Hálito de Fogo

10 A peste negra


Todos os dragões davam inúmeros rasantes em meio ao caminho para Midgard na tentativa de minimizar a quantidade de ratos, mas quanto mais ratos eram queimados, mas ratos apareciam, como se eles ficassem furiosos e convidassem outros para participar do ataque.

O dragão de Barton em meio a um rasante foi atacado por uma grande parte da horda, então nós tivemos que parar em meio ao trajeto para ajudá-los a se livrar dos pestinhas.

Devido aos acontecimentos no meio do caminho, chegamos apenas alguns segundos antes dos ratos à cidade. Pousamos próximo ao enorme portão de aço e então os Ases dos Ares desmontaram de seus dragões rapidamente e Ravel correu em direção ao soldado mais próximo.

– Ordene que fechem os portões. – Ravel disse com uma voz ofegante e desesperada.

– Mas por que senhor? Não posso ordenar que simplesmente fechem os portões por nada. – O soldado retrucou.

– Olhe aqui, seu verme insolente, vê aquele amontoado negro no chão se movimentando rapidamente em direção aos muros? – Ele apontou com o dedo indicador. – É uma enorme nuvem de ratos que caminha com a intenção de destruir a cidade e eu não tenho tempo de explicar para um soldado o como eu sei que eles vêm com tal finalidade, então cale a boca e apenas feche a droga do portão ou eu mando Zhoa derreter as correntes que o mantem suspenso! E enquanto eu receber uma medalha por ter salvo a cidade você vai estar sendo vaiado e demitido por ter atrapalhado tudo. – Ravel era tomado pelo ódio, sem dúvidas, se ele fosse um dragão já estaria cuspindo fogo.

Depois daquele esporro o guarda rapidamente ordenou que o espesso portão de aço fosse fechado e, quando finalmente um enorme estrondo correu meus ouvidos, Midgard se tornou mais segura.

– Soldados, preparem seus arcos. – O soldado gritou e todos se posicionaram as margens do enorme muro de Midgard. – Qual é o nosso lema?

– Unidos por Midgard, pela honra, pela glória e pelo aço! – Todos os soldados ali presentes responderam em coral.

– No três! Um... Dois... Três! – Como numa tempestade, a nuvem de flechas colidiu com a nuvem de ratos que não se abalou com o ataque, apenas se enfureceu mais e avançou mais rapidamente para a cidade.

Mais ratos começaram a emergir da terra e tentar invadir a cidade, então eles começaram a se aglomerar nas muralhas de Midgard. Amontoavam-se um sobre os outros e, pouco a pouco, iam escalando os muros.

Quando finalmente subiram, os cavaleiros do rei estavam a postos com suas espadas de aço e desferiam golpes certeiros. Mas seus esforços eram inúteis, pois os ratos saltavam e mordiam as brechas de suas armaduras. Não os matavam, apenas mordiam e corriam para atacar outro guarda.

Os guardas corriam de um lado para o outro desesperados. Alguns tinham coragem o suficiente para enfrentar alguns ratos, mas logo começavam a correr, e outros até largavam suas espadas e começavam a tentar tirar os ratos de seu caminho com as mãos e os pés.

Os Ases dos Ares, diferentemente dos soldados, pouco passavam por apuros e então eu entendi porque eles estavam incluídos na parte mais poderosa do exército do rei. Sem realizar quase esforço algum eles conseguiam fatiar qualquer rato que tentasse lhes atacar, mesmo em bando, como se eles soubessem de onde os ataques viriam.

A desvantagem dos guardas não estava no tamanho ou na agilidade de um rato, mas sim na agilidade de 10 ratos juntos. E então a peste negra se espalhou pela cidade e começou a atacar cidadãos, sem se importar com quem eram. Homens, mulheres, crianças, ricos e pobres. Nenhum era perdoado pelos animais.

Eu já havia descido da muralha e ajudava os ases dos ares e Helena a diminuir o máximo que podíamos na quantidade de roedores.

Os dragões encurralavam os animais entre si e então sopravam labaredas de fogo para cima deles, porém, com o passar do tempo, os ratos se distanciavam um dos outros, assim se tornava impossível encurralá-los para acabar com vários de uma vez. E após as chamas dos dragões alcançarem algumas casas e quase incendiá-las, nós decidimos cessar fogo.

Tentei pensar em alguma coisa que pudesse chamar sua atenção, mas nada vinha a minha cabeça. Foi quando eu vi uma outra nuvem negra vindo, dessa vez menor, mas mais perigosa que a que caminhava por Midgard.

Cerca de 20 dragões voavam em direção à cidade e, bem mais distante, era possível se ver um ponto branco se movimentando. Aparentemente aquilo não era boa coisa.

Os Ases dos Ares montaram em seus dragões e eu estava prestes a me juntar a Ravel, mas então ele esticou seu braço em gesto de obstrução.

