Humanoid Chronicles
51 Capítulo 51
Através da tempestade
Através do frio da noite
E o medo dentro de você
Longe daqui
Através do tempo e do espaço
Aproxima-se de mim
(Zoom – Tokio Hotel)
10 de Setembro de 2109
Salvando nossas vidas
00h22min PM
Não deu tempo nem de pensar, pelo menos para mim. Bill passou o braço em volta da minha cintura e agarrou Michel com o outro pulando para o alto quando o caminhão passou abaixo de nós, triturando qualquer coisa que estivesse embaixo. Nossos pés tocaram o chão, mas nossos corações ainda estavam no alto, bombeando medo e adrenalina. O problema não era só o caminhão, dezenas de coisas estavam voando nessa direção e estava ficando perigoso demais.
– Você consegue correr? – Bill perguntou, ainda preocupado com meu ferimento.
– Eu consigo, pode deixar – gritei, para que ele ouvisse, já que era impossível ouvir algo com aquela ventarola.
Quando ele pegou Michel no colo, não objetei contra isso, afinal agora eu era capaz de sentir várias fisgadas vindas do meu ferimento. Começamos a correr o mais rápido que podíamos, para longe de latas de lixos, postes de luz parecendo medusas desgovernadas e carros tão ameaçadores quanto caminhões. Éramos rápidos demais, mas o furacão não estava tão lerdo quanto eu pensava, parecia que quanto mais fugíamos, mais ele estava em nosso encalço.
Foi quando Bill me parou de repente, olhando para um ponto fixo. Segui o seu olhar e percebi que o que chamara sua atenção era um galpão, com a porta de metal levantada e tremendo, enquanto ocultava atrás um jatinho. Ele fez sinal para que eu o seguisse e corremos naquela direção. Não sei não, mas acho que o galpão não ia aguentar o furacão para nos proteger.
– O que você está fazendo? – exclamei, percebendo que a ideia não era se esconder ali e sim entrar no jatinho – Vamos voar?
– Sim, eu sei pilotar – Bill falou, fazendo-me recordar de Petrova.
– Bill, isso é suicídio! Vamos voar quando quem está controlando os ventos é o furacão.
– Esse é um dos mais rápidos, podemos sair daqui em segundos. Entre rápido! – ele exclamou, se sentando na cadeira do piloto.
Tudo bem, não ia questionar mais nada, seja o que Deus quiser. Entrei no jatinho e fechei a porta, sentando-me na poltrona ao lado de Bill e pegando Michel no colo para que ele pilotasse mais facilmente. Provavelmente, o galpão era de algum dos ricos da Berlim intacta – ou ex-intacta – que teve que abandonar tudo para trás e ir embora por causa do furacão. Agradeço a ele pela gentileza e espero que Bill tenha certeza no que está dizendo e fazendo.
Ele começou a ligar o jatinho, apertando botões, puxando alavancas e mais um monte de coisas que para mim não faziam nenhum sentido. Nós começamos a andar para fora do galpão e eu prendi a respiração quando vi o furacão tão próximo de nós que já estava duvidando de que sairíamos vivos dessa. O jatinho estava flutuando na direção do furacão, ele precisava fazer isso antes de conseguir força o suficiente para voar.
Quando conseguimos força o suficiente para alçar voo, nosso jato foi impulsionado com tudo para trás, fazendo-nos girar várias vezes. Michel gritava loucamente e acho que eu estava fazendo o mesmo, enquanto contava apenas com o cinto para nos segurar sem que virássemos pipoca sacolejante dentro do jatinho. Gott, vamos cair! Vamos cair! Eu vou morrer! Mantive meus olhos fechados o tempo todo, esperando a hora da morte, a hora que espatifaríamos no chão.
Abri meus olhos quando percebi que não girávamos mais, a turbulência ainda continuava, mas não parecia mais tão perigoso quanto antes. Não havia mais furacão na nossa frente e eu podia ver embaixo, várias coisas rolando e de repente percebi que o furacão foi deixado para trás. Bill acelerou com tudo o jatinho, fazendo a paisagem na nossa frente parecer um mero borrão.
