Hush Hush - Patch Cipriano

13 Sinfonia da destruição.


Notas iniciais
Uau. Depois de quase dois meses, aqui estou eu dando as caras. u-u Então gente linda e maravilhosa, junho foi o mês mais filho de quenga pra mim. Com esse frio que estava, vinha do nada, daí ficava calor, dai voltava no frio novamente, eu peguei QUATRO vezes a mesma gripe! É, sou muito azarada, this. Eu melhorava, dai pegava de novo, e foi indo até que eu piorei de vez. Fiquei exatamente quatro dias com febre e quase duas semanas com uma dor de cabeça insuportável. Fui melhorar no finalzinho do mês, mas ainda não tava boa o suficiente para voltar a escrever. Eu amo escrever, mas tenho que estar inspirada, de bem com a vida e principalmente não estar doente. Esse capítulo foi o mais difícil de escrever, eu escrevia algo e não gostava e apagava tudo. Cheguei a reescrever sete vezes o capítulo, até que parei e pensei: Se for para sair uma bosta, nem vou fazer. Primeiro, preciso melhorar para depois pensar em algo bom. Afinal, não adianta nada a minha demora se quando eu voltar o capítulo sair uma merda, certo? Então eu esperei mais uma semana até que eu estivesse realmente boa, e voltei a escrever. E, para comprovar que estou muito, mas muito melhor o capítulo ultrapassa quatro mil palavras, só pra compensar a minha sumida. e.e Estou com pressa para saber o que vocês acharam, por isso dei uma lida rápida e vim postar. Então, qualquer erro perdoa-me, é o sono e cansaço entrando em ação. Então é isso, boa leitura! E peço realmente desculpas pela demora. P.S: leitores fantasmas, apareçam!

“Assim como o flautista, guiando ratos sobre as calçadas;

Nós dançamos feito marionetes;

Guiados pela sinfonia da destruição.”

— Symphony Of Destruction (Megadeth)

Intensa, ameaçadora e preocupante como uma tempestade. Assim podia ser resumida essa última semana. O ponteiro do relógio marcava dez horas da noite de um sábado gélido, enquanto a neblina lá fora se intensificava cada vez mais e tentava, mesmo que inutilmente, encontrar um sentido para minha vida. O copo de bebida que antes rodopiava por entre meus dedos já tinha sido esquecido enquanto meus olhos percorriam a janela, em busca de qualquer coisa que fosse para que me fizesse sair do meu estado atual.

Já tinha se passado uma semana desde meu encontro com Rixon e desde então, eu me afastei propositalmente de Nora. Tentei de todas as formas aceitar a minha redenção, porém era apenas fechar os olhos que o rosto de Rixon perfurava as barreiras do meu inconsciente e se instalava ali, encarando a escuridão da minha mente como se ele próprio estivesse ali, dentro de mim, castigando-me por ser fraco e não a minha memória e imaginação.

Eu não conseguia dormir e tentei muitas vezes fazer algum contato com Melissa, mas ela nunca me atendia. Era como se realmente Melissa nunca estivera aqui, como se fosse um sonho. E isso me deixou totalmente apavorado.

Estaria tão louco ao ponto de imaginar coisas que para meu inconsciente eram reais? Eu realmente tinha feito de uma humana a minha queda e seria essa a minha condenação?

Eu realmente precisava enlouquecer para saber as respostas de inúmeras perguntas?

O copo girou em meus dedos uma última vez antes de ser lançado com força para a parede, se transformando em cacos. E um pensamento veio em minha mente:

Como um objeto que pode ser considerado uma arma poderia se tornar tão vulnerável e frágil quando se é jogado por algo ainda mais impenetrável e tenebroso que ele próprio?

Como algo que pode ter o poder de te matar se torna algo tão bobo quando seu impacto o torna mero cacos?

