Hunter × Hunter Sem Limites - Interativa
4 Exame Hunter: Primeira Fase - Parte 3
Notas iniciais

Hikari sabia que, num teste mortal, ser egoísta e confiar apenas num grupo seleto poderia salvar sua pele e levá-la à vitória, mas não poderia ignorar pessoas com suas vidas em jogo e simplesmente continuar a sua própria.
Nunca imaginou que as aulas de natação que seu professor de educação física do orfanato insistia em encaixar na grade letiva seriam tão úteis algum dia. Alcançou as pranchas em poucos minutos, porém, antes que pudesse mergulhar para procurar quem se afogava, uma mão emergiu a poucos metros, se debatendo. A órfã considerou se aproximar, porém aquilo estava muito estranho e seu “sexto sentido” tiniu: apenas uma mão surgiu próxima a um lugar onde pessoas tinham afundado, aparentemente se afogando. Surgiu próxima, porém não razoavelmente perto. Hikari então decidiu mergulhar e tentar abrir os olhos na água salgada, o que iria arder, mas suas suspeitas iriam embora e ela saberia bem com o que estava lidando.Tomou fôlego e mergulhou.
O que viu ao abrir os olhos foi perturbador: a mão que era vista na superfície estava conectada à cabeça de um mostro cinzento. A criatura tinha um sorriso sinistro em sua boca cheia de dentes e seus olhos mais pareciam fendas sádicas. Seu corpo lembrava o corpo de um verme, uma cobra ou uma minhoca, porém possuía dois membros curtos que terminavam cada um em uma única garra. Entre seus dentes, havia uma perna decepada que ainda saía sangue.
Hikari ficou paralisada. Ela sabia que tinha que agir, que estava em perigo, que tinha que usar seu cérebro naquela situação desvantajosa para poder sobreviver, mas o medo e o choque a petrificaram.
O monstro, ao perceber que tinha sido notado, deu um berro ensurdecedor e nadou para além de sua vista, já não mais sendo uma ameaça. Entretanto, Hikari apenas “acordou para a realidade” quando lhe faltou o ar e foi obrigada a subir à superfície.
Limpou a água salgada dos olhos, que lacrimejavam, não só pela agressão da água do mar, mas também pelo que a garota sentia. Hikari se sentia inútil, medrosa, burra, sentia-se como se não fosse merecedora da vida. Ela estava no Exame Hunter, maldição! Como pudera um monstro sinistro tirar-lhe a ação?! Se o monstro tivesse atacado como ela imaginou que ele faria, a garota, agora, estaria morta.
A imagem caricata que tinha de sua mãe veio à sua mente, onde a mulher recebia uma carta de um mordomo cliché dizendo que sua filha havia morrido nas primeiras horas da primeira fase de sua primeira tentativa no Exame Hunter. Na cena, sua mãe mesquinha ria e pensava como havia sido a escolha certa abandonar aquela decepção de filha. Bateu em seu rosto, obrigando-se a sair daquele devaneio infantil. Havia pisado na bola feio e não estava errada em sentir-se um lixo, mas tivera a sorte de estar inteira, ficar perdendo tempo lamentando como estivera por um triz não a impediria de estar em situação semelhante novamente.
Olhou em volta e já não via mais o grupo da bússola. Teve vontade de bater-se novamente, tamanho ódio que estava de si mesma. Virou as pranchas dos afogados, que nem pôde pensar em salvar. Números 104 e 378, ninguém que se lembrasse. Teve um alívio enorme em ver que o número 26, o de Masuke, não estava ali. Olhou para “trás” e, com dificuldade através do sol de meio-dia refletindo na água, viu sua prancha boiando a alguns metros, à deriva. Levou as duas pranchas para perto da terceira.
Fazia quase duas horas que havia entrado na água, o que não chegava a ser muito tempo, porém estivera nadando sob o sol durante metade desse período, uma tarefa cansativa e desgastante que também a fazia suar muito. Resultado? Sua pele ardia pelas queimaduras do sol, sua gargante implorava por um pouco de água doce e seu estômago começava a protestar. Ah! Não podia se esquecer que estava totalmente perdida e não havia sinal de ilha alguma em nenhum de seus horizontes, para qualquer lugar que nadasse poderia estar se afastando de seu objetivo. Até mesmo se ficasse parada, a maré a moveria lentamente a algum lugar que dificilmente seria a ilha certa. “Parabéns, Hikari!”, pensava a garota, “Olha o que você fez! Quis dar uma de ‘super heroína salva o dia’, é? Agora você está acabada, Hikari.”, a menina chorava, as lágrimas, tão salgadas como a água que a cercava, ardiam ao passar pelas bochechas, vermelhas graças às queimaduras.
