Hyoku
23 Dia 27- Arrefecido
Notas iniciais
Os olhos azuis, a boca pequena, o sorriso angelical. A primeira vez que o viu, o primeiro toque entre os dois, o primeiro beijo. Tudo! Ao acordar Zaki se lembrava de tudo. Todas as juras, as esperanças, os sonhos comuns. Tudo. Mas recordar não era suficiente, só desejava que não fosse tarde para ambos cumprirem suas promessas.
Levantou-se com dificuldade, sentia o corpo ainda febril. As feridas em suas costas cobravam um preço alto demais. Pela primeira vez, desde que lhe impuseram o batismo dos brancos, ousou pedir forças as divindades de padre Damião – não existia nenhum tipo de intimidade entre eles –, todavia necessitava de auxílio para conseguir caminhar. Sabia qual era seu destino, só não tinha certeza do que encontraria ao chegar lá.
Deixou o casebre e rumou para a casa grande, conhecia o caminho de cor, havia o percorrido incontáveis vezes, às escondidas, ele e seu anjo Enzo. Arrependia-se tardiamente, por não ter dito o que sentia ao vê-lo tão arrefecido diante de si.
Caiu de joelhos, fechou os olhos. A angústia o dominando mais do que a dor. Num instinto primitivo, ergueu as mãos para o céu e clamou a Deus pela vida de Enzo.
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