Hunters&killers Caçadores Paranormais - Interativa
3 #3 Caçadas com exorcistas
Notas iniciais
Eu adorava aquilo. Tentava manter minha respiração baixa o suficiente para que minha caça não ouvisse. Eu estava escondido no meio das folhagens da floresta com o arco pronto para disparar a flecha com a ponta feita de prata. O lobisomem estava sob minha mira, sem sequer desconfiar que esteja sendo observado. A escuridão se tornara minha aliada naquela hora. A lua estava sendo coberta por nuvens arrastadas vagarosamente pelo vento fresco, que além de tudo, fazia com que meu cabelo roçasse em meu rosto.
Soltei a flecha juntamente com a corda após deixar que um sorriso de canto tomasse conta da minha expressão. A flecha voou numa velocidade incrível, rodopiando algumas vezes antes de acertar o alvo. Senti leves tapas sendo descarregados em meu ombro:
– Bom trabalho. Obrigado pela demonstração.
O professor McGee, de prática em campo, me elogiou. Os outros alunos observavam minha demonstração; alguns indiferentes como se dissessem: “Moleza”.
– Não foi nada, sor. – Respondi, com um sorriso sem dentes.
O professor caminhou até o boneco de palha feito para se parecer com um lobisomem, arrancando minha flecha dele.
– Demon nos mostrou como se comportar durante uma situação de caçada. Alguém me poderia dizer como chamamos os monstros descontrolados?
Boa parte levantou a mão. Uma resposta fácil comparada a outras matérias que tínhamos. Eu sabia muito bem, mas também sabia que o professor não me escolheria, então cruzei os braços atrás da cabeça e esperei. O professor McGee procurava ouvir as pessoas que ele tinha quase certeza de que não sabia a resposta. Tá aí o porquê de eu não optar por pronunciar.
– Halloween Doll? – A garota de vestido preto encarou-o, assustada. Não havia levantado à mão. Suas bochechas vermelhas contrastavam sobre a pele pálida como leite.
– E- Eu?
– Sim você – Responde seco – Está vendo outra com o mesmo nome? – Isso só colaborou para que ela ficasse mais corada.
– Effusus... – Respondeu com a voz baixa.
– Agora, alguém pode me dizer o porquê desse nome?
Sebasthian Allan Reinsenberg se atreveu a levantar a mão. Tsc. Tsc. Ele tinha dezenove anos de idade. Agora, transformado, mudava completamente quando estava em sua forma humana. Cabelos muito compridos e brancos, sem contar os olhos completamente brancos, sem pupila ou íris. A roupa não passava de uma típica armadura forjada, diz ele, pelos melhores anões ferreiros de Faerie. Era do tipo popular, aluno normal.
– Dark Prince? – Incentivou o professor.
– Effusus significa descontrolado em latim – Sorriu. Talvez feliz por ter acertado a resposta.
– Muito bem. Já que esta é a última aula, libero vocês para as caçadas – Exclamações de alegria tomaram conta do ambiente – HEY! Atenção! Ainda não terminei. Quero duplas com as mesmas espécies e não se afastem muito do colégio.
Ah, sim! Agora era a melhor hora de todo meu dia. Abri um sorriso de tubarão e acabei deixando que um uivo escapasse. Não sou lobisomem, mas uivar de vez em quando te deixava com uma ótima sensação.
Dark Lord se aproximou de mim. Ele também era um exorcista e com uma mania de ficar mexendo nos cabelos, escuros por causa da transformação. Tinha dezoito anos e era bem elétrico. Na maioria das vezes fazia piada nas salas, irritando os professores. Porém o que eu mais gostava nele era sua concentração nas caçadas. Apesar de sempre estar tagarelando, na hora de matar ele raramente abre a boca. Era um ótimo parceiro.
– Vamos caçar o que hoje? – Indaguei pegando minhas pistolas que se poderiam ser manuseadas com ambas as mãos. Encantadas logicamente. Armas normais nunca que matariam os monstros que caçamos.
– Hm... Da última vez cacei feiticeiras... – Respondeu pensativo – Que tal apostarmos nos vampiros?
– Tô dentro!
Batemos um High Five antes de nos infiltrarmos entre as árvores sombrias da floresta. Aquele mesmo vento de antes se tornava cada vez mais frio, todavia só nos ajudava para que o calor não incomodasse. Eu amava a noite e o frio, imagine minha reação ao saber que Dark Lord tinha os mesmos gostos? Com toda a certeza nos daremos bem pelo resto do ano.
