Hysteria
5 Parte V
Notas iniciais
Parte V
Honora notou os olhares de soslaio em sua direção, entretanto, ninguém teve efetivamente coragem de lhe confrontar a respeito do ocorrido. Ser a Firelady tinha seus privilégios. Passou pelos corredores e foi informada que Mai já tinha mandado que o escritório fosse reformado que as cópias dos documentos fossem levadas a sala que seria temporariamente usada. A mãe também não lhe fez perguntas a mesa, apenas perguntou se estava bem, ela sabia que se quisesse falar a filha viria de vontade própria.
Zhao não estava a mesa e sinceramente agradeceu muito a isso, não tinha estômago para aguentar as indiretas ácidas do nobre. Comeu tranquilamente e resolveu passear pelo jardim antes de voltar as atividades normais. Era um dia de sol bonito e fechou os olhos sentindo a energia, estava perto do lago de patos-tartarugas quando ouviu passos pesados e depois duas mãos grandes sobre seus ombros.
– Bom dia, Hon... Acho que precisamos conversar. – a voz grave dele ecoou em seus ouvidos –
A Firelady apenas suspirou tentando ignorar todas as sensações que o simples toque dele trazia em sua pele. Sim, precisavam conversar, mas não agora. Não deixaria mais Bumi dobrá-la com fala mansa e mãos muito ligeiras. Acabou esse tempo.
– Sim, precisamos, mas não agora. – foi firme e sentiu ele lhe virando no próprio eixo e olhando nos olhos –
– Fiquei preocupado, baby... – acariciou a bochecha dela com o polegar e sorriu – Por que não damos um passeio e me conta o que aconteceu? Se a culpa foi daquela coisa sebosa eu vou partir a cara dele.
Bumi tinha olhos muito azuis e extremamente expressivos, sempre foi muito atraída por isso. Tão difícil se desfazer de velhos hábitos. Gostaria de abraça-lo em busca de conforto, só que não era possível, precisava lidar com aquilo sozinha. Zhao podia ser um idiota, mas tinha razão quando dizia que era completamente manipulada pelo comandante e uma mulher que comandava a Nação não podia ser o brinquedo de ninguém. Colocou as mãos sobre as dele em seus ombros e as tirou dali o afastando.
– Eu já disse que falamos depois, eu preciso voltar a trabalhar. Não se preocupe, estou bem e o que não está vai melhorar em breve.
Foi uma vida inteira tentando e não dava mais. Não importava quanto lhe cortasse o coração trata-lo assim, precisava tirar o Comandante de sua vida e tentar, pelos ter uma chance de fazer algo dar certo.
– Honora? – raramente a chamava pelo nome , mas realmente não gostou do tom que ela usava e muito menos da indiferença nos olhos dourados – Fale comigo, estou aqui por você, lembra?
– Apenas vá cumprir suas obrigações, nos falamos mais tarde.
Sabia que se ficasse muito mais acabaria cedendo e não precisava de uma recaída. Bumi era como vício, não podia se quer provar novamente caso tivesse a intenção de se livrar. Não importava o quanto ele fosse gentil, não era o que precisava e jamais seria. Não foi vinte anos atrás e não seria agora.
Devia ter aprendido da primeira vez em que foi embora, teria doído muito menos.
Deu as costas a ele e saiu caminhando sem olhar para trás e tentando ser forte. Porque ela era uma soberana e não podia demonstrar fraqueza nunca. E já estava no momento de agir como a Monarca que foi criada para ser.
O Militar ficou olhando-a se afastar sentindo algo errado. Definitivamente não viria qualquer coisa boa daquele tom e daquela distância. Talvez ela não o quisesse mais por perto e fosse despachá-lo. Meneou com a cabeça para os lados ficando agoniado. Não sabia viver sem ter nem que fosse um pouco dela.
***
O escritório temporário agradou muito a morena, ele tinha muito mais iluminação que o antigo e ficava numa ala mais tranquila do palácio, o que muito contribuía para a concentração. Naquele dia estava estranhamente tudo correndo muito bem e o serviço fluía de uma maneira que há tempos não experimentava.
Ouviu uma batida em sua porta e em seguida viu o pai abrindo a porta e pedindo licença para adentrar. Os anos com certeza haviam passado ao antigo Firelord, mas ele ainda mantinha o porte de um soberano agora com a tranquilidade de quem já viveu muitas coisas. Trajando as roupas tradicionais a nação e os cabelos brancos no penteado que usava desde a primeira lembrança dele. Sentou-se a frente da filha e a fitou.
Certamente Honora estava muito melhor do que as últimas vezes em que havia visto.
– Algum problema, pai? – disse batendo um maço de folhas na mesa e o prendendo com uma presilha.
– Não, Honora, apenas vim ver como está. Parece que teve dias difíceis. – sentia que ele a estava analisando – Quer falar a respeito?
Suspirou e escorou-se na cadeira de espaldar alto, após algum tempo de silêncio, riu levemente e fitou o pai.
