Hush Hush - Patch Cipriano
14 Líder dos corações partidos.
Notas iniciais
“E agora eu descubro como é a sensação
de arriscar tudo e ainda sobreviver”
— Leader of the Broken Hearts (Papa Roach)
Fugir nunca foi uma boa opção, esperar a morte também não.
Mas nunca pareceu tão tentador, nunca pareceu tão tentador eu fugir, e não no sentido de ir embora de algum lugar, mas sim no sentido de fugir de mim mesmo. No sentido de esquecer, prender meus pensamentos insanos em um lugar sombrio da minha mente e ir de encontro com a minha morte.
Uma morte lenta e tão dolorosa como foi a minha queda, que fora tão massacrante que esperava, de fato, estar morrendo, sendo destruído.
Que bela ilusão. Não fui destruído pelo corpo, mas sim de alma.
A única coisa que me fez ficar imóvel sob o chão frio da sala de estar, era a enorme construção que se formava pela janela, O Arcanjo.
A reforma da montanha – russa havia terminado há algumas semanas e não via nada de diferente naquela imensa e temida montanha – russa que de alguma forma todos eram atraídos para ela.
Todos tinham medo de O Arcanjo, pois era de fato, assustador. Mas algo os atraía até lá. Como se aceitassem caírem em desgraça – eram os dizeres dos panfletos sobre a reforma da montanha – russa; como se aceitassem seu sacrifício.
E assim como todos, a imensa construção me atraía. Quando a noite era insuportável eu simplesmente ficava de pé o encarando pela janela tentando entender o seu real significado. Tentar enxergar o que O Arcanjo realmente era e por que todos os temiam. E, sempre parecia que estava me olhando pelo espelho, vendo meu reflexo.
Algo imenso, temido e com um segredo perigoso, mas totalmente vazio por dentro. Feito por mentiras, construído com espinhos, capaz de ferir á si mesmo.
Eu sabia exatamente o que era cair em desgraça. E isso era o que me hipnotizava na montanha – russa. Como se existisse um monstro entre os trilhos, vendo todos caírem em sua armadilha e sorrir com a morte de quem ele os atraía.
Um monstro exatamente como eu. Um monstro que sentia prazer ao ver inocentes caindo na escuridão.
O rosto de Annabel se formou em minha mente e fechei meus olhos. Raramente me lembrava dela e de seu olhar, raramente sua imagem me atormentava. Na verdade, nunca pensava na garota que fez com que eu virasse á costa ao céu e caísse por causa dela. Eu nunca a via como uma maldição e nem sentia culpa por isso. Jamais a lembrança de seu corpo se esvaziando em meus dedos causava arrepios por todo o meu ser. Nunca eu me sentia sufocado pela culpa de fazê-la sofrer, ter consciência disso e não reverter a situação.
Eu simplesmente pensava que Annabel foi a gota d’água para fazer com que eu corra atrás do que sempre desejei, mesmo se precisava matar todos que conhecia.
Mas agora era diferente. A culpa me sufocava como uma mão em minha garganta impedindo com que eu respire, como uma mão gélida na espinha, como um fogo queimando a pele. E percebi tarde demais o erro que cometi.
Eu nunca a amei. Não importava o que Knowledge era ou o que fez, eu jamais poderia amá-la pelo simples fato que ela não era o meu erro.
Não era a verdadeira causa da minha queda. Annabel foi apenas uma mão que me empurrou e acelerou o processo, mas não quem eu estava procurando.
Não quem eu precisava para manter um equilíbrio. Não como yin que precisa do yang para manter-se equilibrado.
Não o bem que havia no meu mal. Não o céu que havia no meu inferno. Annabel nunca foi a luz da minha escuridão.
O choque de meus pensamentos fez com que me levantasse apressadamente e assustado, dando as costas para a enorme montanha – russa.
A verdade me atingiu em cheio, mas não era tão ruim perceber que eu nunca cometi um erro, que foi apenas obra de um destino cruel e traiçoeiro. Não foi ruim perceber que na verdade, meu erro nem havia começado e poderia ser evitado.
