Notas iniciais
Esse é o capítulo que muitas pessoas pediram HEHE.

Amor e Morte

Não bagunce com meu coração

(Love and Death – Tokio Hotel)

31 de Agosto de 2109

Ainda no quarto de Bill

03h45min AM

Não consigo dormir. Sei que tenho pó de calmante o suficiente para que eu consiga, mas não estou a fim de ser dopada novamente. Por isso, passo a maior parte do tempo tirando a toalhinha da testa de Bill e a molhando quando secava. Ele continua tão quente quanto antes e sua febre não abaixou até agora, mesmo assim, está dormindo feito uma pedra.

Com todo cuidado, coloquei minha mão na toalhinha, percebi que já estava morna e quase seca novamente, retirei-a e fui para o banheiro, encharcando-a igual já fizera umas dez vezes. Encarei meu rosto no espelho e ele estava terrível, com olheiras enormes abaixo dos meus olhos, que apesar de cansados, não conseguiam se manter fechados.

Voltei novamente para o quarto, tonta por causa da falta de horas de sono e coloquei a toalhinha novamente na testa de Bill. Então ele agarrou meu braço, me dando um susto gigantesco e me deixando mais acordada do que já estava antes. Seus olhos se abriram, me olhando de forma vaga, como se não reconhecesse quem estava diante dele.

– Só estou molhando de novo a toalhinha – eu disse, tentando soltar meu braço do aperto de ferro dele – Pode voltar a dormir, está tudo bem.

Ele puxou meu braço para mais perto, tive inclinar o corpo para não cair bem em cima dele. Bill devia estar sonâmbulo ou, quem sabe, tendo delírios por causa da febre.

– Bill, sou eu! Droga, você está me ouvindo? – eu disse, mas ele não respondeu. Continuou a me fitar como se tentasse descobrir quem eu era.

Enquanto sua mão direita segurava meu braço, a esquerda segurou o meu rosto e começou a acariciá-lo com movimentos lentos. Decididamente ele estava tendo algum delírio, nunca Bill faria uma coisa dessas enquanto estivesse totalmente são. Só que eu fiquei petrificada, tentando entender o que estava acontecendo, talvez essa fosse a primeira e única vez que o veria agir dessa maneira.

Quando eu menos esperava algo desse tipo, ele me puxou para si, me fazendo perder o equilíbrio e cair em cima do seu peito. Fiquei em pânico, o que diabos ele estava querendo? Tentei sair, mas seus braços me envolveram em um aperto quente o suficiente para queimar minha pele e um arrepio percorreu minha espinha.

– Mas que diabos você está fazendo? – eu sussurrei, tentando acordá-lo daquele sonambulismo insano.

– Shhhh, cala a boca – ele resmungou. Simples assim, nenhuma justificativa além daquela voz jocosa.

Então ele me beijou. Seus lábios quentes tomaram os meus e uma corrente elétrica percorreu o meu corpo e não estou falando de curto-circuito ou qualquer problema robótico, estou falando da sensação humana de desejo percorrendo cada parte do meu corpo e mostrando o quanto eu ainda era viva. Meu corpo relaxou ao toque dele, ele era tão humano quanto eu me recusava a acreditar, quando eu pensava que não havia nenhum sentimento bom nele. Não que o maldito fosse o exemplo de pessoa mais sensível agora, só porque estava me deixando impressionada.

Seu corpo rolou por cima do meu, me prensando contra a cama e se encaixando perfeitamente a mim, enquanto eu dedilhava as cicatrizes que estavam em suas costas e braços, cravando minhas unhas em sua pele, tentando mantê-lo o mais próximo possível de mim. Algo em minha cabeça ficava dizendo: “Ei, Mine, você está se atracando com Bill! Você não o odeia? Ele não a tratou mal o tempo todo? O que você está fazendo com ele agora?”. Tudo bem, eu tinha plena consciência do que estava acontecendo, mas eu não conseguia sair de perto dele. E meio que eu não o odeio completamente, talvez só um pouco.