– Sinceramente, não, mas eu preciso falar com alguém.
– Sabe que estou aqui para escutá-la e tentar ajudar no que me for possível. – não ia forçar situação alguma, apenas dar a abertura, em certos pontos, a filha muito lhe lembrava Mai e certamente pressão não funciona com nenhuma das duas.
– Eu sei que sim, pai... – se levantou e deu alguns passos indo até uma das janelas e encostando-se no batente da janela ampla – Eu vou me divorciar do Zhao.
Disse secamente e de costas pensando que ouviria um sermão.
Entretanto tudo o que houve foi um silêncio consideravelmente longo do pai que virou a cadeira para manter contato, precisava ler as expressões corporais para entender melhor o que se passava ali.
– Não me parece sem tempo, na verdade, não sei porque demorou tanto.
Uniu as sobrancelhas e virou o rosto abismada, mas o homem estava tranquilamente na cadeira com as pernas cruzadas e mãos sobre o joelho com uma expressão tranquila.
– Sério? – quase riu.
– Sim, Honora, eu não sou idiota. Qualquer um sabe que seu casamento além de ser de aparências é um fardo. Já faz algum tempo que me pergunto o motivo de não ter tomado essa decisão antes.
Engasgou ao ouvir aquilo, sempre achou que foi muito discreta, todavia não parecia ter tido grande sucesso e se o pai sabia o palácio inteiro também estava ciente. Constrangedor. Para dizer o mínimo.
– Hum... Bem... Eu queria evitar um escândalo, nos últimos anos, tudo o que a casa real não precisava era mais um motivo para sermos criticados.
– Um bom motivo, mas não o suficiente para colocar de lado seu bem estar, entretanto, é adulta e dona de suas decisões, não cabia a mim dizer o que fazer ou não.
Respirou com dificuldade e virou-se caminhando até a cadeira próxima do pai e se sentando para conversarem melhor. Zuko tinha adquirido uma serenidade ao longo dos anos que o tornaram um bom ouvinte e conselheiro nos momentos apropriados.
– Eu vou oferecer um bom acordo e acho que Zhao fica de boca fechada, não dá mais, há muito tempo não dá... Acho que eu e ele merecemos mais do que isso.
– Sim, vocês dois merecem mais, esse casamento foi um erro, mas também não cabia a mim dizer para alguém que não estava disposta a ouvir. Não precisa explicar nada, sei o que preciso e não tiro sua razão e seus medos, mas certamente isso lhe custou muito caro. Você e Zhao nunca tiveram nenhuma chance. Em nenhum momento tentaram nem minimamente fazer esse casamento dar certo.
– Não, principalmente eu nunca tentei. Eu só queria fazer o melhor... Não sabia que ia... que ia acabar assim. E as coisas foram tomando proporções cada vez mais amplas até que eu... Até que eu estava soterrada.
Estendeu a mão e pegou a da filha apertando um pouco buscando dar algum conforto a ela. Honora era uma boa garota, sempre foi. Fez de tudo para aprender a ser a soberana que a Nação precisava, entretanto, seus sentimentos foram bem confusos. Não surpreendente visto que seu lado da família não era nenhum exemplo que as dificuldades de se expressar de Mai.
– Sim, mas o importante é que resolveu fazer algo a respeito. Zhao precisa ir, mas e quanto a Bumi? Vão finalmente se acertar?
Olhou para o chão sentido as bochechas queimarem, realmente Zuko sabia muito mais do que achava. Muita tolice pensar que ela ignorava o que acontecia ao seu redor tão tranquilamente. Apertou a mão dele.
– Não... Não, pai. Não posso mais com esse jogo. Bumi não é o que preciso e já passou da hora de eu agir como gente grande e acabar com tudo.
– Acha mesmo que essa é a solução? Mandá-lo embora? Se você o ama...
Honora soltou da mão do pai num súbito e levantou andando em círculos pela sala, um pouco alterada.
– Amor? Isso não pode ser amor, está mais para doença! Estou cansada disso tudo! Desse eterno jogo, dessa falta de certezas, de esperar coisas que não vão vir nunca! Bumi não é e nem nunca foi homem para mim!
Respirou fundo e a observou, ela precisava desabafar.
– Não importa o quanto eu o ame e ache que as coisas vão mudar, nunca muda. Eu sinceramente sei que não é por mal, só que machuca e estou farta de me machucar! Ele nunca vai ser feliz com uma só mulher, pelo menos enquanto essa mulher for eu e para mim já deu.
Esperou que ela se acalmasse um pouco, andasse pela sala, refletisse sobre o que disse e por fim voltasse a sentar. Viu o olhar dela de quem esperava que dissesse algo e lhe sorriu após novamente acariciar o rosto.
– Já tentou dizer tudo isso a ele? Vocês algum dia colocaram as cartas na mesa? Falando sobre suas expectativas, medos, desejos... Alguma vez conversaram como dois adultos a respeito da relação? – viu que a filha desviou o olhar – Não, não é, filha? Nunca jogaram as cartas na mesa... Eu seria capaz de apostar que nunca conseguiram afastar os medos para tentar.
