Hush Hush - Patch Cipriano
9 O lado obscuro de um Anjo Caído.
Notas iniciais
Seus lábios eram frios e macios. Seu sabor de hortelã era suave, mas logo pude sentir o gosto de hortelã misturado com chocolate. A pele macia de Melissa roçava contra a minha, enquanto suas mãos traçavam caminhos por meu tronco nu. Ela havia separado seu rosto do meu para poder me enxergar.
— Não pense em nada que não seja nós dois. Por favor. —fechou os olhos e novamente ela selou nossos lábios, agora com fúria. Sua língua pediu passagem e concedi. Eu estava no modo automático, não conseguia saber o que era certo e o errado, parecia que dentro de mim aconteceu uma explosão e tudo o que sobrou foram apenas os destroços.
Eu simplesmente não conseguia me lembrar do porque eu não conseguia me relaxar. Eu não toquei no corpo de Melissa nenhuma vez, apenas a deixei no comando.
Há um tempo eu ficaria orgulhoso de mim mesmo, afinal, eu sempre tive uma atração pela morena. Mas, parecia errado.
Quando ela selou nossos lábios eu senti que toda aquela atração havia sumido. Como se um feitiço tivesse desfeito. E, percebi que não era por isso que estava aqui, e muito menos porque estava tão perdido.
Minha pele parecia queimar quando senti Melissa desabotoando minha calça, e então recuperei os sentidos de meu corpo. Eu necessitava, precisava afastá-la.
Um sentimento de culpa me invadiu e a imagem dos olhos de Rixon em mim foi a gota d’água para levar minhas mãos em direção ao pequeno corpo de Melissa e a empurrar.
— Saia! —ordenei.
A expressão de choque em seu rosto ficou visível e uma profunda confusão se misturava ao brilho de seu olhar.
— Sair? Do que está falando, Patch?
— Eu mandei você sair, Melissa.
— Não faça isso! Se for por causa de Rixon eu simplesmente converso com ele depois.
— Não é apenas por ele. — falei baixo, como se toda a culpa me envolvesse e me sufocasse. – É por mim. Eu não quero, e sim necessito que você saia por aquela porta e não volte mais.
Melissa se levantou do sofá, e andou em direção ao enorme espelho que ficava entre a sala e o corredor, vendo seu reflexo nele.
— Como eu disse. — falou arrumando seus cabelos. — Você é um fraco. Tentei te mostrar que existe caminhos melhores para seguir, mas você realmente é um tolo!
— Cale a boca e vá para o inferno! — gritei.
— Estarei te esperando lá de braços abertos quando cair novamente. E você sabe exatamente do que. Adeus, baby.
E diante de meus olhos ela evaporou. Respirei fundo sentindo como se fosse a primeira vez que respirasse, o peso em meu peito havia desaparecido junto com ela e todos os meus sentidos voltaram á tona.
Tentei relaxar meu corpo, porém em vão, nada parecia ser bom o suficiente para me fazer voltar ao normal. Nada parecia ser meu alicerce para me trazer ao lugar. Eu não era mais um estranho para todos á minha volta e sim, para mim.
Eu não sou apenas um monstro, eu sou uma mentira. E assim como a mentira, eu machuco as almas das pessoas. Assim como a faca que perfura a alma, até não restar mais nada que o pó.
Porém, o feitiço virou contra o feiticeiro e a minha própria mentira perfurou á mim.
O que era certo afinal? Por que eu tive medo?
Porque você é um covarde!
Eu sou a porra de um covarde mentiroso. A porra de um demônio criando outro inferno. Eu sou a porra de um anjo caído com a alma marcada para sempre.
Eu sou a porra do Patch Cipriano.
Levantei-me do sofá e encarei a janela atrás de mim, as estrelas brilhavam perfeitamente, enquanto a lua ficava distanciada de todas elas e, ao seu redor uma escuridão assustadora. Como se essa escuridão impedisse as estrelas de alcança — lá.
Balancei a cabeça e rumei para meu quarto. O ranger do colchão quando meu peso ficou sob ele, me fez rir amargo.
A solidão agora era indesejada. Ela não estava apenas me completando e sim me sugando. Sugando-me do mesmo modo que se fosse fogo, deixando seu rastro por onde passa até sobrar mais nada que cinzas.
Até não existir mais nenhuma prova de minha existência.
Suspirei pesadamente e fechei meus olhos com força, tentando esvaziar minha mente sobre qualquer assunto que poderia me matar por dentro.
Um par de olhos cinzentos se formou a minha frente e senti todas as estruturas de meu corpo endurecer. Flashes passavam por minha mente, enquanto a imagem de Nora se formava dentro de mim, como se ela fosse um parasita.
Ela era o meu maior problema, então por que estou procurando por seus olhos? O quanto esse olhar se torna hipnotizante para conseguir me fazer tão... Tão estranho para mim mesmo?
E por que o desejo de vê-la parecia me corroer? Ela é um perigo, sempre foi.
Eu preciso exterminá-la para minha vida voltar ao normal. Eu tenho que fazer isso.
E agora.
Levantei da cama e com passos apressados fui até a sala e vesti minha camisa. Tateei em busca da chave do Jeep e assim que a achei, sai em disparada para os portões do Delphic.
Em nenhum momento encarei o céu noturno, e sei que se olhasse, sentiria o efeito dele sob mim.
E desistiria de matá-la. Mas eu não posso desistir, eu tinha que provar tanto para mim quanto para Melissa que ela estava errada. Que ela não me conhecia, que eu não irei cair novamente.
Eu tinha que provar que não faria de uma humana minha passagem só de ida para o meu inferno. Eu não cometeria o mesmo erro duas vezes, eu não podia.
Bati a porta do Jeep com força e, dirigi com pressa até o casarão de Nora. A rua estava deserta, talvez pelo clichê tempo gélido da cidade. Estacionei o carro perto de uma árvore para não chamar a atenção e caminhei pela escuridão até ter certeza que ninguém tinha notado minha presença ali.
Como esperado, a janela de seu quarto estava aberta, mas para minha surpresa, Nora estava com sua cabeça apoiada no batente da mesma. Seu olhar estava distante e sua feição era de dor.
Vista assim, Nora não parecia ser um perigo, ela mais parecia alguém inofensivo. Alguém que precisava de paz mais do que qualquer outra pessoa. E a vendo assim soube que sua mente criava um mundo só seu.
Olhei para o céu e uma estrela havia conseguido passar sobre a barreira da escuridão que a lua tinha ao seu redor.
A lua ficava muito mais linda com uma estrela por perto. E, a verdade mais uma vez me atingiu como um soco no estomago, deixando um gosto metálico na minha boca.
Eu não sou forte o suficiente. Nunca fui.
Afastei lentamente e segui em rumo do Jeep, sabendo que o inferno estava mais próximo do que parecia.
Fale com o autor