Hunters&killers Caçadores Paranormais - Interativa
6 #6 Um dia carregado
Notas iniciais
Na noite seguinte cheguei ao colégio arrastando os pés, tomado pelo imenso cansaço que parecia jogar-me cada vez mais para baixo. Tomar conta de uma casa e de quatro crianças não era nada fácil e cheguei à conclusão de que eu deveria valorizar muito a vida de donas de casa. Mal consegui dormir pelos choros altos e agudos da pequenininha Ananda, seguidos pelos gritos furiosos de Richard e Tainara. Bem, não eram só eles que queriam dormir no meio da noite. Mamãe acordara de mau-humor, fazendo com que sua lista de tarefas de casa fosse mais rígida. Drew trouxera um gato de rua e quando tentei dizer para que ele largasse o bichano onde ele havia encontrado, começou a birra capaz de assustar os vizinhos.
Porém, graças a Zeus eu estava na Hunters&killers; livre daquele hospício que chamávamos de lar. Joguei-me na carteira e encostei a cabeça nesta, fechando os olhos por um longo momento. Ashley puxou uma cadeira a minha frente, se sentando de frente para mim. Não precisei olhar, sentia pelo cheiro que era ela.
– Você está péssimo! – Comentou como se uma pessoa cansada fosse uma coisa anormal do Mundo.
– Não me diga – Respondi com um bocejo.
– Hey, hey! Alguém poderia me dizer que aula é agora? – Duca se aproximara, trazendo consigo Dark.
– Já lhe disse milhares de vezes que é aula de química – Quem havia respondido fora o mais velho logo ao seu lado.
– Química? Aff! Detesto química. Sempre acaba bagunçando as coisas – E deu uma mordida em um sanduiche que trazia junto a si.
– Gente, evite falar demais, okay? – Ash pediu acenando com a cabeça em minha direção.
– O que foi? – Duca dividiu a mesma cadeira onde eu estava.
– Não precisa se preocupar tanto comigo – Dei um leve sorriso – E você, pensei que só era desse jeito com os novatos.
– Também, mas você é meu amigo, né?
– Amigo – Repeti para mim mesmo.
Uma professora entrou na sala, os dois garotos que estavam ao meu redor foram se sentar, todavia Ashley preferiu ficar ali mesmo, não ligando para a mulher de idade avançada que caminhava para perto do quadro negro. Ela não me parecia com o professor de química de sempre. Ele não tinha cabelos loiros e curtos. E também era alto como um poste, ao contrario dela.
– Boa noite classe – Cumprimentou com a voz baixa – Sou a professora Hanna, sua substituta – Ah, isso explica – O professor Daniel não pôde comparecer devido a uma lesão grave na perna direita recebida em sua última caçada. Ficarei com vocês por pelo menos três semanas.
Metade da sala vaiou. A professora tentou dizer algo para acalmar a algazarra dos alunos, porém de nada adiantou já que estes não a escutavam. A gritaria só fez minha dor de cabeça piorar, tampei os ouvidos com as palmas das minhas mãos. Aquela ação da parte deles servia para dizer o seguinte: “Não devemos respeito nenhum para os professores substitutos”.
– Calem-se ou a média de todos será zero! – Ameaçou.
– Você não faria isso – Debochou Ash ao meu lado, tentei fazer com gestos de mão a melhor forma de diz a ela para não abrir a boca, mas já era tarde demais.
– Ah, com toda a certeza eu faria – Todos se calaram num toque de mágica. Que espécie de monstro a professora era?
Quinze minutos depois estavam todos copiando a página do livro em silêncio. Fora um castigo pela péssima recepção. Sabíamos todos disso, apesar dela só ter transmitido isso através de olhares. Até que a aula estava passando tranquilamente. E o sono vinha, minhas pálpebras pesam...
– Hey você! – A professora gritou bem alto, me despertando. O grito estava perto demais para ter vindo da mesa dela.
– Ã? – Levantei a cabeça para encará-la – Dormi por muito tempo?