– Acabou? – eu perguntei não acreditando que eu estava viva – Não acredito que acabou!
– Só vou ficar aliviado quando chegarmos à base secreta – Bill falou, mas ele já aparentava estar bastante aliviado.
– Pensei que fossemos morrer! – exclamei, soltando todo o ar que ficara preso em meus pulmões. Nem lembrar de respirar, eu me lembrei.
– Isso foi demais! – Michel exclamou, falando algo pela primeira vez. Ele estava olhando para Bill e para o jatinho como se eles fossem a coisa mais incrível do mundo. E tenho que concordar que um deles era – Aquele idiota do Mark não vai acreditar quando eu contar a ele! Vai ficar morrendo de inveja!
Eu sorri ao ouvir aquilo, pelo visto, ele não ficaria tão traumatizado quanto eu pensava. Deitei minha cabeça na poltrona, pronta para descansar, mas sem perceber, acabei caindo em sono que foi mais provocado pela perda de sangue do que pela fatiga.
10 de Setembro de 2109
Na base secreta, finalmente
16h07min PM
Eu me sentia imensamente bem, principalmente ao constar que estava em uma cama quentinha e não em um avião, em um prédio, perto de um furacão ou qualquer lugar que eu passara as últimas horas. Tentei virar de lado e senti fisgadas em minhas costas o que realmente me acordou e me fez ficar com raiva por estar ferida de novo. Meus olhos encontraram os de Bill, que estava ao meu lado, rindo da minha expressão.
– Você fala enquanto dorme – ele disse, me deixando vermelha – Mas também, por causa dos acontecimentos recentes, eu também falaria. Você não parava de dizer “Vamos cair!” e “Bill, seu idiota!”.
Aquilo era incrível, ele estava mudado. Não havia mais aquela expressão dura e fria, ele estava sorrindo de verdade, não só com os lábios como também com os olhos. Tudo havia acabado, a World Behind My Wall Corporation havia sido destruída, não havia forma de os cientistas restantes do Projeto Humanoid me localizarem e finalmente estávamos seguros.
– Acabou, não é? – eu perguntei, me sentando com certa dificuldade – Estamos livres, não estamos?
– Acabou, agora estou aliviado. Principalmente ao ver que você está bem, você me deu um susto quando a retirei da poltrona e vi que ainda estava sangrando abundantemente. Mas Natalie e a Doutora Tiersen cuidaram muito bem de você.
– Como ela está? A Doutora? E Michel?
– Eles estão bem. Ela está totalmente agradecida pelo que fez por Michel, e não se preocupe que ele já contou a história toda uma dezena de vezes. E ainda alega que não chorou nenhuma vez.
– E os outros? Também estão bem? Ou fui só eu que quase morri?
– Todos estão bem, só você para dar dor de cabeça para nós – ele falou zombeteiramente, passando a mão na minha cabeça e arrumando os fios desalinhados – Eu preciso agradecer pelo o que você fez por mim, você se entregou para a World Behind My Wall Corporation em troca de me salvar.
– Você faria o mesmo por mim – respondi sinceramente, pegando sua mão e a segurando firmemente.
– Faria, mas você me conhece a menos de um mês e... no começo você me odiava, claro que foi minha culpa por isso. Mas é que eu sentia raiva, raiva de mim, por ter deixado você virar uma Humanoid e também raiva de você por ter aceitado isso facilmente. Talvez isso seja um dos motivos porque seu corpo aceitou o material robótico, é porque seu cérebro aceitou o fato, ao contrário de mim, que não aceitei nada daquilo. Quando vi você novamente, na frente da World Behind My Wall Corporation, decidi que não ia te tratar mais como Wilhelmine, porque você não era mais ela, mas cometi um engano. Não importa o que fizessem, você sempre seria a mesma.
– Também cometi um engano, achei no começo que você era um imbecil de merda cruel e insensível. Talvez você até fosse, mas agora não é mais – eu falei, me lembrando do quanto eu o odiava no começo do tudo e de como o quis morto – Você mudou e está bem melhor agora. Desculpe ter dito uma vez que odiava, isso também não é mais verdade.
