Hush
1 One Last Breath
Ele deixou as pálpebras se abrirem, o cheiro de sexo perfurava-lhe o olfato, mas acima disso, sobre a volúpia que marcava sua pele, Dougie se recordava dela, estava impregnado com a fragrância dela. Lucy, a garota que abalara sua noite e agora já não estava mais deitada nua em sua cama.
Por entre as finas cortinas claras, o homem via o céu, o brilho amarelado que informava que o sol estava nascendo. Parecia o iniciar de um dia ideal, entretanto porque Dougie não sentia tal resplendor? Estranhamente se sentia só, despedaçado.
Respirando fundo e afastando pensamentos pessimistas, o homem se sentou. Lucy provavelmente se encontrava na cozinha, como uma das muitas outras vezes, utilizando uma blusa masculina como um minúsculo vestido. Sorrateiro, Dougie se aproximaria, a envolveria por trás, sussurraria em seu ouvido perversões e gargalharia com os suspiros que Lucy não conseguiria conter.
Cambaleante, Dougie abandonou a cama vestido apenas com uma cueca boxer, infeliz por não encontrar nenhum vestígio das roupas da garota espalhadas pelo chão. Considerava aquele ato uma provocação, gostava de saber que Lucy estava seminua, e que apenas quatro frágeis botões eram as únicas coisas que escondiam suas curvas. No entanto, sem as vestes ao solo, sabia que ela estava vestida, o que era no mínimo desanimador.
Por todo o trajeto até a cozinha, tentou não fazer barulho, estava mais acordado, eufórico. Seus olhos passaram sem interesse pela estante da sala que abrigava a televisão, um dos porta-retratos estava vazio. Dougie se deteve e analisou a armação do objeto. Fora do dia que Lucy decidira visitar o planetário, mesmo sem a foto em seu devido lugar, o homem se recordava. Os grandes olhos castanhos da garota brilham e eles nem ao menos haviam entrado no local, aguardavam na fila. No entanto, Lucy era incapaz de abafar o sorriso que se espalhava por seu rosto, a felicidade que era refletida em seus olhos.
- Céus, Lucy. Como você conseguiu me fazer dirigir por duas horas para ver estrelas produzidas em computadores?
- Tenho meus segredos. – Ela sussurrou com uma piscada, forçadamente misteriosa.
Rapidamente, Lucy dissolveu o ar enigmático, gargalhando contente, enlaçou o pescoço de Dougie com os braços e ficou na ponta dos pés, para beijá-lo suavemente.
- Lucy, você pegou a foto do planetário? – Questionou Dougie, sentindo uma profunda e vagarosa fincada no peito. Seu cérebro parecia que iria explodir, se recusava a lhe explicar a fonte de todo aquele desespero repentino. O silencio era um som assustador. – Lucy?
O homem continuou a caminhar, acreditando que a garota simplesmente estava com seus fones de ouvido, submergida em alguma música, incapacitada de ouvi-lo. Tinha que estar.
A cozinha estava vazia, assim como ele sentia que estaria. Dougie girou nos calcanhares e voltou para sala. A bolsa de Lucy não estava ali.
Ela deve ter sido chamada no serviço.
Sem vontade de fazer café apenas para si mesmo, Dougie retornou para seu quarto, decidindo voltar a dormir e esperar pelo horário do almoço. Convidaria seus amigos para comer em algum lugar, também aproveitaria e ligaria para Lucy.
Já deitado em sua cama o homem apertou a secretaria eletrônica, notando o irritante número vermelho que informava que havia dois recados. Ignorando a sua própria voz, dizendo: “Olá, aqui é o Dougie. Não estou... ou não quero atender... talvez eu esteja dormindo... Enfim, deixe seu recado”, cogitou a ideia de se levantar novamente e se nutrir com jogos de vídeo-game, assim que terminasse de ouvir as mensagens.