Talvez, quem sabe, o que mantém o vidro intacto é a mesma coisa que o pode se tornar em pedaços? A mesma coisa que pode ser o suporte do ponto mais forte dele, pode se tornar a coisa que o empurra para o ponto mais fraco.

É como a lei de gravitação, todos os objetos tendem a cair, porém não o fazem, pois há uma força maior que os impede de fazê-lo. Todavia, essa força maior pode ser a única que não o impede de cair, mas te leva propositalmente a beira do precipício. A força que deveria os proteger é a mesma que os joga para o fim. É como se fosse apenas um disfarce que fizesse de propósito você depender disso, e quando menos esperar você está sendo empurrado com toda a força para a sua morte.

Aquilo que você ama tem a força que é capaz de te matar.

E assim como um vidro, enquanto eu tinha total controle sobre Nora, poderia facilmente ser fatal para ela. Mas, quando esse controle fora pro lado oposto, ela se tornou fatal á mim.

Como se a força que fazia com que Nora se tornasse vulnerável girou totalmente para o lado oposto, dando o poder de ela destruir tudo ao meu redor.

Como a parede destruindo o copo.

E é com esse pensamento que eu me afastei e decidi dar ouvidos á Rixon.

Nesse tempo, tive pensando em muitas coisas, tentando procurar alguma brecha, alguma dica que pudesse me fazer reverter à situação.

Quem eu queria enganar? Meu erro estava bem na minha frente e tentava lutar de todas as formas para que isso estivesse errado. Para que Melissa estivesse errada.

E foi nessa semana que a verdade me atingiu em cheio, como uma mão gélida em minha espinha causando arrepios por todo o meu ser. Foi nessa semana que a verdade estava mais clara do que qualquer momento, e foi nessa semana que eu decidi abaixar a guarda.

Afinal, não fazia sentindo tentar reerguer novamente minha guarda se fora eu que a abaixou propositalmente. Não era e nunca foi Nora o problema. Sempre fui eu, sempre foi a minha fraqueza, sempre foi a minha necessidade de querer ser o caçador e não a caça que fez com que ela encontrasse as brechas dessas barreiras invisíveis que quase ninguém conseguiu passar, e acabar me deixando totalmente louco, insano e desesperado por uma explicação. Ou, por qualquer coisa que fizesse com que eu acreditasse que não havia feito novamente do Inferno o meu lar.

Sempre achamos que cometer o mesmo erro é burrice, mas isso não entra quando se tem uma ruiva com olhos cinzentos e um anjo caído na história. Não quando eu vi novamente acontecer a minha queda. E dessa vez foi uma queda muito pior.

Eu sabia exatamente o que estava fazendo, sabia que devia parar, acelerar o processo e não fiz nada. Não fiz nada para impedir novamente de sentir a ardência em minha garganta clamando por algo que nunca poderia clamar. Não fiz nada para impedir de me ver tão próximo do abismo novamente, um abismo sem fim, obscuro, tenebroso.

Um abismo que jamais pensei que poderia enfrentar de novo.

Curvei meu corpo para frente, sentindo todos os músculos do meu corpo retrair tossindo violentamente como se algo tivesse me envenenado.

Fechei meus olhos e deixei me levar por lembranças. Lembranças essas que jamais poderiam retornar. A lembrança me atingiu como um tapa.

Quando um Anjo caí as lembranças do Céu permanecem sempre na memória, como se fosse uma agulha irritante que ficava te espetando só para causar dor e lembrar que ela está lá, intacta.

Porém, o diferencial é que não lembramos exatamente como é o Céu e onde ele fica, mas simplesmente os sentimos ali. Como um cheiro de alguma comida gostosa, ou de um perfume doce. Está com você mesmo você não o vendo.

Quando se escolhe cair, tudo se apaga de nossa mente, o que aconteceu no Céu, fica lá. Não consigo saber exatamente se tem um Deus ou vários. Se é um lugar bonito e tranquilo, mas eu sentia uma paz reinando em mim toda vez que fechava os olhos. É como uma maldição, uma punição por ter escolhido o pecado e dado as costas ao Paraíso, sentir ele, mas não o ver e lembrar de fato.

