Todas as armas em sua mão sob controle, oh

Mas eles esperam em vez de perseguir, agora isso é antigo

Oh, o tempo está correndo, mas seu futuro está longe

(Dark Side of the Sun – Tokio Hotel)

19 de Agosto

Quarto escuro em lugar indeterminado

14h34min PM

Eu abri os olhos, estava deitada em algo fofo e confortável, mas fazia um frio imenso e eu estava tremendo. Tentei me mover, mas meus braços pareciam estar presos em alguma coisa, quando dei uma olhada melhor, percebi que se tratava de algemas de aço apertadas que juntavam meus pulsos me impossibilitando de mexer meus dedos direito.

Sentei-me na cama que ficava grudada na parede e olhei para os lados, era um quarto, não muito grande, só que vazio. Não havia escrivaninha, guarda-roupa, apenas uma porta que dava para um banheiro. De resto só havia outra porta que devia ser uma saída. Desci da cama e fui até ela, mas não havia maçaneta e era feita de ferro, ou seja, nem chance de eu escapar.

Parecia uma espécie de manicômio. Aquilo me dava claustrofobia, se não fosse tudo cinza, eu podia jurar que estava em algum hospício, mas sabia que se tratava de alguma base secreta dos Dogs Unleashed. Só esperava que meu pai não estivesse aqui também, desde que a única vítima fosse eu, não me importaria muito. Agora só me restava saber o que diabos eles queriam comigo, será que iam me sequestrar e só vão me devolver se meu pai desistisse das suas ideias?

Eu não vou deixar isso acontecer, vou achar alguma maneira de escapar e avisar meu pai sobre o esconderijo deles. Olhei ao redor da sala e notei que minha mochila estava jogada em um canto, corri até ela para procurar o meu Idiary, e com felicidade ainda o encontrei intacto. Já ia ligar para o meu pai quando notei que o dispositivo que permitia ligações e acesso a internet havia sido arrancado.

Fiquei com raiva e quase atingi o Idiary na parede, mas era melhor eu mantê-lo por perto, mesmo que escrever fosse algo que eu menos conseguiria graças aquelas malditas algemas. O resto que havia em minha mochila era imprestável, havia um livro que eu estava lendo – por mais que eu pudesse baixar livros em meu Idiary, eu ainda preferia comprá-los –, outro suéter e minhas luvas, dinheiro e uma barra de chocolate que eu tinha comprado mais cedo e me esquecera de comer como sempre. O chocolate estava duro feito uma pedra por causa do frio.

Tudo bem, estava na hora de partir para a ação. Fui até a cama e percebi que ela era feita de ferro. Claro que nunca ela ia quebrar aquelas algemas de última geração, mas eu poderia tentar. Arranquei o colchão do lugar e com toda a fúria possível eu comecei a bater as algemas nas barras de ferro. Eu estava mais amassando a cama, do que conseguindo me libertar, além daquele barulho horrível que fazia quando os dois se tocavam.

De repente ouvi barulhos do outro lado, pelo visto minha ideia de quebrar as algemas não surtira efeito, mas com certeza fez as pessoas do outro lado ficarem meio alerta. Continuei o que eu estava fazendo só para ver o que acontecia. Logo ouvi passos do outro lado e a porta se abriu.

– Que merda que você está fazendo?

Quando a porta se escancarou, percebi que se tratava do cara de moicano, ele não estava usando mais o blazer de couro, na verdade estava apenas com uma regata preta em um frio enorme daqueles. Ele não parecia nada satisfeito comigo, pelo visto eu havia interrompido algo importante, principalmente por que havia aquele choque-elétrico na mão dele que me fez tremer na base.

– Deixe-me sair daqui! – eu disse tentando esconder o meu medo.

– Desculpe, mas no momento não podemos fazer isso – ele disse dando de ombros e me olhando com desdém.

– Seu imbecil de merda! Vou acabar com a sua raça quando eu conseguir tirar essa droga de algemas!

– Imbecil? – ele repetiu minha palavra colocando ênfase em cada sílaba – Você vai ver o imbecil de merda novamente, garota.

– Bill, pare com isso – disse uma voz parecendo superior – Não vai adiantar nada você continuar a tratando dessa maneira.

Um cara adentrou no quarto, ele era alto, mas não tanto quando o tal de Bill, só que parecia muito mais agradável de conversar. Ele tinha os cabelos castanhos escuro e curtos, olhos azuis, era forte e bastante bonito. Vestia uma camiseta preta de manga curta e colada mostrando músculos abundantes. O cara podia ter a idade do meu pai, mas ele não saía perdendo para esses garotos.

