Neblina branca

Luar branco brilha límpido

Assim como você quando dorme

Então eu vou junto e fecho os olhos

(Träumer – Tokio Hotel)

30 de Agosto de 2109

Tendo sonhos absurdos

08h55min AM

Eu estava na cozinha novamente, mirando o rosto que eu mais temia olhar. Bill estava parado a alguns metros de mim, apenas me olhando debaixo a acima, analisando cada parte de mim como se fosse me atacar a qualquer momento.

– Você tem uma arma no pulso – ele disse, se aproximando de mim – Você é perigosa, temos que acabar com você.

– Deixe-me em paz! – eu gritei, indo mais para trás até encontrar com um dos armários.

– Tenho que matá-la – seu braço atingiu o armário e por pouco não pegou minha cabeça. Eu queria correr, mas meus pés não se mexiam – Mas não consigo.

Com certeza isso era inesperado. Fitei seus olhos, esperando que risse e dissesse que era uma brincadeira, mas ele continuou sério, com seu punho quase partindo a madeira do armário. Então seu rosto se aproximou do meu e seus lábios me atingiram com fúria enquanto eu tentava entender o que estava acontecendo. Isso era loucura, uma perfeita insanidade, como isso podia estar acontecendo? E o pior de tudo é que quanto mais meu cérebro gritava para eu me afastar, mais meu corpo rejeitava qualquer ordem. Até que meu cérebro decidiu se vingar.

Então acordei com um barulho na porta, devia ser um dos funcionários trazendo meu café-da-manhã. Tudo não passava de um maldito sonho e claro que deveria ser, porque nunca, nem em mil anos, isso vai acontecer. Bill me odeia e eu o odeio, simples assim. Sério, estou me sentindo absurdamente idiota por ter sonhado uma coisa dessas! Sinto vontade de bater minha cabeça na parede até estourá-la.

E o pior de tudo é que só de olhar para os pãezinhos quentinhos no meu prato, me lembro de quem os fez foi aquele maldito, não tenho nem vontade de ingeri-los. Fui para o banheiro e decidi tomar uma ducha, queria esquecer aquele sonho que se metera em minha cabeça e não queria sair.

Tudo bem, vamos aos fatos, os acontecimentos de ontem influenciaram os meus sonhos, já que geralmente sonhamos com acontecimentos do dia-a-dia. Claro que isso não explica o desfecho. Calma, e se Bill gosta de mim? Isso explica porque ele me trata tão mal. Algumas pessoas quando estão apaixonadas acabam fazendo esse tipo de coisa. Quem sabe meus sonhos não estejam me avisando? Será que me trouxeram para a base dos Dogs Unleashed para me matarem? O que vou fazer se isso é verdade? Preciso descobrir a verdade.

30 de Agosto de 2109

Em busca de respostas

09:43 A.M.

A base dos Dogs Unleashed estava uma correria. É hoje o dia do ataque ao carregamento de robôs do meu pai e pelo incrível que pareça, não estou dando à mínima. Por enquanto, meu pai que se vire lá fora, tenho certos assuntos a tratar aqui dentro.

– Muito cuidado com essas caixas, Lester – Bill gritou logo a frente de mim para um pupilo que quase derrubou a caixa que carregava – Quer morrer mais cedo?

Não sei o que me fez parar, se foi a caixa cheia de explosivos ou se foi a visão de Bill na minha frente. Por que diabos eu tive que sonhar com ele? Isso era um bocado vergonhoso. Engoli qualquer vestígio de vergonha e fui até ele, com minha mão esquerda suando já que a outra era falsa e com minhas pernas firmes o suficiente para aguentar um corpo que estava quase para vacilar e vomitar.

– Estou ocupado agora, Wilhelmine – Bill já disse secamente quando viu que eu me aproximava dele. Sem que eu pudesse impedir, senti meu rosto ficar quente e a vergonha novamente tomou conta de mim. Fiquei petrificada, sem saber o que dizer e Bill notou – O que há com você?

– Nada – eu engoli seco, tentando me acalmar – Eu sei por que me sequestrou, você quer me matar.

– Já pensei nessa possibilidade, mas não ganharia nada te matando. Além disso, se morresse, seu pai não daria a mínima, então não tem como atingi-lo por hora.

A vergonha sumiu, mas meu rosto continuou vermelho quando ele falou aquilo e era de raiva. Talvez ele esteja blefando ou quem sabe, eu esteja levando meus sonhos muito em consideração, a única certeza que eu tinha era que não devia ter falado com aquele desgraçado.

