Humanoid Chronicles
42 Capítulo 42
Notas iniciais
Tudo que você tem
Apenas deixe sair
Preparado ou não
Apenas dê a volta por cima
(Hey you – Tokio Hotel)
05 de Setembro de 2109
Em uma loja de fantasias, perto da Berlim destruída
15h33min PM
Naquele mesmo andar, fui em direção a um vaso que ficava perto do meu quarto e enterrei o localizador ali mesmo. Falei para Berta esperar nesse andar, enquanto eu ia dar um jeito nos caras que estavam na sala de estar. Peguei em minha mochila o clorofórmio e derrubei em um paninho e o segurei firmemente enquanto descia as escadas com todo cuidado.
Os dois soldados estavam aonde eu havia visto pela câmera, um deles estava analisando os quadros de fotografias em cima da lareira e o outro estava olhando para a janela, como se suspeitasse de um ataque surpresa do lado de fora. Escondi-me atrás de uma estante, esperando pacientemente a hora de atacar. O soldado que estava vendo as fotografias, falou que ia dar uma olhada na biblioteca e sumiu por um corredor, deixando o amigo sozinho e desprotegido.
Ele nem percebeu quando cheguei, tapei sua respiração com o paninho cheio de clorofórmio e segurei um dos seus braços em suas costas, impedindo-o de se movimentar ou gritar. Logo seu corpo inconsciente pendeu para um lado e eu fui arrastando-o até o armário de casacos e o joguei lá dentro. Eu estava ficando boa nesse negócio! Estou quase me sentindo uma espiã!
– Hoffmann? – perguntou o outro soldado, voltando à sala de estar enquanto me mantinha novamente atrás da estante – Onde você está?
Como se adivinhasse, finalmente, um ataque, ele se virou justamente quando eu estava atrás dele. Dessa vez, não pude ser tão delicada, principalmente quando o vi levantar aquela arma cheia de tranquilizantes, lasquei um soco em seu rosto e antes que caísse no chão e fizesse barulho, segurei seu braço. Mesmo desmaiado, não tinha certeza se ele ficaria um bom tempo assim, por isso apliquei um tranquilizante nele. Foi então que percebi algo bem conhecido por mim em seu bolso, era nada menos que um choque-elétrico igual ao de Bill. Sem pensar duas vezes, o peguei e arrastei o último soldado até o armário para ficar com seu amiguinho.
– Berta? – chamei, falando o mais baixo possível – Preciso da sua ajuda novamente!
– O que é? – ela falou, descendo a escada aos pouquinhos.
– Vá até lá fora, finja que precisa regar o jardim e encharque o gramado o máximo que puder. Quando terminar, venha me avisar e fique o mais longe possível.
– Gott! O que você está planejando?
– Não questione, Berta, faça logo o que eu mando! Preciso sair daqui o mais rápido possível!
Apesar de não estar gostando muito da ideia, Berta saiu da sala de estar, talvez, indo fazer o que eu mandei. O plano, para dar certo, dependia de uma coisa: eu precisava aprender a flutuar. Não era mais um capricho, eu realmente estava desesperada por conseguir, isso ajudaria um bocado. A outra carta na manga era usar luvas plásticas também nos meus pés, mas seria um tanto idiota.
Sentei-me amargurada na poltrona que eu sempre ficava quando queria assistir televisão. Teria que dar adeus ao meu lar, que não podia ser chamado de lar mesmo que trouxesse o mesmo conforto de sempre. Comecei a procurar em minha mochila, o meu Idiary, para ter o que fazer enquanto Berta demorava e acabei achando as fotos de Bill. Droga, como eu sentia falta dele e também sentia uma amargura tão grande por saber que ele está em maus lençóis. Mas eu ia salvá-lo, não ia deixar mais ninguém acabar com a vida dele, ainda mais quando ele se propôs a recomeçá-la.
Peguei justamente a foto que ele estava com Petrova, claro que eu não simpatizava nada com ela, mas o sorriso dele estava tão contagiante que podia ficar horas olhando sem nem ao menos me importar com aquela outra existência. E pensar que as últimas horas que estive com Bill, foram as horas mais importantes de todas, ele realmente me correspondera de tal forma que chegava a ser incomum para com a realidade. Levantei-me da cadeira e aproximei aquela foto em meu peito, tentando recordar a noite de 02 de Setembro, de como ela ainda estava não só em meu corpo como também em minha mente. Eu precisava dele, eu ia não só salvar Bill como todos os Dogs Unleashed presos e nós iríamos fugir daqui, recomeçar em outro lugar.
Quando dei por mim, eu estava flutuando, meus pés estavam a centímetros do chão e sabia que poderia subir mais do que isso. A raiva faz a arma em meu pulso disparar, o amor faz as pessoas flutuarem, no meu caso, literalmente. A base para controlar todo o meu novo corpo é através das minhas emoções e sentimentos, porque é através deles que acabo exigindo mais dos meus músculos e ossos desconhecidos.
– Pronto, fiz o que a senhorita mandou – Berta falou, voltando a sala depois de alguns minutos – Encharquei a parte do jardim que fica abaixo do quarto de hóspedes...
– Ótimo – eu falei, subindo as escadas, ou melhor, flutuando sobre elas.
