Hurts like hell

1 Sobre amar o que jamais será seu.


Notas iniciais
Além de Fate ter me estragado há muito tempo, F/GO agora drena meu precioso tempo de vida, mas cá estou eu postando uma fic que muito provavelmente irá flopar. Escrevi baseado na história contada em Garden of Avalon (que recomendo muito) e nos lores dos personagens que encontrei na Wikia da Type-Moon. É basicamente uma mistura da lenda "real" com romance entre eles, também especulei alguns acontecimentos, coisas que não se tem muita informação. Espero que gostem!

Seus passos e o atrito das peças da armadura ecoavam pelo estreito corredor que seguia. Em todas as épocas do ano fazia frio ali dentro, as paredes de pedra e a pouca iluminação tornavam o ambiente sombrio, mas esperava-se proteção de um castelo, não conforto. Sir Gawain habituara-se à Camelot como ninguém, ali abrigava a seu rei e ele como um consagrado cavaleiro não possuía lugar melhor para ficar.

Ele passava pelas janelas abertas, atravessando também os feixes de luz do dia que por elas entravam, refletindo no aço polido de suas placas. Retornara de uma viagem de alguns dias, uma missão lhe confiada pelo próprio Rei Arthur, que jamais pediria por um favor tão pessoal quanto esse caso a união da Távola Redonda não estivesse tão abalada nas últimas semanas.

Há menos de um mês, Sir Tristan dera as costas para Arthur alegando que ele não entendia como os outros sentiam-se. Desde então, circulava pela corte críticas e entre outros murmúrios sobre o rei, o que jamais abalou seu sublime comando, mas incomodou profundamente a Gawain. Ele, o nomeado Cavaleiro do Sol, jurara eterna lealdade a Arthur, sua cega confiança e sua espada pertenciam-lhe, de modo algum toleraria aquela má conduta vinda de companheiros.

Avançando à ala reservada aos aposentos dos cavaleiros, ele passou pela enorme sala do trono, vendo ninguém ali além de Merlin jogando seu tempo fora com algum livro que ele muito provavelmente já havia lido. O loiro acenou constrangido depois de empurrar a porta e ela ranger alto. Ele parou sem passar do arco de entrada.

— Bem-vindo de volta, Sir Gawain. — O mago não desviou o olhar do livro velho que segurava. — Fez uma boa viagem? — Sua voz ecoou até o cavaleiro, tão alto quanto o rangido anterior.

Merlin tinha estendido sobre a mesa mapas e outros pergaminhos, possivelmente estudando estratégias ou planejando as próximas semanas do rei. E apesar de sua miserável reputação com as mulheres, o meio íncubo era insubstituível para Arthur. Não havia quem pelas terras da Bretanha que não conhecesse sobre os feitos do Mago das Flores. Ele era não somente o guardião do rei, como também seu mentor, dentre os cavaleiros da Távola Redonda era quem o conhecia há mais tempo; Gawain nunca soube o que pensar dele.

Eles encontraram-se poucas vezes e menos ainda foram as vezes que dividiram uma batalha. Não restavam dúvidas de que Merlin era qualificado para sua função, mas para Gawain ele parecia estar sempre um passo à frente, o que o impedia de sentir-se confortável em sua presença. Talvez fosse isso o que o comentavam ser sua clarividência.

— Sim — disse sem a menor intenção de continuar aquele diálogo.

Seus olhos passaram rapidamente pelo trono majestoso da sala, colocado ali contra a vontade de Arthur por mando da rainha, havia sido um presente no mínimo irônico. A grossa camada de poeira visível indicava a falta de uso, o rei que fundara a Ordem dos Cavaleiros da Távola Redonda com a clara intenção de promover igualdade em seu reinado, jamais concordaria em sentar-se em uma cadeira acolchoada com o objetivo de exaltá-lo como de alguma forma superior.

— O rei partiu em uma expedição para o vilarejo mais próximo daqui, em dois dias ou menos estará de volta. — Era essa habilidade de entender tudo sem antes ser dito que deixava Gawain inquieto sobre o mago. — Ele pediu que Sir Bedivere o acompanhasse. — O cavaleiro deu-lhe as costas com um aceno agradecido pelas informações. — Mas se é Sir Lancelot quem você procura — continuou. —, pode encontrá-lo em seus aposentos. — Merlin certificou-se de que sua voz de tom debochado o alcançasse mesmo com a distância já percorrida do loiro.

Sir Gawain pressionou os punhos até que as tiras de sua manopla machucassem as palmas das mãos. Frustrado, pois se Merlin vira através de si, algo primeiramente ficara exposto. Ele não conseguia lidar com a ideia de alguém sequer desconfiando de seu mais obscuro segredo.

Embora seus irmãos também fizessem parte dos Cavaleiros da Távola Redonda, Gawain sentia-se só com frequência. Ele tinha ao rei e bons companheiros, mas existia um vazio em seu peito que não havia palavras que explicassem tal sentimento. Ele cumpria ordens e isso com o tempo tornara-se desgastante. Entretanto, nos últimos anos Gawain encontrou em Sir Lancelot a dinâmica que faltava nos seus dias. O nomeado Cavaleiro do Lago compartilhava de sua mesma admiração pelo Rei Arthur e depois de mandados juntos para cada canto do reino em todos os tipos de expedições, Gawain afeiçoou-se do francês.

