Humanoid Chronicles
38 Capítulo 38
No meio da multidão
Um milhão de vezes
Estou me afogando, estou caindo
Eu ouço meu próprio chamado
(Alien – Tokio Hotel)
02 de Setembro de 2109
No campo de batalha
22h05min PM
Coloquei Natalie em minhas costas, do jeito que suas pernas tremiam ela nunca conseguia andar rápido e acompanhar-me, além de que para mim ela não era nem um pouco pesada. Subimos vários lances de escadas, tive que parar uma ou duas vezes para nocautear algum soldado até finalmente chegarmos ao primeiro andar.
O local estava cheio de tudo, para ser mais exato. Havia dezenas de corpos no chão, dezenas de pedaços de metal que pertenceram aos robôs soldados, sangue se espalhava pelo chão como um rio transbordando, tiros iam para todos os lados e havia pessoas lutando em todos os lados. As motos estavam tombadas no chão e muitas delas destruídas e um dos helicópteros estava pegando fogo.
– Natalie, fique aqui – eu falei, colocando-a do lado da porta. Fui até um dos homens mortos e peguei as armas que ele tinha e entreguei a ela – Atire se estiver correndo perigo e não hesite. É muito perigoso avançar agora e eu preciso ajudá-los. Esconda-se, é o melhor que tem a fazer.
– Obrigada – ela disse por fim, ainda chorando – Obrigada por salvar-me e por estar tentando nos ajudar. Obrigada por tudo, de verdade.
Não consegui conter as lágrimas que desciam pelos meus olhos, tratei de secá-las antes que me atrapalhassem e com pesar me afastei de Natalie em direção aquele campo de batalha. O primeiro que eu encontrei foi Georg, arremessando um cara direto contra a parede, logo ao seu lado estava Tom atirando fervorosamente. Eles estavam salvos! Pelo menos, por enquanto! Corri até eles, tomando cuidado para não pisar nos cadáveres e no caminho, joguei um dos robôs que os atormentavam para longe.
– Wilhelmine? O que está fazendo aqui? – Tom exclamou, um tanto surpreso e um tanto aliviado por ver-me bem – Pensei que estivesse nas celas.
– Não pude deixá-los! Essa guerra é por mim, não quero que mais ninguém morra por minha causa – falei, pegando uma das armas no chão e dando tiros nos robôs que avançavam contra nós.
– Droga, eles estavam realmente preparados – Georg exclamou, jogando sua arma fora e tentando achar outra pelo chão – Acho que não passamos de hoje, vamos ser aniquilados!
– Onde está Bill? E Gustav? – perguntei ainda temerosa.
– Bill está lá fora, espero que esteja melhor do que nós. Quanto a Gustav, deve estar em sua sala programando todas as armadilhas que tem na base para pegar os invasores de jeito. Com certeza ele deve estar mais seguros que nós.
– Cuidado! – Tom exclamou, saindo correndo de um vulto que atingiu Georg com tudo, fazendo-o voar para longe.
Não acreditei no que estava vendo. Concordo que quando meu pai criava cachorrinhos robóticos para mim, eles eram bastante inofensivos, mas aquilo ia mais longe do que eu imaginava. Uma aranha gigantesca estava acima de nós, com suas patas metálicas indo de um lado para o outro enquanto sua boca preparava para nos atingir com raios verdes iguais aos que tinham no meu pulso.
Graças aos céus que Georg havia sido atingido por uma das patas e não pelos raios, se não já estaria morto. Tom e eu corremos o mais longe possível dela, enquanto ouvíamos aquele tique-taque irritante de suas patas metálicas tocando o chão da mesma consistência. Atirei em uma das suas patas, que explodiu ao ser atingida, mas ao invés da criatura ficar bamba, outra pata substituiu aquela anterior, saindo do minúsculo corpo que as ligava.
– Não adiantar atirar nas pernas! – Tom exclamou, ao destruir uma pela terceira vez – Temos que acertar no corpo!
