Ilha da Baleia, iluminada por um sol radiante, sem uma núven no céu de intenso azul que o restrinja, fazendo desse certamente um dos dias mais bonitos para se viver. Porém, para o jovem Gon Freecs, os tempos eram de intensa confusão. Depois de passar por terrores inimagináveis na guerra contra as formigas-quimera, que levaram incontáveis e preciosas vidas, e ficar entre a vida e a morte, resta a ele descansar, e apenas isso, pois agora, impossibilitado de usar seu Nen, partir em uma nova aventura é algo inviável.

Tornando aquele dia mais vislumbrante, surge no céu um dirigível, que pousa direto ao lado da residência de Gon nos campos da ilha, enquanto todos os seus humildes habitantes o fitam com admiração e surpresa. Se tratava do transporte de Killua e Alluka Zoldyck, que não esperaram nem um segundo para descer do veículo e gritar o nome do amigo. Rapidamente, Gon sai correndo pela porta de sua casa, vindo ao encontro dos amigos com tamanho sorriso que parecia que não via os visitantes havia décadas.

A manhã e o início da tarde foram reservados a brincadeiras e conversas fiadas, assuntos corriqueiros e irrelevantes à situação. Apenas quando deu o pôr-do-sol que Killua conseguiu desenvolver a conversa que pretendia ter com Gon des de que chegara na ilha. Estavam os dois pescando sosinhos em uma praia deserta, escondida do resto da ilha por uma densa floresta, seus rostos estavam alaranjados de receber a luz do sol poente, quando Killua, desviando sua atenção de sua vara de pescar, fitou Gon, que estava extremamente concentrado, sem nem ao menos piscar, em sua pescaria.

- Gon,- Chama Killua, com hesitação em sua voz.- O que pretende fazer em relação ao seu Nen?- Perguntou, esperando em vão que o amigo olhasse em seus olhos.

- Acho que o melhor a fazer agora é descansar.- Respondeu de forma angustiada, como se não tivesse muita confiança no que dizia, sem tirar os olhos da isca que jogara no mar.

Killua também volta a pescar, resolvendo não insistir nesse assunto. Mas de fato Gon não estava muito bem com sua condição, uma vez que desejava muito partir para o Continente Perdido ao lado de seu pai, Ging Freecs. Killua sabia dos sentimentos de Gon, mas não podia fazer nada para ajudá-lo, exceto talvez... por uma coisa: Usar os poderes de seu irmão mais novo, Alluka.

Já era de madrugada e Killua permanecia acordado, olhando o luar pela janela do quarto onde os meninos da casa dormiam. Cansado de apenas considerar sobre o assunto, acordou seu irmão mais novo com um leve cutucar na bochecha, com muito cuidado para não despertar Gon, que dormia no colchão ao lado.

- Alluka, vamos lá para baixo agora.- Ordenou Killua, já puxando o irmãosinho sonolento até o exterior da casa.

Se sentaram de pernas cruzadas na grama, um de frente para o outro, se encarando por um tempo.

- Ei Killua, me dá um copo d'água?- Se manifestou Nanika, através do Alluka, fazendo com que Killua soasse frio.

Killua, sem se demorar, trás para a menina um copo cheio de água da geladeira. Nanika bebe apressada, depois coloca o copo no chão e fita o irmão com um sorriso de agradecimento.

- Killua, me dá um abraço?- Faz seu segundo pedido, que é rapidamente atendido.

Killua desfaz o abraço ansioso pelo terceiro e último pedido que Nanika o faria, decisivo para a consessão de seu desejo.

- Ei Killua... Eu quero um olho-escarlate.- Declara, ainda esboçando um alegre e puro sorriso.

Killua abre os olhos e range os dentes em espanto ao ouvir aquilo.

- Nanika, onde você ouviu falar nos olhos-escarlates?- Pergunta, se esforçando para conter seu nervosismo diante do pedido absurdo da irmã.

- Eu li em uma revista.- Responde sorrindo.- Você pode conseguir um para mim?- Pergunta, com um rosto apreensivo inocente.

