Hunting for a Dream
2 Gon
Notas iniciais
Nunca me vi como alguém vingativo. Mas Neferpitou matou o Kaito. E eu a matei, passando por cima de tudo e todos para isso.
E então eu acordei de madrugada vendo meu… eh… melhor amigo… matando meu pai. Meu pai, Ging, pessoa que lutei tanto para encontrar, sendo morto por alguém que tanto amo.
Eu estava pronto para repetir o processo.
Eu era uma das poucas pessoas a quem Killua confiou seu endereço. Começaria por aquela casa de bambu e não descansaria até achar aquele desgraçado. Em certos momentos em que recapitulava a situação, me surpreendia em como estava sendo fácil odiá-lo. “Amor e ódio, duas faces da mesma moeda” é o que dizem…
Quase desisti ao ver aquela pequena casa de bambu no horizonte, mas a imagem de Killua me olhando com provocação enquanto segurava o coração de meu pai me deu fúria o suficiente para me deixar levar por ela.
A cada suspiro ou segundo que parava para tomar embalo, forçava-me a continuar, a esquecer que amava aquela pessoa, a me lembrar de que tinha que vingar outra pessoa amada.
Por Ging. Soco. Por Ging. Soco. Por Ging. Soco. Por Ging. Soco intensificado.
Ele era rápido e desviava com determinação, mas me olhava com medo e confusão, parecia completamente perdido. Mesmo que parte de mim insistisse para simplesmente matá-lo e ir embora, outra parte fazia eu me segurar. Estava esperando. Esperava que ele reagisse. Se ele revidasse, eu o mataria. Se ele dissesse “para!”, “não!”, “espera!”, “desculpa!” ou algo do gênero, eu contestaria a veracidade do que vi e conversaria. Mas não, ele não fazia nada disso! Só desviava e ficava me olhando com aquele rosto perdido, quase apático...
Seria aquele pânico, aquela confusão, aquele… sentimento indefinido que ele expressava, apenas encenação?! Ele sempre foi um bom mentiroso mesmo. Todos os transformadores são, não?
“Instável e mentiroso”, as palavras de Hisoka vagavam em minha mente “Temos uma boa compatibilidade. Complementários devido às características opostas. Podíamos nos dar bem. Mas você tem que tomar cuidado porque os da Transformação são instáveis. O que foi importante no dia anterior é lixo no dia seguinte.”. Então aquele desgraçado estava certo! Devia ter seguido seu conselho… Esses pensamentos me liberaram uma onda de fúria, e consegui lhe acertar um soco não-intensificado na boca do estômago. Ele vomitou sangue. E eu finalmente percebi que ele estava chorando. Mesmo assim, eu não parei. E me odeio por isso.
Já estava começando a suar, já agindo por pleno instinto e sede de vingança, quando num último apelo para que ele me convencesse a parar — só ele tem esse poder — gritei:
— Por que... Você... Não me ataca!?!?!?
Seu pânico aumentou com minhas palavras, mas eu já estava cego de ódio para realmente reparar. Gritei “Saisho wa guu” a plenos pulmões, enquanto juntava toda a aura que me restava em meu punho. Alguma parte de mim reparou que Alluka entrou na sala. Posso até ter reparado que ela corria em direção a Killua. Mas só me dei conta da situação quando senti aquela dor excruciante me atingir. Já havia levado choques, mas nunca havia sido eletrocutado.
Ouvi ainda o som de água e algo duro batendo no chão de bambu antes de perder a consciência sentido o cheiro da minha própria carne queimada.
Acordei por sentir grandes ondas de aura assassina com meus instintos agindo. Entretanto, ouvir foi a única coisa que pude fazer:
—... claro? – era a voz... do Illumi?! – Foi só eu me transformar em você. Para uma transformação rápida eu não preciso de agulhas, sabe. Entrar no quartinho de hotel em que o pai e o garoto estavam hospedados. Foi mais fácil que eu pensava descobrir onde estavam, contando com a reputação do Ging em apagar rastros, transformar minha mão em navalha, como qualquer Zoldyck sabe fazer e arrancar-lhe o coração com um movimento rápido. Sabia que não derrubei uma gota de sangue?! Eu simplesmente esperei Gon perceber-me para então fugir pela janela o mais rápido possível, me destransformado na primeira curva.
“Quando te disse para não fazer amigos, queria penas teu bem, Killu... Não foi necessário muito para ele vir te espancar e matar seu irmãozinho que tanto ama. Ou você o trairia ou ele te...”
