Notas iniciais
ÚLTIMO CAPÍTULO DE HUMANOID.

Trens no céu estão viajando

Através de fragmentos do tempo

Eles estão levando-me para partes da minha mente

Que eu não posso encontrar

(World Behind My Wall – Tokio Hotel)

Vamos correr quando a escuridão vier

Em algum lugar, nosso futuro já começou

Atrás do horizonte

(Lass uns Laufen – Tokio Hotel)

11 de Setembro de 2109

Indo para Hamburgo

11h32min AM

Realmente Berlim estava completamente destruída, o noticiário na televisão da base secreta já contava com vinte oito mortos. Por mais que a população fosse avisada dos problemas climáticos, sempre há alguns que preferem morrer de uma vez a abandonar sua casa. Não quis saber se meu pai havia morrido ou não, não queria saber mais nada sobre isso, só queria recomeçar a minha vida, bem longe daqui.

A base dos Dogs Unleashed estava uma correria, arrumando tudo para que viajássemos para Hamburgo. Não tínhamos muito que levar, já que havíamos perdido tudo quando a World Behind My Wall Corporation explodiu a base anterior. Como eu não estava tão assim disposta a começar do zero, queria voltar para minha casa e verificar se sobrara algo como roupas e outros pertences. Também queria verificar se estava tudo bem com Berta, queria levá-la comigo para Hamburgo, não poderia abandoná-la, além de que ela me ajudaria muito.

Bill havia decidido vir comigo, por isso estávamos correndo pelos destroços como dois pássaros livres depois de ficarem confinados por anos, aproveitando cada sensação daquela nova e estranha liberdade. Quando finalmente chegamos a minha casa, meu coração se apertou ao ver tudo em ruínas. Talvez isso fosse bom, era uma forma de apagar o passado de vez, mas ainda sim era um bocado triste.

– Acho que não dá para aproveitar nada – Bill disse, tirando alguns destroços a procura de algo que estivesse em boas condições – Infelizmente tudo foi destruído.

– Verdade – falei amargamente – Onde será que está Berta? Será que ela foi esmagada pelo concreto?

Não. Ainda havia uma única esperança. Dei a volta na casa e comecei a procurar embaixo dos destroços, até achar duas portas de metal. Era o nosso porão, a maioria das casas tinha por causa dos furacões como forma de proteção. Quando todo o peso que estava nelas foi retirado, as abri e dei de cara com Berta, sentada no chão, ao lado de várias coisas. Ela abriu o maior sorriso quando me viu e pulou no meu pescoço como se não acreditasse no que estava vendo.

– Wilhelmine! Você está viva! Está bem! – ela gritava freneticamente – Pensei que ficaria sozinha aqui para sempre.

– Eu vim te buscar – falei feliz ao vê-la – Você vai para Hamburgo comigo, iremos começar uma nova vida.

– Que ótimo! Suas roupas e a maioria dos seus pertences estão aqui, também salvei minhas roupas. Sabia que voltaria, você não me deixaria para trás – ela disse com seus olhos brilhando de uma forma quase humana. Talvez Berta fosse um pouco diferente dos outros robôs, ou talvez seja apenas porque tenho uma grande afeição por ela.

Berta, Bill e eu descemos até o porão e começamos a pegar todos os pertences que Berta havia salvado. Era um bocado de coisa, mas dava para carregá-lo tranquilamente até o trem que nos levaria para Hamburgo. Pelo menos, em roupa eu não precisaria gastar, afinal o dinheiro que eu tinha, não era muito. E eu nem fazia ideia de como conseguiria alugar algum lugar para ficar, precisaria achar trabalho para me sustentar. Bill alegava que os seus patrocinadores estavam satisfeitos com tudo, por isso não precisaríamos nos preocupar com isso, mas era impossível eu não pensar nesses probleminhas.

Eu estava um pouco com o pé atrás por causa desses patrocinadores. Tinha medo de que eles fossem como a World Behind My Wall Corporation e mesmo o meu pai alegou que os Dogs Unleashed só estavam me sequestrando para levar até eles. Não queria acreditar em uma coisa dessas, mas nesse mundo, tudo é possível. Só queria que tudo não desse errado de novo, queria viver como um humano comum, queria que ninguém mais soubesse sobre minha verdadeira natureza.

Antes de partimos, decidi dar uma olhada na cerejeira de minha mãe, pensei que talvez ela tivesse quebrado e sido levada pelo vento. Para minha surpresa, ela estava intacta, talvez a única coisa intacta em Berlim, só tinha alguns galhos caídos e estava com poucas folhas, mesmo assim, estava forte o suficiente para durar por anos.

– É um presente – eu falei, sorrindo ao ver a árvore – É um presente da mãe natureza para nós. Ela destruiu tudo, mas deixou a cerejeira intacta, mostrando agora quem está no poder. Não é algo terrível, isso mostra que algo pode sobreviver da destruição, que para tudo há uma segunda chance.

– Que bonito, Mine – Berta falou – Mas na verdade, a árvore é um presente de você para sua mãe, tenho certeza que ela não deixaria nada de mal acontecer com ela, nem com você.

– Não sou tão bom de palpites – Bill comentou, olhando impressionado para Berta, por ela ser um robô e falar com tanto sentimento – Do mesmo jeito que a árvore sobreviveu, nós também. Temos mais uma chance e não podemos perdê-la, não é mesmo?

Era verdade, não importava o que estava para vir, iríamos enfrentar. Essa era nossa segunda chance, na verdade, chegava a ser a quarta, sobrevivemos à morte três vezes – quando crianças, depois que viramos Humanoids e por fim, do furacão de ontem –, mas não poderíamos fugir para sempre dela. Eu estava falando sério quando disse que precisava de férias e torcia para que fossem calmas, chega de aventuras por um bom tempo.

Quando chegamos à base secreta, já havia um trem esperando a gente. Parecia uma cobra reluzente que se estendia por todo o campo que fora limpo mais cedo, para que pudesse pousar. Todos já estavam praticamente dentro, só faltava nos três para podermos partimos. Olhei uma última vez para Berlim, tentando me recordar de todos os bons momentos que passei aqui, antes de voltar para Hamburgo, minha terra verdadeira – não totalmente, já que nasci em Leipzig, mas dá para entender o que eu quis dizer.

– Doutora Tiersen! – exclamei ao vê-la com Michel, sentados dentro do trem. Corri até ela e segurei suas mãos – Agradeço imensamente pelo o que você fez! Você salvou o Bill!

– Bem... foi um bocado de adrenalina – ela respondeu sorrindo – Mas você salvou Michel também e sou totalmente agradecida por isso. Agora, o que me resta é recomeçar, não é mesmo?

– Nunca é tarde para recomeçar, e muitas vezes, também não é ruim – comentei.

– Nossa vida vai melhorar – Bill falou, apertando minha mão, ao meu lado – Minha missão acabou e você está livre.

– Eu estou pronta, porque agora não estou sozinha mais, tenho uma grande família comigo – sorri, ao ver todos os Dogs Unleashed dentro do trem, enquanto eu me acomodava em uma das cadeiras.

Ainda havia o medo, claro, mas a sensação de que tudo estava em plena paz permanecia. O trem cortou o céu e voamos em direção ao horizonte, um novo horizonte desconhecido nos esperando. Tudo parecia estar na mais perfeita ordem.

Notas finais
Por favor, se puderem, leiam o Comentários da Autora :D