Humanoid Chronicles
40 Capítulo 40
Olá!
O fim está chegando!
Olá!
Nós ainda estamos parados aqui!
O futuro só começou, no lado escuro do sol...
(Dark Side of the Sun – Tokio Hotel)
05 de Setembro de 2109
Em meu quarto, em minha casa
13h27min PM
Dessa vez fiquei com medo de acordar bruscamente, mas um alívio gigantesco passou por mim quando percebi que estava em minha cama, em meu quarto, em minha casa. Uma sensação de aconchego e felicidade se espalhou pelo meu rosto ao ver todos os meus pertences em seus devidos lugares.
Não havia mais ninguém ali, o que era bastante suspeito. Fui até as duas enormes portas de mogno e tentei abri-las, entretanto elas estavam trancadas e pelo barulho, deviam ter colocado correntes do outro lado. Duvido muito que aquilo fosse capaz de me segurar, mas eu teria que usar a mesma estratégia que fiz com os Dogs Unleashed: precisava não causar mais nenhum tumulto, para que eles não ficassem desconfiados.
Por mais que parecesse fútil, eu precisava tomar um banho e colocar uma roupa mais apropriada que aquele camisolão de hospital. Isso seria o suficiente para eu organizar minhas ideias e planejar um jeito de salvar os Dogs Unleashed, se eu ficasse do lado da World Behind My Wall Corporation, as chances de irem atrás deles, creio que não sejam tão grandes. Enfim, meu futuro havia tomado um rumo, na verdade, bastante previsível: eu seria a máquina deles, apenas isso.
Enquanto a água caía sobre minha cabeça, ideias e mais ideias iam surgindo. Eu havia uma carta na manga suficiente para derrubá-los: meu pai acreditava que eu ainda era aquela menina irresponsável e mimada, mas o tempo que eu passei na base dos Dogs Unleashed foi o suficiente para que aprendesse muito além do que estava acostumada em meu mundinho. Sou realmente a máquina que eles queriam, poderosa, porém, com um cérebro humano e inteligente o suficiente para criar estratégias de ataque. E estou preparada para atacar.
Saí do banho, me vesti e comecei a procurar em minhas gavetas um comunicador, que eu usava para chamar Berta. Achei-o no meu guarda-roupa, abaixo de várias pilhas de roupas e comecei a tentar falar com minha empregada robótica.
– Berta? Você está me ouvindo? – perguntei, apenas ouvindo o som de estática.
– Mine? – pude ouvir sua voz fina do outro lado. Nunca fiquei tão feliz ao ouvi-la – Sinto muito, mas não posso fazer nada pela senhorita, ordens do seu pai.
– Desde quando você recebe ordens do meu pai? Que eu saiba você é minha robô.
– Estou muito ocupada, Mine. Não posso ajudá-la.
– Ocupada com o que? – se a situação não fosse tão extrema eu estaria rindo das investidas falhas dela – Hoje não é o dia de lavar e passar as roupas de papai. E eu sou a única coisa que faz seu dia ficar realmente cheio. Não quero que você faça nada por mim, apenas quero informações. O que está me aguardando do lado de fora do meu quarto?
– Não posso, não posso, não posso! Se me pegarem te ajudando, vou ser mandada para o lixão mais próximo!
– Ninguém vai descobrir Berta, por favor, preciso da sua ajuda. Estou em apuros e não posso mais confiar nem no meu próprio pai, será que também não posso confiar em você?
– Claro que pode confiar em mim, mas... – percebi que ela estava pensando, claro que do seu jeito robótico. Espero que ela não entre em pane ou se desligue, afinal ela acabou de receber uma ordem reversa a outra – Há dois homens em seu corredor, outros três no andar debaixo e dois robôs lá fora.
– Você sabe por que meu pai me trouxe de volta para casa? O que ele quer com isso?
– Ele acha que aqui você pode pensar melhor em seus atos, que as memórias da sua mãe podem fazê-la você mudar de ideia... Mine, quer chá do que? Estou fazendo para levar até você, é claro que não sei se vão me deixar entrar, mas vale a pena a tentativa.
– Berta, não acredito que em uma horas dessas você esteja pensando em... – então eu parei, conseguia ouvir o tique-taque imaginário do meu cérebro em ação – Você pode fazer chá para mais pessoas?
– Do que está falando?
– Sabe a árvore da mamãe? Abaixo da minha janela? Vá até lá, você irá encontrar um potinho contendo um pó. Ele é... ele é um chá especial e muito gostoso que comprei em uma barraquinha hippie. Misture com qualquer sabor de chá que irá ficar uma delícia! Traga para mim e também sirva os homens que estão no meu andar, eles devem estar com sede – falei com a voz mais inocente possível.
– Eles não são inimigos? – ela perguntou um pouco confusa.
– São, mas nada nos impede de sermos educadas, não é mesmo? Faça o que estou mandando e daqui a pouco me comunico com você.
