Hunters Of The Death

1 Luta pela sobrevivência


Frio.

Escuridão.

Sozinha.

Era assim que eu me encontrava. Não era novidade para alguém que passou cinco semanas de sua vida desta forma, mas é claro que a gente acaba criando ilusões de que o dia seguinte pode ser sempre melhor do que o anterior do que o dia de hoje foi.

Mas não é. Nunca é. A não ser que você faça seu dia mudar.

Eu nunca tentei, pra falar a verdade. Não tenho mais estímulos, não depois de ter visto meus pais morrerem diante de meus olhos e eu não ter feito nada para impedir suas mortes. Nada além de seguir o conselho deles e sair correndo porta a fora de nossa casa com Mark e ir procurar refúgio em algum lugar que eles não tinham tomado conta.

Dei um murro de raiva na parede do galpão no qual eu estava escondida havia dois dias. Esse pensamento sempre me deixava com raiva. Eu sentia que poderia sim ter feito algo e ter deixado de ser uma completa inútil para minha família. Mas de quem eu tinha mais raiva neste mundo além de mim mesma, era do Dr. Bóris e sua experiência inútil e mal sucedida que acabou acarretando no que o mundo se transformou hoje. Se não fosse por ele... Se nada aquilo tivesse ocorrido... Talvez...

Encostei minha cabeça na parede e deixei-me levar pelas lembranças boas e ruins daquele dia.

Sexta-feira, 20 de dezembro de 2012

— Luna, venha jantar, querida! – a voz de minha mãe estava abafada pela porta do meu quarto, mas consegui escutá-la.

—- Já vou! – respondi marcando a página do mangá que eu estava lendo e guardando-o na gaveta da escrivaninha. Desliguei a luz do abajur e saí do quarto, deixando a porta aberta enquanto descia as escadas.

Minha família era de uma renda normalizada. Meu pai era advogado e minha mãe era professora. Eu tinha um irmão mais novo, Mark, de seis anos. Meu pai passava boa parte do dia fora de casa e minha mãe idem. Eu e Mark estudávamos em escolas integrais, o que queria dizer que minha família só se reunia mesmo à noite, na hora do jantar.

Cheguei à mesa de jantar já repleta de pratos e travessas que transbordavam de comida. Minha mãe era aquela pessoa que sempre gostava de ver a mesa bem farta.

—- Comam o quanto quiserem, crianças! – ela sorriu para mim e para Mark. – Filho, ligue a televisão para mim, por favor? Está passando o noticiário agora, provavelmente.

Mark foi para sala enquanto eu me servia de macarronada com almôndegas, minha comida preferida. Mamãe e eu éramos muito parecidas fisicamente falando. Ambas tínhamos cabelos pretos e longos, olhos meio puxados devido a nossa descendência oriental. Ela tinha a pele mais branca do que a minha, o que a fazia parecer uma boneca de porcelana móvel.

Sentei-me a mesa e esperei o resto da família se sentar também. O som do noticiário enchia os cômodos da sala. Papai surgiu atrás de mim, dando um beijo carinhoso em minha cabeça e bagunçando meus cabelos. Mamãe e Mark chegaram logo depois dele e então todos se sentaram, servindo-se da refeição.

O noticiário começara falando sobre suas notícias de sempre. Um banco que fora assaltado e levado R$ 15.000,00 reais pelos bandidos, o pedido de demissão de um político de seu cargo, o aquecimento global no planeta. Eu achava tão monótonas estas notícias e nem me dava o trabalho de ouvi-las até o final. Eram as mesmas coisas, todos os dias.

—- Onde este mundo vai parar, meu Deus? – era o que papai sempre resmungava consigo mesmo. Eu achava que não havia como o mundo ficar pior do que já estava.

Mas estava enganada. Como eu estava.

—- Como foi na escola, querida? – perguntou mamãe enquanto enrolava o macarrão no garfo.

