Humanos: O universo
1 Humanos: O Universo
Notas iniciais

Humanos, o universo.
Para onde vão os nossos silêncios, quando deixamos de dizer o que sentimos? – Eu me Chamo Antônio.
Era mais do que provável que eles passariam por mim com olhares maldosos. Todos eles eram iguais. Eu detestava isso. Porém, era tudo que eu podia fazer. Ninguém iria me defender, ninguém iria lutar por mim. Ninguém iria se aproximar de mim. Eles não gostavam de mim e deixavam isso bem claro.
A monstruosidade está no coração.
João, e nada mais. João, desconhecido. João, monstro. João, que ensacava compras dos outros no mercado, para que fossem para suas casas, felizes por que havia sempre o mesmo funcionário para ensacar todas aquelas tralhas. Felizes pelo fato de não precisarem fazer nada. Mas, afinal, era isso que um funcionário fazia, para ganhar o menor salário do mercado, ser desprezado pelos colegas e levar surras após o expediente. Pedir aumento era demais, o que ganhava estava bom para ele.
Às vezes me pergunto se é ela quem move a população.
Menos ela. Eu soube, sempre, que ela não era igual.
Tudo ali me incomodava, menos ela. Cabelos azuis claros, olhos castanho-escuro, pele branca, que aparentava ser tão macia quanto seus cabelos.
Ela me ajudava a ensacar, e tinha um sorriso doce. Daquela vez, ela usava um casaco roxo e calça jeans rasgada. Ela conversava comigo, tocava o meu rosto, perguntava se eu era real.
Eu certamente pareço um monstro, falei a ela, mas ela riu.
“Quem lhe disse isso, João?”, ela sorriu, acariciando minha face. Minha pele era escamosa, cheia de cicatrizes e levemente verde. Minha boca era torta, meu sorriso era desagradável, meus olhos eram pequenos, e eu estava ciente disso.
“Eu me convenci disso ao nascer.”
Ela acariciou meu rosto e sorriu. “Você é meu super-herói, sabe por quê? Você aguenta todos olhando você de forma maldosa, você sorri para os clientes que desprezam você. Não é o que está por fora que interessa João. Acredite.” Ela pegou suas sacolas e saiu, me deixando sozinho. Ela acreditava em mim mais do que eu mesmo, não soube o que fazer quanto a isso.
Entre incontáveis grandes finitos, desejamos apenas colidir com pequenos infinitos.
Ela era linda e meu colega de trabalho, Bruce, também achava isso.
Ele era alto, musculoso e com olhos, barba e cabelos castanhos. Sua expressão botava medo, mas ele fazia questão de mostrar o quanto me odiava.
“O mundo ainda vai ser um lugar melhor, Eddie. Pode ter certeza que vão recuperar suas coisas.” Disse, a um colega de trabalho que havia sido assaltado. Bruce riu alto e apontou para mim.
“Olha lá! O tonto vive em uma ilusão!” Ele riu com seus amigos, que apenas se encolheram quanto eu me aproximei.
“Bruce, isso não é uma ilusão. O mundo pode ser um lugar bom.”
Ele fez uma careta irritada. Eu sabia que ele não ia com a minha cara por causa dela. Eu estava indignado com o quanto ele era parecido com uma bomba relógio.
“Cala a sua boca, monstro.”
Perdi-me na vastidão de seu ser.
Caminhando de volta para casa, em um dia chuvoso, mais uma vez. Eu não tinha bicicleta ou carro. Ambos foram roubados.
Olhei o céu e sorri. Havia apenas uma estrela, pequena, e quase imperceptível, no meio daquele vasto domo rosado, nebuloso e iluminado apenas pela Lua cheia. Perguntei-me se aquela estrela era como eu: Considerada uma aberração por não ser igual ás outras.
Suspirei e corri pela rua, sentindo a água respingar em minha calça, me causando calafrios. Quando cheguei em casa, entrei rapidamente e fui recebido da melhor forma possível.