– Eu... Ele... Oh pai, Bumi sabe o que sinto por ele!
– Sabe mesmo? – mexeu uma das sobrancelhas brancas – E você sabe que o que ele sente?
– Não, como eu posso saber de coisas que nunca me foram diretamente ditas? – falou num tom levemente agressivo e então notou o olhar de reprovação leve – Oh...
– Eu acho que entendeu. Assim como não pode saber sem que lhe digam, não pode esperar que saibam sem que conte.
– Mas... mas... E se não fosse reciproco? Eu ia ficar com cara de idiota! Ia rir e me fazer ainda mais de boba! Se já me manipula assim... Como seria se soubesse todo o poder que tem sobre mim? E.. E também eu nunca posso pedir para ficar... Bumi ama a vida que tem como oficial, não é meu direito pedir para deixar qualquer coisa por mim, isso seria egoísta!
Estava nervosa e sentia o coração bater rápido.
– Isso não é pelo bem dele, isso é covardia. Está sendo covarde hoje como tem sido em toda a vida com Bumi. Sempre teve tanto medo de ser rejeitada que se escondeu atrás desse discurso de não poder pedir para não ser egoísta...
– Pai...
– Desculpe, Sunshine, mas se parar para pensar realmente no assunto verá que é assim. E não é só você, Bumi faz a mesma coisa. Tendo no final vocês dois sempre com medo, sempre esperando o outro falar antes. Ninguém teve coragem de ser o primeiro, de estar disposto a uma rejeição! Se ele risse ou a manipulasse realmente não seria o tipo de homem que considero que seja, mas assim como na política, no amor é preciso apostar alto.
– Eu... eu... – Honora estava desnorteada, todas aquelas coisas faziam muito sentido, mas ao mesmo tempo não era o que queria ouvir. Sentiu o abraço reconfortante do pai como quando era criança –
– Calma, eu não estou te dizendo isso para machucá-la, ao contrário, quero que veja o que fez de errado antes de tomar uma decisão tão drástica quanto afastá-lo de vez. Tudo o que eu mais quero é que seja feliz, mas não conseguirá grandes coisas se não tentar. Não posso te garantir que tudo acabará bem ou que tudo teria dado certo anos atrás... mas pelo menos vai ter o certeza de quem tentou, sem as dúvidas que pairam quando não se sabe...
Se apertou contra o pai tentando encontrar a segurança e a tranquilidade de tomar uma decisão acertada. Todas as palavras dele eram verdades, mas tinha tanto medo de ser rejeitada que se sentia acuada. Amava tanto Bumi e queria que desse certo entre eles, só que eram tantas provas de que jamais seria acertado.
***
Bumi estava caminhando pelo jardim muito perdido em seus pensamentos. A distância de Honora e tudo o que aconteceu antes disso o estava deixando tenso. Seus sentidos estava gritando que ela pretendia deixa-lo. Não podia perder a única mulher que amou realmente naquela vida.
Imagens do passado... Todas as vezes que foi embora...
Gostaria muito de ter ficado com ela que Iroh fosse o filho deles e talvez até tivessem tido outros filhos. Lembrava dos olhos dela e o coração partido todas as vezes que disse que ia embora. Por que ela nunca pediu para que ficasse? Não importava quão chateada estivesse... Honora nunca pediu. Muitas hipóteses passaram por sua mente ao longo dos anos, mas a pior era que no fim ela não o queria realmente ali.
Quando deu por si estava no jardim que dava para a janela dos aposentos dela e uma imagem veio a sua mente. Honora e uma caixa que ela parecia gostar muito e a possibilidade dela ter algo lá que justificasse tudo o que estava acontecendo. Não sabia bem o que procurar, mas sei lá, talvez algo ali lhe desse uma luz.
Olhou ao redor e quando não havia ninguém olhando pulou a janela e fechou as cortinas. Sabia que ela não voltaria ao quarto tão logo. Caminhou pelo quarto e sentiu o perfume de lírios do fogo tão característico. Tudo estava impecavelmente organizado, a firelady gostava e mantinha tudo meticulosamente arrumado.
Passou os olhos pela escrivaninha e tirou algumas folhas do lugar procurando algo, mas só haviam coisas de trabalho. Abriu algumas gavetas e por fim avistou a caixa que chamou sua atenção. Passou a mão sobre e recordou-se dela contando que a ganhou do Tio-avô. Tentou abrir mas estava fechada. Apertou os olhos fitando a fechadura e lembrou-se de um colar que a viu usar várias vezes.
Deu a volta procurando a caixa de joias dela e achou o colar, sentou-se numa poltrona e suspirou. Não parecia correto invadir assim a privacidade dela. Entretanto também não queria perde-la e se houvesse ali algo que os ajudasse não podia ser ruim.
Abriu a caixa e fitou as coisas ali...
Um mundo de recordações se abriu.
Continua...
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