Meus pulmões imploraram por ar, quando ele finalmente parou de me beijar e desceu seus lábios pelo meu pescoço, fazendo o calor se alastrar por minha garganta, a língua tenra tocando a minha pele. Ele me queimava, sua proximidade fazia o quarto parecer um forno e meu cabelo já estava grudando em minha testa, enquanto ele continuava a me apertar a si. De todos os caras que eu já tinha beijado, nem de longe os beijos foram tão intensos como os de agora.

– Não vou te perder nunca mais – ele sussurrou abaixo de minha orelha, arrepiando a minha pele – Você não tem ideia do quanto eu sofri na sua ausência.

Não acredito. Isso é impossível. Ele gosta de mim? Ele realmente gosta de mim? Nunca encontrei ninguém que dissesse algo tão próximo de “Eu gosto de você” ou um “Eu te amo”. Gott, estou eufórica, não sei nem o que dizer! Confesso que depois daquele incidente na cozinha e também com ajuda dos vídeos, eu cogitei a ideia de que Bill não era de todo mal, na verdade, eu o achava um bocado bonito para alguém tão insuportável. E eu também gostava quando ele aparecia quando eu estava andando pela base, eu meio que ansiava vê-lo algumas vezes. Passei minha mão atrás de sua nuca, tentando puxar seu rosto para mim, queria beijá-lo e confirmar que eu sentia algo bem próximo daquilo por ele.

– Eu não consegui dizer antes, mas eu te amo – ele falou fazendo meu coração bater desesperadamente – Eu te amo tanto, Petrova.

O que? Mas o que diabo é Petrova? Oh, meu Deus. Ele não está falando comigo, não está mesmo. Petrova é um nome, de outra mulher que não sou eu. Bill está realmente tendo alguma alucinação por causa da febre. Meu avô, quando eu tinha cinco anos, antes de morrer, teve uma febre daquelas e conseguiu me contar três piadas antes de dar o último suspiro, e ainda acreditou que tinha uma platéia o aplaudindo. Bill está imaginando que eu sou essa tal de Petrova. Não acredito que fui tão burra, claro que tudo estava sendo impressionante demais para ser verdade.

Afastei-me dele com o coração quebrado. Não, ele trincou um pouco meu coração robótico, nada de essa bobagem toda de quebrar o coração. Ele é um idiota e eu o odeio mais que tudo, então, eu só caí nessa ilusão imbecil como o resto do ilusionista. Comecei a empurrá-lo, para conseguir finalmente sair do aperto de ferro dele e quando consegui escapar para o extremo esquerdo da cama, percebi que ele estava atônito.

– Ah, não – ele exclamou, parecendo finalmente acordado e passando a mão em seu moicano caído – Droga!

Eu ainda respirava com dificuldade, enquanto olhava ele realmente transtornado. Bill se virou para mim, tentando focar seus olhos o suficiente para ver se ele estava enxergando Wilhelmine ou Petrova. Minha vontade era de sair correndo dali, mas até eu conseguir detonar o dispositivo para abrir a porta, Bill já vai começar com algum texto explicativo sobre como ele diabos me confundiu com outra pessoa.

– Mine? – ele chamou o meu nome. Não ficaria mais feliz se tivesse ouvido antes. Eu respondi com um resmungo – Desculpe-me.

Desculpe-me. Foi isso o que ele disse? Não, não vou desculpar coisa nenhuma. Cadê o texto totalmente explicativo sobre o ocorrido? Ei, será que meu nome antes de ser Wilhelmine era Petrova? Ah, não, nos vídeos ele me chamava de Mine, se fosse Petrova, seria mais cabível me chamar assim, mesmo com as mudanças de nomes. Não que eu me importe, tanto faz.

– Ah, tudo bem – eu exclamei com a maior voz animada – Eu fazia isso o tempo todo, você só me assustou, só isso.

Droga, essa foi péssima. É melhor ele não ligar a luz porque meus olhos estão lacrimejando. Não acredito que estou quase a ponto de chorar, isso é muito estúpido da minha parte. Preciso sair daqui, espero que ele me expulse. Se ele for ao banheiro, acho que tenho chances de detonar o dispositivo dele e cair fora também.

