Há quatro anos
1 O Outono é diferente em Hogwarts
Notas iniciais
Era Outono em Hogwarts.
Os longos e distantes gramados estavam agora secos e cobertos de folhas de plátano… As cores melancólicas e nostálgicas alternadas entre o laranja e o castanho coloriam os vastos jardins na sua ausência de estudantes devido ao frio que começava a despertar.
Apenas uma capa preta cortava aquele cenário de final de tarde. Um aluno moreno, bastante pálido, cabelo curto com um encaracolado selvagem e despenteado, andava sem rumo pelo pátio no seu tempo de almoço, a sua farda arrastava as folhas pelo chão deixando um rasto por onde passava, na mão empunhava a sua varinha de escama de Dragão e ao pescoço trajava com orgulho a sua gravata pintada com as cores verdes Slytherin.
O feiticeiro olhava o horizonte, parecia confuso, melancólico, um toque de… Saudade? Como quando sentimos saudade de algo que nunca conhecemos… Aquele sentimento de falta e perda, mesmo sem ter perdido nada.
O rapaz deitou-se inconscientemente no gramado seco de uma zona íngreme, olhou o Sol. Estava fraco, laranja e não aquecia o suficiente, a brisa de outono tentava a todo o custo levar a melhor no controlo do clima.
Colocou um braço na testa, para não encadear, pensando em si.
Era o seu quarto ano em Hogwarts, estava mais ou menos a meio do seu percurso no colégio. Era interessante observar tudo o que tivera passado, lembrar-se que fazia parte do colégio onde estudara o famoso Harry Potter anos antes dava-lhe certo orgulho, mas não tanto como pensar em como era da mesma equipa que Draco Malfoy! Sim, ele adorava ser Slytherin…
Pure Blood… Haveria algo melhor que ser um? Sim, ele orgulhava-se de ser um sangue puro…
— Cucu! – Uma voz interrompeu os seus pensamentos.
O Slytherin deu um pulo, sentando-se, vendo-se obrigado a responder.
— Tu?! – Ele resmungou.
— Vi-te da janela, parecias um pouco desprotegido para o frio que está cá fora. Toma. – A feiticeira entregou um cobertor quente e pesado em cores acastanhadas para o colo do outro.
— Eu não disse que precisava da sua ajuda, sangue de lama… — O verde olhou para o lado, parecia mais envergonhado que ofendido.
O ser que aparecera era feminino, o seu cabelo era vermelho maçã, os seus olhos castanhos madeira e trajava as mesmas vestes que o Slytherin, com exceção da gravata ao pescoço, essa combinava lindamente com as cores melancólicas do Outono, era amarela, Hufflepuff e esta não precia nada ofendida com o que o outro dissera, o Slytherin meio que agradeceu internamente por isso...
— Não disse que precisava, mas eu quis ajudar você do mesmo modo. – Ela sorriu, passando a mão na face direita do menor.
O sorriso da ruiva era intenso, rasgado, amoroso… O verde não desgostava disso, nem realmente se importava com ela ser half blood… Mas, por algum razão desconhecida, ele agia assim com ela, não suportava que uma Hufflepuff o ajudasse, não suportava que ELA em concreto, o ajudasse… Ele sempre ficava rubro… Com certeza era raiva… É… Com certeza…
— Obrigado então… — Ele respondeu agarrando o cobertor sem olhar fixo para aqueles grandes olhos felizes que o encaravam.
A vermelha deitou-se para trás, sem mesmo ser convidada a ficar, fechou os olhos, isso irritou o Slytherin. Porque uma Hufflepuff o deixava assim?! Porquê?! E logo filha de Muggles… Que raiva… Ele olhou de lado para ela, não queria olhr de frente, viu que os seus cabelos vermelhos se misturavam com as várias tonalidades de folhas pelo chão…
Ela abriu os olhos, ele desviou os seus.
— O Outono em Hogwarts é o mais bonito de todos. – Ela murmurou olhando para ele fixamente, sem nem mesmo desviar o olhar ou fingindo olhar para longe. Olhava para ele, bem para os seus frios olhos cor de mel.
— O… O que queres dizer? – Ele se afastou, como se aquele olhar penetrante o assustasse.
— As cores, o vento… Tudo aqui faz o Outono mais belo… Tudo aqui faz o Outono mais puro… Há coisas aqui que não vejo em mais lugar nenhum. – Começou a frase olhando as nuvens brancas que traçavam o céu e terminou-a nos olhos do outro.
O verde levantou-se, parecia que a paz em que se encontrava no início tinha sido invadida, como se alguém quisesse entrar na sua barreira protetora. Não se sentia ameaçado, não se sentia mal, mas sentia uma aproximação perigosa. Como assim?! Como assim se sentia tão desprotegido do lado de uma Hufflepuff?!
— Eu… Tenho de ir… Tenho aula de poções agora. – Ele meio que fugiu dela, sentiu-se atacado, em perigo… Aqueles grandes olhos não queriam largar dele.
— Ok, te vejo ao jantar então. – Ela sorriu e acenou para o outro, ainda sentada no gramado seco e acastanhado que o outro abandonara.
O Slytherin andou em passo de corrida até à escadaria da escola, com o pânico, nem reparou que tinha levado o cobertor.
Droga! Agora tinha de a reencontrar para lhe devolver! Porcaria do pânico…
“Há coisas aqui que não vejo em mais lugar nenhum”. Porque aquilo o alterara? Porque aquilo o fizera fugir?! Ele tinha mostrado fraqueza perante ela outra vez... E aqueles olhos grandes e invasivos… Como se quisesse saber mais... Porque o olhar dela o assustava tanto? Que raiva! Há quatro anos que a conhecia, há quatro anos que, por razão nenhuma, ela chegara ao pé dele com um sorriso aberto e vontade de estar com ele. Há quatro anos que aquela Hufflepuff o perseguia, há quatro anos que sentia a sua presença e estranhava quando não a sentia… Há quatro anos…
O cheiro do cobertor apoderou-se das suas narinas, era o dela, um cheiro leve a amendoim…
Há quatro anos que sentia o cheiro dela…
Há quatro anos que não sabia o porquê de ela o fazer sentir-se assim.
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