Humanoid Chronicles
25 Capítulo 25
Olá, por você mudei meu caminho
É novidade para mim
Vocês amam odiar uns aos outros
Como é que funciona?
É divertido?
(Hey Du – Tokio Hotel)
31 de Agosto de 2109
É, ainda estou aqui
10h13min AM
Hoje não fui acordada com as batidas insistentes em minha porta, o que me fez acordar tarde o suficiente para não me sentir tão fatigada por causa da insônia. Bill não estava mais no quarto, não havia nem sinal dele por perto, mas havia uma bandeja em cima de sua escrivaninha, onde havia meu café-da-manhã.
Bem... Bill não gostava de mim, não que eu me importasse, mas ele foi legal o suficiente para contar umas histórias de quando nós éramos crianças. Ele também falou de minha mãe, que engravidara com dezoito anos e sozinha cuidou de mim até sua morte. Quanto ao meu pai verdadeiro, não se sabia nada e podia ser qualquer homem, ou ele já podia ter morrido por causa dos problemas climáticos ou doenças.
Eu não me lembrava de nada que ele contara, mas eu me sentia como se tivesse vivido cada uma das situações, como se tivesse conhecido todas as pessoas que ele citara. Mesmo assim, havia aquele vazio no meu cérebro, aquela vontade de me lembrar, mas que por mais que me esforçasse, não conseguia. Eu era criança demais para se lembrar de qualquer coisa.
Fui até a escrivaninha de Bill para tomar o café-da-manhã, havia uma garrafa térmica e coloquei café fumegante em uma xícara. Talvez por curiosidade ou simplesmente por falta do que fazer, abri uma das gavetas da escrivaninha. Queria descobrir alguma coisa sobre Bill, qualquer objeto que denunciasse seus gostos e pensamentos, só para eu ter certeza de que devia confiar nele. E para minha surpresa, achei várias fotografias!
Uma delas era de Bill e um homem corpulento e alto, com braços tatuados, que daria medo em qualquer um se não fosse seu sorriso, o avental que usava e a colher de pau que segurava em sua mão. Bill também estava de avental sobre seu uniforme militar e tinha seu cabelo comprido e preto, presos naquele rabo-de-cavalo baixo. Era Eikens, decididamente era o cozinheiro. Virei a fotografia e estava comprovado, atrás estava o nomes deles e uma 15 de Abril de 2106.
Não precisava ser vidente para descobrir quem estava na próxima foto, era Petrova. Bill devia estar realmente ruim para me confundir com ela, afinal nós duas não tínhamos nada a ver. Tudo bem, tenho que confessar que Petrova era um bocado bonita, ela tinha os cabelos pretos em cachos, com alguns fios vermelhos por causa do sol, apesar disso, sua pele era bastante branca, talvez ela fosse da Rússia. Os olhos dela eram muito azuis, como piscinas redondas, enquanto os meus eram meio acinzentados. Pelo fundo da foto, decididamente era uma praia e ela estava apoiada em uma esteira, enquanto sorria em direção a quem tirava a foto. Mais uma vez eu não precisava ser vidente para saber quem tirava a foto.
Havia mais fotos dela, Petrova com seu uniforme militar, na frente de um enorme avião e ela dentro dele, como se fosse pilotá-lo. Talvez ela fosse da aeronáutica. Depois de olhar quase um book completo, achei algumas fotos dela com Bill. Comparando os dois, dava para perceber que ela era mais velha, talvez Bill tivesse uns dezoito anos enquanto ela devia ter uns vinte e pouco. Mas os dois olhavam para a câmera tão felizes, que nem pareciam em meio a uma guerra e isso apertou meu coração. Aquele amor fora uma espécie de esperança em um lugar que não havia nenhuma, e Bill acabou perdendo a dele também. Olhei mais uma vez a data atrás: 21 de Janeiro de 2107. Havia mais datas que foram se seguindo e poucas anteriores a essa.
Achei uma foto de Bill e Tom com sua mãe, os dois eram pequenos, deviam ter uns dez anos. Também havia uma foto dos três mais recente. Foi quando me deparei com uma foto que mostrava a verdade diante dos meus olhos. Ela estava velha e um pouco suja, mas dava para ver perfeitamente seis pessoas ali, sentadas na grama, como se estivessem fazendo um piquenique. Bill e Tom, idênticos, sem nenhuma coisa que denunciasse seus estilos diferentes se encontravam ao lado de uma garotinha, ainda bastante pequena, com os cabelos pretos e curtos e olhos azuis com tons cinza. Acima deles, estava um casal, uma mulher e um homem de cabelos escuros, que deviam ser os pais dos gêmeos. E, tentando segurar as lágrimas, lá estava minha mãe, com cabelos loiros que iam abaixo do seu ombro, magra e bastante delicada e muito jovem, tinha apenas vinte anos. Os olhos dela também eram azuis acinzentados.
