Você vê minha alma

Eu sou um pesadelo,

Fora de controle,

Estou colidindo na escuridão

De volta à tristeza

(In Your Shadow – Tokio Hotel)

29 de Agosto de 2109

Em lugar indevido

08h03min AM

– Vou tirar você daí – eu disse pensativa – Podemos fugir, também sou prisioneira deles, mas primeiro preciso descobrir uma saída.

– Eles vão voltar – ele disse se afastando e se sentando no chão novamente – Aquele bastardo odioso. Se eu estivesse solto, mandaria você acabar com a raça dele, fazer picadinho daquela escória traidora.

– O que? – eu perguntei sem entender – De quem você está falando?

– Daquele filho da puta que me prendeu, ele quer vingança, por isso ainda me mantém vivo. Ele quer acabar com cada um daquela empresa, ele vai fazer cada um pagar...

– O que você está fazendo aqui? – uma voz ecoou por todo o corredor, eu dei um pulo de susto ao ver que se tratava de Bill. Seu coturno batia fortemente no chão também de metal, fazendo tudo tremer abaixo dos meus pés.

– Nada – eu disse me afastando, temerosa de que ele fizesse a mesma coisa que fez em Starkey, mas dessa vez comigo – Eu me perdi, eu...

– Então você está de volta? – Starkey exclamou, rindo loucamente – Seu bastardo de merda! Pensa que pode acabar com a obra mais perfeita que eu fiz?

– Cala a sua boca – Bill falou, se virando para a portinhola e olhando para Starkey com uma raiva tão grande e de uma maneira que nunca olhou para mim. E eu pensando que ele me odiava. Então, ele se virou para minha direção – Venha agora aqui, quero você fora desse lugar!

– Calar minha boca? Não consegue fazer o trabalho sujo sozinho? Esqueci que precisa da puta traidora da sua mãe.

Starkey ria, de uma forma louca e escandalosa, fazendo meu medo aumentar. Percebi que o maxilar de Bill ficou duro, seus músculos do braço ficaram hirtos e suas veias saltaram. Foi nesse instante que Bill tocou a palma de sua mão no identificador e a porta se abriu automaticamente. Só vi o vulto dele adentrar o local e logo os gritos de dores de Starkey que começaram a ecoar por todo o corredor.

Eu sentia vontade de vomitar, mesmo que meu estômago estivesse vazio, eu precisava por para fora alguma coisa, enquanto via aquela sucessão de cenas. Tomei coragem e vacilando, corri para dentro da cela, onde Starkey estava sendo espancado por Bill, fazendo as paredes se encherem de sangue.

– Você que é o bastardo de merda – Bill disse, com as mãos tremendo da raiva que o corroia por dentro, segurando Starkey pela gola enquanto ele se afogava no próprio sangue – Vou acabar com sua existência como há muito tempo devia ter feito. Será um verme a menos nesse mundo.

– Não! – eu gritei, me atirando em Bill e tentando segurá-lo. Senti Starkey cair no chão, cuspindo o que tivesse inundando sua boca – Não faça isso!

Bill tentou me empurrar, desesperadamente tentou me tirar de cima dele, mas eu coloquei toda a força que eu tinha, o prendendo contra a parede. Ele parecia fora de controle, realmente decidido a matar qualquer pessoa que estivesse na sua frente, e eu estava com medo, não por mim, mas por ver alguém morrer sem que eu não tivesse feito nada.

“Bill odeia ver pessoas chorando. Atue um pouco e você verá o quanto ele fica desesperado”.

A voz de Tom ecoou em minha cabeça e não precisou de muito esforço para que lágrimas saíssem de meus olhos. Eu estava tão desesperada que logo já estava em prantos, realmente aos soluços, ainda fazendo força para que Bill não se desvencilhasse de mim e tentasse matar Starkey. Então, percebi, que o choro estava fazendo efeito, percebi que ele não se debatia mais, até finalmente parar. A única coisa que se ouvia naquele local, era Starkey tossindo sangue, eu chorando e a respiração de Bill.

– Por favor, para! Não o mate – eu disse tentando aumentar o fluxo das minhas lágrimas, mas me arrependi, porque quase não conseguia enxergar a expressão dele – Ele está louco, não sabe o que diz!

– Ele não está louco! – Bill exclamou, finalmente se desvencilhando de mim, percebendo que eu finalmente cedera. Mas ele não voltou a machucá-lo, apenas ficou longe o suficiente para não olhar para o meu rosto – Ele sabe muito bem o que fala. Ele sabe muito bem as coisas que fez. Ele não merece sequer estar vivo...

– E você acha que o matando faz de você um merecedor? – eu gritei, fazendo minha voz esganiçada ecoar pela sala – Não foi você que me disse que não se orgulhava de matar as pessoas? Por que está fazendo isso de novo?

Ele parou. Olhava para Starkey no chão, não mais com raiva. Eu juro que havia um vislumbre de arrependimento, quase imperceptível. Sequei minhas lágrimas, mas não o suficiente para acabar com elas e sim para que eu pudesse enxergar melhor.

– Precisamos chamar Natalie, ela precisa cuidar dele – eu falei, me agachando e tentando ajudar Starkey a se sentar, mas Bill não se moveu – O que está esperando? Chame-a agora!