Só havia um jeito de chegar àquela altura e se eu não conseguisse descobrir como despertar meu corpo robótico, estaríamos ferrados. Eu precisava que meus pés flutuassem, realmente precisava ficar o mais alto que eu podia para conseguir impulso... mas nada acontecia! Não havia jeito e já estava cogitando a ideia de que Starkey enganou-me. A aranha robótica avançou até nós e atingiu um raio verde próximo o suficiente para que fossemos impelidos para trás. Fui arrastada até minhas costas bater em uma pila de cadáveres, olhei para o lado e encontrei um Tom inconsciente, com sangue descendo por sua testa.
A fúria veio visitar-me novamente. Coloquei-me de pé e corri em direção à aranha e agarrei uma das suas pernas, fazendo o seu corpo balançar perigosamente para o chão, mesmo assim ela conseguiu manter-se equilibrada. Tentei escalar pelas pernas, mas elas eram escorregadias demais para que eu conseguisse chegar até meu objetivo.
A cabeça do aracnídeo virou para minha direção e lançou um raio verde, fazendo-me pular para a outra perna enquanto a outra estava sendo estourada. Mal a ideia surgiu em minha cabeça, já a pus em prática. Com a arma do meu pulso, atingi a outra perna, mas o raio era tão poderoso e destruidor que mais três pernas explodiram sem que eu planejasse. O corpo da aranha tombou com tudo no chão antes que as pernas voltassem a crescer. Corri até ele e dei um tiro fazendo-o explodir em vários pedaços.
Tom e Georg ainda estavam inconscientes e torci para que os confundissem com cadáveres e não fizessem nem um mal a eles. Precisava me certificar de que Bill estava bem e se havia chances de ganharmos essa guerra ou teria que finalizá-la por mim mesma.
O frio atingiu-me em cheio, mas eu estava com tanto calor que nem me importei. Ali estava tão ruim quanto dentro, havia um tanque dos Dogs Unleashed acertando outros robôs aracnídeos e felinos. Havia pessoas em combate e percebi que uma delas era Bill, que se não estava atirando, estava tentando se proteger da melhor forma possível, mesmo assim, havia machucados em seu rosto e um dos seus braços havia um ferimento mostrando seu osso metálico.
Um dos soldados aproximou-se dele, mas ele estava ocupado demais lidando com dois robôs. Saquei minha arma, pronta para atirar nele, mas o disparo não saiu. Olhei para o meu pulso e percebi que havia descarregado toda a energia com a aranha e não pude fazer nada quando um choque-elétrico atingiu as costas de Bill, fazendo-o cair no chão. Corri desesperada até ele, para impedir que fizessem algo, mas em segundos ele já estava em pé de novo, não totalmente curado, mas o suficiente para conseguir se proteger.
Agarrei o soldado, o derrubando no chão antes que usasse novamente seu choque-elétrico. Dei-lhe um soco forte o suficiente para que desmaiasse, peguei seu choque-elétrico e toquei em um dos robôs que começou a entrar em pane e caiu no chão. Bill terminou de nocautear o outro, atingindo sua cabeça com toda força no chão até esmagá-la.
– O que está fazendo aqui? – ele falou e pelo incrível que pareça, não estava zangado, havia quase um vislumbre de felicidade em seu olhar – Você devia estar lá embaixo.
– Não posso deixá-lo lidando com isso sozinho, vou lutar com você. Não vou perdê-lo sem ter feito nada para impedir.
– Eu estou bem – a tentativa de acalmar-me falhou, dava para ver como ele estava cansado e como seus machucados não eram apenas arranhões.
– Bill, eu posso acabar com tudo isso. Posso entregar-me e vocês poderão fugir para longe.
– De jeito nenhum! Não vou entregá-la a eles, depois de tudo que fiz para mantê-la segura. E duvido que isso os impeça de nos atacar... – Bill parou de falar e começou a olhar para algo, de repente percebi que todos estavam se afastando de nós, como se estivessem batendo em retirada – O que está acontecendo?
Um dos robôs lançou algo em nossa direção antes de cair fora e pensei que fosse uma bomba, mas só percebi o que era quando uma imagem surgiu daquele objeto redondo. Eu estava olhando para o meu pai, em uma imagem holográfica que saía do Mensageiro – como chamávamos esse tipo de dispositivo.