Hesitei em responder. Eu fui suspensa por dois dias do colégio por ter dado um soco no rosto de Isabela Martins, por eu não conseguir tolerar mais as risadinhas e piadinhas bestas dela em relação a mim. Há pessoas que ignoram, mas eu sou daquelas que não aguenta ignorar por muito tempo, então tomei uma providência. Como resultado de minha atitude, levei dois dias de suspensão, além de várias chamadas da diretora.

—- Foi bom. – respondi, bebendo um gole do suco de laranja.

—- Foi suspensa de novo, Luna? – papai adivinhou lendo minha expressão. Mamãe franziu o cenho.

—- De novo, Luna? Meu Deus, filha, você tem que controlar seu gênio!

—- Mas eu não tive culpa! – me defendi. -- A garota estava me enchendo há séculos, e um soco na cara não foi nada perto do que ela merecia.

—- Luna! – repreendeu mamãe, mas foi interrompida por Mark, que apontava para a televisão.

—- O plantão de notícias! O que será que aconteceu?

O plantão de notícias sempre significava que algo bom ou ruim acontecera de inesperado. Geralmente, era algo ruim, mas, mesmo assim, eu, Mark e meus pais saímos da mesa para ver o que noticiaria.

—- Urgente, notícia urgente! – o apresentador exclamava assustado. – Um resultado inesperado da pesquisa do honorário Dr. Boris teve um resultado negativo! Depois de um mês aplicadas, as vacinas que foram criadas para ajudar pacientes com leucemia, tiveram resultados defeituosos em humanos! Com mais detalhes, nossa repórter que fala diretamente do Hospital Hermesiano, Ligia Farias.

A repórter estava alarmada também, mas tentou manter o controle na frente das câmeras. Alisava os cabelos louros cor de palha nervosamente para manter a boa aparência. O microfone sacudia em sua mão. Atrás dela, uma fita amarela onde estava escrito NÃO ULTRAPASSE fora colocada. Muitas pessoas, pacientes, enfermeiros e médicos saíam às pressas do hospital e havia bombeiros e policiais no local.

—- Pois é, Valter, um resultado inesperado e que, sem dúvidas, surpreendeu a todos nesta noite de 20 de dezembro. Os pacientes com leucemia que receberam as doses das vacinas e que permaneceram em observação, tiveram seus DNAs alterados, seguidos por células mutantes na corrente sanguínea. Eles tiveram, todos ao mesmo tempo, uma parada cardiorrespiratória devido a pressão intensa do sangue nas artérias e vieram a falecer, mas agora...

As palavras da repórter foram interrompidas por um estampido vindo de dentro do prédio. Nas sombras do prédio escuro, vultos começaram a emergir de dentro da construção. Cambaleantes, vários corpos acinzentados e alguns contorcidos saíam do prédio, caminhando lentamente em direção às faixas de limite que a polícia colocara. O câmera deu um close no rosto dos paciente. As pessoas estavam com as órbitas brancas, o sangue escapando de suas bocas e emitiam um grunhido capaz de ser escutado mesmo através da imagem e áudio ruim da câmera. Mulheres e homens, com as roupas de pacientes sujas e machadas de sangue. Um dos corpos pegara um velho enfermeiro pela cabeça e lhe mordera o pescoço, arrancando os tendões com os dentes e mastigando a carne, espirrando sangue para todos os lados. O homem soltou um horrível grito de dor e, logo depois, ficou imóvel, e o corpo caiu estatelado no chão.

Foi um pandemônio. Todos começaram a correr do local. Médicos esbarravam na repórter e no câmera, até que a transmissão foi interrompida. Papai desligou a televisão. Mamãe colocou a mão na cabeça e disse em uma voz exasperada:

—- O-o que era aquilo?

—- Mortos comendo gente? – perguntou Mark inocentemente.

