Hymne a L'Amour
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Talvez devesse ter ouvido quando Eren insistiu para não viajar para a Alemanha novamente. A vida dos dois continuaria da mesma forma que sempre foi, seriam felizes na medida do possível e superariam as dificuldades juntos como faziam há tantos anos.
No entanto, insistiu para que ele fosse visitar a mãe de Jean Kirschtein para, pelo menos, lhe contar como foram os últimos momentos do filho no campo de concentração. Mas não imaginava que a mulher seria tão hostil com o moreno, usando de palavras tão crueis para tentar amenizar a dor que sentia por conta da perda do filho. Em partes, compreendia que a mulher gostaria de culpar alguém, porém, a forma como esbravejou contra Eren o assustou demasiadamente.
O moreno não foi mais o mesmo depois daquele dia, onde também lançou palavras cruéis contra Levi que, durante todo o trajeto de volta para a França, manteve-se em silêncio. O ex-Capitão jamais admitiria em voz alta o quanto as palavras de Eren o feriram, mas era claro em suas ações o quanto aquilo havia mexido consigo. Nos dias que se seguiram não conseguiu dormir, Eren não o abraçava e aquilo era estranho demais para si, que havia se acostumado com o carinho do moreno.
Eren apenas voltava para casa quando chegava do trabalho e Levi não sabia onde o moreno almoçava. Durante uma semana inteira o esperou, preparando o almoço como sempre fazia antes da viagem, desistindo de insistir na semana seguinte por conta da quantidade de comida que era obrigado a jogar fora por acabar estragando. Também não o via aos finais de semana, apenas durante a noite onde o moreno chegava tão bêbado que a única coisa que conseguia fazer era se deitar e dormir, levantando extremamente cedo na manhã seguinte. Quando Levi acordava, ele já não estava mais em casa.
Passou a frequentar os cabarés com mais frequência, embebedando-se ao ponto de ser carregado por desconhecidos até em casa. Geralmente quando chegava Eren já dormia sobre a cama, exalando um cheiro quase insuportável de álcool que Levi havia aprendido a aturar. No entanto, não o encontrou naquele dia quando chegou.
O ex-Capitão se deitou sobre a cama espaçosa demais, olhando levemente em volta, os cinzentos levemente turvos pelo álcool. O quarto se encontrava da mesma forma que havia deixado pela manhã: O gramofone impecavelmente limpo, os discos de vinil dispostos sobre a prateleira e um pequeno montinho de poeira que deveria ter recolhido, mas que havia esquecido. As roupas de Eren continuavam dobradas sobre a cadeira de balanço que havia ganhado da mãe em seu aniversário de quinze anos, bem passadas como sempre fazia.
Suspirou pesadamente, esticando o braço e percorrendo a mão pelo lado onde Eren geralmente ficava, sentindo falta do corpo do rapaz ali. A cama não era tão quente sem ele e saber disso o deixava péssimo. Péssimo por não conseguir ajudá-lo, por sentir-se daquela forma deplorável, por ambos estarem naquela situação por sua culpa. Se apenas tivesse respeitado a posição de Eren quanto à visita...
Levantou, caminhando até a cadeira de balanço e pegando uma das camisas do moreno, aproximando-a do rosto e respirando fundo para aspirar o perfume que ela exalava. Sentia-se ridículo por fazer algo assim, mas a tranquilidade que invadia o seu corpo sempre que aspirava o odor do moreno misturado ao perfume que comumente usava anulava quase que imediatamente quaisquer outros sentimentos. Não sabia dizer ao certo quando que aquela relação se iniciou ou quando e como o sentimento que tinha para com Eren foi despertado dentro de si.
Voltou para a cama com a camisa do rapaz, abraçando-a quando finalmente se deitou enquanto as imagens dos momentos que haviam passado naquele lugar se formavam na sua cabeça, como o dia em que foram jantar em um restaurante juntos pela primeira vez e a forma como o moreno discutiu com o garçom do lugar por conta do preço abusivo que o mesmo estava a cobrar pela refeição, gostava de se lembrar da forma como ele se enrolou com o idioma, acabando por discutir em alemão com o garçom. Lembranças como aquela o fazia sorrir sem nem ao menos perceber.
