Humanoid Chronicles
5 Capítulo 5
Você sabe, ninguém está ouvindo
Eles não querem ouvir
Diga o que você quer dizer
Pessoas começam a temer isso
(Hey you – Tokio Hotel)
19 de Agosto de 2109 (ainda, dia longo!)
Sala de Gustav (garoto nerd reprimido)
15h55min PM
– Tom, Georg, segurem ela firmemente – Bill disse me soltando para que Georg agarrasse o meu braço – Vou soltar as algemas dela.
Bill avançou até os meus braços, olhando firmemente em meus olhos, como se pudesse dizer que qualquer movimento meu seria fatal. Ele colocou a mão sobre as algemas e a as apertou, fazendo-me sentir seu toque gélido. Logo depois as algemas apitaram e se abriram deixando os meus pulsos doloridos relaxarem finalmente.
Ele fez sinal para que Tom e Georg me levassem até a cama, um sentimento de pavor me atingiu, aquilo realmente parecia um manicômio. A cama tinha mais algemas que me prenderiam a ela, tentei me debater e ir para trás, mas fui arrastada facilmente, sem muito sucesso.
Georg colocou toda sua força e conseguiu me derrubar na cama sem a menor delicadeza que eu pensei que ele teria. Ele me segurou firmemente enquanto eu tentava me soltar do aperto de ferro dele. Tom e Bill começaram a prender meus braços e pernas naquilo e em menos de um minuto eu já estava presa sem conseguir sair.
– O que vocês vão fazer comigo? Alguma experiência macabra? – eu exclamei tentando inutilmente tirar aquelas algemas.
– Ainda não – Bill disse calmamente como se estivesse falando de coisas simples da vida – Por enquanto só vou analisar a máquina que tem dentro de você. Aprenda uma coisa, sempre saiba como seu inimigo é, antes de atacá-lo.
– Já sei que você é um imbecil! Serve para alguma coisa?
Claro que ele nem respondeu, não perdeu tempo, apenas se afastou e fez sinal para Gustav começar a colocar aquelas máquinas a se mover. Aqueles negócios davam medo, giravam em volta de mim e soltavam raios lasers sobre o meu corpo, analisando cada partícula abaixo da minha pele. Logo percebi que várias informações foram surgindo na tela do computador.
– Ela tem 60% do corpo feito de material robótico, a maioria é platina... As duas pernas, o braço direito, as costelas e grande parte dos ossos adjacentes e... o coração – ele disse por fim surpreso – O coração dela não é de verdade, ele foi substituído por uma imitação, um dispositivo que bombeia sangue para o resto do corpo que não é feito de platina e sim de algum composto molecular semelhante à da titina que se encontra nos músculos.
O rosto de Bill de repente ficou sombrio, como se não acreditasse no que Gustav havia dito. Então se virou para mim, como se quisesse que eu confirmasse o que seu amigo havia dito, ele parecia o único realmente incomodado com isso. Andou até onde eu estava e mandou Gustav parar com as máquinas.
– Estou surpreso, seu pai é realmente frio para usar essa experiência em você, sabendo que ainda não era algo testado. Pelo visto, deu certo – ele disse secamente – Não acredito que tenho em minhas mãos uma Humanoid 483.
– Wilhelmine para você, meu chapa! Eu tenho um nome, não sou uma máquina por mais que meu corpo seja mais feito de material robótico do que carne humana. Então ou você me trata como igual, ou também não vou te tratar nada bem.
– Tente – ele disse dando ênfase na palavra.
Tudo bem, eu já estava perdendo a paciência com ele, não aguentava mais ouvir uma palavra do que ele dizia. De todos os caras que já vi na vida, ele era o pior de todos! Um hipócrita, mesquinho, egocêntrico, metido a bonzão, o tal Senhor Eu-mato-todo-mundo. Então acho que toda aquela força que eu evitava usar e já aprendera controlar de repente surgira do nada.
Meu braço direito tremeu por uns instantes e arrebentou aquela algema facilmente como se fosse feita de plástico. Levantei meu braço o mais alto que pude e atingi em cheio o rosto de Bill que caiu para trás, se chocando com as máquinas. Senti a fúria em mim sendo substituída pelo prazer de ver o lábio dele rachado e sangrando abundantemente enquanto ele tentava descobrir o que acontecera. Quebrei a outra algema dando um soco nela com meu braço robótico, só faltava quebrar as das pernas quando Georg veio correndo me segurar antes que eu fizesse mais estragos.
Debatia-me com mais força tentando arrancá-lo de cima de mim, mas logo Tom também me segurou com força, torcendo meu braço humano para trás como Bill fazia. Este ainda estava encostado na máquina passando seus dedos pelo sangue que escorria de seu lábio, o olhando hipnotizado como se fosse algo digno de atenção. Ele passou sua língua pelo machucado e fez cara feia quando percebeu que ardeu, mas logo deu um sorriso. Seu olhar incisivo encontrou o meu e pelo incrível que pareça, não encontrei fúria e sim diversão.
– Boa pontaria – ele disse com aquela voz carregada de veneno – Quero ver se da próxima vez você conseguirá se sair tão bem.
Caminhou até minha direção, fiquei petrificada, não sabendo se socava os dois que me seguravam ou tentava socar Bill novamente. Nem deu tempo. Ele tirou o choque-elétrico do bolso e tocou em mim me fazendo cair estatelada na cama, ainda consciente e sentindo aquela tortura novamente. Juro que nem doía tanto quanto antes, já estava me acostumando.
