Hunter x Hunter - Vingança Escarlate
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Nem o estrondoso barulho das ondas somado ao canto das gaivotas pôde abafar o grito de alegria que Gon deu ao perceber, da borda do convés, seu amigo Kite a esperá-lo.
Dalí, foram de carro até um enorme hotel no centro da cidade. Símbolo da riqueza das classes dominantes da sociedade sancruziana, o Hotel Paradise Rio contava com mais de cem andares, uma altura muito destoante até entre os maiores prédios que o cercavam, que não chegavam a ultrapassar os cinquenta andares. Mais destoante ainda era o contraste entre sua beleza arquitetônica, exaltada pelos incríveis trabalhos em vidro, que refletia faixas do arco-íris contra a luz que o iluminava, e os cazébres das favelas instaladas no morro, com apenas um quarto do tamanho do edifício, que se situava a poucas centenas de metros atrás dele.
Assim que percebeu onde se hospedaria, apartir da sacada do hotel, Gon abriu um enorme sorriso de admiração e alegria, sendo grande o bastante para que um porquinho da Índia, talvez, entrasse em sua boca. Perto de uma enorme fonte na praça do hotel, alguns hunters olhavam espantados para Gon, trocando diálogos disfarçadamente. Gon percebeu isso, mas não entendeu muito bem e resolveu ignorar, voltando a admirar a maravilha da arquitetura contemporânea à sua frente. Kite interrompeu o garoto de seu transe o olhando torto, como se o apressasse.
O quarto que eles pegaram era quase surreal, ainda mais para alguém vindo de zonas rurais como Gon. O brilho do mármore dourado que ladrilhava o chão era um deleite para os olhos. A cama possuía a extensão de um iate. Os eletrodomésticos eram como versões de aparelhos comuns futuristas feitos para gigantes. O que seria de ferro, alí, era de ouro, e o que seria de vidro era de diamante. Por fim, de longe a parte mais impressionante do quarto, a vista que se tinha da varanda. Como estavam nos últimos andares, as pessoas pareciam menores que formigas e o carros menores que percevejos. A vista das belíssimas praias, florestas litorâneas e serras cercando a moderníssima cidade não os deixou dúvida sobre o porquê de aquela cidade ser conhecida como “Cidade Maravilhosa”.
Gon, antes de mais nada, se atirou no centro da cama, afundando no colchão e voltando, como se aquilo fosse feito de gelatina. Já Kite, apenas se sentou em uma poltrona no meio do quarto e desabotoou as botas.
–Gon,-Chamou Kite, depois que seus pés já estavam descobertos, olhando na direção do menino.-Precisamos falar sobre seu Nen...-Disse, intensificando ainda mais sua expressão que já era séria o suficiente antes.
Gon, de olhos fechados apreciando a maciez da cama, deixou seu amigo sem resposta por alguns segundos.
–Certo.-Respondeu, sentando sobre o enorme travesseiro da direita e fitando Kite com uma expressão séria e determinada.
Resolveram que seria melhor ter essa conversa enquanto observavam a linda vista da cidade ao fim da tarde.
–Eu não sei bem o porquê, mas esperava que tudo se resolvesse como nas últimas dificuldades que passei.-Disse Gon, com o olhar distante, escondendo a boca nos braços, que usava para se debruçar na janela.
–Acho que agora a situação está um pouco além do seu alcance.-Declarou Kite, se esforçando para não reparar na expressão depressiva do garoto.-O que vai fazer, Gon?
–Acho que vou ter que confiar novamente em meus instintos de que tudo se resolverá com fé-Respondeu, lançando para Kite um sorriso pouco convincente, ainda mais iluminado pela luz alaranjada do pôr-do-sol.
Nesse clima de incerteza, a noite caiu sobre a cidade, e agora as luzes vinham das estrelas e dos prédios, que faziam a cidade parecer um verdadeiro rio de ouro derretido. Kite e Gon já dormiam profundamente, ao contrário de Killua e seus novos aliados da Trupe Fantasma, que passaram o dia inteiro, desde que chegaram de avião na cidade, discutindo sobre o plano de Machi.