Adormeceu daquela forma, despertando apenas no dia seguinte ao ouvir a voz da irmã em seu quarto. Levantou-se demoradamente, com uma forte dor de cabeça por conta da noite passada regada à álcool. Estranhou o fato da irmã estar ali, e mais ainda a expressão que ela fazia para si, que apenas aguardou que terminasse a higiene pessoal para lhe dar a notícia.
– Levi... Eren sofreu um acidente ontem à noite. Ele... Sofreu ferimentos graves... Não resistiu.
Mikasa nunca havia visto os olhos do irmão se arregalarem tanto. O ex-Capitão havia literalmente congelado enquanto penteava os fios pretos, apenas minutos depois voltando-se para a irmã, com os olhos extremamente marejados.
– Diga que é mentira... Por favor... – Praticamente se lançou contra o corpo de Mikasa, agarrando seus ombros. – Mikasa... Se isso for uma brincadeira...
A mulher não respondeu, mas Levi conseguiu ler a verdade pela expressão que ela fazia. Soltando-a, levou uma das mãos ao peito e a outra aos cabelos, puxando-os com força enquanto trincava os dentes, as lágrimas descendo pelo rosto fino. Levi berrou, encostando-se à parede e encolhendo o corpo, sendo abraçado por Mikasa enquanto os gritos chorosos e sôfregos tornavam-se incessantes e ecoavam por toda a casa vazia demais.
A irmão o ajudou a se trocar, explicando no durante que o acidente havia acontecido próximo à confecção quando o moreno insistiu em dirigir o carro de seu marido mesmo não estando sóbrio. No entanto o ex-Capitão não prestou realmente a atenção no que ela dizia, apenas pensava em Eren. Chorou todo o caminho até a capela onde o corpo – que havia sido tratado logo após o óbito – estava a ser velado. Apenas o marido de Mikasa estava ali, que mordeu o lábio inferior ao ver os olhos vermelhos e inchados de Levi, que caiu ajoelhado no chão sujo ao ver o caixão marrom aberto e a coroa de flores sobre uma mesa de concreto.
O homem lhe havia oferecido ajuda para que se levantasse e se aproximasse, que foi recusada. Caminhou cambaleante até o caixão, arfando ao encontrar o rosto pálido do moreno com alguns cortes costurados. Os olhos que tanto admirava estavam fechados. Levi riu nervoso antes de repousar uma das mãos sobre o rosto frio do moreno.
– Eu... Sei que evitava olhar para eles nos últimos anos... Mas eu daria tudo para que pudesse ver esses olhos verdes uma última vez. – disse em baixo tom, abaixando-se para beijar levemente a testa de Eren. Os lábios estavam trêmulos. – Eren eu... Eu errei com você e sei que não tenho o direito de te pedir isso, mas... – Trincou os dentes, agarrando o caixão dele com os braços em um quase abraço, deitando a cabeça próximo ao rosto frio, entregando-se ao choro. – Eu quero que me perdoe... Por favor... – Apertou ainda mais o abraço, sentindo um aperto insuportável no peito. – Por favor Eren... Diga alguma coisa... Por favor...
Levi voltou a se entregar ao choro, acariciando e beijando o rosto do moreno. Não se afastou do caixão em nenhum momento, ignorando os insistentes avisos de Mikasa, que também estava aos prantos, mas não com o desespero do irmão, que estava praticamente debruçado sobre o cadáver do moreno.
O ex-Capitão precisou se apoiar na irmã quando homens chegaram para carregar o caixão até o jazigo eterno da família Ackerman e Levi precisou se controlar para não impedir que o caixão fosse fechado e acomodado em sua cova. No entanto, ninguém o impediu de se sentar ao lado, ignorando por completo a sujeira da terra mórbida, usando ambas as mãos para acariciar a superfície fria da madeira daquele caixão. Levi gritou mais uma vez, arranhando a madeira com as unhas enquanto tremia violentamente, repetindo incontáveis vezes um sofrido "Perdoe-me" que se prolongou por alguns minutos, até que estivesse calmo o suficiente para que se levantasse.
