Levanto a cabeça rapidamente – talvez, rápido demais. Derrubo meu lápis e meu caderno no chão, o que faz com que todos desviem o olhar do menino que acaba de chegar e voltem as cabeças para mim. Mas, surpreendentemente, eu não me importo.

Tudo o que eu me importo agora, tudo o que me prende no chão, é aquele menino parado na porta da sala de aula.

Cabelos louros claríssimos, pele branca, olhos azuis. Ele é... igual a mim. E ele é lindo. Meu Deus, como ele é lindo.

Como sua voz tem um tom musical perfeito.

Eu... eu nunca fiquei assim.

– Aqui é a turma 302? – ele pergunta de novo ao professor. Quando ele fala, uma parte nova de mim desperta.

– Sim, é esta mesmo – diz o professor, parecendo irritado com o alarde que todos fizeram quando eu derrubei minhas coisas no chão – Qual é o seu nome?

– Sou Jack. Jack Frost – ele diz.

E então, ele olha para mim. Quando nossos olhares se encontram, eu sinto que ele me reconhece. E eu não sei como, nem por que, mas eu sinto conhece-lo de algum lugar. De repente, não me lembro mais de como era quando ele não estava por aqui. E eu sinto, em algum lugar dentro de mim, que estava na hora deste tal Jack aparecer.

O que não faz sentido, já que, racionalmente, eu nunca o vi antes.

– Você pode sentar-se naquela carteira vaga, no fundo da sala – diz o professor, apontando para a carteira ao lado da minha.

Logo começo a me mexer para juntar o que derrubei no chão e, quando vejo, ele está agachado, juntando minhas coisas. Nossas mãos se tocam, e eu sinto o frio que emana da pele dele.

Exatamente igual a minha.

– Acredito que isto seja seu – ele diz, sorrindo. Nossa, que sorriso.

– Sim – eu digo, nervosa – Obrigada.

E então, eu vejo. Uma das espirais do meu caderno está ligeiramente congelada. Olho para Jack, já se ajeitando em sua carteira. Não, não é possível que ele tenha esse poder... Só eu possuo essa maldição, não é possível que mais ninguém seja igual a mim.

Então, logo afasto este pensamento da cabeça. Eu devo ter congelado o caderno por acidente.

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Na hora do almoço, vou até minha mesa habitual, onde já estão alguns amigos meus. Conversamos sobre coisas normais, até que eu o vejo. Jack. Aproximando-se da nossa mesa.

– Com licença, — ele diz – vocês se incomodam se eu me sentar aqui? Todas as outras mesas estão ocupadas.

Nós damos espaço para ele se juntar a nós, e ele se senta bem na minha frente. Fico nervosa de novo, sentindo aquela sensação gostosa e boba que eu havia sentido antes.

– Você é novo aqui? – pergunta uma das minhas amigas, Rapunzel.

– Sim, eu vim de outra cidade, na verdade... Hoje é meu primeiro dia por aqui, não conheço nada ainda.

– Ah, bem, você pode andar com a gente! – ela responde, animada.

– Ah, obrigado... Eu conheci uma pessoa só – ele diz, olhando para mim e dando uma piscadela. Eu derreto – Elsa, certo?

– Ahamm... – respondo, um tanto nervosa.

O almoço se passa tranquilamente, e Jack parece começar a se enturmar. Quando o sinal bate e voltamos para a sala, eu vejo: a bandeja dele está levemente congelada. Desta vez não tem como ter sido eu.

Há algo estranho neste menino.

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Volto para casa naquele dia sozinha, porque Anna foi sair com algumas amigas. Estou caminhando, ouvindo música, quando vejo Jack.

– Hey, Elsa! – ele diz, se aproximando – Eu esqueci de te falar que eu vi o seu desenho no seu caderno hoje, quando eu fui juntá-lo para você.

– Ahhh – digo, nervosa, torcendo os dedos.

– Estava muito bonito mesmo – ele diz, sorrindo.

Aquilo me pega de surpresa e, quando vejo, também estou sorrindo.

– Puxa, obrigada mesmo... – eu digo – Eu geralmente tenho muita vergonha de mostrar ele para qualquer um.

– Bom, acho que eu não sou qualquer um – ele diz, e eu derreto (de novo).

Vamos no ônibus juntos, conversando sobre várias coisas. Eu o deixo ouvir música comigo.

– Então, você não vai mostrar mais dos seus desenhos? – ele pergunta.

– Acho que você não está com tanta sorte hoje, senhor Frost. – eu digo, fazendo graça — E, afinal, eu nem te conheço direito.

–Claro que conhece – ele diz, me olhando fundo nos olhos. Aquele olhar profundo, que compartilhamos na sala de aula. Fico tão distraída que nem percebo que o ônibus está parado no meu ponto, me esperando descer.

– Eu... Eu tenho que ir. Até amanhã – digo, e saio apressada.

Chegando em casa, eu me jogo na cama. Estou flutuando. Nunca me senti assim.

E só então eu percebo. Olhando para as minhas mãos, eu me lembro. Não tive nenhum descontrole hoje. Geralmente, todos os dias eu preciso me concentrar muito para não deixar meus poderes aparecerem. Hoje, porém, eu nem pensei nisso, e nenhum acidente ocorreu.

Eu não sabia dizer o que estava acontecendo comigo.