25 de novembro de 2002

O dia era apenas mais um dia frio de novembro para muitos habitantes de Beacon Hill. Um óptimo dia para se passar na cama a beber chocolate quente. Mas para Steve Lahey aquele era o pior dia da sua vida. Naquele dia ele iria enterrar a esposa, a única coisa boa que lhe tinha acontecido de bom na vida dele.

Ele sempre soube que o maldito segredo que Ellen tinha iria acabar com a vida dela. Quantas vezes não pediu que ela lhe contasse? Muitas. Mas de todas as vezes que repetir a pergunta, a respostas era sempre a mesma. Que ela não o queria envolver no mundo dela. Que seria perigoso para ele. Mas no fim de contas, tanto segredismos acabou por lhe roubar a vida.

Não sabia se iria aguentar o peso de ser um pai viúvo. Afinal tinha duas crianças, Isaac e Rebecca, que lhe lembrariam todos os dias dela. Sempre que olhasse para eles ou então sempre que eles fizessem alguma coisa, sempre lhe viria à cabeça memórias da Ellen. Afastou esses pensamentos negativos da cabeça. Ainda tinha que ler o testamento de Ellen antes de enterra-la.

Estacionou o carro na garagem e seguiu em direcção à sala de estar. Conhecendo Carrie como ele a conhecia sabia que estava nesta altura em casa com as crianças, pronta para ler o testamento da irmã mais velha e depois apanhar o próximo avião para Londres. Assim que entrou na sala, pode vê-la sentada no sofá, com as crianças sentadas ao lado dela, a assistir calmante televisão. Provavelmente uns desenho animados quaisquer que estivesse a dar.

– Quanto mais depressa fizermos isso, melhor para todos. – Carrie falou assim que reparou que Steve estava na porta.

– Como quiseres Jones. – Steve subiu as escadas que davam para o primeiro andar da casa. Entrando rapidamente no quarto, vai em direcção do cofre. Após colocar o código, o cofre abriu-se. Dentro dele estava além do testamento, uma estranha chave. Houve uma vez que Steve tirou do sítio sem querer e Ellen de um escândalo. Correu a casa toda à procura da maldita da chave com a desculpa de que se a chave caísse em mãos erradas poderia ser o fim do mundo. Provavelmente essa misteriosa chave tinha a ver com a misterioso segredo que ela teimava em não contar. Pegou no testamento e voltou a fechar o cofre.

Cinco minutos depois, Steve e Carrie estavam sentados na mesa da sala de jantar, enquanto as crianças estavam entretidos os seus desenhos animados. Carrie olhou directamente para Steve e falou:

– Sei que nunca nos demos bem e também não vai ser agora que vai mudar. Mas adiares mais o momento de leres esse maldito testamento não vai trazer a Ellen de volta. Portanto importaste de começar a ler?

Steve olhou para ela. Eles nunca se deram bem. Talvez porque na espoca que ele namorava Ellen, Carrie fosse contra namoro. Ou mesmo porque estavam destinados a odiarem-se. Mas ela estava certa. Adiar o momento de ler as últimas vontades de Ellen, não mudaria o facto de ela estar morta.

– Se estão a ler isso, quer dizer que eu morri. – Steve começou a ler – E estas são os meus últimos desejos. Primeiro dirigiu-me a ti, Steve. Desculpa nunca ter contado nada sobre a verdadeira origem da minha família. Seria demasiado perigoso para ti saberes a verdade. Mas também não te vou dizer nesta carta. Tu vais ficar com a guarda de Isaac. Eu quero que tu sejas feliz, mesmo que não seja comigo. Carrie, eu quero que fiques com a guarda da Rebecca. Depois da minha morte, ela terá mesma maldição que eu tive e que tu tens. Faz com que ela respeite o novo Código e pede a Steve para te dar a chave que está no cofre. Dá apenas quando achares o momento, mas nunca escondes a existência dela ou o que ela significa. Por fim, os meus bens vão ser repartidos pelos meus filhos. Isaac ficara com a casa e com metade das minhas poupanças e Rebecca ficará com a autocaravana e com a outra metade das minhas poupanças. Sejam felizes e até qualquer dia, Ellen J. Lahey.

Carrie olhou na direcção dos gémeos. Sentia-se mal por ter que separa-los assim e quase sentiu vontade de ressuscitar a irmã, para poder mata-la por isso. Mas também compreendia o que a irmã estava a tentar fazer. Haveria sempre a possibilidade de ela se tornar contra o Código e ser morta por causa de ser uma Grimm, se não tiver o treinamento.