Levi observou, com pesar, a última pessoa que o deixava são sendo enterrada e arrancada de sua vida. Ainda observou o túmulo por alguns minutos antes de ser praticamente arrastado por Mikasa e seu marido, que o levaram para a casa onde moravam, nunca visitada pelo ex-Capitão. Levi passou o resto daquele dia na casa da irmã, sentado no sofá com uma xícara de chá de camomila em mãos. Não comentou nada durante o dia, permanecendo sentado o tempo inteiro. Também não dormiu à noite, mesmo estando bem acomodado no quarto de hóspedes. A imagem da face pálida de Eren simplesmente não saía de sua mente.
Saiu quando o dia amanheceu sem avisar a irmã, que ainda dormia. Caminhou sem rumo pelas ruas de Paris até terminar encontrando a própria casa horas depois. Levi suspirou pesadamente antes de abrir a porta, sendo cruelmente bombardeado pelo silêncio. Aquilo fez uma dor indescritível brotar em seu peito, que apenas piorou ao se lembrar que antes, quando chegava em casa Eren o recebia com um dos sorrisos mais belos já vistos e com os esmeraldinos brilhantes em animação. Saber que nunca mais veria aquilo o fazia sentir falta de ar.
Os primeiros passos foram dolorosos. Conseguia ouvir o som ecoar pela casa silenciosa, o que era uma tortura para Levi. Onde os cinzentos repousavam o fazia se lembrar do moreno. Quando chegou ao quarto e voltou os olhos para o gramofone, uma lágrima rolou de um de seus olhos ao se lembrar do dia em que estavam ouvindo a coleção de discos de seu tio, ambos dançando juntos pelo quarto quando uma música romântica começou a tocar.
Sentou-se lentamente sobre o colchão frio, abrindo a gaveta do criado-mudo para tirar de lá um álbum de fotos recentes, folheando-o. Nele haviam fotos de Kuchel ao lado de Francis, Mikasa com seu marido e de Eren, ao seu lado. Haviam também fotos individuais e simplesmente não resistiu em pegar uma foto da mãe e uma do moreno, beijando demoradamente cada uma delas, desistindo de controlar as lágrimas que insistiam em rolar de seus olhos. Encostou as fotos ao peito, respirando fundo antes de fechar os olhos, a dor que sentia tornando-se cada vez mais insuportável.
– Espero que possam me perdoar pelo o que irei fazer. – comentou consigo mesmo antes de se levantar, caminhando até o gramofone, procurando por entre os discos algo relacionado à Édith Piaf, sua artista favorita.
Soluçou quando a música Hymne a L'Amour começou a tocar alta, quebrando aquele silêncio perturbador. Era a mesma música que havia dançado com Eren naquele dia. Sentia-se um fraco, física e emocionalmente, e tinha a certeza que não se arrependeria do que iria fazer quando correu para a cozinha, procurando nos armários uma faca afiada, voltando para o quarto e acomodando-se na cama em seguida.
Olhou uma última vez para as fotos em sua mão, sorrindo tristonho antes de cantarolar a música alta, não hesitando em forçar a faca contra o próprio pescoço com força. Fechou os olhos enquanto ouvia, junto à melodia, os sons esganiçados que saíam de sua garganta enquanto o sangue escorria abundante e o sufocava. Esticou o braço para longe para que as fotos não ficassem manchadas de vermelho, que inundava o seu corpo e os lençóis claros da cama.
Naquele momento, sorriu bem de leve enquanto olhava fixamente para a foto de Eren, ouvindo os últimos versos da música enquanto perdia a consciência.
Se um dia a vida te arrancar de mim,
Se você morrer, se você estiver longe de mim,
Pouco me importa, se você me ama,
Pois eu morreria também.
Nós teríamos para nós a eternidade,
No azul de toda a imensidão.
No céu, mais nenhum problema.
Meu amor, você acha que a gente se ama?
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