Minha queda fora brutal, como um precipício sem fim. Uma vez, Rixon dissera que os ventos sempre conspiravam ao favor dos céus e dos Anjos, nos ajudando de alguma forma e sempre acreditei nisso. Sempre acreditei que existira uma força superior que conseguia ordenar todas as outras forças e dar sentido em tudo. Afinal, se somos Anjos é para crer em algo maior que nós mesmos. Mas, naquele dia eu simplesmente parei de acreditar. Rixon mentiu, ou simplesmente foi enganado como eu. O vento conspirava ao favor dos céus, mas não no meu favor também. Aos céus, parecia uma leve brisa, mas comigo parecia um vento furioso, jogando sua ira toda sobre mim.

Era tudo muito forte, cada vez mais que caia, sentia minha pele se rasgando, como se o próprio vento estava me dilacerando. Ao mesmo tempo em que tudo conspirava contra mim e me jogar mais rápido ao chão, tinha uma força lenta e muito pior que fazia com que eu caísse lentamente, sentindo toda a ira de Deus sobre mim.

Cada dor, cada mentira, eu sentia o peso disso em minhas costas. Eu era o traidor, escolhi por isso e mereci isso.

Era dilacerante a forma como o vento me sugava e me empurrava para baixo, deixou a sensação que aquilo era o Inferno e não o que diziam que era.

O Inferno não é um lugar abaixo da Terra, onde todas as almas malditas sofrem por cada pecado que cometeu, não via demônios e nem o som gutural de um grito de dor, pelo contrário. Eu via anjos, o leve zumbido de asas batendo, mãos frágeis que arrancavam de mim as minhas asas. O verdadeiro Inferno era aquilo, é a queda de um Anjo, onde até mesmo Deus vira um demônio.

No Céu o vento era conhecido como o maestro da sinfonia da destruição. Seu uivo forte e doloroso é como se ele próprio coordenasse tudo com um simples cantarolar. Nunca havia entendido o por que até o dia da minha queda. Enquanto caia, além do som de minhas asas sendo arrancadas e o leve som de asas de outros anjos batendo ao meu redor, eu pude ouvir no fundo um uivo calmo, singelo, mas totalmente poderoso e mortal. Como se estivesse em uma língua antiga e então eu percebi que aquela era a famosa sinfonia da destruição, onde tudo que o uivo atinge se destrói. Aquilo era a minha destruição.

Não sei dizer se havia se passado minutos, horas ou dias. Simplesmente em um piscar de olhos eu já estava de pé no solo, com as costas sangrando e apenas uma pena negra rodopiava em meus pés conforme a brisa fria. Reconheci de imediato onde estava.

Um cemitério.

Em minha frente estava Rixon, com um sorriso brincalhão no rosto enquanto se afastava da lápide em forma de cruz.

— Você demorou.

— Você também caiu? Por que isso não me surpreende?

De seus lábios saíram um riso irônico e ele deu de ombros.

— Venha irmão, vamos uivar pela Lua!

— Onde estamos tecnicamente?

— Em um cemitério? – perguntou sarcástico.

Revirei os olhos e toquei rapidamente a minha costa, franzindo o cenho.

— Não podemos sentir dor e nem nada. – Rixon sentou a minha frente. — Só quando caímos que a dor é bem notável. Por uma fração de segundos pensei que morreria e odiei pensar na possibilidade de ser um humano. Mas, para nosso alívio seremos imortais e imunes a qualquer tipo de doença desses humanos!

— Alívio? Doenças?

— Humanos é uma raça tão inferior a nós, você sabe disso Jev.

— Não somos mais anjos, Rixon.

Ele me ignorou e sorriu vitorioso.

