Humanoid Chronicles
8 Capítulo 8
Notas iniciais
Nas cidades, nas ruas, ao redor do globo
Tornam tudo que você ama em proibição
Do berço, até a melhor parte do show
(Dark Side of the Sun – Tokio Hotel)
25 de Agosto de 2109
Na enfermaria
15h05min PM
Você não vai acreditar! Realmente preciso contar tudo que aconteceu e vou começar nesse instante que não tem ninguém me observando. Eu consegui quebrar a porta, tem ideia disso? Consegui massacrar aquela barreira de metal mesmo com pouca energia, mas quem acabei encontrando do outro lado foi nada menos que Bill. Sério, eu estava tão furiosa que poderia matá-lo naquele instante, mas eu apaguei logo em seguida, ou seja, tanto esforço para nada.
O negócio é que acordei faz algumas horas, não acordei em um caixão como esperava ou em algum córrego poluído. Eu acordei em um lugar quente, com soro no meu braço e tão bem que posso derrubar mais portas. Estou no hospital dos Dogs Unleashed, e a enfermeira é a pessoa mais legal que já encontrei aqui, toda preocupada com o meu bem estar como se eu não fosse uma inimiga.
E sabe qual a coisa mais irreal do universo? Quando eu acordei, quem estava ao meu lado era Bill. Juro que antes de abrir bem os olhos e checar, fiquei um momento só observando com minhas pálpebras semicerradas para ter certeza de que não bati a cabeça e estava vendo miragens. Mas ele estava lá, de verdade, e com uma expressão realmente preocupada. Acho que esse último detalhe deve ser uma miragem, porque é quase impossível ele se sentir preocupado com algo além de saber se seu choque-elétrico está funcionando.
Tudo bem, talvez eu esteja errada, talvez haja algo quase humano naquele cara, e olha que a Humanoid aqui sou eu. É quando eu finalmente decidi abrir os olhos por completo e ele finalmente percebeu que eu havia acordado, ele falou comigo. Não da forma que nós sempre nos xingávamos, mas apenas com uma pergunta.
– Você está bem?
– O que você acha? – eu perguntei pronta para pular da cama e esganá-lo – Fui trancada por três dias naquela merda de quarto, sem comer, sem água, sem banho, sem qualquer forma de sobreviver. Ainda gastei todas as minhas energias para salvar o meu traseiro da morte certa, então simplesmente soquei e chutei aquela droga de porta até finalmente conseguir sair. Quando finalmente saio e penso em acabar com sua vida, desmaio. Não me sinto nada bem.
– Na verdade, acho que você está bem melhor. E você vai sobreviver – ele disse calmamente, sem nenhum choque-elétrico em sua mão.
– Ainda bem que vou, quanto a você, não tenho tanta certeza – eu disse me sentando na cama e tentando descobrir como arrancaria aquele soro do meu braço sem causar muito estrago.
– Não se mova, você ainda precisa terminar o soro – disse uma mulher loira e de olhos azuis, vindo até mim e tentando me acalmar – Bill, acho melhor você sair, está aborrecendo minha paciente.
– Esse é o meu papel, Natalie – Bill respondeu sorridente, se levantando de sua cadeira e saindo da enfermaria.
– Ele é um psicopata – eu exclamei explodindo de raiva – Um psicopata ordinário, ele ama torturar as pessoas. Veio aqui para me torturar de novo, fingindo que tudo está bem.
– O que ele fez foi errado – Natalie disse, indo perto daqueles equipamentos médicos e tomando nota do que via ali – Ele quase que perdeu o posto de Tenente por causa disso. Devemos mantê-la viva e saudável, você é muito importante.
– E porque seria? Vocês vão fazer experimentos científico em mim para descobrir como derrotar o meu pai? – eu disse tentando tirar algo dela, ela parecia ser bem fraquinha, daquelas que se você aperta demais, sempre acaba soltando alguma coisa.
– Não sei realmente o que querem com você – Natalie respondeu, sorrindo bondosamente para mim – Quer comer algo? Está sobrevivendo só de soro, precisa de algo para se manter em pé.
– Seria ótimo – eu disse realmente querendo comer algo, mas fiquei pê da vida por ela ter mudado de assunto.
A minha refeição fez eliminar todo o sofrimento que eu tive esses dias. Era nada menos que Knödels (bolinhos de batata ou pão) com Sauerkraut (repolho fermentado naturalmente com condimentos) e de sobremesa Apfelstrudel (doce de maçã com massa folhada). Sério, agora que tudo estava bem, eu até podia cogitar a ideia de ficar aqui por um tempo, desde que eu tenha ótimas refeições e possa tomar banho.
Nem preciso dizer que limpei o prato em menos de segundo, meu estômago ficou tão agradecido pela refeição que todo meu mau humor e minha vontade de matar Bill se esvaiu completamente, ainda mais ao saber que era o maldito que fazia minhas refeições. Quando tudo isso acabar, acho que vou escravizá-lo e ele virará meu cozinheiro particular.
Natalie passa a maior parte do tempo verificando se tudo está bem comigo e se quiser a verdade, estou me sentindo perfeitamente bem. Ela até me deixou tomar banho ao ver que estava me comportando. Viu? Com as pessoas certas, não tenho problema nenhum, desde que me tratem bem! Graças aos céus pude me livrar daquele camisolão de doente e me vesti com minhas roupas antigas que foram lavadas.
Desde que cheguei à base secreta dos Dogs Unleashed, esse foi o melhor dia de todos. Não tentei fugir em nenhum momento, fiquei a maior parte do tempo ou conversando com Natalie, ou dormindo ou escrevendo. Eu não desisti de sair daqui, só estou usando a tática de ser boazinha para finalmente escapar, e pelo visto está dando certo, afinal várias vezes fiquei sozinha aqui, sem algemas e sem ninguém me observando. Mas tenho que certeza que atrás da porta da enfermaria, deve ter alguém me esperando caso eu tente fugir.