Porém, o grande problema é que o meu erro era como um ímã que fazia com que eu fizesse coisas insanas. O meu erro é Nora Grey.
E preciso agir agora. Essa é hora que eu poderia mudar o rumo da minha eternidade, poderia entender que eu caí por um motivo e não por uma traição. E principalmente, arriscar tudo para a busca de uma coisa bem simples que mudará o fim dessa história e saber se estou preparado para novamente ficar frente á frente com o abismo.
Um abismo sem fim que sorria suavemente enquanto me encarava. Necessitava saber o que eu era e se esse abismo poderia ser a minha desgraça. Ver tudo acontecer novamente e ainda sim, sobreviver.
[...]
Voltar para o colégio e sentir os olhares de todos queimando em minha pele não é mais desagradável. Algo que realmente me incomodava era encontrar Nora. Não sabia qual seria a minha reação ao vê-la depois de quase duas semanas, não sabia o que dizer e nem se controlaria os meus desejos. Poderia ser algo bem simples, ou poderia ser a minha morte.
Um desejo tão feroz e irracional que parecia me dilacerar de uma forma cruel, uma loucura que jamais passaria. Eu poderia vê-la e a ardência se instalaria em mim e de brinde, sorriria para a morte aceitando minha sentença.
E eu esperava que isso não ocorresse.
Não demorei em encontrá-la. Grey estava de costas para mim, enquanto procurava por algo distraidamente em seu armário. De uma forma lenta e torturante, me aproximei. Quando ela se virou e me viu apenas alguns centímetros dela, soltou um grito.
— Jesus! – exclamou.
— Até parece que viu um fantasma, Anjo.
Nora revirou os olhos.
— O que faz aqui? Depois de quase duas semanas...
— Então é sério aquele lance de eu ser totalmente irresistível? Você sentiu a minha falta? Quero dizer, eu sabia que sou realmente irresistível, mas não sabia que era chegava a esse ponto.
— Cale a boca! – reclamou. — Preciso ir para a sala. E a propósito, graças a sua falta de competência, vou tirar zero em Biologia. Agradeço muito sua colaboração.
— Não precisa agradecer. – ela deu um passo para a direita, tentando se livrar de mim. A segurei pelo pulso. — Não, espere.
— Eu não confio em você.
— Não estou pedindo que confie. Quero falar com você.
— Sobre o que?
— Nossa última conversa, lembra? Você e eu no almoxarifado.. – arqueei a sobrancelha ao vê-la encarar os pés.
— E daí? – murmurou.
— E daí que passei esse tempo longe pensando. Se estiver interessada, procure-me na sua aula de educação física. Estarei te esperando.
— Por que você pensa que eu iria?
— Pelo simples fato de saber se você terá a sorte de eu continuar sendo seu parceiro.
— Você não é meu parceiro. E pare de falar desse jeito.
— Te esperarei, Anjo.
Ela se soltou do meu aperto e me encarou.
— Não me importo, pode esperar mil anos, eu não irei.
— Não acredito em você.
— Não estou pedindo que acredite. – sorriu.
— Rá. Você aprende rápido.
— Eu preciso ir para a aula.
— Você que sabe, Anjo. Ficarei aqui até esperar sua resposta.
— Que fique esperando no inferno! Por favor, Patch.
— O quê? Você não quer uma nota boa em Biologia? Você mesmo disse para eu colaborar, agora você que não esta colaborando.
A ruiva me fuzilou com os olhos, mas assentiu lentamente.
— É melhor você ir.
— Imagine, jamais poderia perder a honra de me encontrar com você.
Enquanto Nora se afastava, um arrepio percorreu minha espinha.
Estava sorrindo para a morte enquanto a assistia acenar para mim.
O tempo estava frio enquanto caminhava até o campo de futebol do colégio. Parei de andar e sentei-me na grama, atrás da grade e observei Nora dentro da quadra de esportes. Ela encarava todos com raiva e vi em seus olhos medo. Em suas mãos estava um bastão e do outro lado da quadra, Marcie Millar.