– Só vi seus olhos se fecharem – Bufou e voltou para frente da sala – Não quero mais ver-te desacordado em minha aula!
Isso é tão chato.
Fiz um esforço para prestar atenção no caderno. Faltava metade do texto para ser passada a mão. Iria demorar até que a próxima aula chegasse e mesmo que eu tivesse de terminar em casa, não teria tempo.
– DEEEEMOOOOOON! – Uma voz animada berrou o meu nome, de repente vi a porta fecha da sala sendo aberta com um estrondoso barulho, quase que sendo arrombada. Um pequeno ser sorridente adentrou o lugar, atravessando rapidamente a professora incrédula com a cena. O moreninho das finas mechas coloridas e olhos brilhantes; viera diretamente até mim. Só tive tempo de indagar:
– Manson...?! – Fui abraçado com força, quase que sendo sufocado.
– Quem é você? – Quis saber a professora.
– Cheguei atrasado, desculpe professora – Respondeu o vampirinho, sem deixar de aumentar sua força nos braços – Sou aluno novo aqui na Hunters&killers. Chamo-me Manson Nightmare.
– Vo... Cê... E- Está-me... Enforcando...! – Tentei afrouxar aquele abraço da morte.
– Considere como um acerto de contas pelo o que aconteceu na floresta há duas noites – Cochichou em meu ouvido, pude simplesmente sentir o sorriso brotar em seus lábios.
– Senhor Nightmare, sente-se em uma carteira vaga, por favor – Pediu a professora. Ele meneou a cabeça negativamente.
– Não, não. As carteiras vazias ficam longe do Demon! Quero ficar pertinho dele.
Meu Zeus. Por que comigo?
Percebi que algumas garotas seguraram os risos e se não fosse pela má circulação de sangue em minha cabeça, com certeza eu estaria corado de vergonha.
– Faça o que eu mando garoto! – Ela se exaltou. Ele fez um bico.
– Que coisa...
Livre dele, pude finalmente voltar a respirar normalmente. Ainda estava incrédulo pelo fato de ele realmente ter vindo para a Hunters&killers. Manson era insuportável e me perguntei até quando eu aguentaria conviver com ele neste colégio...
[...]
– Muito bem alunos, na aula de combate de hoje vocês estarão livres para escolher o modo de batalha e suas armas ou magias. Porém, eu escolherei seus respectivos pares – A voz do professor Nancy ecoou pelo amplo salão destinado a nossas aulas. Sua dimensão era esplendidamente ampla, tendo um formato arredondado e bem iluminado. Nós estávamos em fila horizontal, um de lado para os outros. Este professor era um dos mais rígidos, embora a maioria daqui fosse. Nancy na verdade deveria ter quase a mesma idade que a nossa, julgando pela aparência, sem contar que eu já o vira em algumas caçadas paralelas as nossas – Começando por você... – Ele fez uma lista de pares mais safados que poderia existir, como se já conhecesse todos e seus desgostos – E Demon vai com o Kill Bleed.
Como eu já havia dito, os pares mais safados que poderiam ter.
Ele caminhou até mim sem o menor ânimo, a expressão não demonstrava nada.
– E aí vampiro? – Lancei lhe um sorriso sarcástico.
– O que você tá olhando exorcista? – Respondeu-me frio. E sei exatamente o motivo. Vamos dizer assim... Que ele não teve um histórico bom com a minha espécie.
Começamos o jogo de passos após receber duas lanças do professor, olhávamos um nos olhos do outro cada um prestando atenção em seu oponente. Desferi o primeiro golpe que fora bloqueado pelo moreno em minha frente. Dei um passo para trás, me recompondo pelo pesado impacto.
– Sabe que não sou o mesmo que quase te matou, né? – Indaguei, voltando ao jogo de passos.
– Me lembra – Pegou impulso para descarregar um golpe na horizontal, abaixei para desviar – E também tem o fato de que um exorcista tirou a vida daqueles com quem fui criado.
– Meus pêsames – Foi minha vez de atacar, sendo mais uma vez bloqueado.