– Vocês ficam aqui. É muito perigoso para garotos enfrentarem um enxame de dragões. – Então, com o peito estufado, ele gritou. – Ases dos Ares, decolar! – E os 7 dragões e cavaleiros decolaram em direção ao que poderia ser seu fim.

Os Ases dos Ares avançaram em direção aos dragões, mas por mais que eles fossem bem treinados e poderosos, ainda eram 20 contra 7.

Um a um os Ases dos Ares eram separados dos outros devido à formação usada pelos outros dragões, que consistia em encurralar um de cada vez e soprar chamas sobre eles e assim, diminuindo seu poder que se resumia em ataque conjunto de sete dragões. E então, um a um, os guerreiros bateram em retirada, com excessão de Ravel, que continuava intocável no ar. Ele e Zhoa apresentavam uma sincronia impecável, mas infelizmente tudo que é bom dura pouco.

Todos os 20 dragões se juntaram em um ataque para cima de Ravel e Zhoa, então os dois num mergulho conseguiram escapar das chamas que foram lançadas sobre eles.

– Cadmo, você tem que ajudá-los. – Sabra me segurou pelos ombros e me chacoalhou com uma cara de pânico.

– Sabra, são 20 dragões! Eu não tenho capacidade de vencer todos eles juntos, por mais que eu tenha dois Gladios. São 20 dragões contra um Cadmo!

E então os dragões pousaram em Midgard e começaram a devastar tudo que viam pela frente. Se ao menos eles se separassem para eu poder atacar, mas eles se mantinham em uma formação diferente da anterior, que impedia que até mesmo os dragões dos Ases dos Ares se aproximassem devido a sua proximidade, como se fosse um amontoado de escamas gigantes sem brechas.

De repente senti uma mordida de leve em meu calcanhar. Esperava que fosse um rato e já me preparava para esmagá-lo com a sola de meu pé, mas quando me virei, vi que era Nero.

– Eu consigo separar! Consigo sim! – Ele balbuciava para mim, e eu demorei a entender que estava se dispondo a entrar no amontoado de dragões e separá-los. Então confirmei com a cabeça e Nero partiu em disparada contra os dragões.

Graças ao seu tamanho, os dragões não perceberam sua chegada e, mesmo em desvantagem, Nero avançou em direção a jugular de um dos deles, que urrou de dor e tentou abocanhar o pequeno. Mas Nero foi mais rápido e voou para longe, levando o dragão ferido a segui-lo.

Era a minha vez de agir. Uma das casas as minhas costas ainda não havia sido incendiada e tinha uma proximidade entre as janelas que me permitia escalá-las. Com um rápido movimento, subi até o telhado e, com um pouco de cautela, pulei de telhado em telhado, tentando acompanhar a fuga de Nero do outro dragão.

Quando estávamos longe o suficiente dos outros dragões saltei do telhado da casa em que estava para um monte de feno que estava amontoado no chão, próximo a alguns cavalos.

– Nero, vá embora. – Ele se negou a me deixar ali. – Por favor, eu só posso fazer o que preciso com você longe daqui! – Um pouco relutante, ele ergueu voo e partiu em disparada para onde Helena e os outros estavam.

O outro dragão estava prestes a segui-lo quando eu o impedi.

– ASCALON! – Gritei sacando Ascalon e o dragão urrou de dor se virando para mim.

– Olha quem temos aqui. Então você é o campeão escolhido para lutar pelo Bem? – O dragão dizia em meio a uma voz irônica e um tanto quanto feminina.

– Sim, sou eu, algum problema?

– Eu esperava alguém um tanto quanto... ameaçador. Mas um garoto de 12 ou 13 anos não coloca medo nem sequer em um recém-nascido.

– Para a sua informação, eu tenho 16 anos e você não está nem perto de ser o maior dragão que eu já enfrentei. – Avancei para cima do dragão confiante de que acabaria com aquilo rápido, mas ele foi muito mais rápido e rodopiou, acertando meu peito em cheio com a cauda.

– Para a sua informação, pivete insolente, eu sou uma dragoa, não um dragão. E desculpe meus modos, eu deveria ter me apresentado antes. Eu sou Lucius, que na língua de vocês mortais significa...

– Luz – Balbuciei, tentando me levantar. De alguma forma sabia o que o nome significava.

Eu havia sido arremessado em direção ao muro de uma casa e não sentia meu corpo.

– Exatamente. Eu recebi esse nome devido a minha velocidade absurda. Você pode ter vencido dragões maiores, mas mais rápidos jamais. – Ela partiu em disparada contra mim. Eu tentei gritar Ascalon, mas eu me sentia fraco e com medo. Apenas queria sair daquele lugar, fugir dali, e, junto a esse pensamento, me veio à cabeça uma maneira de escapar.