— Pobre deles que não vieram conosco! Isso sim é o paraíso.

— Pensei que teríamos um corpo. – eu disse irritado.

— E nós temos, oras!

— Mas um corpo de verdade. – questionei.

— Você já tem um corpo de verdade.

— Eu imaginava algo diferente.

— Diferente? Como ela? – e apontou em um ponto atrás de mim.

A sensação de desconforto pela minha queda quase fizera me esquecer do motivo por ter caído. Quase.

Girei meus calcanhares e atrás de mim, andando distraidamente sem perceber minha presença e de Rixon, estava Annabel Knowledge.

Vestia-se com um vestido longo vermelho e na linha do busto até a cintura usava um espartilho preto que dava um contraste perfeito para ela.

Annabel tinha cabelos negros como uma noite sem luar e longos, os olhos eram verdes e sua pele era pálida. Mas não parecia ser uma pessoa doente, e sim alguém que não gostava de ficar muito no sol.

Knowledge era linda, e por querê-la tanto eu cai.

— Fale com ela. – sussurrou Rixon ao meu lado. — Não caiu apenas pra ficar a observando de longe. Vamos!

Antes de qualquer movimento meu, a garota a nossa frente percebeu pela primeira vez que não estava sozinha e seus olhos verdes perfuravam meu corpo. Sua testa franziu e com passos hesitantes, se aproximou.

— Quem são vocês? – disse num tom autoritário.

Milade. – falou Rixon, sorrindo. — Desculpe-nos por tê-la incomodado em um momento pessoal. Somos novos na cidade e estávamos apenas conversando.

Annabel arqueou a sobrancelha e seus fios de cabelo balançaram para frente quando o vento os atingiu.

— Conversando os dois sem camisa? Não esta um dia tão caloroso hoje, rapazes. Muito prazer, Annabel Knowledge. – ela esticou a mão para mim.

— Jev. Jev Cipriano. – toquei sua mão e um arrepio percorreu minha espinha. — E este é Rixon.

Ela assentiu e me encarou, ainda com a testa levemente franzida.

— Está sangrando?

Um barulho de passos pode ser ouvido, enquanto Annabel se inclinava para o lado, bufando logo em seguida.

— Senhorita Knowledge! O que diabos estava fa.. – um rapaz apareceu por entre os túmulos e parou de falar assim que nos viu. — Annabel. – o tom de voz que antes era cuidadoso virou autoritário. — Quem são eles?

— Ora, ora, ora! – indagou a morena a nossa frente. — Se não é Chauncey, meu primo bastardo. – dando as costas a Chauncey, ela se virou para mim, sorrindo delicadamente ao constatar que meus olhos não haviam saído dela.— Rapazes, se me dão licença preciso ir com esse bastardo para a casa.

Ela virou as costas, mas antes de qualquer passo, girou a cabeça para o lado, soltando um riso baixo. Abriu a boca e continuou:

—Se me permitem dizer, acho melhor procurarem alguma roupa para vestirem. Na cidade as mulheres não estão acostumadas a ver homens saindo quase nus. Para a própria segurança de vocês. – e virou as costas sendo seguida por Chauncey.

— Isso foi fascinante, ou mais do que isso. – exclamou Rixon. — Os Arcanjos estavam errados, como sempre. Jamais imaginariam que uma humana daria alguma atenção para os decaídos e olhe só agora, Annabel Knowledge flertando com você! A causadora de sua queda...

— Rixon, quieto! – disse franzindo o cenho e encarando o caminho que a garota tinha partido. — Tem alguma coisa errada.

Meu amigo franziu o cenho e olhou em volta, logo depois para mim. Confusão transbordava em seu olhar. E jamais poderia culpá-lo. Apesar de termos caídos brutalmente, tudo parecia em seu perfeito estado. Normal, para ser mais exato.