Gritou um palavrão e sua garganta seca ardeu, fazendo as lágimas escorrerem mais ainda, tanto pela dor física quanto pela dor de sentir o quão frágil era, o quão longe dos seus objetivos estava. Sempre pensou que não seria fácil, mas via como se fosse um peso a ser levantado: era necessária certa força pra isso, mas era certeza que uma hora levantaria, mesmo que com muito esforço; quando, na verdade, a comparação mais adequada seria pular por um buraco: poderia se preparar da forma que fosse, tomar distância, tentar pular na hora certa e de forma certa, mas não adiantaria nada fazer esforço no ar se não tivesse a impulsão suficiente para chegar no final. A beirada do outro lado estava longe demais e ela já começava a cair.
A garota, desesperada, começou a nadar em uma direção aleatória, ciente de que gastava energia a toa, ciente de que as lágrimas que não continha também levavam água preciosa de seu corpo, ciente de que não poderia fazer nada concreto para melhorar sua situação. Em meio às braçadas e pernadas angustiadas, sua respiração estava longe do ideal para um nado saudável, começou a ingerir pequenas quantidades de água salgada, até começar a tossir por ter se afogado levemente. Mesmo assim, não parou de nadar.
Começou a ficar tonta, mas ignorou, o sol forte sobre sua cabeça a deixando confusa e com a visão levemente embaçada. Seu corpo perdeu a força, suas mãos escorregaram das pranchas e a última coisa que sentiu foi seus olhos ardendo com a água salgada.
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Não sabia muito bem o que era aquilo, se estava presa em uma lembrança, em uma alucinação, em um sonho ou em uma mistura bizarra dos três. As cores eram a coisa que mais conseguia identificar. Por algum motivo, tinha a impressão de que olhava o teto, mesmo não sabendo exatamente o que a levava a pensar isso. O “teto” era laranja claro, num tom pastel infantil igual às balas pequenas, redondas e azedas que Zairo custava em roubar da Irmã Edna. Percebeu que não podia controlar os próprios movimentos, inclusive o movimento dos olhos, porém podia experienciar tudo que seus sentidos captavam. Sentia o aroma de queijo e tomate, talvez uma pizza. Sentia a maciez do cobertor que envolvia seu corpo diminuto, o calor de um corpo à sua direita, o contorno do que pareciam ser barras contra sua pele à sua esquerda. Em sua boca, havia um gosto doce de algo há muito esquecido, porém extremamente familiar.
Em contraste com a sensação calorosa e acolhedora que os outros sentidos passavam, seus ouvidos escutavam, ao longe, palavras ríspidas. Ela podia entender claramente o som do que ouvia, porém algo a impedia de relacionar os sons com o significado das palavras que formavam, como se escutasse um idioma diferente, mesmo tendo certeza de que conhecia a definição de “Ba”, seguido de “Ba” e finalizado com “Ca”. Havia uma voz feminina e uma masculina, ambas mexiam com Hikari como nada no mundo, então também se sentia angustiada pela agressividade daquelas palavras indecifráveis.
Sentiu sua boca abrir, o gosto doce sumindo, suas cordas vocais vibrando. Então ouviu um choro infantil muito mais alto que a briga entre o homem e a mulher.
Seus olhos abriram.
∆
O laranja tranquilizante do teto foi substituído pelo azul límpido do céu. O doce apetitoso em sua boca foi transformado em um salgado nojento que cuspia. O aroma agradável da pizza foi tomado pelo cheiro nauseante de maresia. As palavras ásperas femininas e masculinas viraram berros desesperados de uma voz muito mais grossa que a voz masculina anterior. E a sensação do corpo quente ao seu lado agora eram braços fortes a segurando.
— Hikari! Vai, respira, por favor! — o homem gritava, e a menina ainda não havia identificado quem era — Eu não quero ver uma criança morrer nos meus braços, desgraça!
A garota finalmente tomou o choque de realidade, levantou a cabeça, cuspindo um volume de água que era impossível de acreditar que cabia dentro de si. Viu que quem a segurava era o homem das sobrancelhas atípicas. Zepairu, era o nome?
— Graças à Mãe! — Ele a abraçou com força e tudo que ela conseguiu fazer foi expelir ainda mais água — Eu achei que você ia morrer.
— O que… o que aconteceu? — perguntou, ainda atordoada.
— Eu que lhe pergunto: o que aconteceu? Eu estava nadando quando, do nada, você veio se debatendo desesperada na minha direção, carregando três pranchas, e então simplesmente afundou e não voltava. Demorei pra perceber que você não estava mergulhando, tive que descer muito até te achar.
— Eu vi um mostro e… me perdi — Hikari massageou sua cabeça, como se clareasse seus pensamentos manualmente — Eu estava com fome e sede e acho que desmaiei por causa do sol…
— Entendi — Zepairu finalmente soltou Hikari, que se apoiou em uma das diversas pranchas de estavam ali — Pegue, tome um pouco de água. Pode comer uma barrinha também.
Por um momento, Hikari achou que fosse um truque ou uma alucinação. Não podia ser verdade! Aquela garrafa cheia e praticamente gelada e aquela barrinha de cereal estendidas para si não eram verossímeis. Ela havia falhando. Ela iria morrer. Aquilo era sorte demais, sorte que ela nunca teve.