– Quem é você para falar isso do meu pai? Você nem o conhece! Além disso, ele fez de tudo para me salvar quando sofri o acidente – eu exclamei alto o suficiente para que algumas pessoas se virassem para mim.

– Aqui não é a hora nem o lugar para discussão, já disse que estou ocupado.

– Claro, vocês vão acabar com o carregamento de robôs do meu pai, já sei sobre isso. Vai me manter em uma cela enquanto faz isso? Ou vai me levar para assistir?

– Tom vai ficar te vigiando – Bill se virou para falar com um homem com uns dois metros de altura, me ignorando totalmente.

– Tom? Por quê? – eu perguntei de repente, arquitetando um plano – Georg não fica me olhando de forma maliciosa e Gustav podia me deixar jogar Chronos Stardate.

– Porque Georg e Gustav são necessários e Tom é o único que se voluntariou para cuidar de você – ele disse, dando a resposta que eu queria ouvir. Bill, você caiu em minha armadilha perfeitamente.

– Que seja – eu disse dando de ombros e se afastando dele – Quebre a perna quando estiver lá, literalmente.

Essa era a melhor notícia que tive, praticamente um terço da base estará na operação e isso aqui vai estar praticamente vazio. Tom pode estar me vigiando, mas eu sei a fraqueza dele e usarei isso a meu favor, só preciso de mais uma coisa para me garantir. Fui até a enfermaria e encontrei o local abarrotado de pessoas e Natalie trazendo caixinhas de primeiros-socorros para cada um.

– Tomem cuidado! – ela dizia, sorridente, para cada pessoa – Sei que tudo vai terminar bem, mas sejam cautelosos.

– Ei, Natalie – eu disse, me sentando em uma das poltronas – Quando terminar preciso falar com você.

Ela acenou afirmativo para mim e continuou falando com os caras que saíam e entravam na enfermaria sempre pedindo algo para ela. Depois de uns quinze minutos todos haviam ido embora e só havia eu ali, arquitetando um plano para que ela caísse também em minha armadilha.

– O que você quer, Mine? – ela perguntou docemente, deixando meu coração apertado por estar enganando-a.

– Bem... eu ando com insônia, não estou conseguindo dormir direito. Isso não começou agora, desde que houve meu acidente eu tomo calmantes, mas agora os pesadelos estão piorando, acho que por causa dos acontecimentos atuais... – eu falei mostrando o quão eu estava cansada. Não era totalmente mentira, afinal Bill não só me atormenta na vida real como nos sonhos também – Queria saber se você não tem algum calmante forte, porque esses a base de camomila não me acalmam nem um pouco.

– Deixe-me ver... – ela disse pensativa, não parecia desconfiada nem nada – Vou ver se tem algum...

Natalie entrou em uma salinha ao lado e começou a vasculhar. Eu continuei na poltrona, com meu coração aos pulos por estar fazendo uma coisa dessas. Se tudo desse errado, eu estaria muito, mas muito ferrada, Bill me levaria para o inferno antes que eu consiga soletrar o nome dele. Logo ela estava de volta, trazendo um potinho com comprimidos brancos.

– É o calmante mais forte que achei, tome um, acho que basta para dormir e não ter pesadelos – ela disse, entregando a mim – Não abuse.

– Ah, muito obrigada, Natalie! – eu exclamei, me levantando em um pulo – Você é incrível!

Ela sorriu ao ouvir aquilo e eu saí correndo da enfermaria antes que eu me sentisse mais culpada. Escondi o pote de comprimidos em meu casaco e voltei para o meu quarto, com medo de que Bill ou qualquer pessoa descobrisse o que eu estava planejando. Peguei minha mochila do lado da minha cama e peguei meu relicário em forma de coração, onde havia uma foto da minha mãe.

Tranquei a porta para que ninguém entrasse de súbito e fui até a minha mesa, despejei os comprimidos e com meu dedo robótico comecei a amassar cada um até virar pó. Não, eu não sou drogada ou qualquer coisa do tipo – apesar de que antes do acidente eu já tenha provado algumas coisas, mas é passado –, isso faz parte do plano. Abri o relicário e lá estava o rosto de minha mãe, me olhando com doçura, tentando me fazer mudar de ideia. Peguei o pó em cima da mesa e comecei a despejar no relicário, o enchendo o suficiente até que o rosto dela sumisse.

O relicário estava fechado, cheio de pó e agora estava em meu pescoço, cuidadosamente escondido abaixo do suéter preto dos Dogs Unleashed. Essa noite eu iria atacar de verdade, salvaria Starkey Kopatz e daria o fora daqui o mais rápido possível. Ninguém mais iria segurar Wilhelmine Langebahn.