–Muito bem.-Inicia Machi, roçando a garganta para ajeitar a voz.-Os membros da Aranha que foram selecionados para o torneio deverão ajudar Killua a vencê-lo. Os demais ficarão disfarçados na platéia atentos a qualquer tentativa de emboscada vinda de fora.-Dá uma pausa para puxar fôlego.-Quando Killua vencer, será recebido pelo Kurama, que deve ter dado um jeito de se tornar um dos organizadores do evento.-Mais uma vez uma pausa dramática, dessa vez usada para dirigir um olhar sério e perverso a Killua.-Assim que entrar em contato com ele... mate-o, sem se preocupar, pois daremos um jeito de achar os olhos escarlates, mesmo que ele esteja morto.
Killua friamente sializou aprovação com a cabeça. Depois dessa reunião, todos se separaram e foram para seus respectivos quartos do esconderijo onde estavam na cidade, exceto por Killua, que ficou parado alí, pensativo com um ar disfarçadamente cabisbaixo, e Kalluto, seu irmão, que, longe da vista distraída dele, o olhou com reprovação, esperando que ele não lhe notasse. Killua sentiu a intenção assassina do irmão e saiu de sue transe, o devolvendo rapidamente o olhar. Kalluto saiu da vista do irmão e foi para seu quarto antes que o mesmo pudesse lhe retribuir. Killua passou de pensativo a confuso, mas resolveu ignorar e ir dormir como o resto de seus aliados.
O celular de Kite tocou no meio de madrugada, interrompendo seu profundo sono, sem acordar Gon, que dormia sem nenhuma postura no lado oposto da imensa cama.
–Acho que tem um método de eu resolver aquele seu problema lá...-Diz a pessoa ao telefone, antes de proferir palavras que ficaram confusas devido ao chiado do celular e só Kite entendeu.
–Gon!-Grita Kite, enquanto, desesperadamente, sacode o amigo pelos ombros para que o mesmo acorde.-Pode ser que exista um modo de te curar.-Declarou, com os olhos arregalados em surpresa.
O grande dia chegou. A maior parte das ruas do mundo estavam praticamente vazias, pois ninguém iria querer perder a cerimônia de abertura do maior evento do planeta, que só acontece durante um mês, de dez em dez anos. O único ponto vivo da cidade de Tsuki no Rio era o Estádio Sancruz, o maior estádio esportivo de todo o mundo, com capacidade para mais de duzentas mil pessoas, escolhido para sediar a enorme e escândalosa cerimômia de abertura do Torneio Mundial, que contou com diversas atrações de entretenimento que raramente seriam vistas no mesmo dia em um mesmo local, indo desde espetáculos circenses de alto prestígio até demonstrações de vôo de jatos militares nos céus. Não se pensava em nada que não fosse festa em uma dia como aquele, independente se você tivesse tido o privilégio de ir ao estádio, ou apenas conseguiu acompanhar tudo através de uma das mais de duzentas redes de televisão pelo mundo que possuíam direito de transmitir o espetáculo.
Killua e a Trupe passavam por uma catraca especial do estádio, que dava acesso à área dos competidores. Todos portavam bilhetes folheados a ouro, de intenso brilho, que eram as entradas especiais para quem iria lutar no torneio. Passam sem qualquer dificuldade, afinal, mesmo sendo criminosos, não possuíam nenhum tipo de registro que os identificassem como tais. Killua só suspira em alívio de toda tensão que acumulara nos últimos dias quando a catraca faz o estalo depois de sua passagem por ela. Agora só restava aos selecionados passarem pelo longo e bem iluminado corredor até a porta dupla de madeira no final.
Uma enorme câmara de ladrilhos cinzentos e luzes quadradas no teto. Em seu interior, não havia nenhum objeto, nem mesmo de decoração, apenas pessoas e mais pessoas. Todos os presentes se entreolham com estranheza, como se fossem inimigos jurados. De repente o som do chiado de um microfone quase ensurdece os competidores, que, passado o susto, praguejam em silêncio irritados.
–Bom pessoal.-Diz a voz nos não localizados alto-falantes, uma voz de pessoa jóvem, um tanto quanto lenta em articular suas palavras.-Essa é a famosa rodada preliminar do torneio...-Pausa para pensar em suas próximas palavras-...Ah, sim, façam com que só restem trinta e seis competidores nessa sala.-Instruiu, logo após se silenciando.
Os olhares ficaram mais apertados, todos se posicionavam em espera à reação dos demais. Por vários minutos, ninguém ousou se mover.
–Alguém aí...-Disse Machi, como se esperasse algo de seus amigos.