25 de Agosto de 2109
Sendo massacrada
19: 21 PM
Tudo bem, eu sou uma pessoa curiosa. Natalie havia saído faz um tempo e eu fui até a porta, encostei meu ouvido, tentando descobrir se havia alguém ali me esperando. Não consegui ouvir nada, eu podia abrir a porta e se tivesse alguém, poderia apenas falar que queria um copo d’água. Ninguém ia desconfiar.
Para minha surpresa, quando abri a porta bem devagar, não havia ninguém a vista. Nenhuma pessoa pronta para me capturar, ninguém disposto a me dar choque-elétrico, não havia Bill em nenhum lugar. Aliviada, peguei minha mochila, fechei a porta com cuidado e caí fora dali. Se alguém me encontrasse, era só eu inventar algo como: “Estou com fome, sabe como é que é, fiquei trancada sem comida por três dias”. Ninguém saberia que acabei de comer.
O corredor estava vazio e me senti sortuda por não ter sido encontrada por ninguém, mas a sorte acabou quando descobri que o corredor dava para aquele saguão onde havia várias pessoas treinando e lutando, ou seja, toda concentração de pessoas ficava ali. Não dava simplesmente para mim me deslocar em uma multidão usando preto, quando eu estava com uma blusa magenta e um suéter listrado preto e branco, sem falar na minha querida camiseta “I Love The World” por baixo do suéter – eu havia comprado em uma dessas feirinhas de angariações para ajudar o meio ambiente.
Respirei fundo e caminhei pela multidão, não dando a mínima caso alguém percebesse algo de estranho. Claro que algumas pessoas olharam para mim, mas ninguém me parou para descobrir quem eu era. Se eu continuasse desse jeito, logo poderia achar uma saída e finalmente estaria livre daqueles ordinários, mas claro que eu precisei estragar tudo.
– Lester! – Bill exclamou, com sua voz ecoando por aquele andar, fazendo várias pessoas darem um pulo, inclusive eu – O que diabos pensa que está fazendo? Isso que você chama de ataque? Lá fora você será massacrado se hesitar.
Mudei meu rumo e decidi ver o que estava acontecendo. Naquele saguão havia um enorme buraco redondo no meio e tinha grades em volta, me aproximei dali e olhei para baixo, onde naquele andar, havia aquelas pessoas treinando. Bill estava bem abaixo de mim, treinando aqueles futuros Dogs Unleashed. Foi nesse instante que descobri como meu pai estava ferrado, eu não tinha percebido as proporções daquilo, havia muitas, talvez milhares de pessoas querendo destruir o projeto Humanoid.
Então o que eu fiz, foi a coisa mais imatura do mundo. Na verdade, não foi por meu pai ou porque eu era idiota o suficiente para acreditar que aniquilando Bill, tudo estaria acabado. Eu realmente queria matar aquele cara, só de ouvir aquela voz ordinária, cada célula e pedaço de metal do meu corpo ansiava por acabar com a existência dele. Por isso, pulei a grade e devo ter caído uns quatro metros em direção a cabeça de Bill.
Claro, sou ingênua. Eu esperava cair em cima daquele moicano e quebrar a cabeça dele, mas eu atingi o chão em vez de qualquer parte do Bill, não que eu tenha problemas com mira, o cara que era rápido demais. Percebi que todos seus pupilos prenderam o ar quando me viram, pensei que todos iam pular em cima de mim e me atacar, mas todos ficaram parados e em pânico.
Levantei-me e corri em direção a Bill. Eu não ia desistir, ainda mais quando eu tinha tanta energia. Mirei meu punho robótico para dar outro soco naqueles lábios ainda não curados e ele segurou minha mão, virando-a como sempre fazia. Claro que eu sabia disso, já estava acostumada com as táticas deles. Girei meu corpo na mesma direção que ele virava meu braço – que era sempre para a esquerda – e coloquei toda a minha força na minha perna que chutou a canela dele, o fazendo cair.
Todas as pessoas do saguão estavam nas grades, assistindo aquela luta, prendendo a respiração e apenas soltando quando era para exclamar algo. Bill estava caído no chão, eu havia o derrubado e me sentia tão poderosa com isso, finalmente estava dando a lição que ele merecia. Parti para cima dele, pronta para encher aquele rosto de socos, mas ele conseguiu rolar para longe de mim. Corri atrás dele e quando estava para se levantar, pulei em suas costas o derrubando no chão.
Naquela luta corporal toda, em que eu tentava dar socos e impedir que ele me prendesse, um soco na barriga me fez cair no chão sem ar, enquanto ele segurava meus braços. Droga, o que havia acontecido? Eu o tinha em minhas mãos e agora todo o jogo virara.
– Falta muita determinação em você, Wilhelmine – ele disse, segurando meus pulsos em minhas costas, enquanto me prensava no chão – Você falou que ia me matar, mas hesitou bem quando conseguiria. Era sobre isso que eu estava falando com Lester, ainda bem que apareceu para dar uma bela lição a ele.
– Não quero matar você, imbecil! – eu gritei, tentando me soltar – Vou transformá-lo em meu escravo e irá cozinhar todo dia para mim, mas antes vou te dar uma surra para nunca esquecer!
Então ele riu. Todo mundo riu. Eu fiquei totalmente vermelha enquanto ouvia todas aquelas risadas. Tudo bem que a parte do escravo e de cozinhar foi bem idiota, mas não precisavam gargalhar tanto dessa maneira. A raiva borbulhava dentro de mim de tal forma que eu não admiraria caso explodisse.
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