Eu não me lembrava dela, nenhum um pouco e isso me matava, mas ao ver a foto, eu sentia como se já tivesse a conhecido. Corri para minha mochila e peguei meu Idiary e comecei a escanear a foto, eu tinha que guardar essa memória, quando desse, iria revelar e colocar o rosto da minha outra mãe no escapulário também. A última foto que havia na gaveta, para minha surpresa, era uma minha de quando eu tinha doze anos em meu aniversário na mansão dos Langebahn. Como diabos ele conseguira ela? Mas lá estava eu, sorrindo para a câmera, enquanto segurava um presente enorme.
Guardei as fotografias e comecei a procurar por mais alguma coisa, sei que era errado fuçar nas coisas dos outros, mas Bill poderia ter mais alguma coisa que fosse do meu interesse. Foi quando eu encontrei, em outra gaveta, algo bastante familiar: era um Idiary. Na verdade, era uma versão bem mais velha que a minha e estava bem detonada, com pontos queimados e a tela tão fina estava em frangalhos. Havia a chance de a memória estar intacta, por isso, tratei de abri-lo para localizar o que eu procurava.
Por dentro, o Idiary estava bem mais conservado e a memória parecia estar muito bem. Retirei-a e coloquei no meu Idiary, que aceitava outras memórias, mas precisava convertê-las para aceitá-las em uma versão mais nova. Quando finalmente finalizou, nem acreditei que estava com um dos objetos mais pessoais de Bill, quero dizer, se ele usava-o bastante.
Foi então que eu achei o seu diário, ele realmente o usava tanto quanto eu. Adrenalina passava pelas minhas veias, com medo de que eu fosse descoberta por ele ao violar sua privacidade. Fechei a gaveta para encobrir qualquer evidência, peguei a bandeja do café-da-manhã, coloquei na cama e me sentei, pronta para desfrutar das suas anotações.
26 de Janeiro de 2106
No avião, a caminho para a base em Zugspitze
07h18min AM
Não faço ideia de como vai ser minha vida daqui para frente, o treinamento do exército acabou e estou longe de Tom. Ele vai ficar em Chemnitz, enquanto estou sendo levado para muito longe, diretamente para a guerra. O que eu tinha na cabeça? O plano era ficar em Chemnitz com meu irmão, como minha mãe queria e planejara, mas eu tive que mostrar que eu era o melhor aluno! Eu devia ter mostrado o quanto eu era terrível em atirar, como Tom fez muito bem.
Confesso que estou morrendo de medo, principalmente de morrer e não poder voltar. Eu ainda preciso salvar Wilhelmine, ela está em perigo e eu fui idiota o suficiente para jogar tudo no lixo. A única coisa que me deixa um pouco mais calmo é que ela é nova demais para ser usada naquele Projeto Humanoid, ainda tenho tempo.
Enquanto isso, terei que enfrentar a realidade que meus treinamentos seguros escondiam. Daqui para frente, cada dia será uma vitória por minha sobrevivência e espero ser vitorioso o suficiente para voltar para casa. Se houver casa, porque nem mesmo lá estou seguro.
Oh, Gott! Ele citou meu nome no diário, ele realmente se importava comigo a ponto de querer viver para me salvar. E também para voltar para casa. Tudo bem, ele queria viver porque ninguém com sanidade o suficiente quer morrer, mas um dos objetivos dele decididamente era me salvar. Decidi que seria legal procurar mais coisas sobre mim, por isso digitei meu nome e apelido para ir direto às anotações que me interessavam e... 25 citações foram encontradas!
... preciso salvar Wilhelmine, ela está em perigo e eu fui idiota o suficiente...
... pergunto-me se está tudo bem com Wilhelmine, se não fizeram nada...
...sempre que olho para a foto de Mine, lembro-me da promessa que fiz...
A maioria das citações são todas assim, ele quer saber se estou bem, fala da promessa e quando ele poderá fazer algo por mim. Não tem nada demais, parece que ele é meu irmão em vez de... talvez o sentimento dele é fraterno. Por isso ele me trata mal e de repente me trata bem, isso é coisa de irmão. Como sou estúpida, é claro que Bill pensa que é meu irmão por isso quer tanto me proteger. Mas está tudo bem, eu não gosto dele mesmo, é só que seria legal saber que alguém gosta de mim, a última vez que eu soube de algum admirador foi quando eu morei em Hamburgo.
Olhei aborrecida para o meu Idiary e digitei outra coisa que queria saber, mas me recusava a fazê-lo. Lá estava nada menos e nada mais que 257 citações com o nome Petrova, e olha que era só o nome, imagine se eu descobrir qual era o apelido dela. Por mais que minha vontade fosse jogar a memória daquele infeliz longe, eu decidi dar uma lida no que ele escrevera sobre ela.
Quero dizer, Bill devia ter uns dezoito anos quando a conhecera, devia ser alguma espécie de admiração ou um amor platônico. É claro que nas fotos Petrova parece que tem um ar de apaixonada, mas ela é mais velha que ele, além de que estavam em uma guerra! Tem que ter um pouco de profissionalismo nisso tudo. Aposto que não houve nada demais, se os superiores deles descobrissem, tudo estaria acabado, eles deviam saber o risco que estavam correndo...
E que droga que eu estava enganada.
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