- Doug. Saia da cama e vá para a casa do Tom. – A voz de Harry era divertida, como se esperasse estar acordando o amigo. – Sério, Dougie, tira a bunda da cama AGORA. De qualquer forma, o Danny vai cuidar da comida, ou seja, venha alimentado. Te vejo lá.
O homem esperou pelo bip que designava o final da ligação, e quando o mesmo som informou o começo do outro recado, aguardou uma mensagem de sua mãe convidando-o para visitá-la – como acontecia frequentemente -, ou talvez de Lucy explicando o sumiço.
- Oi. – A voz de Lucy estava estranhamente grave, a tonalidade que ela costumava usar quando escondia as lágrimas que desejavam abandonar seus olhos. – Bom, Dougie... Sei que essa com certeza não é a forma de fazer as coisas, sei que sou covarde por isso... Mas seria a única forma de conseguir. Eu... não o amo mais.
Tudo ficara silencioso, Lucy parara de falar, Dougie esquecera como se pensava. Algo em si partia, ou ele por inteiro se quebrava. Um pedaço seu dizia que era uma brincadeira, ela vai rir e romper suas palavras, o resto compreendia que era sério. Lucy demonstrava isso em seu tom, não gostava de delongas, nem mesmo de chorar – ele tinha certeza que ela estava chorando -. O brilho morto que exibia em seus olhos há semanas agora era explicado, já não sentia prazer em passar seu tempo com Dougie, nada a ligava a ele.
- Perdoe-me por não ter outra forma de dizer, por ser tão insensível, por ser egoísta e desejar me preservar. Não fomos destinados a ficar juntos. Você é um cara legal, muito especial e merece alguém que o ame com todo o corpo, alma, espírito, completamente e inexplicavelmente. Eu... Só me perdoe, ok? Eu sinto muito, de verdade.
Dougie se conservou deitado, encarando o teto com a cabeça vazia. Perguntando se aquilo era de fato verdade, se a garota da sua vida simplesmente decidira deixá-lo. Ouvira a mensagem cerca de três vezes, procurando um razão, esperando que em uma delas o recado mudassem. Assim que foi acertado pela realidade, sentiu o ar lhe faltar, seus olhos arderem, afundou-se em um sofrimento silencioso, proibiu que as lágrimas deixassem seus olhos, e guardou a dor dentro de si, eclodindo, perfurando-lhe, ferindo-lhe. Estava acabado. Lucy e ele. Aquela relação. Uma breve ligação derrubara anos, lágrimas, juramentos, sorrisos.
- Tem certeza? – a medica perguntou mais uma vez, como se pudesse convencê-la a mudar de ideia com mais algumas indagações. – A quimioterapia pode lhe dar alguns anos.
- Eu não quero morrer. A quimioterapia não pode me dar isso. – Respondeu Lucy irredutível, com a escolha feita. – Isso só será uma prolongação da dor. Eu não quero machucar ainda mais as pessoas que amo, não quero fingir que há esperanças.
- Mas...
- Não. – Lucy a cortou com um sorriso fraco e confiante. – Obrigada por tudo que vem fazendo por mim.
A garota deixou o consultório o mais breve que conseguiu, dirigindo para seu carro quase correndo, procurando um lugar solitário para desabar.
Havia quebrado promessas naquela escolha, morreria sozinha, sem puxar Dougie consigo, ou qualquer outra pessoa. Ele se chocaria em alguns meses ou anos, quando finalmente soubesse que Lucy estava em “um lugar melhor”. A diferença é que isso não o destroçaria, apenas o abismaria. Ela já não seria sua fortaleza e sim uma lembrança de um tempo bom ou, até mesmo, de uma hipócrita odiosa que terminara com ele da forma mais fria que encontrara. Feri-lo era apenas um curativo para a dor maior, a dor de perdê-la para sempre, a angústia de ver seu futuro partir.
Eu sinto muito, Dougie.
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