Killua se postou a frente da fila horizontal formada pela Trupe e fez um sinal de cessar, levantando a mão direita de palma aberta, sem fitar os companheiros nos olhos. Depois disso, tudo que se viu foi um clarão azul, que terminou com o sumiço repentino de Killua. Isso tirou a atenção dos competidores de sua tensão, que se tornou uma desesperadora dúvida. Sem que tivessem percebido, dez deles já haviam caído. O som de raios cintilantes e rastros de eletricidade se espalhavam rapidamente pelo local, deixando também competidores desmaiados por onde passava. Foi como se um fantasma estivesse os atacando.
Observando a cena em câmera lenta, era possível ver Killua, emanando eletricidade, se movendo em alta velocidade e atacando a nuca de todos que não eram seus aliados. Depois de um minuto, já eram vinte os caídos, faltando menos de dez para Killua derrubar. Ele sorria de alegria quando estava prestes a atacar o último, até perceber que este era seu amigo Gon, parando ao lado dele, que estava com cara de confusão ao lado de Kite, que apenas parecia observar a cena indiferente, como se estivesse seguro de que não seria pego pelo misterioso raio.
–Gon!-Grita Killua, aparecendo do nada ao lado de Gon, pelo menos para aqueles que não puderam acompanhar seus movimentos com os olhos. Gon olhou para seu lado esquerdo e fitou Killua com um sorriso de surpresa agradável.-Você não deveria estar em um torneio de luta sem poder usar Nen!-Gritou furioso.
–Bem... É que...-Hesitou em falar Gon, passando a palma na nuca e desviando o olhar.-Eu meio que acabei me curando sosinho.-Fez um sorriso pouco convincente enquanto dizia isto, esperando que o amigo esquecesse a raiva.
Killua respirou grande quantidade de ar muito rápido para se aliviar e neutralizou sua expressão. Logos atrás dele, vinham os membros da Trupe, alheios a toda devastação causada por Killua.
–Acho que agora você não via mais querer nos ajudar...-Disse Machi, escondendo sua frustração com uma expressão séria e uma voz inesitante.
–Claro que não.-Responde Killua, com um sorriso de deboche.
Killua e Gon riam um para a cara do outro, enquanto os membros da Trupe, atrás deles, se entreolhavam frustrados, quando mais uma vez a voz do alto-falante oculto falou às pessoas da câmara, que estavam, em sua maioria, encostados em um canto sem entender nada e tremendo de pavor, até serem acalmadas pela voz.
–Uhum...-Exprime a voz.-Parece que isso foi mais curto do que esperávamos...-Pausa para pensar no que iria dizer.-Bem, podme passar.-Disse, quando automaticamente surgiu um contorno retangular na parede, revelando uma passagem que dava em um corredor iluminado, de onde vinha muito barulho.
Todos passaram confusos pelo corredor, que se revelou uma rampa, dando acesso a uma arena enorme, o estádio lotado. A platéia foi à loucura quando os primeiros competidores apareceram pela parte gramada que contornava a quadra de futebol. Esta, por sua vez, não possuía mais grama, tendo sido substituída por ladrilhos de pedra beges. Logo na entrada um funcionário do estádio instruiu os competidores, todos zonzos pela repentina rajada de gritos e luzes de fogos de artifícos e flashes de câmeras , a sentarem nos bancos de reservas mais próximos. Quando todos o fizeram, um homem foi erguido por um elevador que saia de um pequeno buraco no centro do campo. Ele trajava elegantíssimo terno, do tipo que refletia suavemente as luzes do Sol de meio-dia que o iluminavam. Assim que perceberam a entrada do homem, os telespectadores passaram a fitá-lo em silêncio, esperando atenciosamente por suas palavras.
–Passada a cerimônia de abertura, enfim, o evento principal se inicia!-Fala por um microfone indetectável que transmite suas palavras por todo o estádio e faz uma pausa para a platéia mais uma vez gritar alucinada em empolgação.-Hoje serão sorteadas as primeiras lutas do torneio, depois apresentaremos as primeiras duas lutas.-Mais uma pausa para o alvorecer do público.-Muito bem, o telão fará o sorteio.-Falou, apontando para cima, onde, suspensa por cabos presos ao topo do estádio, havia um enorme monitor de quatro dimensões, no qual, em todas as telas, aparecia uma lista com os nomes de todos os competidores no banco de reservas.
–Que comece o sorteio!-Grita, quando as telas do monitor começam a piscar rapidamente em tons de verde e preto.
Depois de cinco segundos, as piscadas param, revelando, em letras verdes mais que facilmente legíveis: “Kite vs. Kalluto”.
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