Eu estou doente

Sem você

Já tentei todos os antídotos

(Alien [german] – Tokio Hotel)

13 de Dezembro de 2106

Esperando os aviões

13h36min PM

Esses dias estão sendo os mais difíceis. Sempre que fecho meus olhos ao dormir, consigo ouvir tiros e ver as pessoas que matei, como se elas morressem de novo e de novo, me atormentando até que eu adormeça de cansaço. O pior é que quando eu as mato, quando eu aperto o gatilho, eu me sinto extremamente bem, como se eu estivesse fazendo justiça. Sei que isso é uma tremenda mentira.

Acho que isso tudo é sobre Eikens, já faz quatro meses desde que recebi notícias da sua morte e não consigo superá-la. Toda vez que vejo um rebelde carregando uma arma, simplesmente vejo o assassino de Eikens e preciso acabar com ele, para assegurar a mim mesmo que mais nenhuma pessoa que gosto irá morrer.

Mas chega de falar sobre o que acontece de ruim, porque isso é o que mais ocorre por aqui. Estou sentando aqui há meia hora, esperando os novos militares da aeronáutica que estão vindo da Rússia. Fiquei encarregado de levá-los aos seus aposentos, de indicar onde devem fazer os carregamentos de munições e mostrar como é a nossa base.

Nem sei como estou conseguindo escrever, está muito frio e meus dedos tremem. Que droga que esses russos já estão acostumados com esse frio exagerado, talvez por isso estejam fazendo tanta hora.

31 de Agosto de 2109

Lendo o diário de Bill

10h41min AM

Esse era o começo, confesso que foi bastante fácil de lê-lo. Foi bastante fácil aceitar como a história se desenrolou, mas quando ela foi se aproximando do final, mais um sentimento devastador tomava conta de mim. Não posso ficar anexando ao meu próprio diário o que Bill escreveu, já que essa história é minha, mas nada me impede de relatar de forma sucinta e com meus comentários toda a relação de Bill e Petrova. E esperem pelos comentários ácidos.

No mesmo dia, naquele maldito dia, naquele 13 de Dezembro de 2106, as 15h19PM, os aviões russos finalmente haviam chego. O voo atrasou por causa de geadas fortes, foi o que alegaram os três novos visitantes: Dimitri Ivanovich, Fiodor Vonkleist e Petrova Szelsky. Talvez Bill não tivesse dito em seu diário, mas por causa dos tantos adjetivos que atribuiu a Capitã Petrova, posso alegar que foi amor à primeira vista, ou quem sabe, atração à primeira vista para os desacreditados.

“Nunca havia visto mulher mais bonita que aquela com sua pele branca e um pouco avermelhada nas maçãs do rosto por causa do frio que a agredia, eu podia compará-la a uma boneca como muitos fariam. Mas ela não era delicada e eu sabia disso, principalmente pela maneira que ela falava de seu avião, como se fosse a arma mais mortal e veloz que já havia se visto. Não conseguia prestar atenção por muito tempo no que ela falava, já que meus ouvidos apenas se fixavam no seu alemão com seu sotaque russo fascinante. E os seus olhos azuis tão límpidos me tragavam como a neve que quase afundei quando estava a sua espera”.

Como podem ver, precisei colocar esse trecho aqui para entenderem do que estou falando. Bill estava completamente apaixonado por ela e não é por ter tentado classificar a sua beleza de diversas formas tão adocicadas que me dão diabetes, era porque um cara tão cruel como ele, quando escreve uma coisa dessas, decididamente é amor. Ou paixão, tanto faz.

O pobre rapazinho ficou dias aos encalços da tal Petrova, sem que ela percebesse. Ele tentava se sentar o mais próximo dela durante as refeições – alegando que não era só por ela e sim pelas histórias incríveis que ela contava –, enfrentando os frios terríveis onde ficavam os aviões, esperando que ela aparecesse, ou, simplesmente, seguindo ela pela base, tentando alguma forma de conversar sem que parecesse intencional. E tenho que dizer que a maior cartada dele foi quando contou a ela que sempre quis pilotar e gostava de aviões. O que era uma tremenda mentira já que Bill nunca pensou em tirar seus pés do chão, já que achava bem mais seguro.

Petrova, sem perceber nada, decidiu ensinar tudo a ele que sabia. Mostrou para ele seu avião e todos os comandos, falando sem parar, sem perceber que seu pupilo não prestava atenção em nada, a não ser no seu maldito sotaque. Não consigo imaginar Bill nessas cenas, sério, é algo muito surreal. Um Bill romântico é impossível de ter existido, só se for em outra dimensão contrária a essa, é a melhor explicação que tenho.

A verdade é que ele não foi o melhor dos pupilos, por causa da sua falta de atenção, demorou bastante tempo para aprender algo sobre aviões e vôos. Mas foi essa falta de dedicação e a vontade de ficar ao lado de sua mestra, que fez os dois ficarem bastante próximos. Talvez, naquela época, Petrova nunca tivesse se apaixonado por ele se Bill não tivesse aberto a boca. Creio que ela apenas o via como um aluno muito querido que dividia os mesmos interesses.

“Ela se inclinou para desligar as luzes do avião, a aula já terminara e estava tarde. Não havia ninguém por perto, ninguém para se certificar que houvesse alguém dentro dos aviões e foi nesse momento de descuido, que ela se aproximou de mim, eu a beijei. Não tive tempo o suficiente para sorver-lhe os lábios, porque Petrova se afastou em um susto e mesmo no escuro, eu podia ver seus olhos azuis assustados.

– Eu te amo – eu disse como se fosse a resposta mais plausível para ela compreender o que eu fizera. E de certa forma, era.