Nas diversas noites frias que passaram acampados em florestas distantes de Camelot, muitas vezes com somente uma fogueira queimando entre eles, as histórias sobres seus dias como meninos e suas desventuras no treinamento pareciam não ter fim. Lancelot tinha um semblante sério que com Gawain desfazia-se sem dificuldade alguma. Eles compartilhavam também de assuntos pessoais, bem como seu relacionamento problemático com Galahad, havia sido o loiro quem o aconselhara recomendá-lo à corte e fazer dele um cavaleiro. No fim, ambos sabiam demais sobre o outro, havia intimidade entre eles e era isso que tanto preocupava a Gawain, porque em algum ponto daquela trajetória, a relação deles avançara um nível e as coisas deixaram de ser as mesmas.

Absorto em seus devaneios, o cavaleiro aproximava-se de virar o corredor que o levava ao seu aposento, mas vozes conhecidas o fizeram parar momentos antes. Apesar do tom baixo, ele reconheceu ser Lancelot e a Rainha Guinevere quem conversavam aos sussurros.

Gawain fechou os olhos sentindo a pressão baixar, a conversa deles tornou-se distante e tudo o que escutava era seu coração pulsando irregular. Ele soube de imediato o que acontecia. Sua consciência apagou por um breve minuto e tudo o que pode pensar foi em socar o companheiro por aquele erro absurdo que cometia.

Quando voltou a si ele não mais ouvia vozes ali. Não esperava encontrar Lancelot naquele dia, somente saber de Merlin que o companheiro estava no castelo o trouxera alívio. No entanto, fora de si com o que presenciara, ele tomou impulso e moveu-se com as pernas frouxas em direção ao dormitório do outro que era logo à primeira porta virando o corredor. O loiro não hesitou em empurrar a maçaneta velha e adentrar o aposento sem qualquer anúncio prévio.

Sir Lancelot terminava alguns relatórios escritos à tinta sobre a mesa, sua feição assustada com a entrada abrupta se desfez ao reconhecer o companheiro. Ele levou a mão ao peito e sorriu ternamente.

— Gawain! — o saudou em um suspiro aliviado, aproximando-se dele. — O que faz aqui?!

O Cavaleiro do Sol teve toda sua coragem impulsiva sugada. Havia dias que não o via e agora ele o deixara de guardas baixas. Entreabriu os lábios procurando alguma desculpa pela invasão de privacidade, mas sua voz oscilava. Achou-se inteiramente desestruturado para lidar com a péssima decisão que tomara instantes atrás. Onde estava com a cabeça?, perguntou-se em pânico.

A verdade era que ele sentia-se estranho sempre que com Lancelot já há algum tempo. O cavaleiro conquistara muito mais que tão somente seu respeito, perto dele Gawain não respondia a si mesmo.

Mas precisava de todo jeito tirar satisfações.

— Por favor, me diga que não há nada entre você e Guinevere.

Cabisbaixo, o Cavaleiro do Sol pronunciou-se já arrependido de suas ações. Conhecia bem a Lancelot, o suficiente para captar uma mentira pela hesitação em sua voz, mas não foi preciso ouvi-lo, o francês não defendeu-se e seu silêncio o denunciou.

— Eu não acredito. — Gawain levou as mãos aos olhos, pressionando-os em uma falha tentativa de acordar de um pesadelo, estava furioso. — Ela é esposa de nosso rei! Nossa rainha! Você está fora de si, isso é traição! — Ele precisou de algum tempo encarando o companheiro imóvel para entender o que acontecia. — Não, pelo contrário, você está muito ciente da sua situação, não é mesmo?

Sir Gawain andou até a cama de Lancelot e sentou-se com um sorriso desacreditado. Pela sua cabeça passava-se apenas que se houvesse conversado por alguns minutos com Merlin, o tempo gasto com o mago seria o suficiente para que ele não encontrasse Guinevere deixando o quarto de Lancelot, evitando assim este infortúnio.

O Cavaleiro do Lago passou a retirar a armadura a fim de redimir-se de alguma forma, ainda sem proferir uma única palavra. A luz das velas tremulavam com seu movimento sutil e Gawain observou cada peça ser retirada vagarosamente, acompanhando com o olhar os fortes braços do cavaleiro moverem-se. E quando ele enfim terminou, ficando somente com a roupa de proteção, o loiro foi até ele outra vez por impulso.

Seus braços o envolveram a cintura por trás, apertando seu dorso contra sua própria armadura. Lancelot assustou-se com o abraço súbito, era a segunda vez que o loiro o emboscava assim. Gawain repousou a cabeça nos músculos de sua costa e esperou que os protestos viessem. Suas mãos palpavam o abdome do companheiro, seus dedos entrelaçaram-se uns aos outros ali, impedindo que Lancelot de qualquer maneira se soltasse de seu enlace.