Grey franziu a testa em concentração e levantou o bastão para pegar a bola que Marcie iria jogar.
Encarei seus olhos, perdidos entre o técnico e Marcie. Fechei meus olhos e me concentrei. Sua mente era desprotegida, então foi fácil entrar em sua cabeça sem ser notado.
A bola veio em direção á Nora e confusa, arremessou o bastão para longe e encarou em volta, a minha procura.
— Grey. Concentre-se.
Seus olhos vagaram pela quadra vazia e assentiu lentamente. Voltando a pega o bastão. Seus olhos encontraram Marcie.
Vamos lá, Anjo. Pegue essa bola!
Nora piscou duas vezes. A bola veio em sua direção e com uma força desnecessária, o barulho da colisão entre a bola e o bastão ecoou por todo o lugar.
— Corra, Grey.
Ela correu, largando o bastão de qualquer jeito no chão, enquanto corria pela quadra.
Estou te esperando no gramado, Nora.
A garota parou e olhou nas arquibancadas, acelerou os passos e voltou a correr até a porta da quadra e abriu.
— O que está fazendo? Volte Nora!
A me ver com um sorriso sacana a sua frente, caiu de joelhos. Os fios de seu cabelo ruivo estavam grudados em sua testa, seu peito subia e descia rapidamente.
— Como.. Como você fez isso?
— Isso o que?
— Você sabe. Como eu pude te ouvir?
— Eu gritei.
Ela se levantou, uma fúria repentina se formou em seus olhos.
— Eu não sou seu brinquedinho, Patch. Eu sei muito bem o que aconteceu. Você não estava na quadra, você não gritou.
— Você está exausta pelo jogo.
— Mentiroso!
— Estou interrompendo? – um garoto parou do lado da ruiva, enquanto me olhava feio.
— Não Elliot, está tudo ótimo.
Eu o encarei, seus olhos azuis causaram um arrepio por minha espinha.
— Conversamos mais tarde, Nora. – eu disse.
Encontre-me no Parque Delphic.– minha voz saiu de sua mente, e ela fechou os olhos.
Dando de ombros, pulei a cerca e passei ao lado de Elliot.
— Fique longe dela! – rosnei e saí em direção á quadra.
Com pensamentos perturbadores, deixei o colégio.
Como imaginado, Grey estava me esperando no parque Delphic. A noite estava com uma brisa fresca. Todos sorriam por estarem ali, menos eu.
Uma ardência se instalou em minha garganta ao se aproximar da ruiva. Céus, ela estava tão linda! Vestia com a mesma blusa florida do dia em que ela notou pela primeira vez que eu estava a observando, uma saia justa que media até a metade das coxas, uma sapatilha prata. O cabelo estava solto e quando o vento a envolvia, seus cachos dançavam conforme a melodia.
Eu jamais poderia ficar longe dela. Jamais seria o mesmo quando todo o ser dela se envolveu no meu ser.
— Venha comigo. – implorei. — É algo de seu interesse, Anjo.
Ela sorriu e balançou seus fios de cabelo. Senti seu cheiro e meu corpo entrou em combustão.
— Primeiro, quero saber aonde irá me levar. – Nora disse.
— Uma pequena surpresa para nós.
Ela arqueou a sobrancelha.
— Você sabia que todos têm segredos e mistérios? É por isso que tudo fica mais fascinante. O Parque Delphic tem uma história muito fascinante. É quase como se uma magia o envolvesse, e consequentemente, nos envolva também.
Nora piscou, porém um leve sorriso surgiu em seu rosto. Quase imperceptível, mas como se fosse a peça que faltava para montar um quebra – cabeça difícil.
— As noites foram feitas especialmente para dizer coisas que não se pode dizer no dia seguinte. – continuei. — As noites são um belo conto de mistério. E nós os personagens. Venha no Arcanjo comigo, Anjo. E depois você ficará longe de mim, para sempre.
— Você está me assustando, Patch.
— Eu imploro, Nora.
— Não posso. Tenho medo de altura.
— Confie em mim. Fazemos um acordo, se você gritar eu continuarei sendo seu parceiro em Biologia. Se não gritar, prometo sair da sua vida.