- Claro.- Respondeu, com um falso sorriso.

Nanika abraçou novamente o irmão, que aproveitou que ela não podia ver seu rosto enquanto o abraçava para expressar toda a preocupação que sentia. Para Nanika, que não tinha muita noção de dificuldade de aquisição de itens valiosos, um olho escarlate parecia algo fácil de se conseguir, no mesmo nível de um abraço ou um copo de água, como uma simples bijuteria, mas Killua sabia o quão raros eles eram. De fato, mesmo saber quem poderia ter um desses não tornava a tarefa mais fácil, uma vez que quem provavelmente tem posse de um par de olhos-escarlates é a implacável Trupe Fantasma. Voltaram pro quarto e dormiram. Killua se sentia aliviado pois, mesmo que complicada, havia solução para o Nen de Gon.

Quando os primeiros raios solares deram início a um novo dia, Killua, mesmo tendo sido o último o que menos dormiu, levantou antes de todos. Com cuidado para não acordar ninguém, foi direto para fora da casa, deixando lá apenas um bilhete, no qual estava escrito: "Volto daqui a pouco, cuide da Nanika durante minha ausência". Resolvido isso, Andou o caminho até o porto, onde pegou um navio até o continente. Seu destino era seu primeiro lar, a Mansão Zoldyck, onde mais uma vez recorreria à sua família para ajudar seu querido amigo Gon.

Em outro lugar, bem distante da Ilha da Baleia, a situação não era tão pacífica. República de Sancruz, o país da desigualdade social, onde a menor parte da população vive no luxo, uma parte vive mediocremente e o resto vive de formas precárias. Os cenários da cidade de Tsuki no Rio, cidade que carrega o nome do país no exterior, era similar ao de uma guerra civil, pelo menos nas partes periféricas, longe dos bairros luxuosos e cercados de beleza natural misturada com arquitetura moderna.

Policiais pesadamente armados massacram bandidos nas favelas, em uma enorme operação de limpeza da cidade. Essa ficaria conhecida como a maior violação dos direitos humanos ocorrida no continente. Tudo começou dois anos atrás, quando fora decidido que a cidade seria a nova sede do Torneio Hunter Mundial, evento no qual os maiores hunters do mundo, se enfrentarão em lutas em busca do troféu e do prestígio. Desde essa escolha, o secretário de segurança da cidade preparou um exército apenas para, naquele dia fatídico, acabar com o crime organizado de uma só vez. Esse homem é Joseto Siruva, que apesar de parecer apenas mais um homem de meia idade barbudo escondido atrás de um terno elegante e uma posição privilegiada, já foi um lendário hunter de duas estrelas.

Joseto, da sacada de seu luxuoso apartamento, sentado em uma confortável cadeira de balanços de madeira, observa ao longe o cenário caótico em que se encontram as periferias da cidade. Sua expressão não demonstra nenhum remorso pelas vidas inocentes postas em perigo durante a verdadeira guerra civil que criara, mas sim orgulho e alegria, pois sentia como se tivesse revolucionado o país, o que de fato, maquiavelicamente, fez.

A alegria do homem não dura muito tempo, pois logo, um objeto pontudo finca em seu pescoço, a antena de algum tipo de celular, o imobilizando. Surge das sombras do interior escuro do apartamento um indivíduo. Era Shalnark, com o celular que usava para manipular suas vítimas na mão direita, sorrindo.

- Sabem,- Diz Shalnark.- Para alguém que já foi um hunter de duas estrelas, esse cara até que foi fácil de capturar. Isso que dá não treinar todo dia.

Surge também das sombras, se colocando ao lado de Shalnark, uma figura misteriosa. Um homem de cabelos castanhos longos, olhos pretos e um rosto bastante feminino. Vestido casualmente até demais, com uma camisa preta de "gola v" e shorts brancos, mais parecendo um adolescente.

- Eu poderia dizer o mesmo de você.- Declara o companheiro de Shalnark.