— Gawain — ele o chamou, sua voz vacilante. —, pensei que tivéssemos resolvido este assunto.

De fato, eles haviam conversado depois de um ataque repentino do loiro, Lancelot a princípio correspondeu as carícias, imerso no prazer, mas logo depois tomou ciência do que acontecia e pediu que parasse. Ele fez Gawain lhe prometer que nunca mais faria algo do tipo. Mas que culpa tinha se Lancelot sempre despertava em si instintos que nem ele mesmo sabia ter?

Soltou as mãos para que pudesse contorná-lo por completo pela cintura e o empurrou até a parede pelo abraço apertado. Gawain levantou o rosto alcançando a nuca do cavaleiro, roçando os lábios recém umedecidos ali. Assistiu-o contorcer-se em um arrepio, com a face colada às pedras frias, Lancelot até mesmo tinha os olhos fechados.

— Eu posso te dar mais que ela — começou, sussurrando ao pé de seu ouvido. —, você sabe que posso.

Gawain corroeu-se em ciúmes ao vê-lo junto da rainha. Não lhe incomodava o fato de Guinevere ser mulher ou sua posição na corte, nem mesmo a traição de ambos com o rei. Contudo, ela tinha o afeto mútuo de Lancelot, ela tinha ao seu coração. O Cavaleiro do Sol invejava-a e acreditou que de algum modo pudesse fazer a cabeça do companheiro ali.

Suas mãos subiram até o peito dele sentindo sua respiração descompassada, passou a beijá-lo na curva entre o pescoço e os ombros sem pudor algum. Os murmúrios roucos que Lancelot tanto evitava que saíssem de sua boca tornaram-se inevitáveis ao sentir os dedos alheios passearem por sua virilha. Gawain tomou como vantagem o cavaleiro ter se despido da armadura instantes atrás, havia somente uma camada de couro fino que o separava de seu objetivo.

A mão do loiro desceu seu quadril e subiu pela coxa deslizando-se pelo lado inferior, mas Lancelot não pode conter-se ao senti-lo acariciar seu membro por cima da calça de proteção, ele tomou a parede como apoio e tentou soltar-se dos braços fortes do loiro. Gawain cessou os movimentos.

— Você quer mesmo que eu pare? — questionou nervoso.

— Isso é errado. — Seu tom soou baixo, seus braços esticados contra a parede tremiam.

— Porque eu sou um homem. — Gawain trincou os dentes. — Você está certo, talvez eu devesse colocar em pauta em algum conselho sua relação com Guinevere, pois é o correto, não é mesmo?

— Você não faria isso...

— Não, eu realmente não faria. — Ele tinha orgulho como um cavaleiro, não jogava baixo assim, ainda por cima tratando-se de Lancelot.

Gawain o soltou cabisbaixo, colocando um passo de distância entre eles, não conseguia mais olhá-lo diretamente.

— Eu sinto muito, Gawain, não posso retribuir seus sentimentos — disse recompondo-se, mas de suas palavras o loiro apenas sentiu ódio.

— Na verdade, você não quer — retorquiu entredentes.

Ele deixou o dormitório do cavaleiro e seguiu para o seu. Aquele fora o último dia que eles trocaram palavras como companheiros.

O que mais doía em seu peito era saber que havia um vestígio de sentimento por ele em Lancelot, mas o francês estava tão cego por seus erros com Guinevere que era incapaz de enxergar-se errando com Gawain.

Nos próximos meses eles se evitariam em todas as ocasiões possíveis, mas Gawain jamais deixou que seu desempenho caísse. O mesmo não cabia a Lancelot, que afundou-se em remorso e cada vez mais envolvia-se com a rainha. Ele via em Guinevere a si mesmo, o reflexo do lado negativo da glória de Arthur, o rei que não tinha desejo próprio. Sentia-se culpado e ainda assim, estava longe demais para voltar pelo caminho percorrido.

Quando sua traição finalmente veio à tona, para fugir ele matou Gaheris e Gareth que colocaram-se em seu caminho. Ter seus irmãos assassinados pelo homem que amava devastou Gawain e ele jurou não perdoá-lo. O tempo passou, mas não seu ódio, o rancor guardado em si tornou-se grande o suficiente para apagar as boas memórias com Lancelot, deixou de considerá-lo um cavaleiro e inclusive negava-se a reconhecer o perdão que Arthur lhe oferecera.

Com a revolta de Mordred, ele foi gravemente ferido em uma velha lesão causada pelo Cavaleiro do Lago, a Batalha de Camlann foi sua última peleja. Sir Gawain por fim teve seu nome gravado no Trono de Heróis em lágrimas de dor e arrependimento, amou e perdeu a Sir Lancelot du Lac, que a princípio jamais fora seu.

Notas finais
Sugestões e críticas são mais que bem-vindas, sintam-se livres para darem suas opiniões. Eu gosto muito de conversar com meus leitores. E por favor, comentem! É minha primeira fanfic lanwain e estou um pouco nervosa sobre a recepção de vocês, seria legal saber o que acharam. Até mais ♡
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!