Quando desliguei o comunicador, corri até minha mochila que estava no chão. Com certeza haviam revistado ela, mas nunca encontrariam uma divisória secreta que eu havia costurado, que era onde antigamente eu guardava baseados, cigarros e pílulas. A única coisa que havia agora era um potinho de calmantes fortes moídos, aquele que eu conseguira com Natalie e que seria muito bem usado novamente.
Abri a janela do meu quarto e como esperado, havia barras de metal impossibilitando minha saída, mas não me impossibilitavam de jogar alguma coisa. Dei uma boa olhada, verificando se ninguém estava rondando o local e joguei o potinho que caiu perfeitamente em uma das raízes da Cerejeira. Fiquei espiando por um tempo, até ver Berta surgir e pegar o potinho sem desconfiar de nada. Tudo bem que eu estava enganando-a, mas ela nunca toparia dopar os soldados se eu contasse a verdade.
Agora só restava esperar. Eu já estava ficando ansiosa e cansada de ficar com meu ouvido grudado na porta esperando ouvir alguma coisa. Se isso não desse certo, teria que arquitetar outro plano, que talvez não fosse tão silencioso quanto esse. Logo pude ouvir passos no assoalho e a voz de Berta soou pelo corredor, fazendo meu coração bater rápido e desesperado.
– O que é isso? – perguntou uma voz máscula.
– Chá – ela respondeu do seu jeito extremamente inocente e verdadeiro como só um robô poderia ser – Pensei em trazer um pouco para Wilhelmine e para vocês. Será que eu poderia entrar?
– Recebemos ordens de não abrir essa porta.
– Que pena, era o chá que ela gostava. Aceitam, pelo menos?
Encostei meu ouvido mais na porta, tentando ouvir melhor e logo foi inconfundível o barulho de porcelana se chocando com pires e os “glut-glut” que as gargantas emitiam ao beber o chá. Berta falou mais alguma coisa ou outra e depois de pegar as xícaras, partiu sem discutir e sem fazer nada de suspeito. Fiquei mais um bom tempo ali, ouvindo tudo e só saí quando ouvi o barulho de dois corpos atingindo o chão.
– Berta? – chamei-a novamente pelo comunicador – Preciso que você venha novamente ao andar do me quarto.
– Eles não me deixaram trazer chá para você, também estão recebendo ordens – ela falou do seu jeito simplório.
– Não quero que você entre, quero apenas que vá até a porta do meu quarto. Se alguma coisa cair, você irá segurar, entendido? Sei que é forte o suficiente para carregar um elefante.
– Tudo bem, estou indo.
O que Berta não sabia, é que o que iria cair era a porta. Eu tinha medo do estrondo que aquilo ocasionaria quando chegasse ao chão e precisava de algo que evitasse isso. Berta, como qualquer robô, era muito forte, pois ela devia ser como um guarda-costas, me protegendo de qualquer mal e pronta para me carregar caso ficasse doente e incapacitada de andar. Uma porta, mesmo daquela grossura, seria fichinha para ela.
– Mine? – ouvi a voz dela do outro lado da porta – Eles estão tirando uma soneca!
– Não ligue para eles, afaste-se um pouco da porta e prepare-se!
Subi em cima de uma cadeira e espalmei minhas mãos na porta. Mesmo que o meu braço robótico esquerdo não estivesse tão pronto para ser usado nesse momento, era a minha única chance. Comecei a empurrá-la o mais forte que eu podia, até que as dobradiças superiores não aguentaram mais e estouraram, fazendo a porta ir para frente e ficar presa apenas pelas dobradiças inferiores. Como o esperado, Berta segurou a porta como se fosse uma folha de papel e eu pulei para longe dali.
– Oh, não! Você me enganou Mine! Você é uma garota muito má! – ela exclamou, olhando feio para mim.
Se você visse Berta no meio de uma multidão, nunca desconfiaria da sua verdadeira natureza, mas de perto, ficava claro que ela era um robô. Simplesmente não havia vida nela, por mais que ela conseguisse imitar expressões humanas muito bem. Mesmo assim, era impossível não considerá-la como um ser humano, na verdade, ela era muito melhor que a maioria deles. Berta tinha a imagem de uma mulher de uns vinte e poucos anos, com os cabelos loiros presos em um rabo de cavalo e olhos azuis brilhantes e sem vida, usava vestidos e calças rosa bebê e um avental branco impecável.
– Muito obrigada, Berta! – eu exclamei, a abraçando – Saiba que está lutando do lado certo.
– Eles vão me destruir – ela disse desesperada – Tem câmeras pela casa inteira!
– Não vão, porque vou destruir tudo que entregar você e eu. Eles pensam que estão brincando comigo, mas sou eu que vou brincar com eles agora.
Fui até os dois corpos inconscientes e os coloquei dentro do meu quarto. Peguei minha mochila e com ajuda do braço especial de Berta, soldei as dobradiças superiores até elas endurecerem e se fixarem na porta de mogno. Agora eu estava à solta e ninguém mais poderia me prender. Eu era como o Frankstein, virei-me contra o meu criador e eu não seria a pessoa perseguida e morta no final.
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