Queria muito escutar mais, mas meu corpo chegou no seu limite e perdi a consciência mais uma vez. Achei que não acordaria novamente...
Quando recobrei meus sentidos, sentia como se apenas tivesse piscado. Mas, pelo cheiro, sons e tensão do local, percebi que se passara algum tempo desde que escutara Illumi monologando.
Killua estava deitado em posição fetal não muito longe de mim, tendo suas calças encharcadas de sangue, e parecia que havia chorado tudo que podia. Meu coração apertou terrivelmente ao perceber que tudo fora em vão. Tudo fora culpa minha.
Me xingava internamente de todas as formas possíveis, mas isso não diminuía o ódio que tinha de mim mesmo. Meus segundos estavam contados, não era hora pra me culpar! Era hora pra resolver meus assuntos inacabados! Decidido, disse:
— Ki...Killua…? – nunca imaginei que falar pudesse doer tanto
— Gon?! – Ele já estava se levantado quando falei, e agora vinha desesperado ao meu leito
— Killua. Você me perdoa? – disse com a voz débil, enquanto ele me ajudava a ficar minimamente sentado, e então expliquei ao vê-lo confuso – Escutei parte do que Illumi disse... e... eu sou um completo idiota! Nenhuma das coisas que fiz foram certas, mas meu maior erro foi ter duvidado de você, foi não ter sequer considerado que não tivesse sido você...
Nesse momento eu já chorava em seus ombros, enquanto ele me abraçava com ternura, também chorando. Chorar doía, mas meu corpo estava atento apenas ao sentimento de culpa e ao calor dele.
Desculpar-me era importantíssimo, mas não era esse o “assunto pendente” que queria resolver.
— Killua... – Me desvencilhei de seu abraço com delicadeza, segurando em seus ombros para fazê-lo olhar em meus olhos. Vá! Fale! Você está morrendo! dizia uma parte do meu cérebro Que diferença faz?! Vai só morrer o vendo se afastar de voce, te olhando como se você fosse doente, falando “Nossa, cara... que problemão, hein?! Eh... eu também... huhum... gosto de você amigo”?! É isso o que você quer?! dizia outra parte. Então a primeira parte veio com um argumento que a segunda não pode rebater: Quer morrer um covarde, Gon?! – Killua! Eu... an... eu te amo!
Usei toda a minha força nessas palavras, meu coração batia mais forte do que poderia nas atuais circunstâncias. Minha vontade era de dobrar os cotovelos e acabar com a distância entre nós, mas eu já havia ultrapassado mais barreiras dentro de mim que achava possível.
Seus olhos brilharam ao se encherem de água novamente, ele parecia abalado... mas... não decepcionado...
— Gon... – ele disse num estranho tom de cumprimento. Então, ele me beijou. Suas mãos ágeis se puseram atrás de minha cabeça e me puxaram para um doce e apaixonado beijo.
Parecia um sonho: finalmente confessar meu amor e vê-lo ser retribuído... Eu estava beijando o Killua!!!
Senti-me ficar mais fraco... estava cansado... com sono... Eu não tinha mais muito tempo.
— Killua... – disse, separando nossos lábios pela primeira vez – Acho que me vou...
Killua olhou nos meus olhos, parecia ponderar uma importante questão. Por fim, olhou-me decidido.
Primeiro ele pareceu prestes a se jogar em cima de mim, mas depois mudou de ideia, me puxando por cima dele, o que realmente foi uma decisão sábia, já que doeu menos. Ele me beijou ávida e longamente, para então dizer:
— Eu vou com você.
O choque foi grande, e eu estava prestes a protestar, mas ele já me calou com mais um beijo.
Aquilo era mágico! Não via melhor forma de morrer. Paramos mais uma vez para recuperar o fôlego.
— Eu te amo, Gon. – ele disse arfando, enquanto olhava em meus olhos
— Eu te amo, Killua. – Tudo já estava ficando mais escuro, mas consegui ver que Killua percebeu meu estado
Ele aproximou nossos rostos, apenas tocando nossos lábios e narizes. Um olhava no olho do outro, mas ainda consegui ver o que Killua com o canto da vista: ele transformou suas unhas em lâmias, então enfiou-as na lateral do seu corpo, perfurando o coração. Tudo ficava cada vez mais escuro. Meus sentidos, um por um, me abandonavam. Dizem que a audição é o último sentido que perdemos. E estão certos. Ainda pude ver os olhos de meu amado perderem o brilho quando a vida os abandonou antes de tudo ficar preto. A última coisa que ouvi foi dois baques no chão de bambu...
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