Ouvimos barulho de folhas secas sendo esmagadas, então nos escondemos atrás das árvores ao redor. Outro sorriso resolveu brincar em meus lábios. Os passos eram rápidos, indicando que quem quer que fosse estava com pressa. Esperei mais um pouco até que Dark acenasse com a cabeça indicando que estava preparado para atacar. Acenei de volta e contamos simultaneamente até três em nossas mentes, saltando do esconderijo ao terminar a contagem.
Relaxei os ombros e abaixei as armas ao perceber que se tratava de um simples cervo. Já meu colega, mantéu sua espada Katana acima do ombro direito, segurando-a com ambas as mãos.
– É só um cervo, Dark – Murmurei para que não chamasse muita atenção.
O animal se virou para nós antes de correr floresta adentro. O garoto ao meu lado só relaxou ao ver aquela cena.
Continuamos a andar o mais cautelosamente possível, evitando fazer barulhos desnecessários. Logo senti uma estranha sensação de que estávamos sendo observados. Procurei com os olhos algum sinal de que não estávamos sozinhos. Dark segurou com força sua Katana, atento.
As cigarras e grilos preenchiam o ar com suas melodias e os vagalumes tentavam iluminar a floresta da melhor forma que conseguiam. Mas entre tantos sons florestais, ouviu-se um não tão comum. Aparentava serem dezenas de macacos revoltados, gritando como se protegessem a floresta de alguma coisa. Mas para a minha confusão, o som se encontrava há quilômetros de distância. Foram seguidos por tiros e grunhidos.
“Deve ser o outro grupo” Passou pela minha cabeça. Retomei meu caminho.
Andamos por mais dez minutos atrás de nossas caças até que os sons dos nossos passos fossem interrompidos por um grito do meu colega.
– DARK! – Gritei logo depois de escutá-lo. Procurei-o por todos os cantos – DARK! CADÊ VOCÊ?!
Escurei alguém correndo como se estivesse em fuga. A velocidade era muito maior do que a de um simples ser humano. Vampiros!
Corri atrás dos sons intermináveis de folhas sendo esmagadas antes que desse tempo de o sequestrador se afastasse demais. Forcei minhas pernas o máximo que pude, mas parei ao chegar ao meio da floresta, onde havia uma espécie de circulo de grama baixa e seca; sem árvores.
– ONDE ESTÁ VOCÊ, SANGUE-SUGA DE MERDA?! – Provoquei inquieto a procurar por Dark.
– Demon of Dark... Há quanto tempo – Ouvi uma voz vagamente familiar atrás de mim. Virei-me, só para dar de cara com o nada – Ouvi dizer que está estudando na Hunters&killers, hum?
Agora a voz viera do outro lado. E assim foi. Virando-me pelos lados que ouvia barulho.
– É; tanto faz – Respondi – Quem está aí? – Ergui uma sobrancelha, um tanto animado com o desafio de pique-esconde.
– Por que não brincamos de adivinha?
– Estou com um pouco de pressa no momento... Então poderia fazer a gentileza de me devolver meu amigo?
– Da última vez que te vi você não tinha amigos, Demon.
Eu ficava cada vez mais curioso para saber de quem aquela voz pertencia. Até que uma hora o avistei. Era baixinho. Tinha cabelos pretos; e sardas bem distribuídas pelas bochechas. Aparentava não ter mais do que quinze anos de idade. Os olhos pareciam famintos, tomando uma cor escarlate. Ao voltar a falar não escondeu as presas brancas, que se destacavam na noite.
– Olá. Lembra-se de mim? – Quis saber, se aproximando cada vez mais, pondo um pé a frente do outro. Soltei um riso pelo nariz.
– Como me esquecer, Manson Nightmare?
O garoto era um velho conhecido meu. Tínhamos feito amizade numa de minhas caçadas ainda antes de me matricular na Hunters&killers. Foram bons momentos... Eu disse foram.
Ele começou a me rodear como um felino fazia quando estava carente. Ainda bem que não ronronava.
– Você sumiu tão de repente – Disse fazendo um biquinho infantil – Senti sua falta.
– Não sei se devo ficar feliz com isso – Toda a nossa conversa usei o tal sarcasmo. Manson grudou em mim, brincando com meus cabelos arroxeados.
– Éramos tão amigos...
Afastei-me um pouco, não gostando daquela proximidade.
– É. Você usou a palavra certa: Éramos – Ele sussurrou um “que frio” antes que eu continuasse – Depois daquele dia nunca que vou reatar nossa amizade. Agora onde está o Dark Lord?
– Ah, aquele outro exorcista? – Ele sorriu, fazendo automaticamente que seus olhos brilhantes se estreitassem – Aposte que nunca mais verá ele.
Eu não ia dar muita bola para aquela frase estupida dele, mas nem precisei quando vi e ouvi outro vampiro voando de dentro da floresta para a área sem a cobertura das árvores. Não se passou muito tempo para que eu avistasse meu colega, batendo as mãos uma na outra, como se dissesse “Fim do trabalho pesado”.