Seu questionamento sobre a vida foi interrompido pela ardência que sentiu na garganta, que a fez agarrar a garrafa com selvageria, esvaziando-a em segundos e logo partindo para a barrinha, que foi devorada sem misericórdia.
— Eu trouxe dez garrafas cheias e umas vinte barrinhas! Você não trouxe nada?! — o homem questionou, pasmo, e então afagou os cabelos negros da garota — pobre criança…
Ao sentir-se subestimada, a órfã transformou sua indignação em determinações.
— Você disse que estava nadando quando eu apareci, certo? — Zepairu assentiu — então sabia para onde ia?
— Sim, meu Beetle 09 tem bússola, o seu não tem? — perguntou, aliviado com a melhora da criança.
— O que é um Beetle 09? — questionou, confusa.
— É o mais novo modelo de celular da série Beetle, ué. Você não conhece?
— Venho de uma cidade onde há apenas quatorze pessoas que possuem celular — respondeu, simplista. A garota queria desesperadamente mostrar que estavam no mesmo nível.
— Você quer fazer uma aliança, não é? Eu divido minha bússola com você. — O homem sorriu, simpático e Hikari desviou o olhar, levemente constrangida.
— Sim, eu agradeceria — ela murmurou enquanto tirava os cabelos molhados do rosto — Em troca, pode ficar com uma das minhas pranchas e uma das plaquetas que eu achei, o que acha?
— Eu aceito. — Zepairu estendeu sua mão à criança, que apertou, selando o trato. Ele pegou um celular laranja, que realmente parecia um besouro, e apontou em uma certa direção — É para lá!
A garota assentiu e, vendo que agora era a hora de dar tudo de si, afinal o destino parecia ter dado-lhe uma segunda chance, desamarrou seu lenço amarelo do pulso, agradecendo por ele não ter se soltado, e amarrou em seu cabelo, num pequeno ritual que aumentava sua concentração. Começaram a nadar juntos, sua teimosia não a deixava ser passada para trás e ela acabava deixando-se sorrir esporadicamente, quando já não conseguia mais conter sua felicidade, então fechava-se novamente, cobrando-se seriedade.
Nadaram tranquilamente por quase meia hora, o sol de meio-dia castigando-lhes. Quando finalmente viram algo concreto no horizonte, o coração de Hikari palpitou, achando ser a ilha. Entretanto, uma nuvem passou pelo sol alguns instantes depois, deixando-a ver com clareza ao que se aproximavam.
Uma mulher, coberta apenas por um tecido branco imundo e rasgado, que deixava à mostra seu seio esquerdo, estava desamparada sobre uma rocha pequena, aparentando estar nos seus últimos minutos de vida. Hikari tinha que admitir que a mulher era bonita — cabelos negros e curtos emoldurando o rosto de traços delicados, pele pálida, olhos verdes, corpo atraente — mas aquilo era absurdamente suspeito! Era claramente uma armadilha, apenas tolos pervertidos ou bondosos iludidos cairiam naquilo.
— Hikari! Olhe! — Zepairu disse, o terror em sua voz, e Hikari temeu o pior — Espere aqui, cuide das minhas coisas, eu vou ajudá-la. — Ele puxou um saco de debaixo d’água por um cordão que ficara até então amarrado em seu pulso e entregou para a garota, começando a nadar rápido até a mulher.
— Zepairu, não! É uma armadilha, como você não vê?! — berrou, desesperada, mas não foi ouvida, talvez pela distância, talvez pela água que cercava os ouvidos do rapaz — Merda!
Olhou a bolsa em suas mãos. Ali estava o que havia restado das “dez garrafas cheias e mais de vinte barrinhas”, o celular laranjado, uns cacarecos de sobrevivência e uma faca grande, que logo lhe chamou atenção em meio àqueles objetos diversos. Antes que pudesse dar mais consideração aos demais utensílios, um grito atraiu seu olhar.
O que via era muito mais assustador do que o monstro que a paralisara anteriormente, principalmente por ser maior e por segurar, em seus repulsivos tentáculos, uma pessoa que tinha um mínimo de afeto.
A bela moça ainda estava ali, no topo, mas não existia mais pedra — nunca existira, apenas uma ilusão que a criatura fazia com seu corpo — e agora haviam dezenas de tentáculos grossos, gordos e cinzas saindo do que seria as costas da mulher, se aquilo fosse humano. A criatura sacudia o pobre homem que salvara sua vida, enquanto uma boca dentada surgia por entre alguns tentáculos.
A vida havia lhe dado uma segunda chance, mas fora ela pra aprender a não tentar salvar pessoas e pôr a própria vida em risco? Fora para aprender a agir quando se deparasse com um perigo? Fora para salvar a vida daquele homem, que ficaria naquela situação independente dela? Ou a vida a reservava algo maior e não valia a pena se arriscar antes disso? Se fosse batalhar, como deveria começar? A garota fechou os olhos, respirou fundo e tomou sua decisão.
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