– Kaulitz, não podemos – ela disse, se levantando de seu assento e andando pelo avião em direção a saída – Eu sou sua mestra e sua superiora.

– Já falei para que me chamasse de Bill – retorqui, correndo atrás dela e segurando seu braço – Além disso, você é só minha mestra. Tornei-me capitão também.

– Estamos no meio de uma guerra, não podemos. Já há muito que se preocupar e eu não divido os mesmos sentimentos que você – ela havia dito aquilo como se estivesse dando ordens a alguém com uma hierarquia abaixo dela – Estou aqui apenas para ensiná-lo, nada mais do que isso.

– Não diga que não me olha de forma diferente do jeito que olha os demais. Você me quer tanto quanto eu a quero. Não vejo nada de errado em um amor em meio à guerra, é disso que todos precisam, é isso que acabaria com essa droga que estamos vivendo. Se todos tivessem amor, ninguém estaria matando como está agora.

Ela abriu a boca para dizer algo, procurando mais um motivo de porque não podíamos ficar juntos, mas como ela não achou, simplesmente se calou. Soltei seu braço, esperando que viesse algo receptivo da parte dela, mas ela apenas foi embora.

– Não se esqueça de fechar o avião, Kaulitz – ela disse, correndo em direção a base”.

Viu? O sentimento dela de carinho foi totalmente confundido pela declaração de Bill, o que ocasionou depois o tal amor. Petrova o ignorou, não ia mais as aulas e o tratava como se nunca tivesse tido algum tipo de relação com ele, mesmo que fosse apenas de amizade e companheirismo. Claro que Bill não desistiu, cabeça-dura e teimoso é o que ele mais é e continuou a persegui-la.

“– O que você quer, Kaulitz? – ela exclamou, quando foi abordada por ele novamente, quando estava para sair do seu quarto – Nossas aulas estão encerradas, já disse antes.

– Preciso apenas conversar com você e não é sobre as aulas – eu disse, colocando meus braços na batente da porta, impedindo que ela saísse – Dê-me um minuto, por favor.

– Tudo bem – ela revirou os olhos e permitiu que ele entrasse. Petrova fechou a porta, mas não sem antes dar uma olhada no corredor – Seja rápido.

– Eu entendo que você não gostou da minha declaração e que também não me ama. Respeito isso, mas não aja como se não me conhecesse.

– Kaulitz, isso é complicado. Nosso relacionamento precisa ser apenas profissional, como posso falar com você, sabendo que espera algo mais...

– Chame-me de Bill – eu a cortei – Não quero algo mais se não quiser. Eu apenas quero sua amizade de volta, recuso-me a perdê-la.

– Você nunca vai querer apenas a minha amizade – ela disse tristemente.

– Ou você que não quer? Eu sou a mesma pessoa de sempre, o que há de errado agora? – eu disse, insistente. Não podia deixar que ela fosse embora dessa forma, não podia perdê-la. Arrependo-me tanto de ter dito que a amava”.

Mas não vai se arrepender mais. Tudo bem, estou colando parte demais aqui no meu próprio diário, só que não dá para relatar essas cenas de forma tão precisa. O máximo que eu conseguiria dizer é que o desgraçado conseguiu conquistar a maldita com essas frases tão melodramáticas e românticas. Não que seja tão ruim, acho que se fosse comigo, no mínimo acharia bonitinho. Ok, confesso que acharia bem legal.

– Esse amor é errado – ela repetiu aquilo pela milésima vez – Apaixonar-me por você é errado.

Tentei entender o que ela havia dito. Ela me amava? Ou falava apenas que se isso acontecesse, seria errado? Tinha medo de perguntar e receber a resposta que menos queria ouvir. Aproximei-me dela e segurei seu rosto entre minhas mãos, fazendo com que ela olhasse diretamente para mim.

– Diga que não me ama e nunca mais voltarei a procurá-la – eu disse, fazendo meu coração bater dolorosamente, esperando pelo segundo que acabaria com tudo.

– E se eu não disser nada, ficará aqui para sempre? – ela respondeu, com lágrimas nos olhos e deixando-me surpreso com a resposta”.

Não, não vou contar a vocês o que se sucedeu. É claro que eles se beijaram, é claro que houve bem mais do que isso, mas não estou com vontade de relatar essas cenas em meu diário. Eu até pulei essa parte, não há nada que eu queira saber demasiadamente sobre um passado a qual eu não pertenço, mesmo que meus olhos não consigam desgrudar dessa tela maldita.

Petrova se apaixonou por Bill, sem que mais ninguém soubesse. Ele não se vangloriou por estar com a mulher mais bonita da base. Ela não contou a ninguém sobre como estava completamente apaixonada pelo mais novo prodígio, Capitão Kaulitz. Os dois viveram essa esse amor secreto e proibido da maneira mais intensa que um lugar vigiado constantemente poderia permitir.

Teve a vez que Petrova precisou pegar um carregamento em Genoa, Itália, no dia 7 de Julho de 2107 e eles foram à praia. Foi nesse dia que tiraram aquelas fotos e nem preciso dizer que foi a única coisa que fizeram. Não estou com ciúmes de Bill, nem nada. Estou com inveja do relacionamento desses dois. Os meus relacionamentos – se podem ser chamados disso – não passaram de sentimentos efêmeros e casos corriqueiros. Eram coisas de poucos dias, sem muito compromisso. Não porque eu não quis, é simplesmente porque não amei nenhum deles.

E do mesmo jeito que minha história terminava sem ter realmente um fim, o diário de Bill acabou da mesma maneira. Petrova ainda estava viva, tinha vinte cinco anos, namorava um Bill de vinte anos, que se tornara Tenente e ambos estavam pensando em desistir de tudo para viverem juntos. Algo que nunca aconteceu.