Víkn

x-x-x

Raptado

Ela estava encostada no tronco de uma árvore. Preocupada. Machucada. Ensanguentada.

Alexandra olhou para seu corpo, sua respiração parou na garganta. Suas pernas estavam expostas e seu jeans, empapados com seu próprio sangue. Sua camisa encontrava-se em condição semelhante. Rasgada, a manga de sua jaqueta esportiva mostrava parte do braço de bronze celestial que ela usava para proteção de uma ferida tão profunda... Nem Ambrosia poderia curá-la.

Killua fora buscar algumas ervas para ajudar na cicatrização, já que a comida dos Deuses havia se esgotado algumas horas antes.

Raptado. Ela pensou.

Fôx fora raptado semanas antes e o tempo para resgatá-lo estava ameaçando a se esvair a cada segundo que eles ficassem naquela floresta.

Só mais dois dias. É tudo o que me resta.

Dois dias para a Lua Nova.

Dois dias para chegar ao palácio de Hécate.

Dois dias para a morte de Fôx.

Dois dias para a morte dela.

Não tenho muito tempo.É melhor agir.

Alexandra se apoiou no tronco, em uma tentativa quase inútil para se levantar, começou a encolher as pernas e escorou o tronco. Suas pernas ardiam e as ligações de seus joelhos pareciam arder em chamas.

Sentiu uma pontada no estomago e caiu de rosto no chão úmido e lamacento da floresta.

Uma pontada nas costas. Ela arquejou, sem fôlego.

A conexão empática estava funcionando, alguém estava usando Fôx para fazer Alexandra sentir dor.

Ela viu o Grifo acorrentado no chão de uma cela imunda. Dois homens vestidos em mantos carregavam chicotes e tinham uma faca em mãos. O primeiro acertou uma chibatada nas costelas do Grifo, outro fincou a faca em suas asas negras. Fazendo-o sangrar ainda mais.

- Ela tem de saber – O segundo homem disse – Quanto tempo resta de vida para ambos

Os encapuzados fincaram suas facas de bronze celestial no estomago de Fôx.

Ela arqueou as costas e caiu por terra novamente.

A conexão se fora.

Sua respiração estava abalada e instável. Por alguns instantes tudo o que podia fazer era pensar em como tudo aquilo fora bem planejado.

A emboscada fora preparada de modo que nem ela ou Killua pudessem defender uns aos outros sem sequer correrem risco de vida.

Vinte, não, trinta homens armados até os dentes, mais rápidos que ela ou Killua alcançaram Fôx e o acorrentaram.

Magia. Havia magia nas correntes. Não tinha como ele ser preso apenas com aquelas correntes. Seriam necessárias doze toneladas, ou mais, de peso para prendê-lo, disso ela sabia.

- Alexandra – Ela ouviu uma voz atrás dela – O que houve?

Sentiu fortes mãos puxarem seus ombros, içando-a para cima. Sentiu suas costas pressionadas contra o tronco de uma árvore. Provavelmente o mesmo tronco de antes.

Abriu os olhos para encontrar Killua com o mesmo rosto de antes. Cabelo prateado, praticamente branco, olhos verdes e uma expressão impassível no rosto. Usava uma camisa branca sem mangas, o que realçava seus músculos de Hunter, com jeans preto. Na mão direita tinha um punhado de ervas, agora esquecidas no chão ao seu lado. Ele colocou suas mãos nos ombros de Alexandra.

- Você está bem? – Ele perguntou. A voz tentando parecer distante, fria, mas a garota conseguiu ouvir uma pontada de angústia.

- O que você acha? – Ela tentou sorrir, mas uma convulsão de tosses tomou conta dela, fazendo seu corpo se curvar.

Ela tentou respirar, as acabou engasgando e cuspindo sangue na camisa branca do Hunter, ela o afastou com um empurrão e ficou de joelhos, agarrando a relva embaixo de si e tremendo muito.

Ela pôs uma mão em seu estômago e vomitou todo o sangue que estava preso em sua garganta.

Sangue envenenado.

Alexandra ofegou por ar, mas este simplesmente escapou de seus pulmões e seu cérebro não captava mais nada, sua visão começou a ficar turbulenta e seus ouvidos pararam de ouvir o mundo ao seu redor sua língua estava grudenta e tinha gosto de sangue, sangue sendo deteriorado. Seu nariz captou um cheiro forte de carne apodrecida e notou, um pouco tarde demais, que vinha de seu braço protegido pelo bronze celestial.

Algo a puxou para cima e ela sentiu suas costas baterem contra algo duro. Um tronco? Uma parede? Ela não sabia dizer, estava tentando lembrar como deveria respirar. Será que era de dentro para fora, ou de fora para dentro? Era pela boca? Ou pelo nariz?

Alguma coisa forçou a boca de Alexandra a se abrir e algo áspero foi depositado em baixo de sua língua, a Meio-Sangue foi forçada a engolir a planta que Killua forçara garganta abaixo.

- Como está? – Perguntou na mesma voz fria.

Ela tossiu algumas vezes antes de responder.

- Não estou mais vomitando

Ele deu um sorriso fraco.

