Notas iniciais
Finalmente o Nyah voltou! Já estava sentindo saudades de ler reviews e postar ): Agora, novos capítulos!

Olá pequeno andróide

Estou tão sozinho

Meu coração é um vácuo

Pesado como milhares de pedras

Eu quero arriscar algo

Não tenho nada a perder

(Hey Du – Tokio Hotel)

31 de Agosto de 2109

No quarto do Bill (e não é nada do que você está pensando)

01h54min AM

Tom estava exatamente aonde eu tinha deixado-o, sentado em uma das banquetas e apoiado na bancada, dormindo tranquilamente como se nada tivesse acontecendo. Bill se apoiou na banqueta e por um momento, pensei que estivesse observando seu irmão, mas havia algo estranho em sua expressão.

– O que foi? – eu perguntei, talvez ele estivesse zangado pelo o que eu fiz com Tom, mas como? Ele estava tão bem.

– Nada, nada demais – Bill disse, avançando até Tom e o levantando, apoiando seu braço em volta do seu pescoço para que conseguisse levá-lo, mas ao fazer isso, vacilou.

– Cuidado! – eu exclamei, indo até ele e pegando o outro braço de Tom. Para a Humanoid que eu era, Tom era bastante leve, não conseguia entender porque Bill vacilara – Vou te ajudar.

Bill não falou nada em todo o percurso, ele não agradeceu pela minha ajuda e também não ficou bravo por eu estar ajudando-o, mas sua expressão não era das boas, era bastante taciturno. Eu não devia me preocupar, afinal ele é sempre assim, uma hora está conversando com você normalmente e outra hora está quase te jogando pela janela. Mas eu quase podia entendê-lo agora, o que ele passou foi mil vezes pior do que e eu, além dele se lembrar de tudo. Ele perdeu os seus pais biológicos também, eu nem sequer me lembrava dos meus.

Depois de um pouco de esforço – mais do meu lado do que de Bill, porque percebi que ele estava com certa dificuldade de carregar seu irmão –, chegamos ao quarto de Tom. A porta abriu com as digitais de Bill e nos encontramos em um amplo quarto, um pouco maior que o meu. Havia dois pôsteres na parede, um era de uma mulher muito bonita que devia ser alguma atriz e o outro era de um rapper. Também havia uma guitarra em um canto e várias caixinhas espalhadas pelo chão e pela sua escrivaninha. Nós colocamos Tom em sua cama desarrumada e ele nem se mexeu, apenas respirou fundo.

– Ele vai ficar bem – eu sussurrei, vendo que Bill olhava o irmão – Eu não o machucaria.

– Isso é estranho vindo da pessoa que quis estourar minha cabeça no depósito com uma arma que esconde no pulso – ele falou, sorrindo finalmente.

– Ei! Foi assim que você descobriu, você é um Humanoid também! – eu exclamei, finalmente entendendo o que ele quis dizer aquele dia – Você também tem uma arma no braço?

– Não, infelizmente não tenho, mas tenho olhos robóticos muito bons – ele falou, indo em direção a porta do quarto.

Percebi que tanto o saguão quanto os outros corredores continuavam vazios, não havia mais sinal de nenhum dos Dogs Unleashed, além de Bill.

– Onde estão os outros? – eu perguntei.

– Estão ainda na missão, eu voltei sozinho já que minha ligação com meu irmão estava me alertando que ele estava em perigo. Depois que virei um Humanoid, isso aumentou e sinto um bocado de coisas que Tom sente.

Ah, não. Será que ele sabia que eu havia beijado Tom? Talvez isso não estivesse incluído no pacote, mas não consegui conter o rubor que se alastrou pelo meu rosto. Sinceramente, os dois precisavam ser gêmeos? Isso me deixa um bocado confusa mesmo os dois não sendo parecido em nada.

– Então – eu pigarreei – Você voltou porque sabia que eu estava tramando algo?

– Sim e não – ele disse simplesmente caminhando para longe de mim como se nossa conversa já tivesse acabado.

– Ei, onde você está indo?

– Para o meu quarto, vá para o seu.

Olhei brava para ele e o pouco caso que ele fazia das coisas. Eu tinha acabado de saber praticamente toda a verdade sobre minha vida de mentiras e ele não parecia dar a mínima, acha que vou poder dormir de noite sem ficar pensando em tudo que me contou – apesar de eu ainda ter os calmantes no meu quarto. Já estava pensando em dar as costas a ele, quando ouvi um barulho. Bill estava de joelhos no chão e se apoiava na parede, com uma respiração difícil que fazia seu peito arfar.

Gott! O que há com você? – eu exclamei, correndo até ele e o ajudando a se levantar – Não está se sentindo bem?

– Não é nada – ele disse se desvencilhando de mim – Está tudo bem.

– Ah, claro, você está ótimo – eu disse sarcasticamente, tentando ajudá-lo novamente, mas o maldito continuava me empurrando – Olha a sua expressão de alguém que comeu algo e não gostou, além de que você não conseguiu carregar o seu irmão, sendo que você é um Humanoid! Sem falar nessa sua respiração de alguém que correu por Berlim inteira.