– Não preciso de seus pêsames – Empurrou-me com o cabo de sua lança e em seguida já partiu para cima. Desviei de dois de seus golpes e descarreguei os meus, e como era de se esperar, ele se esquivou numa velocidade impressionante.
– Sempre tão frio assim? – Minha respiração já se acelerara, já ele, mal começara a suar.
– Morra! – Uma série de golpes rápidos foi desferida de sua arma, tive de me esforçar para me esquivar e defender a todos na mesma velocidade. Num deles, o cabo foi quebrado pela força com que bateu no chão. Olhei-o assustado.
– É só uma aula, não vai me matar de verdade, né? – Kill Bleed apanhou uma parte da lança do chão e segurou-a com firmeza.
– Por mim todos morreriam – Resolvi eu dar o primeiro golpe, pois já sabia o que esperar dele.
Foi uma luta deveras realista. Seus golpes eram rápidos e fortes, já eu contava com a precisão e pontos estratégicos para desarmá-lo. Acabamos por ir longe demais, sendo influenciados pela conversa calorosa. O professor Nancy teve de nos separar, arrancando as lanças de nossas mãos.
– Vão acabar se mantando – Disse ele. Olhei de relance para o outro garoto.
– Não foi nada, sor. É só uma aulazinha de combate – Respondi sentindo algo em meu rosto. Passei as costas da mão e não admirei ao vê-la voltar com sangue. Agora, fitei Kill Bleed que tinha os olhos estreitados. Percebi também que eu conseguira feri-lo em alguns pontos.
– Vão limpar isso – Mandou o professor – Só espero que não resolvam levar esta aula pelo caminho.
– Não senhor.
[...]
Todos nós encontramos alguém com quem não nos damos bem. Esse era o pensamento que rodava em minha mente enquanto lavava o rosto no banheiro do colégio. Querendo ou não, sempre haveria uma pessoa ou outra que queira nos mandar para longe. Não culpo Kill Bleed por essa raiva que ele tem, afinal, aconteceram tantas coisas com ele desde o seu nascimento...
Joguei mais uma concha d’água no rosto e desliguei a torneira, apoiando as mãos na pia e observando meu reflexo no espelho. Com toda a certeza aquele corte deixaria uma cicatriz na horizontal, bem abaixo do meu olho direito. Respirei fundo e resolvi voltar para a aula. Kill Bleed estava fumando justo no corredor, não era impossível tirar a conclusão de que ele mataria a próxima aula. Dei de ombros e virei-me para o meu caminho.
Entrei novamente na mesma sala de combate, já que esta ainda não havia acabado. Sentei-me em um canto qualquer e observei as simulações de combates. Muito interessante...
Halloween Doll era bem atrapalhada e nas horas de caçada ou coisas do tipo, explodia tudo o qualquer tipo de coisa possível. Uma explosão atrás da outra. Mas seu oponente era o Dark Lord então imaginei que não teria problema, não é só porque ele é meu amigo que eu digo que é um ótimo combatente, pois ele era absolutamente bom. Desviava de cada truque da garota de cabelos cor-de-rosa, fazendo as suas típicas piadas.
– O- opa! Essa foi quase, hein menina fofa? – Ele dizia, esquivando como se as bolas de magia fossem simples objetos – Tá indo bem, vamos! Acerta aqui ó!
E não é que ela conseguiu acertar bem onde ele mandou? Dark voou alguns metros para trás e eu vi a cara de desespero da Annie. Ela primeiramente colocou as mãos em frente à boca, escondendo a sua expressão. O garoto acenou com a mão, ainda estirado no chão:
– Eu tô bem! – Falou, acalmando a garota que foi ajuda-lo a se levantar. Não consegui segurar o riso. Pareciam ambos desastrados, embora tantas diferenças. Tenho que admitir que ele me lembrasse do Deadpool da Marvel – Tá rindo do que aê?! – A pergunta foi destinada a mim, em tom brabo, porém de brincadeira. Parei a risada com um pigarreio e levantei as palmas das mãos na altura dos ombros.