– Alae! – As asas surgiram rapidamente atrás de minhas costas e eu disparei em direção aos céus, fazendo com que Lucius estatelasse sua cabeça na parede da casa. Mas Alae não durou muito tempo, só consegui pousar sobre o telhado de uma pequena casa.

– Vejo que não carrega só esse maldito dom da coragem em suas mãos, já possui o dom da liberdade também. Vejamos o que mais você sabe fazer.

Lucius lançou labaredas de chamas sobre meu corpo, mas nem me dei ao trabalho de desviar. As chamas passaram por mim como se eu nem estivesse ali. Até mesmo minhas roupas foram poupadas, e conforme as chamas passavam por mim eu me sentia mais forte e mais disposto a lutar, como se meu corpo estivesse colocando meus ossos de volta no lugar.

Me senti forte o suficiente para partir em disparada contra a dragoa novamente, porém algo inesperado aconteceu. Helena e Nero apareceram, correndo entre as ruas de Midgard.

– Cadmo Agápio, você nunca mais vai sumir desse jeito! – Helena esbravejava sem perceber o quão perigoso estava o lugar na presença de Lucius. Quando ela finalmente percebeu a dragoa, uma cara de espanto surgiu em seu rosto. – Nero, como treinamos.

Então Nero saltou diante de Helena que sacou sua espada e correu em direção à calda da dragoa.

Saltei para o lado de Helena, mas ela fez um gesto negativo com a cabeça e pediu para que eu deixasse aquilo com ela. Com relutância, confiei nos dois.

Nero estufou o peito e avançou em direção a cabeça de Lucius, que também estufou o peito. E então, os dois começaram a lançar suas chamas, mas Helena rapidamente correu para cima da dragoa e escalou suas costas. Para manter o equilíbrio ela fincou a espada na pele da dragoa, o que a fazia urrar de dor.

Após inúmeros golpes ela gritou.

– Nero, agora! – Ela saltou das costas de Lucius e Nero partiu em disparada para os céus e, com o seu assombroso hálito de chamas brancas, corrompeu a dragoa. Ela urrou de dor e tentou revidar, mas não conseguiu acertar nenhum golpe e então tentou fugir em direção aos céus.

Rapidamente eu entrei em ação.

– Alae! – Parti em direção aos céus o mais alto que pude, ultrapassando Lucius, e então desci rasgando os céus. – Me perdoe, Nero! ASCALON! – Senti meu corpo ser tomado pela coragem, rompi em chamas e Ascalon entrou diretamente no crânio da dragoa que não teve tempo de fazer nada, apenas se tornar pedra e cair no chão logo em seguida, se transformando em pó. – Menos um, faltam... Vários.

Quando me aproximei de Helena ela estava ajoelhada aparentando estar preocupada ao lado de Nero que se contorcia e parecia como se estivesse tendo um pesadelo, ela tentava acalmar o dragão e então se virou para mim.

– O que você fez com ele? – Ela estava com a sua famosa cara de emburrada.

– Toda vez que eu digo Ascal... Que eu digo o nome da espada os dragões sentem uma dor, como se fosse uma maldição jogada sobre eles, mas eu preciso gritar para poder entrar no modo herói.

– Depois conversaremos sobre isso, agora temos coisas mais importantes para resolver. – Ela se levantou e seu rosto que antes era tomado pela raiva, agora carregava o medo enquanto ela olhava para os céus. Quando me virei para a direção que ela olhava pude perceber o que a assustava tanto. O ponto branco que eu havia avistado antes estava muito mais próximo do que antes e agora eu podia ver a sua forma. Um dragão, mas não um dragão comum. Um dragão colossal.

Ele tinha cerca de sessenta metros e seu corpo era forte e reluzente, como se estivesse prestes a explodir de tanto poder. Faltavam alguns metros para ele chegar à cidade, mas eu já podia ouvir o bater de suas asas e a sua presença me incomodava. Era como se a sua presença me deixasse mais fraco, como se eu adoecesse mais e mais cada vez que a distância diminuía.

Corri em direção à praça central, que aparentemente seria o lugar onde ele pousaria. Todos que ainda estavam por perto ao verem o enorme dragão se apavoraram mais do que já estavam e correram em qualquer direção, sem raciocinar direito. Olhei para o rosto de Helena e ela parecia assustada com a cena. Não que eu não estivesse, mas eu não podia deixar o medo tomar conta de mim, então estiquei meu braço, seguirei a sua mão e sorri para ela. Recebi um olhar mais calmo como retribuição.

Quando o dragão finalmente chegou à cidade eu pude sentir o chão tremer com seu peso, e então, com uma voz agonizante, que fez meu corpo todo estremecer e se atordoar, ele disse, sendo cercado pelos dragões que ainda restavam e todos os ratos.

– Eu sou o Cavaleiro da Peste, bem-vindos ao apocalipse.