– Sinceramente, David, ela merece aprender uma lição – Bill disse olhando feio para mim – Se precisar, choque-elétrico funciona que é uma beleza.

– Não, por enquanto não vamos precisar de força bruta – David disse se aproximando de mim, mas se mantendo em uma distância segura. Eu realmente não planejava atacar ele, parecia ser um cara legal, só estava do lado errado – Bem... pode me chamar de David e você, quem é?

– Vocês devem saber já que me sequestraram – eu disse secamente me esquecendo de ser legal com ele.

– Sabemos que é filha daquele cientista, o tal de Langebahn, mas não sei seu nome. Acho que seria um bom começo se nos apresentássemos.

– Não quero ser amiga de nenhum de vocês, quero cair fora daqui, só isso. Não sou quem vocês querem ou procuram.

– Ah, claro – Bill disse ironicamente – Você só é a filha dele, caiu como um patinho, achando que podia ficar de noite andando por aí, quando nós, filhos da noite, os Dogs Unleashed dominamos. Você tem tanta importância para nós quanto seu pai, só não se sinta honrada.

– Cachorrinho, por que você não vai servir de capacho para outra pessoa? Quando chegar a minha vez, pode ter certeza que vou pisar em você, seu verme desprezível – eu disse com tanta raiva, que se meu olhar fosse mortal, ele já teria caído morto.

– Parem vocês dois! – David disse olhando feio para Bill, ainda bem que é para ele – Bem, não vou dizer que você irá passar bons momentos aqui, afinal precisamos de sua ajuda...

– Ajuda que vocês não vão ter, estão loucos? Acham que vou trair meu pai só por que brutamontes como vocês dois me pediram?

– O negócio é o seguinte – Bill disse avançando sem medo para mim – Mesmo que você não queira ajudar, vai acabar ajudando da mesma forma. Boa vontade não é algo com que vamos ter que nos preocupar.

– Além de bater em garotas, você ainda é meio rude, não é? – eu disse tendo que levantar minha cabeça para poder olhá-lo nos olhos – Já foi corno alguma vez na vida? Ou nunca teve namorada? Você está precisando de uma para deixar de ser esse imbecil de merda, cachorrinho.

Ele sacou o choque-elétrico e apertou algum botão então encostou aquilo no meu ombro. Aquela onda de choque terrível percorreu meu corpo novamente, me fazendo perder as forças e atingir o chão, mas eu não entrei em pane nem desmaiei. O maldito havia diminuído a intensidade apenas para me machucar.

– Sinceramente, Bill, você não tem o mínimo de psicologia? – David disse bravo – Pare de machucá-la.

– Ela tem que aprender onde é o lugar dela, afinal deve ser igual ao pai. Acha bonito transformar as pessoas em robôs por que você se sentirá mais forte, que isso é tudo pelo futuro da humanidade.

– Se não fosse ele, eu estaria morta – eu disse tentando me levantar – Eu sofri um acidente.

– Então deseje estar morta, por que tudo pode estar as mil maravilhas agora. Espere depois para você ver.

Ele saiu bravo do quarto e fechou a porta com tudo. Consegui finalmente me sentar, ainda sentindo meu corpo inteiro tremer por causa do choque. David ainda se encontrava em seu devido lugar, olhando para a porta e depois para mim sem saber o que dizer ao certo, talvez silêncio fosse uma boa.

– Imbecil! – eu disse olhando para a porta querendo que ela explodisse – Idiota! Vou acabar com ele! Ele não presta o chão que pisa!

– Bill não é tão ruim assim, na verdade ele é pior, mas aos poucos você acaba percebendo que ele é uma boa pessoa.

– Ótima pessoa, claro, para torturar, matar, aniquilar, decepar e todos os sinônimos possíveis. Boa escolha trazer ele para o seu fã clube anti-Humanoids, ele parece ser ótimo com força bruta, bem a cara de vocês.

– Temos que selecionar os melhores – ele disse dando de ombro – Como você acordou agora, acho que vão trazer algo para você comer. Depois vamos começar com o nosso verdadeiro objetivo.

– Que demais – eu disse revirando os olhos – Vai ser como passar as férias no SPA, vai ser tão divertido!

David apenas deu de ombros como se não pudesse fazer nada contra isso, então apenas foi embora me deixando novamente sozinha naquele quarto terrível. Eu realmente precisava sair daquele lugar, não sei o que planejavam para mim, mas com certeza não seria nada legal. Estou ferrada. Mais uma vez.