– Mas o q... – Começou Manson. Peguei-o pelo pescoço, levantando seus pés do chão sem muita dificuldade – De... Mon... Tô ficando... Sem... A- ar... – Sorri como uma criança.
– Devemos acabar com você aqui mesmo?
Dark Lord encostou uma estaca de madeira especial que carregara consigo no lado esquerdo do peito dele, fazendo com que se desesperasse.
– Seu colega ali já se foi – Anunciou meu parceiro. Os olhos de Manson passaram de arregalados para esbugalhados, parecia que a qualquer momento aquelas lindas bolinhas vermelhas saltariam para fora das órbitas – Não vai virar morcego e fugir? – Zombou.
Manson balbuciou mais palavras sem folego. Joguei-o no chão, já cansado de segurá-lo alto. Antes de qualquer coisa, Dark o imobilizou ali mesmo, sem deixar de segurar a estaca sobre o coração do outro. Aproximei-me, curvando meu corpo para encarar seus olhos contrastantes. Ele primeiramente tossiu uma série de vezes, procurando desesperadamente por ar. Depois me fitou de volta, com a voz rouca disse:
– Foi mal Demon! Foi mal! Agora me deixe ir e eu juro nunca mais te incomodar ou aos seus amigos!
– Não acredito em suas promessas – Respondi seco.
– Quando quiser... – Me informou Dark Lord, indicando que já estava preparado para terminar nossa caçada com o sangue amaldiçoado de Manson.
– NÃO! POR FAVOR, NÃO! – Implorou ele, se debatendo. Fez o maior escândalo, como se fosse uma criança birrenta.
– Cale a porra dessa boca! – Mandei claramente irritado – Quantos anos você têm afinal? Está muito grandinho para fazer essas palhaçadas infantis.
– Demon, somos amigos caramba! Poupe minha vida. Sabe que eu nunca consegui fazer mal a uma mosca! – Mais uma tentativa falida e desesperada.
– Posso? – Me perguntou meu colega.
– Espere só mais um pouquinho. Estou gostando de vê-lo sofrer.
– Você é tão mau, Demon – Choramingou o moreno das sardinhas. Agora seus olhos brilhavam não só pelo cintilante natural da cor escarlate, como também por causa das lágrimas que se acumulavam neles – Vai mesmo me torturar emocionalmente para no fim me matar? Você está precisando de um exorcismo!
– Ai, Ai! Que trocadilho velho – Falei depois de um falso bocejo – Dark...
Ele levantou a estaca de madeira, pegando impulso para dar o golpe. Manson fechou as pálpebras com força, como se aquilo fosse diminuir a dor que viria logo em seguida.
– Abre os olhos. Quero que você veja a sua vida deixado teu corpo – Murmurou de um jeito meio psicopata.
– NÃO! – Contrariou Manson, fechando-os com mais força.
– Nem para dizer “adeus” para mim? – Perguntei com ironia. Para minha surpresa ele finalmente me encarou, procurando meus olhos.
– Eu nunca vou dizer “adeus” para você! Quando morrer vou te assombrar para o resto da sua vida.
Vamos dizer que o garoto não era lá o melhor em ameaças. Estava começando a me dar dó. Agachei-me para mais perto dele.
– Como você é possessivo – Fiz uma careta rápida – Okay, me dê um motivo para deixar-te ir.
– Demon... – Advertiu Dark Lord.
– Tudo bem Dark. Deixe-me ouvir essa.
– Ér... – O menor pensou por um longo instante – Não sou um vampiro descontrolado.
– Como? – Eu e meu colega indagamos juntos.
– Não sou um Effusus. Sei controlar minha sede de sangue. E eu ouvi dizer que a Hunters&killers só mata essa espécie...
Fiquei abismado. Era bem provável que ele estivesse falando a verdade. Se nós matássemos Manson sem que ele fosse um Effusus e o colégio ficasse sabendo, seriamo-nos os descontrolados da história.
– O solte – Pedi.
– O quê? – Dark ficou perplexo – Vai deixar nossa caça fugir sem mais nem menos?
– Isso! Deixe a caça fugir sem mais nem menos! – Manson se exaltou, animado com a idéia. Meu colega o fuzilou com o olhar.
– Ele não é um Effusus. Não podemos mata-lo – Expliquei mais uma vez.
– Está certo disso? – Assenti e Dark Lord saiu de cima de Manson. O baixinho se pôs de pé, correndo em disparada para dentro da floresta. Sem dizer mais nada.
Suspirei enquanto meu colega bufou, detestava perder uma caça.
– Vamos voltar agora – Eu disse antes que ele resolvesse me estapear.
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