– É estranho – ele riu amargamente – Eu já vi amor virar ódio, mas ódio virar amor é um tanto incomum.
Eu já ia falar que foi culpa do Tom por isso ter acontecido, mas eu me calei bem na hora que a porta abriu e ele entrou. Meus olhos encontraram aqueles que eram idênticos ao de Bill e fiquei petrificada. A última vez que o vira, ele havia me beijado e era um bocado constrangedor ficar naquele quarto com os dois irmãos. Será que Bill sabia? Ele tinha toda aquela sensibilidade. Não que nós estivéssemos namorando, não havíamos jurado por amor nem nada, mesmo assim isso era traição, não era? Legal, me sinto péssima.
– Hey, Bill – Tom disse, dando tapinhas amistosas na costa do irmão – Vim ver se Wilhelmine está bem, pelo visto, já está pronta para outra.
– Não diga isso, nunca mais quero participar de uma coisa louca dessas. Quero férias bem prolongadas.
– Bem, vou deixá-los a sós, tenho o que fazer – Bill falou, se levantando.
Droga, ele sabia. Tenho certeza que ele sabe de tudo. Que tipo de pessoa eu sou? Tantas pessoas na base e eu me envolvo com dois irmãos! Devo ser uma destruidora de lares, apesar de saber que se fosse para brigar com alguém, os dois brigariam comigo e não entre si. A ligação deles era forte demais para ser quebrada com uma pessoa como eu, mesmo assim, eu não tinha direito de ficar brincando com os dois.
– E aí? Como está? – Tom perguntou, sentando-se no banquinho em que Bill estava antes.
– Bem, com o ferimento ainda dando umas fisgadas, mas vou sobreviver – falei, tentando não mostrar o quanto eu estava tensa.
– Na verdade, não vim aqui só para vê-la, eu queria te pedir desculpas – ele falou, me deixando surpresa – Da última vez que nos vimos, acabei me levando pelas emoções, por causa de todos os problemas que estávamos passando e também porque Bill estava em um estado de vida ou morte. Bill é meu irmão e não posso fazer uma coisa dessas com ele.
– Eu também tenho culpa, eu correspondi quando não deveria.
– Você também foi levada pelas emoções da mesma forma que eu. Precisávamos de algo para nos dar coragem – ele parecia não estar falando a verdade, estava apenas procurando alguma desculpa, algo que mostrasse que não éramos culpados. Não acho que ele me ama, nem nada, mas Tom deve ter uma queda por mim da mesma forma que tenho também.
– Por que você me passou para o Bill? Por que não foi em frente comigo quando teve chance? – perguntei, afinal isso era o que mais me intrigava.
– Porque Bill já gostava de você muito antes, desde a primeira vez que ele te viu em uma missão de espionagem. E acho que ele merecia essa chance mais do que eu já que geralmente nem lembro o nome das garotas que levo para a cama. Apesar, de que tenho quase certeza que lembraria o seu nome – ele me lançou um olhar maroto antes de prosseguir – Bill gosta de mostrar que está no comando, que ele que cuida de mim (apesar de eu ser o mais velho), mas sou eu que o estou protegendo. Ele é bem mais quebrável do que aparenta.
– Vou tentar não quebrá-lo – falei, cruzando os dedos, mostrando que era uma promessa.
– Espero mesmo, ou irá se ver comigo.
Nós rimos e ficamos um tempo conversando, contei tudo a ele sobre o que aconteceu antes do meu pequeno acidente, de como fugimos do furacão e mais um monte de coisa que com certeza ele já sabia, mas só ouviu para não fazer desfeita. Depois de alguns minutos, ele foi embora e fiquei sozinha, decidi sair um pouco daquele quarto. Quando abri a porta, vi que Bill estava encostado na parede, pensativo.
– Ei! – ele exclamou, me repreendendo – Você não devia estar em pé, precisa descansar. De volta para a cama!
– Eu vou para a cama – falei, me aproximando dele, pegando-o pelo colarinho e puxando-o – Mas você vem comigo.
Não precisei dizer mais nada, ele me beijou, empurrando-me de volta para o quarto. Claro que nem preciso comentar o que se passou, decididamente estou pronta para outras.
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