Bill sacou um celular de seu bolso e sem nenhuma expressão discou um número, logo pude ouvir a voz de Natalie do outro lado. Ele solicitou que ela descesse até as celas para cuidar de um prisioneiro e depois desligou, olhando para mim enquanto ainda insistia em chorar só para mantê-lo calmo.

– Natalie já está vindo – ele disse, pegando o meu braço humano e me puxando para que eu me levantasse – Deixe-o, não há nada que possa fazer.

– Eu te odeio – eu disse, mais cuspindo do que realmente falando – Você é a pessoa mais odiosa que já vi. Como pode falar do meu pai e de Starkey sendo que não tem a mínima moral para isso?

Ele não respondeu, mas percebi que o atingi em cheio, pela sua expressão triste. Apenas fui arrastada para fora da cela, enquanto ele fechava a porta e me levava para quem sabe onde. Simplesmente eu não tinha forças para lutar, se ele quisesse me torturar até a morte, eu deixaria. Eu estava tão acabada pelas cenas que presenciei, que podia aguentar qualquer coisa por causa da dormência do meu corpo e mente.

Nós descemos as escadas até chegar ao andar, que eu supus ser o -7º e para minha surpresa, atravessamos uma porta grande e branca que nos levou a maior cozinha que já vi. Havia dezenas de mulheres e homens trabalhando ali e logo eu podia sentir vários aromas que fizeram meu estômago – mesmo enjoado – roncar de fome. Havia mesas de metal onde se encontrava vários ingredientes, tinha fogões cozinhando e cozinheiros mexendo panelas grandes.

Sob o olhar de todos, atravessamos a cozinha até chegar a uma porta que ficava no final. Ninguém questionou nada quando entramos lá dentro, mas com certeza, estavam surpresos ao me ver chorando e Bill coberto de sangue. Encontrávamo-nos agora em outra cozinha, mas esta era pequena. Também tinha uma mesa de metal, uma geladeira transparente onde avisava que o iogurte estava vencido, um fogão, panelas e utensílios espalhados.

– Sente-se – Bill disse, apontando para a mesa de metal, onde tinha um banquinho.

Sentei-me sem questionar nada. Bill abriu um armário no alto e tirou um bule, o encheu de água e depois tirou de um potinho, em cima da pia, dois saquinhos de chá. Eu não acredito que ele estava fazendo chá! Por um momento, pensei que ele fosse me esquartejar com um facão e servir a minha parte humana para seus pupilos comerem. Eles não desconfiariam de nada, ainda mais com todo o dom culinário dele.

Ficou um silêncio enorme enquanto ele fazia o chá. Eu não me atrevia a falar, só continuei chorando como a única forma de proteção que eu tinha. O cheiro de camomila se espalhou pelo ar, quase me acalmando, com certeza eu precisaria de um litro de chá para conseguir dormir essa noite. Quando finalmente o chá ficou pronto, ele colocou uma xícara fumegante a minha frente.

– Cuidado para não se queimar, está quente – ele disse com voz baixa, me fazendo olhar cinicamente para ele.

– Você quase matou um homem na minha frente e acha que um chá vai me acalmar? – eu falei furiosa – No mínimo vou precisar de um psicólogo para esquecer o que aconteceu hoje. Claro que as possibilidades de eu esquecer vão ser mínimas.

– Desculpe-me! – ele exclamou, se apoiando na mesa de metal e olhando fixamente em mim – E agradeço imensamente por ter me parado.

– O problema é que hoje eu estava lá, e as outras vezes que você o machucou? E amanhã, caso eu não esteja lá para pará-lo? O que diabos há de errado com você? – eu continuei falando, como se cada palavra explodisse em minha boca.

– Tome o chá antes que esfrie – ele disse simplesmente, se afastando de mim e abrindo a geladeira.

Tinha uma vontade imensa de pegar a xícara e jogar em sua cabeça, gritar com ele, falar que ele era um maníaco e quem precisava ser preso em uma cela era ele, e ainda deviam jogar a chave fora, mas eu fiquei na minha. Bebi o chá de má vontade, só que ficando agradecida por finalmente ter colocado algo no estômago, sem falar na calma abrasadora que tomou conta de mim.

Bill veio até mim novamente, com algo em sua mão. Ele depositou em minha frente e percebi que se tratava de uma torta com uma calda de chocolate que ele acabara de colocar, tirado de uma panela que estava sendo aquecida no fogão.

– Seu café-da-manhã, sei que é servido normalmente às nove horas, mas já que acordou cedo – ele disse, dando de ombros e evitando me olhar – Se quiser mais é só pedir.

Meu estômago gritou pela torta. Se eu não estivesse morta de fome, não teria tocado naquela comida, porque ele estava usando isso como chantagem. Ele estava tentando fazer com que eu me esquecesse do ocorrido e que não fizesse perguntas, mas eu não ia desistir. Peguei uma colher e provei um pedaço, foi como se o céu tivesse descido na Terra e qualquer coisa que me afligisse, tivesse ido embora. Tudo bem, esse negócio de comida faz você esquecer um bocado de coisas.

– Onde aprendeu a cozinhar? – eu perguntei, continuando a comer o pedaço de torta, mas com medo de que ele acabasse.

– No exército – Bill disse, abrindo a geladeira novamente e tirando uma travessa com mais torta. Algo dentro de mim gritou de felicidade – mas isso é uma longa história.

– Então me conte, tenho todo o tempo do mundo.