alegria pulei em suas costas.
"Em que brinquedo quer perder agora? Digo, brincar." Ri mordendo sua orelha.
Ele me ignorou.
"Vamos à casa monstro, lá não tem competição, lá você não perde" falei puxando-o pela mão.
Ficamos na fila por um tempo e depois entramos, sentando em um pequeno carrinho que nos levava para dentro do túnel escuro.
A metade do percurso dei mais gritos de ser pega de surpresa do que medo real. Olhei para Jared que estava super entediado, pensei em comentar em algo, mas não havia nada que eu pudesse dizer. Não precisei pensar em mais nada quando o carro parou no meio do túnel.
"Merda." resmungou Jared "Agora vem mais um show de susto ridículo."
O olhei e ele soltava os cintos. Do final do túnel vinha uma fumaça verde devido a luz, flashes como relâmpagos também enfatizavam o ambiente "sombrio".
"Aonde vai?" perguntei á Jared quando se levantou.
"Ensinar a eles o que é susto e medo." Sorriu.
"Vai me deixar aqui sozinha?"
Ele deu de ombros e saiu em disparada na direção da fumaça verde.
Um minuto depois e o eco do barulho de uma serra elétrica, ecoou no túnel, em meio ao nevoeiro verde, sombras de um corpo começaram a se formar, confesso que entrei um pouco em desespero, mas depois me lembrei de que era encenação. Enfim vi o homem sacudindo a serra no alto, de repente tudo ficou escuro, um apagão.
O barulho da serra havia cessado, estava tão escuro que eu mal podia ver minhas mãos.
Ouvi o cara resmugar alguma coisa e caminhar, se aproximando de onde eu estava. Oh merda.
"Ei menina." chamou "Ôce ta bem?" falou o caipira.
"Estou, o que houve?" perguntei
"Um apagão, mas já já 'vorta'". Falou sentando-se ao meu lado, tentei manter maior distância possível.
Algo rangeu no metal incomodando meus ouvidos, passos arrastados ecoavam.
"Quém ta ai?" perguntou o caipira.
Nenhuma resposta. Uma onda de calor tomou meu corpo, senti a sensação de estar com pouquíssimo ar a minha volta, e de que eu deveria sair logo dali.
"Eugene, é você?" perguntou o caipira.
Uma risada rouca e "maligna" ecoou. Os passos se arrastavam, ficando, mais próximos, e minha sensação de sufoco e desespero para sair dali, parecia que havia engolido muita fumaça que me queimava por dentro, ardendo.
Isso foi se intensificando a medida dos passos, até que houve um momento que os passos pararam, e os únicos barulhos que continham no lugar eram as respirações nervosas, minha, do caipira e meu debater com a parte de trás do carrinho, na esperança de sair dali. E rápido.
O segundo mais apavorante de minha vida fora quando uma mão em chamas iluminava um rosto pálido, fino, olhos negros com um líquido preto e viscoso escorredo pela boca.
O caipira após das um grande berro, saiu correndo, enquanto eu tentava me soltar loucamente, minhas mãos estavam trêmulas, o que dificultava tudo. O fogo não estava em mim, mas era como se estivesse, queimando-me, causando-me uma agonia incessante.
Uma gargalhada gostosa e rouca bem conhecida ecoou, elevei rapidamente os olhos, era Jared. O preto aos poucos ia diminuindo, até voltar a ser uma pequena pupila, deixando-me ver seus verdes olhos que ainda espelhavam as chamas em suas mãos.
Ele me olhou e se aproximou, fazendo com que eu instintivamente, me afastasse.
"Hey, sou eu." falou limpando a boca com a camisa, mostrando sua linda barriga, que ainda sim, não diminuía minha tensão em relação ao fogo.
Ele se ajoelhou perto do carrinho, e com a mão livre de fogo, esticando a mão para me ajuda, mas o detive com um grito, sentia o calor de sua pele de longe.
"Kate, sou eu, Jared." Falou calmamente.
"Você está... NÃO! SAIA DAQUI! NÃO CHEGUE PERTO DE MIM!." falei rouca.
"Para de palhaçada..." esticou a mão e eu me afastei desesperadamente. "Só vou soltar isso aqui." pegou no cinto, e um simples, leve toque de pele, me causou uma das piores dores do mundo. Dei um grito de pavor.
Ainda chorando, ouvi o 'click' e sai pelo outro lado do carrinho, correndo para o fim do túnel, que dava uma floresta iluminada e trilhada com lâmpadas penduradas nas árvores.
A agonia havia passado, mas aonde Jared havia me queimado, ardia por dentro e por fora. Meu olhar deslizou um pouco para cima, a ponto de ver algo que somente meu grito de horror, que arranhara minha garganta, poderia explicar.
O caipira, vestido num macacão velho e surrado estava no chão, morto, com algo, que eu não sabia o que era, se alimentando de suas tripas, carne pendurada em seus afiados, grandes e pontudos dentes cinzas.
Taparam minha boca, e senti um corpo forte e morno em minhas costas. Uma respiração quente e agradável chegou a minha orelha.
"Não se mexa, não grite." sussurrou Jared "Katherine, respire e fique do meu lado, lentamente." falou movendo-me.
A criatura negra, viscosa e envergada ainda nos olhava. Não tinha olhos, apenas boca, a cabeça numa forma triangular, as mãos, dedos longos, e afiados, como tesouras.
Eu estava tremendo junto ao corpo tenso de Jared, que me "abraçava" com um braço, me perguntava se ele estava percebendo o que estava fazendo.
"O que são?" perguntei num sussurro quase que inexistente.
"Não sei, acho que demônio." sussurrou fazendo-me estremecer.
Ouvi barulhos atrás de mim e lentamente virei-me para olhar por cima de meu ombro, havia mais, muito mais daqueles, talvez uns vinte. Aproximavam-se de nós com lentidão. Meu corpo estava gelado, apesar da queimadura em meu braço e eu tremia de pavor.
"Ja-Jared, o que..."
"Vamos matá-los." respondeu-me
Então uma criatura pulou avançou em nós, berrando com os dentes afiados à mostra.
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