Mamãe soltou um muxoxo. Papai olhou para a janela lá de fora, como se quisesse ver se algo mudara. A noite permanecia a mesma, fresca e agradável como todas as outras. Parecia até que aquela cena que tínhamos acabado de assistir era surreal, coisa de filme. Zumbis? Não, aquilo não poderia estar acontecendo. Deveria ser alguma coisa de filme de terror, uma propaganda para divulgar, talvez.

—- O que faremos? – minha mãe tentava controlar a voz.

—- Isso é muito estranho. Coisas assim geralmente não acontecem em tratamentos como doenças – papai refletia olhando para o céu.

—- Aquilo que vimos na TV... – falei . – são mesmo... mortos? Tipo, zumbis?

—- Aquilo parecia filme de terror. – Mark disse.

Caminhei até a janela. Morávamos em um prédio de treze andares, no qual nosso apartamento era no sétimo andar. Dava para termos uma boa vista da Barra da Tijuca. A noite parecia igual a todas as outras; carros movimentando-se pela rua buzinando incessantemente, pessoas caminhando de volta para suas residências, sons de uma noite normal em uma cidade. A cena que acabava de ter visto na TV não devia ser nada além de uma cena de um filme de terror. Não fazia sentido algum aquele resultado naquela pesquisa. Como algo que foi considerado a salvação do século pode ter sido revertida ao seu pior resultado?

—- Só podemos fazer uma coisa. – papai interrompeu meus pensamentos. – A polícia e os bombeiros devem estar com tudo sob controle agora. Vamos tentar dormir e, amanhã pela manhã, veremos o resultado.

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Um estrondo me fez retornar a realidade. A porta de metal do galpão estava sendo sacudida com golpes deferidos contra ela. Levantei-me e andei até uma pequena abertura da parede e automaticamente recuei, horrorizada. Uma verdadeira horda de zumbis se aglomerava pelas laterais do pequeno cômodo. Eu não tinha mais tempo. Tinha que sair dali. Agora.

O galpão armazenava alguns instrumentos de trabalho no campo. Eu precisaria de algo para lutar contra os zumbis; não ficaria fugindo deles para sempre. Vasculhando pelos cantos, encontrei um machado de dois gumes. Apesar de grande, ele não era tão pesado. A lâmina refletiu a claridade da lua que entrava por uma pequena abertura no telhado. Ergui os olhos e percebi que eu talvez tivesse uma chance. Meu coração se encheu de esperança pela primeira vez em muito tempo.

Subi em alguns caixotes de madeira, ignorando as investidas cada vez mais violentas contra a porta. Ela tinha que aguentar mais algum tempo. Comecei a golpear o teto de madeira frágil e consumida por cupins. Quando o buraco do teto estava bom o suficiente para eu conseguir passar, a porta veio ao chão. Agarrei minha mochila e joguei o machado sobre o teto. Icei-me para fora no momento em que um dos zumbis roçara a mão pelo meu coturno.

Primeira parte do plano: completa.

Com muito cuidado, andei para o outro lado do telhado, mas tive uma surpresa desagradável. Eu estava cercada de zumbis por todos os lados. Não tinha escapatória. O pontinho de esperança que havia se formado em meu coração, se apagou como uma chama de uma vela antes acesa.

Senti uma vibração no bolso de minha calça. Tateei o tecido a fim de reconhecer o que era. Era apenas meu celular, que acabava de receber mais uma mensagem da operadora para recarregar. Eu estava quase guardando-o novamente quando uma ideia maluca me veio a mente. Abri meu celular e comecei a fazer algumas alterações. Mark diria que eu estaria louca ao fazer isso, mas ele não estava aqui para me dizer isso. E ele dependia do bom resultado de minha ideia para que eu retornasse ao refúgio.

Fechei o celular novamente e comecei a vasculhar a área ao redor. A quantidade de zumbis atrapalhava um pouco, mas consegui encontrar um bom ponto. Dava para sentir as investidas deles sob meus pés, mas procurei manter o controle. Eu só teria alguns minutos para conseguir escapar. Joguei meu celular por sobre a cabeça dos zumbis. O objeto concedeu aterrissar em uma lona, escorregar e cair em um caixote. Perfeito! Joguei a mochila sobre os ombros, peguei o machado e aguardei alguns segundos.