– Seus pés! Você está flutuando! – Berta exclamou boquiaberta.
– É normal, sou uma Humanoid – falei, rindo da expressão dela – Agora vou colocar meu último plano em prática e vou cair o fora daqui, Berta.
Ela não falou nada, apenas continuou a me olhar abismada enquanto eu voltava para o corredor do meu quarto e entrava no primeiro quarto da esquerda. Peguei um vaso em cima de uma das cômodas com girassóis de plástico, abri a janela um pouquinho e com toda força o arremessei direto ao muro do jardim. O barulho dele se partindo foi o suficiente para que os dois robôs viessem correndo em direção a parte encharcada, procurando a origem daquele estardalhaço.
Peguei o choque-elétrico e coloquei na potência máxima e pulei da janela, mas ao invés dos meus pés atingirem a grama molhada, simplesmente flutuei. Os robôs se viraram para mim, prontos para me atacar, então coloquei o choque-elétrico na poça d’água e apertei o botão. No mesmo instante, eles chacoalharam com o choque e depois caíram na grama, totalmente em pane e incapacitados de fazer qualquer coisa.
Quando voltei para frente da casa, Berta estava lá, apenas espiando o que estava acontecendo do lado de fora.
– Você conseguiu! – ela disse por fim, tentando mostrar alguma animação – Agora você pode fugir!
– Eu sei e queria lhe dizer obrigada por tudo! Berta, depois que minha mãe morreu, você se tornou a minha, independente de ser um robô. Às vezes tento dizer a mim mesma que você não tem de fato sentimentos, mas não consigo acreditar nisso quando convivi uma parte da minha vida ao seu lado – falei, tentando não chorar, mas foi em vão, porque grossas lágrimas começaram a escapulir – Não sei se vou voltar a vê-la, nem sei se vou voltar para minha casa, por isso quero dizer adeus.
– Oh, não chore! – ela me abraçou, falando daquele mesmo jeito que sempre falou, quando eu enfrentava algum problema adolescente bobo – Vou sentir falta de você e sempre vou considerá-la como minha filha.
Aquilo era tão natural e tão cheio de ilusão. Berta não vai sentir minha falta, talvez ela possa imitar o sentimento de saudades, mas não senti-lo. Mesmo assim, foi bom ouvir isso de alguém, já que a maioria das pessoas que deixei para trás, não devem nem se recordar de mim com carinho.
– Só quero pedir mais uma coisa – ela disse, se afastando – Quero que você dê um choque-elétrico em mim, pois quando eles descobrirem o que aconteceu aqui, irão me interrogar se eu estiver em ótimo estado. Inconsciente, irão pensar que você me atacou e que não me lembro de nada.
– Tudo bem, vou deixar em uma intensidade não tão forte, assim em algumas horas você irá acordar como se nada tivesse acontecido – falei, regulando o choque-elétrico.
Berta sorriu para mim e com todo pesar do mundo, a eletrocutei e ela caiu em meus braços, totalmente desacordada, parecendo mais humana do que nunca. Levei-a para dentro da casa e a depositei na cozinha, como se tivesse sido pega de surpresa no lugar que mais passa o tempo. Saí fora de casa e pulando o muro, vi-me naquela rua deserta, cheia de casarões onde as pessoas preferem ficar trancadas ao sair. Ninguém seria testemunha da minha fuga, pus-me a correr o mais rápido possível, para longe do lugar que eu mais amava passar meu tempo.
Só parei quando vi uma loja de fantasias abandonada, com madeiras na frente da porta que não impediriam minha passagem. Com toda a força que eu tinha, em meu braço, empurrei-as até cederem e entrei naquele lugar cheirando a umidade e mofo. Comecei a procurar alguma coisa que ajudasse em um disfarce e achei um caixa contendo algumas perucas. Peguei uma loira e uma ruiva e coloquei em minha mochila, tentando fechá-la já que estava abarrotada de coisas.
Sei que deveria executar tudo o mais rápido possível, mas não poderia resgatar os Dogs Unleashed em plena tarde, eu precisava esperar pela noite. Por isso, escondi-me nos fundos da loja, esperando que o tempo passasse para que o plano fosse executado. Fazia tempo que eu não comia nada, mas isso não me impediria já que ainda tinha energia de sobra. A única parte do plano que ainda era falho era aonde diabos eu ia escondê-los? Tudo bem que poderíamos fugir para a parte destruída de Berlim, mas lá será o primeiro lugar que eles iriam procurar. Eu não fazia ideia da onde poderíamos ir para nos mantermos seguros e outras questões também eram importantes como tratar ferimentos e conseguir comida.
Melhor eu não me desesperar, vou dar um jeito nisso, vou encontrar alguma solução ou poderemos encontrar juntos. A prioridade máxima é salvá-los, depois veremos o que se pode fazer. Eu não tinha mais medo dessa nova vida, por pior que ela fosse, na verdade, eu tinha vontade de enfrentá-la como enfrentei os soldados. Devia ser errado se sentir poderosa, mas eu precisava pelo menos desse sentimento de segurança para ir em frente. A liberdade só é perigosa para passarinhos que não sabem voar e, hoje, eu dei meu primeiro voo.
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