Porém, no momento em que meus olhos se encontraram com o de Chauncey, eu senti que toda a dor que se esvaziou de mim quando coloquei meus pés no chão, voltaram como um tapa. Algo nele me incomodava e isso não era o fato de falar com superioridade com Annabel. Era algo mais sombrio, obscuro.

Como se ele guardasse um segredo terrível, porém sem ter noção disso.

— Chauncey. – consegui dizer.

— O que tem ele?

— Existe algo nele, algo que eu senti como se fosse uma serpente envenenando-me de dentro para fora.

— Como se fosse a Serpente enganando Eva? – menosprezou Rixon. – Ora Jev, não existem demônios aqui, não além de nós.

— Como pode ter tanta certeza?

Novamente, uma confusão se instalou em seu olhar, abriu a boca e disse:

— Porque eu vi o que são os demônios. E você também viu. E sei que não é fácil saber que tudo o que você acreditava não passava de uma mentira. Jamais poderíamos imaginar que quem deveríamos temer era nós mesmos! – suas mãos se ergueram em direção ao céu e Rixon revirou os olhos. — Já estamos livres do inferno, irmão. Estamos em uma nova era agora.

— Ouvi Dabria e Melissa conversando antes de nossa queda. – falei. — Elas sabiam o que ia acontecer conosco.

— E o que seria?

— Elas sabiam que esse corpo não é o nosso verdadeiro. Ainda somos como uma alma vagando por aí, Rixon.

— Jev. Conquistamos isso, o que há de errado em não sentir?

— Porque eu quero ser humano e não um demônio. – gritei. — Dabria falou sobre um Livro de Enoque, que nos daria as respostas que precisamos.

— Respostas que presumo ser um corpo. Não entendo, já temos um corpo.

— Este corpo é uma camuflagem, Rixon. Uma alucinação, uma miragem, um reflexo! Eu não quero ser uma mentira aqui, eu quero sentir. Quero ir atrás desse livro nem que seja a última coisa que eu faça.

Rixon deu de ombros.

— Se é isso que você quer. Agora vamos, precisamos seguir o conselho da sua garota.

Annabel estava certa quando disse que precisávamos de uma roupa mais apropriada, as mulheres que passavam por nós sempre nos lançavam olhares questionadores, algo entre o novo e fascinante e ao mesmo tempo novo e estranho. Era como uma curiosidade, você quer saber o que é mas tem medo de fazê-lo e se arrepender depois.

Tinha consciência que minha cicatriz estava amostra e Rixon parecia lidar normalmente com os olhares de todos. Sua resposta era sempre a mesma: vítimas de um incêndio. Não poderia culpar e nem julgar as pessoas por acreditar nele. Rixon estava quase se tornando um Arcanjo quando decidiu cair, porém ainda continuava tendo os poderes de persuasão. Todos os Anjos têm e precisam desse poder para manter a ordem na Terra. Porém o diferencial é que ele sabia muito bem usar esse poder ao seu favor, escolhendo as melhores palavras para deixarmos sermos levados por ele. Rixon é bom nisso e até mesmo perigoso, ele invadia sua mente e colocava imagens que queria que acreditasse sem ter noção disso.

[...]

O tempo passou depressa desde minha queda e para meu alívio, Melissa havia caído. Claro que tive que ouvir palavrões saindo de sua boca por estar furiosa por eu ter dado ouvidos a Rixon. Eu sabia que o relacionamento dos dois não estava indo muito bem e admirei quando os dois se encontraram pela primeira vez.

Melissa tinha uma sobrancelha levantada e cruzou os braços como sempre fazia quando estava com raiva. Sempre pensei como ela tinha gestos tão parecidos com os humanos, seus gestos e jeito de agir davam a impressão que ela pertencia a esse lugar, bem aqui e não no céu. Melissa me lembrava muito Annabel e fico me perguntando se Melissa já vivera por aqui como uma humana.

