Huracán

1 Capítulo 1 - Rojo


Depois de três anos morando na mesma cidade, estudando no mesmo colégio e encontrando as mesmas pessoas, tivemos que nos mudar novamente. A notícia veio como um balde de água fria. Eu sempre me adaptei fácil aos lugares, mas eu não queria ter que começar tudo do zero novamente. Fazer novos amigos, conhecer novos vizinhos e enfrentar o primeiro dia de aula no novo colégio. Meu pai era militar e sempre vivíamos de cidade em cidade. Mas eu não tinha outra escolha e tive que me mudar pra pacata cidade de Josville, que tinha cerca de sete mil habitantes.

Chegamos justo no dia do aniversário da cidade e as ruas estavam um caos, demoramos mais ou menos dez minutos tentando passar no meio da multidão. A cidade tinha um clima aconchegante e um pouco nublado, mas para mim não seria problema. Um ponto positivo de Josville é a praia, logo quando cheguei estava muito animada para ir dar um mergulho.

Primeira mudança que notei foi a casa, sempre vivíamos em apartamento e daquela vez era uma enorme casa e com um jardim lindo. Mas eu não queria me empolgar muito, talvez nem iriamos aproveitar tanto assim a nova cidade.

— Vamos deixar nossas malas lá em cima e voltarmos para praça da cidade, hoje vai ser minha apresentação como novo delegado de Josville. — Meu pai falou assim que estacionou o carro em frente e a casa. Tirei o cinto de segurança e corri para a entrada da casa, sendo a primeira a entrar. A casa era espaçosa e eu já tinha noção disso. Subi rapidamente as escadas que dava para um corredor longo, no final do corredor tinha um quarto e fiquei boquiaberta quando vi que dava visão ao mar.

— Já escolhi meu quarto. – Gritei empolgada e ouvi minha mãe falar um “ok”. Corri rapidamente para janela e de lá vi várias pessoas na praia. Abri um largo sorriso ao senti o cheirinho do mar. Sem dúvidas aquela seria uma ótima vista ao acordar todos os dias.

— Amélie! Vamos, não quero chegar atrasado. – Meu pai gritou do andar de baixo. Fechei a janela e desci as escadas, meu pai estava inquieto ao lado da porta batendo o pé direito no chão de madeira.

Quando chegamos à praça, meu pai juntamente com a prefeita da cidade subiu no palanque que ficava no meio da praça e se apresentou. Eu não quis subir por timidez e fiquei só observando mesmo. Quando ele terminou a apresentação eu pedi para ir até a praia e eles deixaram.

A praia da cidade era linda e eu parecia uma boba com um largo sorriso estampado no rosto. Saquei o celular do bolso e tirei uma foto do mar para atualizar minha rede social. Tirei meus sapatos, subi um pouco a barra da calça e comecei a caminhar até a água. Quando sai da água me senti em uma cena de filme, quando olhei na direção em que eu estava caminhando tinha uma mulher com altura mediana, cabelos vermelho vibrante e um lindo corpo. Pisquei algumas vezes para ter certeza que não era coisa da minha cabeça e para minha felicidade era real. Ela estava conversando com uma garota loira e tinha outras pessoas com ela. Levei um baita susto quando ela percebeu que eu estava olhando pra ela. Por sorte meu celular começou a tocar e no visor mostrava o número da minha mãe.

— Já vamos para casa, estávamos esperando você no estacionamento do shopping ao lado da praia. – Minha mãe falou do outro lado da linha, mas eu estava prestando mais atenção na moça na minha frente e ela continuava me olhando. – Amélie? – Minha mãe chamou meu nome quando não recebeu uma afirmação da minha parte.

— Ah, sim, sim! Estou indo. – Falei desviando o olhar da moça do cabelo vermelho.

Caminhei para fora da areia e quando cheguei ao calçadão e olhei uma última vez pra moça, ela tinha posicionado o corpo de um modo que ainda dava para me olhar. Eu não sei descrever a sensação que senti ao ver ela.

—

Na semana seguinte eu comecei minhas aulas. Dois dias antes e eu e minha mãe fomos até a escola e conhecemos mais um pouco da instituição. Justamente no meu primeiro dia naquele colégio uma chuva começou a cair, mas não era uma simples chuvinha, era uma tempestade. Mas as aulas não foram canceladas porque falaram que a cidade sempre tinha esses fenômenos.

Quando cheguei ao colégio o sinal já havia tocado e eu como sempre estava atrasada. Logo quando cheguei à porta da sala o professor fez um aceno para que eu entrasse e assim fiz.

— Turma, esta é a Amélie Dossett. Acabou de se mudar. Muito bem, Amélie, pode se sentar lá atrás, ao lado da Barbara. – O homem de meia idade disse apontando para a menina loira sentada ao lado da janela. – Você vai ter de acompanhar com o livro dela até comprar o seu. Caminhei até onde a menina estava e percebi alguns olhares enquanto eu caminhava em passos largos.

— Oi. – Barbara diz com um sorriso no rosto, afasta um pouco e me dar espaço para que eu sentasse ao lado da janela. Soltei minha mochila no chão, o que produziu um baque surdo ao ser jogada no chão.

— Olá. – Falei sem jeito e dei um meio sorriso. Podia não parecer, mas eu era extremamente tímida e às vezes dava a impressão de eu ser uma pessoa arrogante.

O homem de meia idade — que se identificou como Professor Pedro — pediu que a gente abrisse o livro na página 133, e a Barbara se inclinou em minha direção para partilhar o livro.

Digamos que a aula não estava nada empolgante, decidi abrir a janela ao meu lado para ver se o tempo passava mais depressa. Afundei ainda mais na carteira, a cabeça apoiada em uma das mãos, os olhos fixos no estacionamento ao lado que parecia ser de um hospital. Olhei mais para o lado e tamanho foi o susto quando eu vi a figura de cabelo vermelho, a mesma mulher que vi na praia. No susto acabei batendo meu joelho em baixo da carteira e acabou fazendo um barulho alto na sala, o que atraiu olhares na minha direção. Dei um sorrisinho nervoso e me desculpei. Quando olhei novamente para o estacionamento a mulher já tinha saído de lá.

—

Quando o sinal tocou indicando a saída, Barbara pediu para que eu a acompanhasse até o hospital, ela precisava falar com a tia dela e eu aceitei ir. Caminhamos até lá conversando empolgadas.

— Tia! – Barbara gritou, segui seu olhar e quase não acreditei no que meus olhos estavam vendo. Sim, era a mulher que desde a primeira vez que eu a vi não tinha saído da minha cabeça. E a Barbara era a garota que estava com ela na praia, como eu não tinha notado isso? Talvez eu tivesse ficado mais interessada na tia. Nossos olhares se encontraram de novo e senti uma corrente elétrica passar pelo meu corpo.