Notas iniciais
Com prometido, postei novamente nesse fim de semana (mesmo que agora seja pleno domingo à noite). Vou postar talvez na quarta também, porque viajarei no feriado :D

O mesmo sangue

As mesmas células

O mesmo Deus

O mesmo inferno

A mesma vida

O mesmo amor

(Hey You – Tokio Hotel)

25 de Fevereiro de 2106

Voltando ao passado

14h22min PM

Lembro-me que aquele dia estava chovendo muito forte, com gotas graúdas indo de encontro à janela onde estava acontecendo o velório. Eu ainda não derramara nenhuma lágrima sequer simplesmente porque não havia caído a ficha de que a havia perdido para sempre, mesmo que seu corpo sem vida estivesse na minha frente. Ela estava tão bonita, nem parecia estar morta. Haviam feito uma ótima maquiagem nela, fazendo-a parecer uma princesa adormecida, que irá acordar a qualquer instante. Pelo menos, era isso que eu gostaria de acreditar.

Meu pai estava impassível ao meu lado, mesmo assim eu conseguia ver seus olhos vermelhos por ter chorado, talvez, no banheiro, onde ninguém veria que tinha sentimentos. Ele estava segurando a minha mão, tentando dar segurança, como se dissesse que estaria ao meu lado sempre que precisasse. O que foi uma tremenda mentira, porque agora ele está contra mim.

Pergunto-me o que diabos deu errado. Naquele dia, pensei que tudo mudaria entre meu pai e eu, pensei que poderíamos ficar mais próximos, mas ele se afastou mais do que antes, fechando-se em sua amargura. Ele falhou ao tentar salvar minha mãe, o poderoso Hansen Langebahn, que cria robôs e Humanoids não conseguiu salvar a vida da pessoa que mais amava. Acho que entendo o quão impotente ele se sentiu, porque senti-me da mesma maneira.

Quando o caixão foi finalmente lacrado e iriam empurrá-lo direto as labaredas para ser cremado, levantei-me do meu banco e corri até lá, agarrando a madeira fria aos prantos, tentando impedir que a tirassem de mim. Ninguém além do meu pai se propôs a tirar-me dali e quando meus braços a soltaram, senti como se um pedaço de mim tivesse ido junto. A portinha daquela câmera foi fechada junto com o caixão e só fui capaz de ouvir os estalos de algo ser queimado, sumindo aos poucos até virar cinzas.

Mais tarde, naquele mesmo dia, recebemos uma urna prateada que continha as cinzas da minha mãe. Hoje em dia é muito comum a cremação por causa de doenças contagiosas ou simplesmente porque não dá para ficar enterrando as pessoas já que furacões devastam cemitérios que espalham cadáveres por todos os lados. Aquela urna pesada era a única coisa que sobrara dela e mesmo que meu pai se propusesse a carregar, decidi que eu o faria.

Eu não sabia o que fazer direito com o aquilo e foi Berta, minha robô bastante esperta, mas sem um pingo de dom culinário, que propôs enterrarmos no jardim de nossa casa e plantarmos em cima alguma árvore para preservar a memória dela. Fomos nós duas até uma loja de jardinagem, compramos a muda de uma árvore e acabamos escolhendo uma Cerejeira. Achamos o melhor lugar do jardim, começamos a cavar a terra até a urna ser coberta completamente e depois colocamos a pequena árvore em cima.

Com o tempo ela foi crescendo, cuidava dela como se fosse de fato uma pessoa e até conversava com a árvore – e isso não era muito estranho para uma pessoa que passava a maior parte do tempo chapada. Quando nós precisamos mudar para Berlim, fiz o maior escarcéu para levar a árvore e a urna junto comigo, não poderia deixá-las sozinhas, então um avião especial levou não só elas juntas, como parte da terra em volta e ela foi replantada em minha nova casa.

Até agora a Cerejeira está lá, crescendo forte o suficiente para fazer-me lembrar do seu significado. É nesses momentos que eu penso, se tudo que meu pai fez não foi porque quis e sim porque surtou com a morte dela, talvez fosse a única maneira de tentar esquecê-la, se dedicando a uma maneira de vencer a morte. E eu venci a minha.

04 de Setembro de 2109

Totalmente perdida

16h12min PM

Eu havia acordado, mesmo assim não estava disposta a despertar completamente, então tentei virar-me de lado, mas algo impediu-me. Abri meus olhos, a sala era toda branca e cheirava a lavanda, tinha vários aparelhos ao meu lado emitindo barulhos e trabalhando. Senti uma pontada em meu braço esquerdo, ele estava pendurado em uma tipóia, presa em uma barra de metal acima da minha cabeça.

Onde diabos eu estava? Como fui parar aqui? Foi então que senti aquele déjà vu, alertando-me que aquilo já havia acontecido antes. Era o hospital da World Behind My Wall Corporation, era a sala onde fiquei quando acordei semanas depois do meu acidente. Mas o que havia acontecido dessa vez para eu estar aqui novamente? Olhei para o meu braço na tipóia, percebi que algumas cicatrizes se estendiam pelo meu ombros e quando tentei mexer meus dedos, uma dor aguda passou por todo o lado esquerdo do meu corpo.

O meu braço, eu não havia perdido ele? Eu não estava no meio de uma luta? Uma luta com quem mesmo? Espere um momento... Bill... Bill! Pus-me sentada, mesmo que vários fios me atrapalhassem no processo. Comecei a levantar meu braço esquerdo, sentindo aquele formigamento doloroso se estender conforme meus movimentos. Eu precisava sair daqui, precisava saber o que aconteceu com outros!