Rixon simplesmente a ignorou, como sempre fazia quando estava muito irritado, mas quando seus olhos pararam nela eu vi o quanto ele ainda a amava. È um pecado mortal quando dois Anjos se apaixonam. E eu percebi que Rixon caiu por Melissa, caiu para tentar esquecê-la, mas quando a viu todo o sentimento que deveria morrer e nem existir ressurgiu das cinzas, o queimando por dentro. Mas ele não se importava, era o preço de amar demais alguém; ser destruído.

Melissa me contou sobre o Livro de Enoque, sobre a raça Nefilins. E então eu entendi o porquê da minha reação com Chauncey quando o vi. Ele era um Nefilim e eu poderia sentir se ele me jurasse fidelidade. Ele conseguia me atiçar e isso está em seu sangue. Apesar de Chauncey não saber o que é, eu o reconheci. Tudo o que eu mais queria estava apenas á um passo de mim, o desejo de sentir me causava arrepios e eu queria matá-lo por isso. Por ser o causador de toda a minha dor.

Ele iria me jurar fidelidade, eu iria ter um corpo, eu iria ser capaz de sentir. De ser humano.

E o fiz. O machuquei para jurar fidelidade e notei como seu olhar estava domado pelo ódio. Chauncey não me reconheceu e sorri com isso.

— Me encontre dentro de um mês, bem aqui Nefilim. Se não vir, arrependerás eternamente por isso. – fora o que eu disse e parti.

Annabel me amava e sempre nos encontrávamos as escondidas. Ela sempre se vestira muito bem e sorria a me ver. Mas nessa noite, fora diferente.

— O que aconteceu, Anna?

—Chauncey fora agredido no cemitério. Está muito machucado e dizendo coisas sem sentido. – disse. — Não conseguiu ver o agressor, mas dizia que não era humano. E também dizia sobre juramento, Nefilim e Demônio.

Mordi meu lábio inferior com força. Maldição.

— Estou com medo, Jev.

A peguei pela cintura e a trouxe para perto, beijando sua cabeça.

— Medo do quê?

— Chauncey é filho de meu tio, duque Langeais. Poderá vir atrás de mim também.

— Seu primo é bastardo. – falei.

Uma fúria repentina passou pelos olhos verdes da garota a minha frente. Eu sempre a amei, e ela era linda. Linda como um Anjo, mas tinha a lábia como de um Demônio. Ela era o meu céu e o meu inferno. Ela é a minha queda.

— Ele não é um bastardo! – elevou a voz. — E só eu posso chamá-lo assim.

— Annabel, minha doce Annabel. – eu disse. — Jamais deixaria que algo te aconteça, te protegerei com toda a minha vida. Por toda a minha.. – Eternidade.

Ela sorriu e me beijou.

— Preciso ir. Amanhã na mesma hora? – perguntou se afastando.

Hesitei por um momento. Eu não saberia se Chauncey cumpriria sua palavra. Ele amava Annabel com todas as suas forças.

Knowledge poderia ser o que levaria Chauncey a mudar de ideia.

— Amanhã me encontre no cemitério que nos conhecemos. Tenho algo para você. No mesmo horário.

Ela assentiu, correndo pela grama com seus cabelos negros como uma noite sem Lua se movimentando conforme o vento uivava em seu redor. Como a sinfonia da sua destruição.

Meu corpo estremeceu ao perceber o que tinha feito. Eu era um demônio.

Como esperado, no dia seguinte encontrei Annabel me esperando com os cabelos negros presos em tranças, deixando seu rosto mais angelical do que já era. Vestia-se como sempre, vestido longo vermelho e o seu diferencial, o espartilho preto sempre por cima do tecido fino do vestido. Annabel sempre teve sua ousadia bem notável por onde passa, e é isso que a faz ser tão especial. Seu corpo estava levemente inclinado para trás, os ombros apoiados no tronco de uma árvore. Em seus dedos, de um lado para o outro, seu anel da família com a letra “K” moldurada no bronze da jóia girava conforme as mãos da garota tremiam. Os olhos verdes estavam fixos em um ponto á sua frente, um túmulo.