– Nada, só lembrei-me de uma coisa que vi hoje de manhã – Menti, e isso estava na cara de qualquer um.
– Sei. Fica quietinho aí no seu canto – Mostrei lhe o polegar como se dissesse “Okay”.
Passei os olhos pelo salão mais uma vez e assim se resumiu a aula de combate em prática.
[...]
As caçadas foram liberadas esta noite, todos se separaram e foram caçar o que bem queriam. Apenas a ala leste fora censurada. Todavia onde estava eu num momento de prazer como aquele? De ver minhas presas deixando a vida lentamente e implorando por misericórdia? Eu só poderia estar na diretoria pelo chamado do Sr. Ronald. Queria que a conversa acabasse logo para eu poder ter pelo menos um tempinho para caçar.
E então você me pergunta: sobre o que estou prestes a discutir com o professor? Para começar não é nem sobre o colégio se tornar interno, é uma coisa muito pior. Iriamos discutir sobre Manson na qual o diretor chamava de “garotinho elétrico”.
– Qual é o problema, senhor? – Indaguei, com os dedos cruzados para que ele dissesse que Manson não pudesse ficar na escola.
– O garotinho elétrico veio ao meu colégio e começou a estudar sem que eu estivesse ciente disso. E ele me contou que era você o responsável por me avisar.
– Eu não sabia que ele viria para a Hunters&killers de verdade.
– Mas esse não é o problema principal. Não vamos dar conta de um garoto como aquele. Só apronta e não faz nada em compensação. Até aquela sua colega... Ash não é? Ela é mais comportada que ele. E olhe que ela é uma peste! – Tive que fechar os olhos por um momento para que ele não visse meus olhos se revirando.
– O Manson pode não ser o melhor aluno da escola, mas tenho certeza que esse comportamento durará por pouco tempo.
– Pois veja a ficha que eu mandei que ele preenchesse para o colégio...
Entregou-me a folha de papel formal, pedindo nome, endereço e toda aquela baboseira de matricula, porém os espaços que deveriam ser preenchidos estavam cheios de baboseiras e desenhos cômicos. Inclusive um meu... Masquemerdaéessa?! Ao por meus olhos naquele desenho quase tive vontade de queimá-lo. E por pouco não fiz isso. Não irei descrevê-lo mais por não querer observar os detalhes. Devolvi-o para o diretor.
– Tenha um pouco de paciência com ele – Pedi, embora nem soubesse o porquê de estar defendendo-o – Uma hora ele amadurece.
– Não quero infantilidades na Hunters&killers, Demon – Eu cruzei os braços e acenei com a cabeça afirmativamente, só para dizer que eu escutava – Está ciente de que esse Manson é responsabilidade sua não é mesmo?
– Como?! – Me exaltei – Nunca me responsabilizei por aquele vampirinho pervertido!
– Você foi quem deu a ideia de trazê-lo para cá, então agarre suas responsabilidades – Bufei. Bateram na porta – Pode entrar.
Bastou esse comando e o diabo entrou todo saltitante na diretoria, mostrando todos os dentes com seu sorriso.
– Olá diretorzinho – Era Manson – Me chamou?
– Sente-se – O maior pediu, indicando uma cadeira ao lado da minha. Mas, como já era de se esperar, o baixinho sentou-se no meu colo fazendo com que eu subitamente corasse.
– Não aqui! – Murmurei entredentes. Ele riu.
– Mas eu quero aqui – Evitei uma face palm e rezei para que o diretor não estivesse pensando besteira.
– Coloque uma coleira ou arranje um jeito para segurar esse menino – Ronald disse – De qualquer forma quero que mostre o colégio para ele já que começará a frequentar a Hunters&killers – Manson bateu palmas sorridente, feliz com a ideia – Mas já sabe né? Qualquer dano...
– Responsabilidade minha – Completei – Já sei.
Agora, além dos meus irmãos tenho esse baixinho para cuidar. Magnifico.
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