– Eu entendi! – ele exclamou, se apoiando na parede e finalmente conseguindo me parar de ajudá-lo – Não estou bem, mas vou ficar. Isso é normal, acontece todo o tempo, só preciso ir para o meu quarto.

– Deixa eu te ajudar? Aposto que você não consegue chegar nem no final do corredor.

– Meu quarto é aqui do lado – ele apontou para uma porta que estava a menos de dois metros de onde estávamos.

– Não retruque – eu disse, colocando o braço dele em volta do meu pescoço, igual fizemos com Tom e levando ele ao seu quarto – Você está péssimo, Natalie provavelmente está dormindo e se você precisar de ajuda, sou a única pessoa acordada por aqui.

– Está me ajudando por que...? – ele disse com uma voz vaga e até desinteressada, como se perguntasse apenas por perguntar.

– Porque você me ajudou no dia do meu acidente, foi você que me retirou do carro e também tentou me impedir. E eu não fazia ideia de uma coisa dessas, pensei que fossem policiais que tinham me salvado ou qualquer coisa que conseguisse me tirar daqueles metais retorcidos. Eu vi os vídeos – eu disse tristemente – Vi como eu era antes, eu era uma babaca completa.

– Devia ter impedido isso, mas eu não esperava encontrá-la daquela forma – Bill falou, colocando a mão no detector de digitais e a porta de seu quarto abriu – Pensei que sequestrar você e contar tudo piorariam a situação.

O quarto de Bill era tão vazio quanto o meu, não havia nada que denunciasse seus gostos de músicas ou atrizes como havia no de Tom, nem se ele tocava algum instrumento ou simplesmente lia algum livro. Sua cama estava bem feita, sua escrivaninha vazia e tudo em perfeita ordem como se nenhuma pessoa nunca tivesse dormido naquele local, mas sempre o mantivesse limpo.

Ajudei Bill a sentar-se em sua cama e percebi que ele estava extremamente quente e seus músculos estavam tendo espasmos – se eu posso chamar de músculos, afinal até isso era robótico. Ele se arrastou até alcançar a cômoda que ficava do lado direito e abriu sua gaveta, tirando um potinho de remédio sacolejante. Ele sacou um dos comprimidos, o ingeriu sem ao menos precisar de água, jogou o potinho de volta na gaveta e caiu derrotado na cama.

– Você não está nada bem – comentei, indo em direção ao banheiro dele e procurando alguma toalhinha.

– Vou ficar, já disse – ele falou impacientemente – O que você está fazendo?

Achei uma toalhinha dentro de um dos armários, fui até a pia dele e regulei a temperatura para que a água ficasse gelada. Molhei a toalhinha completamente, depois a torci e voltei para o quarto com ela pingando. Já tinha visto pessoas fazerem isso em filmes, mas nunca havia tentando, talvez ajudasse a diminuir a febre de Bill.

– Para que é isso? – Bill perguntou, segurando meu braço quando me inclinei para colocar a maldita toalhinha em sua testa.

– É para abaixar a sua febre, imbecil! Estou te ajudando, pare de ser teimoso e metido a besta – eu falei, dando um tapa na mão dele e colocando a toalhinha em sua testa.

Finalmente ele ficou quietinho, com seus olhos faiscando por causa da luz que emanava do banheiro e me lembrando vagamente um gato machucado, analisando a pessoa que cuidava dele como se ela fosse atacar a qualquer momento. Ele ainda não confiava em mim o que era um bocado chato já que eu estava confiando nele e em toda a história que me contara.

– Não vou machucar você, pode sossegar – eu falei, sentando-me ao lado dele e ficando na minha.

– Como se você pudesse fazer algo comigo – ele resmungou, tão insolente quanto sempre fora, mesmo estando debilitado daquele jeito.

Então, ele simplesmente virou o rosto de lado, tomando cuidado para não derrubar a toalhinha e não falou mais nada. Fiquei ali, na penumbra, apenas observando enquanto ele pegava no sono e sua respiração voltava ao normal. Eu era capaz de ver suas cicatrizes brilhando conforme a luz do banheiro incidia sobre elas e me perguntava como ele fizera cada uma delas. Por incrível que pareça, eu tinha tanta coisa a perguntar para ele, havia tanto que eu gostaria saber sobre minha outra vida e sobre meus pais.

Claro que eu nunca iria me esquecer da mãe que me criou, aquela que estava sorrindo dentro do meu escapulário, entre os pós do calmante. O que doía era saber que eu não havia mais nada além do meu pai de criação, que me usara apenas para ser cobaia desse projeto que eu apoiei tanto. Mesmo assim, eu não conseguia ficar zangada, afinal tudo que aconteceu mudou de alguma forma a minha vida. Eu tinha duas opções: continuar nas festas como eu fazia antes ou sofrer um acidente que me levasse ao caminho certo. Que bom que o destino fez a escolha certa.