– Acho que está bom por hoje, Bill – Gustav disse analisando o estrago que eu causara – Vou ter que consertar as algemas, não vai dar para mantê-la quieta.
– Eu sei – Bill disse colocando as algemas antigas de volta nos meus braços que ainda estavam hirtos por causa do choque-elétrico – Deixe isso para outro dia. Pelo visto, a Humanoid está começando a usar sua força verdadeira.
– Você me deixa fora do sério – eu finalmente consegui falar por causa da fúria, senti mais dor por causa do formigamento que se instalou nos músculos do meu rosto.
Como sempre ele nem deu importância, mas que eu havia calado um pouco daquela boca, eu tinha. Um bom soco faz milagres. Ele colocou mais algemas no tornozelo das minhas pernas, talvez com medo de que agora eu desse um soco bem dado nas suas partes de baixo. Pegou-me facilmente e me colocou no seu ombro como se eu fosse um saco de batatas e acompanhado de Georg e Tom – que pareciam estar se divertindo muito com minha situação atual –, fomos embora da sala de Gustav onde podia-se ouvi-lo praguejando contra mim por ter quebrado a cama.
Meu corpo ainda doía, pelo visto ele havia aumentado um pouco a potência daquilo para que me derrubasse totalmente sem que eu desmaiasse. Aquele cara é maligno, acredite no que eu falo, alguém tem que prendê-lo, ele é louco da cabeça! Contentei-me apenas a analisar o lugar pode onde nós passávamos, se eu decorasse, poderia usar futuramente para escapar do local. Não foi ele mesmo que falou que tínhamos que conhecer muito bem o inimigo?
Era incrível ver a expressão das pessoas ao olharem para mim, talvez fosse por causa do rosto de Bill sangrando e por eu estar completamente presa, todos olhavam meio apavorados. Isso era bom, afinal todos tem que saber que não devem mexer comigo, já não basta o imbecil que está me segurando.
De volta ao meu maldito quarto, Bill me tirou de seu ombro e me segurou no seu colo e sem a menor delicadeza me jogou no chão, me fazendo rolar até bater minhas costas nas paredes. Tom e Georg começaram a rir ao ver a cena, eu apenas tentei focalizar no meu braço humano para ver se ele não havia sido quebrado, pelo visto ele continuava intacto.
– Não a trate tão mal, Bill – Tom disse pelo visto tendo dó de mim, ou não – Não é assim que se trata uma garota. Você sabe que as coisas não são assim, ou não deveriam, pare de descontar nela.
Parecia que nada era capaz de infiltrar na fortaleza de ferro que havia em volta dele, ele apenas lançou um olhar reprovador para Tom.
– Wilhelmine – ele disse de repente me assustando por ter me chamado pelo meu nome. Como ele sabia? – Você sabe por que você se chama Humanoid 483?
Eu realmente já pensara nisso, quero dizer, essas coisas futurísticas sempre tem que ter algum número acompanhado de um nome ou uma letra para dar ênfase, por exemplo, Robô 3000 ou algo do gênero. Não sabia especificamente por que 483, vai ver é algum número da sorte.
– Não – eu disse balançando minha cabeça negativamente.
– Por que 482 pessoas morreram tentando fazer essa experiência dar certo. 482 pessoas inocentes acreditando que iam se transformar em humanos poderosos com corpos indestrutíveis. 482 pessoas que morreram pensando que ao acordar viveriam em um mundo novo, onde eles não teriam que temer a morte. Você foi a única que sobreviveu, a única que o corpo não rejeitou os dispositivos robóticos.
O mundo parecia sumir dos meus pés. Era impossível acreditar naquilo, principalmente quando era dito da boca dele, mas ele falava seriamente, nunca o vi tão sério como naquele momento, não havia nem tom de sarcasmo ou veneno. Na verdade não era tão preocupante, se a experiência não desse certo, eu teria morrido do mesmo jeito, o que realmente incomodava é saber que 482 pessoas foram para o saco. Pessoas saudáveis e que não precisavam de cirurgias por que estavam morrendo.
– O Humanoid 483 não foi inventado para ajudar pessoas com deficiências ou pessoas que estavam morrendo como você – prosseguiu ele com uma voz sombria – Ele foi criado para transformar todos os Humanos em robôs, acreditando que isso vai ajudar a humanidade, quando na verdade pode aniquilá-la. Você não entende por que é uma deles, a única talvez que vai sobreviver, por que nem todos os corpos vão aceitar isso, ainda mais quando não precisam de material robótico.
– Esses são seus princípios? – eu perguntei de repente – Acredita que isso realmente não vai dar certo? Que talvez seja nossa última chance de sobreviver? O fim do mundo está perto, morrem dezenas de pessoas todos os dias. A Terra está se rebelando.
– Temos que pagar o preço do que fizemos. Se chegar a hora de tudo acabar, temos que aceitar isso dessa maneira. A sobrevivência consiste em você tentar dar o seu melhor para não morrer, não criar um exército de robôs humanos para fins lucrativos.
– Que fins lucrativos? – eu perguntei sem entender nada.
Ele não disse. Apenas virou as costas novamente e mandou Georg e Tom o segui-lo. Pela primeira vez eu não queria que ele fosse embora, queria apenas que me dessas respostas, eu estava começando a ficar com medo de tudo que estava acontecendo. Queria ir para casa, mas eu estava começando a pensar que nem lá eu estaria segura.
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