Afrian, minha cadela, se esfregava no meu colo, quando me agachei para pegá-la. Sorri e brinquei com ela. Ela lambia meu rosto. Eu sabia que, aos olhos dela, eu não era um monstro. Eu era seu super-herói, que havia a salvado da realidade de um cão abandonado.
Havia a encontrado em um campo qualquer, tinha uma coleira e um brinquedo na boca. Olhava os lados, a procura do dono que, provavelmente, a deixara ali, jogando o brinquedo para que não fosse atrás do carro.
Eu soube que, para ela, seu antigo dono era o monstro.
Fiz minha comida e sentei-me na poltrona, com Afrian em meu colo.
Você é quem me mantém vivo, a meu ver.
De repente, ela veio na minha cabeça de novo, invadindo e voltando. Tudo estava nebuloso. Suspirei, andando pela rua novamente. O caminho até o trabalho era curto, porém meus pensamentos o deixavam cada vez mais longo.
Só sinto falta de quem uma vez já esteve realmente lá
Só sinto
Só minto
Sobre só sentir
Sobre viver sozinho
Sua falta nunca foi real
Tal como você
O meu mais perigoso jogo mental
E tudo nela me deixava intrigado.
Eu soube, mais tarde, que ela não existia, por que era boa demais para não ser coisa da minha cabeça.
Talvez nem ao menos meu emprego exista, ou as pessoas a minha volta. Ou nem mesmo Afrian.
Talvez nem eu mesmo exista.
Mas mesmo assim, eu sabia o tempo todo que a bondade existia.
Por que as estrelas me disseram isso.
Por mais que a maioria delas discordasse, eu vi que era verdade.
Que o céu nos espelhava, que cada um de nós é um fragmento incompleto do universo, cada um com o seu. E, quando encontrávamos nossa alma gêmea, nosso universo se completava.
Gosto de pensar que as pessoas são as estrelas de verdade.
A poesia mais perfeita é a que se encontra na troca de olhares
As pessoas serão seus próprios lares.
A canção é quem espanta maus ares.
Distância é o menor obstáculo que passei para obter você,
Para que você fosse o meu eixo de gravidade.
Por anos,
Estas estrelas habitaram o lar delas,
É chamada Terra.
Grande Terra, com suas galáxias diferentes e espalhadas por todos os cantos. As cidades eram os sistemas, os prédios, as casas, eram os planetas. E cada planeta tinha algum habitante. Todas as estrelas eram diferentes, pensavam diferente, falavam diferente, tinham brilhos diferentes. As ruas eram os eixos de gravidade dos planetas, e os oceanos eram os abismos.
Cada estrela tem um jeito.
Peço desculpas se eles sugaram toda a felicidade
Que havia dentro de ti.
Desculpe, pois toda estrela
Têm um buraco negro dentro de si.
Os humanos que já passaram por mim, estavam distantes daqui. No próprio mundo, lutando para saber se iria para a Guerra de outro mundo, ou se voltaria para a realidade.
Sabia que os humanos não são ocos?
Estava a anos-luz daqui, quando você me beijou.
Vivendo em meses de fantasia, num ano de realidade.
E se?
E se as estrelas beijassem?
O céu se apagasse?
Os planetas dançassem?
As galáxias pulassem?
O(s) universo(s) batalhasse(m)?
E se... Meu mundo de fantasia se misturasse ao seu, de realidade?
E se poemas voassem de verdade?
Não, não tenho permissão,
Nem pra ir, ou pra voltar,
Ver o sentido ou a razão,
Pensando se um dia vou lembrar
Se João ainda está bem, ou se já não está são.
Veja o céu, o céu estrelado. Veja, abra seus olhos para a realidade, veja como João viu.
Será que nunca descobrirão, que o universo é o espelho do mundo?
Que, na verdade o universo está dentro de cada um de nós?
Que as estrelas no céu, são nosso verdadeiro eu.
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