- Não, não está – Ele olhou para o corpo da filha Semideusa.

As roupas de Alexandra estavam rasgadas em várias partes, exibindo o que o tecido de sua camiseta normalmente escondia, e havia sangue por toda parte. Dela, dos homens que ela havia conseguido matar, mas principalmente dela.

Killua estremeceu de prazer. Mesmo tentando não matar, mesmo tentando esquecer os ensinamentos de sua família, mesmo lutando contra seu próprio instinto de assassino ele ainda gostava de ver pessoas sangrando. O líquido vermelho que escorria da pele de cada ser vivo, que ele matara, sempre tinha um cheiro diferente do sangue da última vítima. No básico, ele sabia, que "cheiro de sangue era cheiro de sangue", mas sempre tinha algo diferente. Uns eram mais fortes, outros mais fracos, uns penetravam em suas narinas por tanto tempo que ele tinha de matar mais para poder sentir o cheiro fresco de sangue novamente. Já outros se esvaíam rápido de sua mente, o deixando em paz por algum tempo (no máximo duas semanas).

Ainda existiam alguns tipos de sangue que eram tão tentadores para o Hunter que ele não se dava por satisfeito até provar um pouco. Isso nem mesmo Gon, seu melhor amigo, conseguira mudar.

O de Alexandra tinha um cheiro um pouco ácido, talvez por causa da parte divina do sangue que corria em suas veias, e era igualmente tentador para ele. Killua já a havia visto sangrar várias vezes, em sua maioria acabava rápido por causa da Ambrósia que ela carregava sempre consigo. Em outras (quando ela não tinha a comida dos Deuses à disposição) ele era obrigado a virar o rosto, tomando cuidado para não olhá-la. Em algumas ocasiões quando ela ficava sem Ambrósia e os ferimentos eram graves ele era obrigado a cuidar dela, então Killua tinha de resistir à tentação de puxá-la para baixo de si e tirar o sangue de sua pele com a língua.

Alexandra inspirou fundo.

- Então... – Ela começou.

- Então... – Ele olhou para a Semideusa.

- Acho melhor eu tomar um banho

- Tem um riacho ao norte, há uns cinco minutos daqui – Ele continuou a encará-la.

- Bom...

Ela tentou falar mais alguma coisa, mas acabou desistindo e ficou com a boca entreaberta. Como se esperasse que as palavras certas entrassem pela boca para que ela pudesse proferi-las.

Killua desviou seu olhar para os lábios de Alexandra, agora cobertos de sangue, e sentiu a antiga vontade de arrancar, estraçalhar, matar alguém só para ter, ver, a cor de seu sangue mais uma vez. Ele sacudiu a cabeça vigorosamente. Não, ela já está ferida o bastante, ele pensou.

Mas, mesmo assim seu instinto falava mais alto. Sem conseguir se decidir apertou sua mão contra o ombro da Semideusa com tanta força que ela fez uma careta de dor quando suas garras perfuraram sua pele.

Killua encarou o recente ferimento. Ele abriu a boca em um pedido de desculpas, mas a única coisa que escapou de seus lábios foi um grunhido gutural ao sentir o sangue quente de Alexandra escorrer pelos seus dedos.

Sem pensar, ele retirou a mão do ombro dela e lambeu seus dedos, sentindo o gosto de sangue invadir e entorpecer seus sentidos. Killua olhou para o ombro machucado, aproximou-se dela e lambeu o local, fazendo com que todo o sangue diluísse em sua boca.

Ele começou a lamber o pescoço dela, numa tentativa de limpar o sangue quase seco (o que era um desculpa inútil, considerando que o riacho estava apenas cinco minutos de distância dali) e acabou por lamber os lábios dela.

Alexandra estava cansada demais para ter qualquer reação, até mesmo para afastá-lo, ela não tinha forças. Mas, por que você iria afastá-lo? Ela pensou.

Ela tentou não prestar atenção no modo como a língua de Killua se retorcia, pedindo para limpar o resto do sangue dentro de sua boca.

Ele se afastou da Semideusa, mãos agarrando a grama abaixo de si, seu cabelo caindo nos olhos cianos arregalados (com as pupilas dilatadas), boca entreaberta e respiração rápida.

- É melhor você ir tomar banho – Diz ele, ficando de pé – A primeira vigília é sua

- Por que? – Ela pergunta um pouco indignada.

Por me fazer ficar fora de mim.

- Porque sim – Ele limitou-se a dizer, escondendo o pensamento no interior de sua mente.

Alexandra suspira pesadamente, pega sua mochila esquecida no canto de uma árvore e marcha em direção ao riacho. Killua a acompanha com os olhos, se perguntando, não pela primeira vez, quando ele irá obter total controle sobre seus instintos de assassino.

A resposta estava mais longe de ser alcançada, bem mais distante que o riacho onde Alexandra fora se banhar.

E ele sabia que, no presente momento, o único objetivo dela era encontrar Fôx. Seu parceiro, amigo, irmão... Sua vida.

Por que Killua simplesmente não conseguia entender?

Notas finais
Comentem xD'
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.