Tomei o cuidado de ser o mais silencioso possível e me aproximei lentamente. Como imaginado, de seus lábios saiu uma risada rouca e baixa e levantou a cabeça, encarando-me com a sua imensidão verde esmeralda.

—Desisto! Nunca conseguirei te pegar de surpresa.

Annabel revirou os olhos e riu.

— Conheço seu cheiro. – deu de ombros. — É um cheiro diferente de todos que já senti. È único, assim como você.

Sorri de lado e passei meu dedo indicador por sua pele lisa e meiga. Os pelos de seu braço se arrepiaram e rapidamente a puxei para mim, lembrando do quanto ela estava tremendo quando cheguei.

— Está com frio?

Ela negou com a cabeça.

— Então qual o problema, Annabel? – seu corpo estremeceu entre meus braços e um suspiro doloroso escapou de sua boca, enquanto sua cabeça tombava em meu peito.

— Já disse para não me chamar pelo meu nome. Para você é Anna, simples. – sua mão se elevou até a metade de seu peito e o dedo indicador apontou para o túmulo a nossa frente. O sol estava se pondo, as copas das árvores balançavam calmamente e pelo reflexo do espelho da pequena foto pendurada da lápide, havia uma mulher pálida com olhos verdes mais intensos que já vi.

Um arrepio passou por minha espinha.

— É o túmulo da minha mãe. – continuou. — Sinto falta dela. Este anel era dela, e como presente de aniversário minha mãe deu a mim.

Percorri minhas mãos por seus ombros e beijei sua testa.

— Se ela for tão adorável como você, o Céu estará fazendo festa.

Ela deixou que um riso baixo ecoasse pelo espaço e depois de segundos já havia morrido conforme o vento uivava mais forte.

— Então, onde está a surpresa?

Meu corpo endureceu. Eu poderia solta-la e a levar embora, para sua casa. Em segurança.

Eu poderia.

Encarei seus olhos novamente. Dentro daquela imensidão que sempre me perdia, havia dor, tristeza.

Annabel poderia ter sido a causa de minha queda, mas não merecia ser vítima de um doente como eu.

Eu não posso feri-la, porque isso vai me ferir muito mais. Annabel, querendo ou não, é a minha vida.

Entrelacei nossas mãos e sorri, querendo a guiar para outro lugar quando passos puderam ser ouvidos. Meu corpo tremeu e girei meus calcanhares para trás, colocando meu corpo como escudo com o de Annabel. Chauncey havia chegado. E como temia, com ele chegou também a insanidade de querer um corpo.

— Chauncey? – perguntou Annabel, meio abobada com a presença do primo. — O que faz aqui?

Os olhos de Chauncey estavam fixos em mim.

— Deixe-a ir.

Prensei meus dedos em volta da cintura da garota, enquanto via o ódio transbordar dos olhos do rapaz a minha frente.

Um sorriso de escárnio escapou de meus lábios.

— Estávamos mesmo te esperando. Sábia escolha, Nefilim.

O corpo de Annabel tremeu por entre meus dedos.

— O que esta acontecendo aqui? Jev?

— Solte-a! Jurei com minha palavra que faria o que quisesse comigo. Eu cumpri, você não.

Um riso ecoou pelo silêncio melancólico do cemitério, e girei o corpo de Annabel para minha frente, enquanto pegava de meu bolso um pequeno canivete.

— Ela é a minha garantia, bastardo.

— Jev.. Não entendo. – murmurou Knowledge.

— Jamais te machucaria, minha doce Anna. Eu a soltarei, aqui e agora se jurar.

— Mas eu já jurei! – exclamou Chauncey. — Por favor, leve ela daqui! Ela não tem nada haver com isso, seu monstro.

