Há beleza no inverno
9 Perdida
Notas iniciais
As duas semanas do feriado de Natal passam rápido, sem que nada muito marcante aconteça. Temos uma ceia com muita comida, e eu ganho alguns presentes legais de meus pais e de Anna. Jack viajara para o interior no feriado, para ver sua família, mas continuamos nos falando todos os dias.
A neve começa a cair cada vez mais forte, cobrindo as ruas com montes branquinhos. Os flocos que caem em espiral do céu me animam, e, apesar de estar frio, isso aquece meu coração.
****
Estou parada em meu armário, olhando as fotos dos vestidos que Anna me mostrou. Eles eram lindos, é claro, mas acho que serviriam mais nela do que em mim. Aliás, ela parecia estar mais empolgada com o baile do que eu.
– ELSA! – ela gritou quando chegou apressada na mesa de café da manhã, hoje mais cedo – Você precisa ver os vestidos que eu vi no centro ontem. Sério, eles são demais. Você vai ficar linda, linda, linda!
Ela se senta no meu lado, tão empolgada e quase cai da cadeira. Começa a me mostrar as várias fotos que tirou – são várias mesmo.
– Eles são lindos, Anna – digo, sorrindo para ela. – Mas, para falar a verdade, eu não consigo... me visualizar muito bem em nenhum deles.
Anna joga as mãos para trás, fazendo algo como um “pffff” com os lábios.
– Imagine, Elsa! Sério, você vai ser a garota mais bonita lá se usar o vestido certo. E, afinal, você é a Rainha...
– Eu não ganhei isso ainda, Anna – digo, rindo. – Eu preciso de muitos votos para ganhar, e realmente não sei se vai dar certo...
– Como assim, Rainha? – é a voz de meu pai perguntando. A voz grave e arrogante de meu pai.
Anna começa a explicar. Afinal, ela se dá melhor com eles do que eu. À medida que ela falava, eu via os olhares dele se voltando para mim. Preocupado, é o que ele parecia. Sim, ele parecia estar muito preocupado.
***
Fecho a porta do armário, com um suspiro. Pensar em ter que escolher um vestido e nos olhares do meu pai hoje de manhã me deixava nervosa. Pensar sobre este baile me deixava nervosa. Era como se tivesse algo embrulhando meu estômago.
– Hey, Elsa – sorrio. Aquela voz sempre me anima. Jack me da um beijo apaixonado, com os braços em torno de mim. — Eu estava morrendo de saudades.
– Bom dia – digo, com o rosto provavelmente vermelho e o coração acelerado em meu peito.
– Como vai a minha Rainha?
– A sua ainda não Rainha vai... bem – Ele percebe a hesitação na minha voz, e ergue uma sobrancelha. Suspiro – Bem, essa coisa do Baile me deixa nervosa, só isso. E, bem, a Anna me mostrou estes vestidos aqui...
Ele olha para eles. Fica especialmente abismado com um vestido rosa que eu provavelmente nunca usaria. Na vida.
– Ah, eles são...
– Pode falar, eles não têm nada a ver comigo. – Digo, rindo.
Ele me da um beijinho na testa.
– Tenho certeza de que você vai achar algo legal para vestir, minha Rainha.
Nós nos abraçamos, e vejo atrás de mim um grupinho de meninas olhando para nós e rindo. Elas são aquele tipo de menininha popular e fútil. Tento não me incomodar com aquilo, pelo menos por agora.
****
Chego em casa da escola, atirando a mochila em um canto. Começo a tirar minhas botinhas de neve, quando ouço a voz de minha mãe vindo da cozinha.
– Elsa? – Estranho o fato de meus pais já estarem em casa. Eles sempre demoram a chegar. Vou até lá e os encontro sentados à mesa, como se me esperassem.
– Oi. Aconteceu alguma coisa?
Meu pai engole em seco, e olha para mim.
– Elsa, nós precisamos conversar sobre isso de ser... Rainha do Baile, e tudo mais.
Eu o interrompo.
– Na verdade, pai, é Rainha do Inverno...
– Não me interessa o nome do título – ele fala, ríspido. – Elsa, você sabe o perigo deste tipo de coisa.
Olho para ele, confusa.
– Pai, não há perigo algum. É só um baile.
– Filha, você sabe do que estamos falando. Os seus... poderes – Minha mãe parece ter dificuldade em pronunciar esta última palavra. Eles nunca sabiam ao certo como se referir a minha magia. – Se você ficar muito nervosa, sabe o que pode acontecer...
Eu me sento na cadeira, e fico na frente deles. Olho séria para os dois.
– Pai, mãe. Vocês não precisam se preocupar, é sério. Eu estou conseguindo controlar isso agora. – Ou, pelo menos, acho que consigo, penso, mas não digo isso a eles. Afinal, eu ainda não controlava completamente, mas já estava me saindo muito melhor.
– Mas e se acontecer algum acidente, o que você vai fazer? – meu pai pergunta, com a voz mais alta.
– Mas é disto que eu estou falando: não vai acontecer nada. É claro que eu estou nervosa com isso do Baile, mas não vou sair jogando gelo para todos os lados...
– Mas pode acontecer, Elsa! Esses seus poderes são perigosos.
Eu me levanto da cadeira, irritada.
– Você fala como se fosse uma maldição! Como se tivesse vergonha!
– Elsa, é que não é normal, você precisa admitir. Se todos descobrirem... – interrompo minha mãe.
– Não, não é mesmo, mas eu não vejo como vocês veem. Pelo menos, não mais. Isso é um dom, é como eu nasci, e eu tenho orgulho disso. Ouviram, orgulho. Então, com licença, mas eu vou subir e fazer de meu quarto um reino de gelo.
Subo as escadas pisando forte, e me tranco em meu quarto. Lágrimas de frustração caem de meu rosto. Eu queria que meus pais me entendessem, me aceitassem, e parassem de sentir tanto medo.
Olho pela janela, e vejo que a lua já está lá. Me apoio no parapeito, sentindo o vento frio em meu rosto. Só então percebo que o jeito que meus pais veem meus poderes é o jeito com que eu mesma os via, até conhecer Jack. Até ele me mostrar que eu não precisava ser tão insegura assim.
Mas, eu precisava admitir, eles tinham certa razão. Eu poderia acabar tão nervosa que causasse algum acidente. Me sentia perdida.
– Se você está mesmo aí, me diga o que fazer – Digo, olhando para a Lua grande no céu.
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