– Eu estava me desculpando por outra coisa, mas desculpe-me por isso também – ele disse com uma voz carregada de arrependimento. Bill segurou meu braço, como se tentasse fazer com que eu olhasse para ele, mas eu continuava a encarar o teto – Você... está chorando?

– Claro que não! – eu exclamei, tentando secar as malditas lágrimas que estavam saindo do meu rosto – Você ainda deve estar tendo alucinações. Eu estou ótima!

– Petrova foi um grande amor para mim... mas ela está morta agora. É esse o preço de ir à guerra, você não pode se apegar as pessoas, porque uma hora ou outra você irá perdê-las e os fantasmas delas vão te assombrar para sempre – ele disse amargamente, limpando uma lágrima que descia pelo meu rosto com seu dedo.

– Sinto muito – eu disse, mas não de uma forma muito sincera. Quantas pessoas ele havia perdido na vida dele? Sério, isso já estava ficando estranho demais – Já percebeu que todas as pessoas que você ama, acabam morrendo?

Tudo bem, eu não devia ter falado isso, foi golpe baixo. No mesmo instante, me arrependi completamente de ter dito, ainda mais ao ver a expressão magoada dele. Desde quando todos os valores se inverteram? Há alguns dias eu daria tudo no mundo para vê-lo magoado, e agora que consigo, simplesmente me sinto terrível.

– Percebi – ele disse secamente – Talvez seja por isso que você sobreviveu ao acidente.

Eu mereci essa, mas doeu um bocado. Era melhor assim, preferia mil vezes nós brigando como de costume a essa confusão que se alojara em minha cabeça. Levantei-me da cama, pronta para sair dali, nem que eu precisasse do meu Idiary que se encontrava em minha mala, jogada em algum canto.

– Aonde você vai? – Bill perguntou.

– Vou embora, precisando das suas digitais ou não – eu falei, perscrutando pelo quarto, a procura da minha mochila.

– Mine, pare de ser infantil – ele falou rispidamente.

– Infantil? – eu explodi – Você não me conhece, não importa se foi meu amigo quando eu tinha dois anos e você seis. Não é porque vivi uma vida melhor que a sua, longe da guerra, longe de mortes que eu sou pior que você. Eu também perdi minha mãe adotiva, ela era tudo que eu tinha, porque meu pai se dedicava mais a merda dos seus projetos do que a sua família. Quando ela ficou doente, eu tentei de tudo para salvá-la, mas eu tive que abandoná-la, para não contrair a mesma doença e ela morreu! Posso ter feito um monte de coisas que me arrependo, mas naquele momento, aquilo parecia certo, era a única coisa em que eu podia entrar de cabeça e esquecer tudo que acontecia ao meu redor. E agora, o que diabos eu tenho? Perdi meus pais biológicos, perdi também meus pais adotivos, estou incluída em uma conspiração e não consigo chamar esse lugar de lar. Eu quero minha casa de volta, mesmo que seja uma mentira! E você não faz nada para melhorar a situação, torna tudo mil vezes pior.

Não conseguia conter as lágrimas que explodiam dos meus olhos. Tudo que eu vim aguentando desde que essa aventura terrível começara explodiu naquele instante. Só se passaram doze dias e eu havia perdido minha vida inteira com o que eu havia descoberto.

– Não queria ter sido sequestrada pelos Dogs Unleashed – eu disse, tentando secar minhas lágrimas – Você não me salvou de nada.

Bill levantou-se da sua cama e foi até o detector de digitais, colocou sua mão e a porta se abriu. Uma baforada fria veio do corredor e fez com que eu tremesse ao pensar em sair dali e tentar encontrar meu quarto.

– Pode ir – ele disse calmamente. Claro que eu encarei isso como um desafio. Finalmente achei minha mochila no chão, quando estava para sair, Bill me segurou e me abraçou – Mas não fale como se eu não me importasse.

Eu desmoronei e ele soube que eu não queria ir. A porta se fechou e eu fiquei. Dormi nos braços do meu antigo inimigo.