- O que quer dizer, Kurama?- Pergunta confuso.

Em um piscar de olhos, Shalnark é engolido pela escuridão da sala, sumindo sem deixar rastros. Kurama apenas observa a cena, claramente responsável por seu misterioso desaparecimento. Indiferente a isso, se dirige até o Joseto, encarando seu rosto paralisado. Saca do bolso o celular de Shalnark, o apontando para o homem, que logo se move de acordo com seus comandos.

Bem distante dalí, Killua acabara de chegar aos arredores da mansão da sua família. Seu rosto revela seu desconforto com aquele lugar, onde fora criado de maneira pouco convencional. Enquanto caminhava pela longa estrada de terra que ia até o edifício principal, olhava para todos os cantos, tendo todo tipo de lembranças, das de brincadeiras até as de treinamentos pesados. As árvores, os binquedos de parquinho, os mordomos, tudo era nostálgico, de formas boas e ruins.

Parado em frente ao portão de entrada da residência, estava Silva Zoldyck, pai de Killua, com os braços cruzados e uma expressão neutra, apenas esperando pela chegada do filho, sem transparecer nenhuma de suas emoções ou intenções. O garoto chega em frente ao seu pai, o encarando seriamente.

- Precisando da minha ajuda mais uma vez Killua?- Perguntou retoricamente, com tom de irônia.- Eu podia começar a cobrar uns favores que você me deve.

- Preciso ver o Illumi.- Declara, ignorando os gracejos do pai.

Illumi estava sentado em uma espécie de sala de reuniões, onde tudo o que havia era uma mesa redonda de pedra, circulada por um banco, uma távola redonda Zoldyck, bebendo um copo de uma bebida avermelhada. Killua o interrompeu entrando na sala pelas duas enormes portas de madeira, se sentando no lado do banco oposto ao do irmão.

- A que devo o prazer dessa visita? Irmãosinho.- Diz Illumi, de maneira sádica.

- Eu preciso saber o paradeiro da Trupe Fantasma.- Declara Killua, de forma direta e sem perder tempo com saudações.

- Voce interrompeu meu sangue de tartaruga-ilha para isso?- Reclama Illumi, fechando os olhos em desaprovação.- Eu não faço ideia de como encontrá-los e nem conheço quem faça, foi inútil ter vindo aqui.

Killua esboçava tamanha raiva que parecia que partiria contra seu irmão a qualquer momento. Ele conseguia sentir que aquilo se tratava de uma grande mentira só de olhar pro rosto de Illumi. Suas suspeitas foram confirmadas apenas quando, de repente, entrou na sala alguém mais que diretamente relacionado com o assunto, Hisoka.

- Onde eu posso conseguir um pouco dessa bebida aí?- Pergunta Hisoka, com seu habitual sorriso sádico, ignorando a presença de Killua.

No esconderijo da Trupe Fantasma, todos os doze membros restantes estavam reunidos, silenciosos em homenagem a Shalnark. Era uma caverna, iluminada por algumas lâmpadas aleatoriamente dispostas pelo solo. Fincs, inquieto, quebra uma estalagmite com um soco de Nen concentrado, assustando a todos.

- Quantos mais de nós teremos que morrer?- Pergunta, sem nem olhar na cara dos amigos, para que não vissem sua expressão raivosa.

- Se Kuroro estivesse aqui...- Divaga Machi, olhando para baixo.

- Mas não está.- Repreende a amiga Nobunaga, enquanto olha fixamente para a lâmina da sua espada.- Se as coisas continuarem assim, não conseguiremos manter a Aranha de pé por muito mais tempo.

Um desconfortável silêncio fica no ar depois da infeliz declaração de Nobunaga. Para quebrar esse silêncio, surge uma estranha figura, um pequeno robô, cinza e composto por partes quadradas, como aqueles brinquedos de cordinha antigos, vindo desde a entrada da caverna.

- Eu posso esclarecer essa história toda.- Declara, com voz eletrônica, o robô.