Três... dois... um...

O despertador do celular tocou estridente de dentro da caixa, no volume máximo. Aos poucos, os zumbis começavam a se virar e irem ao caminho do som. Quando boa parte deles estava dispersa, segurei o machado firmemente por entre os dedos e dei um salto. Pousei silenciosamente no concreto, com as pernas flexionadas para evitar alguma lesão. Caminhando para o meio da rua, fui desviando dos zumbis sem esforço.

Mas então as coisas começaram a dar errado.

O som do celular foi abafado pela quantidade de zumbis, até que ouvi um som de madeira se partindo e o celular silenciou. Eu não podia fazer nada agora além de uma coisa: correr.

Meus passos agora estavam um pouco mais audíveis e percebi alguns dos mortos-vivos se viraram em minha direção. Ignorei o medo. Pensei em Mark, em meus pais que haviam morrido para que eu pudesse fugir. As lembranças deram lugar à raiva, a fúria. Erguendo o machado, comecei o meu trabalho.

Decepei a cabeça de um zumbi que estava em meu caminho, e mais três, dois, infinidades. Percebi que, conforme eu corria, mais energia eu conseguia depositar em meus golpes. Uma onda de adrenalina tomou meu cérebro. Um zumbi iria me atacar por trás, mas o repeli dando um chute em seu estômago. Cheguei a uma parte inclinada da estrada, onde vários mortos-vivos cambaleavam. Suspirei e então, recomecei a correr, e a decepar os zumbis. Sangue espirrava para todos os lados. Dei um salto e cortei cinco de uma vez. Eu estava perto do refúgio agora. Apenas mais dois quarteirões, e eu estaria mais calma, em segurança e com meu irmão.

Quando me deparei com a viela onde eu estava abrigada, permaneci em alerta para caso algum zumbi estivesse ali. Abri lentamente um dos portões de ferro e adentrei. As casas estavam silenciosas, a escuridão noturna era desconfortável. Eu podia sentir olhos cravados em cada passo meu. Tentei ignorar a ruim sensação. Parei de caminhar quando cheguei a uma garagem fechada por grossas tábuas de madeira. Encaixando meus pés nas frestas das madeiras, comecei a escalar até chegar ao teto. Sentia meu corpo pingando de suor e sangue escorria pela testa. Removi uma pequena grade que guardava uma portinhola como a de um alçapão. Ergui a porta e pulei para dentro.

A garagem fora adaptada por mim e Mark para parecer algo similar a um cômodo de uma casa. Tinha uma poltrona velha e desfigurada e uma cômoda onde guardávamos nossos alimentos. Eu esperava encontrar Mark dormindo já. Eu era sempre quem procurava buscar comida e remédios nas proximidades; não queria arriscá-lo a vida.

Larguei a mochila e o machado ensanguentado em um canto. Tateei pela mesinha de centro e encontrei um castiçal com uma vela. Acendi e comecei a andar pelo pequeno cômodo.

—- Mark! – chamei. – Cheguei! Desculpe-me pela demora. Tinham muitos desta vez e... – parei de falar quando vi a poltrona vazia. Mark sempre me esperava sentado nela.

—- Mark? – eu andava pelo escuro, minha voz aumentando a cada ponta de desespero, mas nenhuma resposta. – MARK!

Encontrei um papel sobre a mesa e, escrito com sangue, havia a seguinte mensagem:

Para recuperar o que perdeu novamente, terás de enfrentar o seu medo e vir até nós.

Sentei-me no chão, totalmente desamparada. Lágrimas, depois de muito tempo, voltaram a rolar por meu rosto. Além de perder meus pais, eu agora perdera meu irmão. Para sempre.