– Olá, Mine – ele falou, com sua voz calma e seus olhos cansados como sempre. Não consegui dizer nada, só senti meu corpo ficar tenso ao ver finalmente meu pai e meu criador, eu não sabia ao certo o que sentir, era uma mescla confusa de sentimentos – Que bom vê-lo novamente também, Bill. Soube que conseguiu fazer a cabeça da minha filha, afinal ela está lutando do seu lado e não do nosso, mesmo assim é fantástico ver como nossa Humanoid 483 executa suas façanhas. Realmente minha filha é perfeita.
– O que você quer? – Bill perguntou, seu corpo também estava tenso e seu maxilar estava tão duro que poderia quebrar seus dentes.
– Quero algo que você tomou de mim, quero minha filha de volta. Bill, você acha que dessa maneira irá fazer justiça, mas você só está no meio de uma conspiração onde é um mero peão e não o rei. Wilhelmine está muito mais segura em minhas mãos, onde nunca faria nenhum mal a ela, mas o que aconteceria se ela fosse capturada por outra organização?
– Nunca faria mal a ela? – Bill exclamou em escárnio – Você a entregou a morte sem pensar duas vezes! Você sabotou o carro dela para que ela sofresse um acidente na primeira esquina só para usá-la como uma de suas cobaias. Pare de chamá-la de filha como se importasse.
– Infelizmente não posso negar essa acusação, nós realmente fizemos isso. A situação não depende mais apenas de mim, depende de um grupo de cientistas que estão dispostos a fazer o que for preciso. Quem diria que tudo saiu melhor que o planejado? Depois do acidente, Mine nunca mais agiu como uma adolescente rebelde e descontrolada. Quanto a você, seu acidente fez o contrário. Se eu soubesse que você viraria uma pedra em meu sapato, nunca teria mandando o explodirem.
– FILHO DA PUTA! – Bill gritou descontrolado, o segurei firmemente para que não fosse adiante, afinal os robôs ainda estavam nos espreitando – Quando eu ficar frente a frente com você, vou matá-lo, vou torturá-lo até você sentir na pele tudo o que fez! Você matou pessoas inocentes, você matou Petrova! Você matou a minha mãe!
– Você não é mais importante – ele falou, lançando um olhar frio para Bill e depois se virando para mim – Se você voltar para nós, Wilhelmine, prometo que não machucarei mais nenhum dos seus amiguinhos. Na verdade, se eles continuarem vivos, será bem melhor. A World Behind My Wall Corporation a receberá de braços abertos e você será bem tratada como sempre foi.
– Não vou com você – disse entre os dentes – Nem que eu tenha que morrer junto com os outros. Não confio em você e não sou mais a sua filha.
– É, sabia que você daria alguma resposta parecida com essa, você sempre foi uma filha tão terrível. Se eu soubesse que traria tantos problemas, teria adotado outra pessoa, uma criança muito mais obediente e agradecida. Então vamos terminar com isso.
A imagem sumiu e fiquei olhando para aquele fantasma que permanecera no local. Bill estava ofegante ao meu lado, com seus músculos tendo espasmos por causa da raiva que ia surgindo do seu âmago direto para fora. Os robôs avançaram novamente de encontro a nós e voltamos a lutar desesperadamente por nossa sobrevivência. Eu já havia perdido as contas de quantos eu havia derrotado e meu corpo humano já começara a doer por causa do cansaço.
De repente uma luz azul veio em minha direção, pensei que ela ia me errar, mas antes que pudesse perceber o verdadeiro alvo, ela atingiu meu braço esquerdo que explodiu em sangue, ossos e carne. Uma dor insuportável tomou conta de mim e eu não conseguia parar o sangramento que saía do enorme machucado, escorrendo pelo meu corpo.
– Gott! – Bill exclamou, segurando-me – Você está muito ferida! Não acredito que eles atiraram em você!
– Bill, estou perdendo os sentidos... – eu respondi, segurando sua mão fortemente, tentando manter-me acordada enquanto percebia minha visão falhando e uma tontura se apoderando de mim – Droga, Bill...
Eu tombei nos braços deles, ouvindo os seus gritos desesperados enquanto tudo ficava escuro. A dor e o cansaço sumiram, só esperava que para o lugar que eu fosse, ninguém me julgasse pelas mortes de hoje. Só queria que Bill ficasse bem, era o meu último desejo.
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