Muitas pessoas não sabem o que significa ser um Grimm. Um Grimm é aquela pessoa que pode ser a verdadeira natureza dos Wesen e tem como missão manter o equilíbrio entre o que as pessoas pensam ser o mundo real do mundo mitológico/ sobrenatural. Mas quando um Grimm more, essa habilidade passa para o familiar mais próximo que ainda não a tenha. Quando tem uma mulher e um homem na família se essa habilidade, ela passa sempre para a mulher. O homem só a teria quando não houver mais ninguém para a receber. Depois de séculos, em que os Grimm´s matavam todas os Wesen, independentemente de eles serem inocentes ou não, os anciãos decidiram fazer um Código para que todo o Grimm respeitasse, sob pena de ser morto.Schützenuns, die nicht geschützt werden kann, die Gesellschaft Wesen geheim halten von der Welt und just'll jagen diejenigen, die töten (Nos protegemos que não podem ser protegidos, manteremos a sociedade Wesen em segredo do resto do mundo e apenas caçaremos os que matam).

E depois tinha sempre a questão de treinamento de Rebecca. Se ela estivesse sozinha a aprender, talvez ela não chegasse aos dezoito anos naquela cidade. Ouvira dizer que naquela cidade havia muitas pessoas a morrer vítimas de ataques de animais selvagens. Se ela quisesse sobreviver teria que ter o mesmo treino que ela e a irmã tiveram, em Londres.

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Depois do funeral e terem passado no registo Civil para fazer as alterações necessárias, conforme o testamento, Carrie e Steve chegaram a casa. Ao chegarem a casa, preparam as malas de Rebecca. Com um bocadinho de sorte, conseguiram mais um bilhete para o avião que a Carrie iria em direcção a Londres. Felizmente ela já tinha o passaporte em dia. Faltava a parte mais difícil: contar aos gémeos.

Steve e Carrie sentaram-se à frente deles na sala. Apesar de terem apenas seis anos, eles perceberam perfeitamente que a mãe nunca mais iria regressar e que neste momento estava com os anjinhos no céu a olhar por eles.

– Meninos, a vossa mãe pediu que o Isaac ficasse com o pai e que a Rebecca fosse comigo para Londres. – Carrie falou.

– Eu nunca mais vou vê-la?- ao perguntar os olhos azuis de Isaac levantara-se e olharam directamente para os olhos verdes de Carrie.

– Claro que vais vê-la. – Olhou para Steve que apenas confirmou com a cabeça. – Olha nós vamos buscar as coisas da Rebecca, vocês despedem-se. Pode ser?

– Sim. – Falaram os dois em conjunto. Ao ouvirem isso, os adultos saíram da sala indo em direcção do quarto.

– Becca, plomete-me que não te vais esquele de mim? – Perguntou Isaac com lágrimas nos olhos.

– Clalo que não, idiota. E espelho que tu também não me esqueças. – Rebecca atitou-se para os braços abertos de Isaac, apertando-o com os seus braços pequenos.

– Nunca. – Sussurrou o pequeno Isaac. Isaac prometeu a si mesmo que quando tivesse idade para viajar sozinho, ele iria a Londres à procura da sua gémea.

Carrie e Steve, assim que tiraram a chave do cofre, foram para a sala. Como as malas já estavam no carro, só faltava Rebecca. Ao ver os gémeos a despedir-se, Carrie sentiu vontade de pegar em Isaac e leva-lo com ela para Londres, mas não podia fazer isso. O lugar dele era com o pai, a tentar ter uma vida normal enquanto a maldição da família não o apanhasse. Carrie pegou em Rebecca ao colo e despediu-se do cunhado e do sobrinho, com a promessa de que se voltarem a ver brevemente. Só que ela não sabia é que esse encontro nunca iria acontecer, pelo menos enquanto ela e Steve fossem vivos.

Assim que deixou de ouvir o carro, Steve voltou a sua atenção para o mini-bar. As bebidas sempre tinha sido o seu ponto fraco e por isso tinha prometido a si mesmo que não colocaria uma gota de álcool na boca, com medo do que poderia acontecer à mulher e aos filhos. Mas agora a esposa estava mora, a filha a caminho de Londres e ele não sabia o que fazer para educar o filho. Pegou uma garrafa de vodca e começou a beber directamente da garrafa, sem se importar se era errado ou não.

Isaac que ainda estava no sofá estava longe de imaginar que estava a assistir ao início do seu inferno particular.