— Ah! Que coisa mais ridícula! – Nora exclamou. — Não vou cair nos seus jogos, Patch.
— Eu preciso, por favor. – sussurrei. — Preciso te mostrar uma coisa.
— Não confio em você.
— Sei que está mentindo. Se não confiasse, não viria.
Estendi o braço em sua direção. Hesitante, ela o pegou.
— Seja breve.
A vista do Arcanjo era perfeita. Conseguia enxergar todo o parque e até uma parte da cidade.
— Com medo, Anjo?
— Esta brincando comigo. Pare com isso!
— Ouça o que vou te dizer com muita atenção Nora. Pode não ter nenhum sentido para você, mas para mim tem todo o sentido da minha vida. Há algo que você não tem noção, não imagina o quanto a realidade é diferente do que a que te cerca. Coisas estranhas acontecem todo o tempo, como se fosse obra de uma maldição.
Ela me encarou confusa, seu olhar no meu tentando me decifrar.
Seus olhos são como um livro aberto. Onde você esconde todos os segredos de sua alma.
— Você me olha como se quisesse me ler, mas sinto lhe dizer que tem coisas que jamais irá entender.
— Patch...
— Eu te desejo Nora. Te desejo tanto que chega a doer, a queimar. Era como se eu estivesse andando sobre brasas sem se importar com o fato de estar sendo queimando aos poucos, tão lentamente. Infelizmente, não sei dizer como começou, mas é como uma tempestade que chegou tão forte, tão devastadora. Te desejar abriu um buraco enorme em meu peito, me fez imaginar coisas insanas. Fez com que eu pensasse como seria o gosto de seus lábios.
“Isso machuca e ao mesmo tempo cura. Seus olhos são como a chave que faltava. Você conseguiu atingir o meu limite, conseguiu chegar a um lugar que nem sabia que eu tinha. Você me atraí e odeio ver todo esse poder que você tem mim, seus olhos, seu cabelo, essa sua boca e meu Deus, essas pernas!
Como eu disse, tudo tem um mistério. Eu tenho o meu e não posso e nem consigo ser egoísta com você. Há uma maldição entre nós, Nora. Queria poder lutar contra isso, mas não posso, é inevitável. Sei que preciso fazer algo que vai acabar comigo, mas isso vai fazer entender o porque eu estou aqui. Você será a luz que mostrará um caminho nessa minha escuridão, por isso te peço antes desse carrinho começar a andar, beije-me. Me beije Nora, eu imploro! Cure-me, faça parar de doer. Sei que não é recíproco, porém não posso evitar de estar me arrastando de volta para você. Tentar ficar longe me mata, me envenena. E só você pode me curar.”
A garota ao meu lado piscou lentamente, e quando o carrinho começou a andar eu a puxei para mim, prensando seus lábios nos meus. Estava caindo em desgraça, estava frente á frente com o abismo e não poderá reverter nada. É aqui e agora que posso mudar o rumo do meu destino.
Meus braços passaram em volta da cintura de Nora, trazendo para mais perto enquanto gemia de satisfação. Suas mãos pararam em minha nuca e ela me empurrou, os lábios inchados e vermelhos, o cabelo desarrumado.
Agora! Você precisa agir.
A empurrei, ela me encarou assustada e caiu. Um grito de dor escapou de seus lábios enquanto caia.
Bati a mão com força na cabeça e meu coração pulou uma batida. Estava feito, não podia reverter.
Eu era um monstro, matei Nora como matei Annabel. Essa era a minha sentença.
Seus gritos continuaram por uma pequena fração de segundos e gritei desesperado.
Eu estava destruindo a minha alma.
Pulei e antes de Nora cair ao chão a segurei. Meus pés bateram com força no chão e todos nos olhavam assustados.
Encarei a garota em meus braços. Tão pequena, tão perdida.
Estou arriscando tudo para encontrar uma brecha de esperança. Uma brecha que me mostre que ainda irei sobreviver.
E encontrei.
Eu estou apaixonado por Nora Grey.
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