– Senhorita Langebahn? – a porta se abriu e um homem entrou, ele era magro e tinha os cabelos encaracolados em tons castanhos, devia ter quase uns quarentas anos e pelo modo que se vestia cheguei à conclusão de que era médico – Não precisa ficar assustada, está tudo bem.

– Onde está meu pai? – eu perguntei duramente, para que ele percebesse que eu não estava para brincadeira.

– Você está passando por momentos difíceis e vê-lo não vai lhe fazer bem por enquanto. Apenas descanse, seu braço ainda está cicatrizando e seu corpo precisa se acostumar com ele para aceitá-lo...

Ele parou de falar enquanto via-me arrancar aqueles fios grudados em minha cabeça e no meu braço. Pulei da cama sentindo um pouco de tontura, mas estava descansada o suficiente para enfrentar mais robôs se fosse necessário, eu só precisava de uma resposta, uma única resposta que mudaria tudo: Onde estavam os Dogs Unleashed?

– Por favor, volte para sua cama – o médico falou temeroso, apertando um botão na parede, com certeza era um alarme chamando mais enfermeiros.

– Você sabe algo sobre os Dogs Unleashed? O que aconteceu com eles? – eu disse, indo até ele e o pegando pelo cangote.

– Não sei nada sobre eles, nada! Por favor, solte-me!

Novamente a porta abriu e dois robôs adentraram, usando armas um tanto diferentes daquelas que eu estava acostumada. Segurei o médico e joguei de encontro a eles, os fazendo tombar com o impacto, dando passagem para que eu fugisse. Eu estava apenas com uma camisola e descalça, em um corredor cheio de médicos que pararam abruptamente ao me verem. Claro que nada disso impediu-me de continuar correndo, procurando uma saída que ficou totalmente impossível de atravessar quando um novo batalhão de robôs surgiu.

– Eu preciso falar com o meu pai – disse a eles, mas preparada para usar a força caso fosse necessário – Não vou causar nenhum mal, só quero falar com ele...

O robô atirou, esperava que alguma luz esverdeada fosse ao meu encontro, mas ao invés disso, um dardo voou em minha direção, atingindo o meu peito. Arranquei aquilo o mais rápido possível, tentando impedir que o tranquilizante se espalhasse pelo meu corpo. Eu estava sentindo-me como um animal selvagem, que seria mantido em cativeiro se não seguisse as ordens do meu domador. Mais dardos voaram em minha direção, alguns bateram em minhas pernas e braços, o que não faria muito efeito já que tudo era robótico, mas os que atingiram meu abdômen, tórax e costas eram perigosos o suficiente para causar-me problemas.

A tontura começou a me atingir, agora eu sabia como Tom se sentiu naquele dia que o dopei. Talvez isso fosse algum tipo de vingança natural que rege o mundo. Tentei correr para longe deles, procurando uma saída do outro lado do corredor, mas acabei caindo no chão e antes que pudesse levantar, já havia apagado novamente.

04 de Setembro de 2109

No hospital da World Behind My Wall Corporation

19h39min PM

Dessa vez não fiquei enrolando para acordar, meus olhos abriram como se eu tivesse acordado dos piores pesadelos. Não conseguia me mover, meus braços e pernas estavam presos, claro que não era realmente um problema, eu conseguiria me soltar rapidinho. Só que meu olhar focou em uma pessoa parada ao lado da minha cama, segurando uma bombinha com um fio que se estendia até um saquinho preso a um cabideiro, onde continha um líquido transparente.

– Boa noite, Mine – meu pai disse, com o mesmo tom de sempre, sem nenhuma demonstração de sentimentos – Espero que possamos conversar de forma civilizada.

– Civilizada? Eu estou algemada e não faço ideia do que está segurando em sua mão – retorqui, engolindo seco.

– É apenas tranquilizante, que será usado caso você fique animada demais. Quero que você ouça e fale, sem que use violência.

– Tudo bem, vou ser bem clara. Onde estão os Dogs Unleashed?

– Uns cinquenta estão vivos, estamos mantendo-os preso e não vamos matá-los, afinal podem ser bem úteis. Só precisamos saber para qual inimigo estão trabalhando, pois você está sendo muito disputada, minha filha – ele percebeu que eu esperava algo mais da sua resposta, então começou a rir, uma risada calma e fraca – Ah, você quer saber do Humanoid 482? Esqueci-me que estão apaixonados, seu nome é a única coisa que ele fica dizendo o tempo todo. Sim, ele está vivo, talvez não muito bem, mas vivo. Ainda não sei por quanto tempo, afinal, para mim ele é como um brinquedo quebrado, algo que deu errado, faltou uma peça fundamental para ser tão perfeito quanto você.

– Não fale de nós como se fossemos objetos – eu gritei em plenos pulmões, sentindo a fúria sendo bombeada pelas minhas veias – E não ouse tocar nele ou juro que te mato!

– Vai matar o seu pai, Wilhelmine? Por um amor passageiro?

– Você não é o meu pai e nunca foi, ao contrário de Rosalie, que sempre foi minha mãe. Ela me amou de verdade e amou você também, tenho certeza se estivesse viva, ela não permitiria uma atrocidade dessas! – falei, atingindo o ponto fraco dele, seu rosto virou uma carranca.

– Mine, você é apenas uma criança, não entende a situação. Não dá para conversar com você – ele respondeu, começando a apertar a bombinha – Durma com os anjos.

– Estou cansada de ouvir isso – eu disse antes de perder os sentidos – O problema não sou eu entender alguma coisa, são vocês que não entendem nada e colocam a culpa em mim só para ficarem parecendo mais com sábios. O tolo está na minha frente e não o contrário.