— Mas é claro que tem. Você a ama. Faria tudo por ela, daria sua vida, sua alma para mantê-la segura. Sabia que não é esse tipo de sentimentos que Deus espera de primos?

— E o que você sabe sobre Deus?

— Muito mais do que imaginas, meu caro. E, se for inteligente fará tudo o que eu pedirei.

— Jev! Você me enganou! – a voz de Annabel soava cansada e chorosa.

— Lembra quando eu disse que jamais deixaria que algo te acontecesse? Confie em mim. Ajoelhe-se, Nefilim.

Chauncey se ajoelhou, os olhos pregados em Annabel e em meus movimentos.

— Jurai!

— Eu juro. – cuspiu as palavras.

Afastei lentamente o corpo de Annabel do meu e a virei para mim, sorrindo ao ver o verde de seus olhos misturado com o vermelho de sua dor.

— Me perdoe. – falei sincero.

— Vá para o inferno! – seus braços se desprenderam de meu aperto e tentou correr ao lado do primo, ainda ajoelhado com os olhos vidrados em nós. A agarrei pelo ombro e prensei seu corpo na lápide do túmulo de sua mãe. Um grito rasgou sua garganta.

— Nenhum movimento! – apontei para Chauncey. — Annabel, minha doce Annabel. Você é tão linda. Não vou machucar você.

— Você machucou meu primo. Você o envenenou com as suas loucuras! Você mentiu Jev, mentiu para mim. Eu dei meu mundo para você e o usou, o feriu. Você me traiu!

— Esse é o preço de amar, minha Annabel. Você ama e é ferido, não imagina o quanto eu sofri para te ter perto de mim. Você deu seu mundo por mim e o perdeu. Eu voltei contra o céu por você.

— Você não é um Anjo, é um monstro!

Balancei a cabeça negativamente.

— Está enganada, querida. Eu não sou um monstro, sou um demônio.

Seus olhos se arregalaram e ela me empurrou.

— Deixe-me ir.

— Vou deixar, mas antes quero algo de você.

— O que? Um juramento?

Soltei uma risada.

— Você e a sua ousadia que me fez ficar perdido, louco, insano por você. Beije-me. E estará livre.

Ela encarou o primo ainda ajoelhado na terra, a respiração dele estava acelerada, o punho cerrado enquanto assistia a cena.

— É o preço do amor, Nefilim. Beije-me, Annabel

Ela assentiu e fechou os olhos, se aproximando hesitante de mim. O toque de seus lábios foi como uma corrente elétrica passando por minhas veias.

Eu nunca a machucaria. Nunca.

Minhas mãos firmaram em sua cintura, enquanto sentia o metal frio do canivete pulsar entre meus dedos.

Jamais a machucaria.

O canivete escorregou por meus dedos como água e por um segundo quase fora ao chão se minha mão não tivesse sido veloz o bastante para alcançá-lo e o mandar em direção ao peito da minha doce e amada Annabel.

Um uivo de dor surgiu dela e o vermelho de seu vestido se misturava em seu sangue, enquanto seu corpo escorregava por meus dedos, os olhos verdes tão vazios e arregalados, as mãos tremiam mais do que antes, e Annabel abriu a boca querendo dizer algo, mas foi interrompida pelo grito de Chauncey enquanto assistia sem poder fazer nada o corpo de sua amada se esvaziando do mundo, ficando cada vez mais pálida e sem vida.

Ela morreu. E eu sorri.

Gritei desesperadamente e abri meus olhos, meu corpo ainda curvado para frente, enquanto cuspia o gosto metálico de minha boca para fora. Estava chovendo agora e o parque Delphic estava uma calmaria.

E preferi pela primeira vez entrar na inconsciência, morrer. Ser guiado pelo canto do vento enquanto seguia na escuridão.

Notas finais
Oi! Alguém ainda está vivo por ai e não me abandonou? euaheuhas