Humanoid Chronicles
14 Capítulo 14
Meu coração luta
Contra eu mesmo
Como um alien em mim
Eu levanto-me
Viro a minha volta
Tudo sangrento.
(Alien [german version] – Tokio Hotel)
28 de Agosto de 2109
Tentando executar o plano
18h14min PM
Segui Bill, tentando alcançá-lo por causa de suas passadas grandes. Ele já devia ter percebido que eu estava o seguindo e parecia querer se afastar mais rapidamente de mim, mas eu não deixaria isso acontecer. Quando finalmente consegui ficar do seu lado, percebi que sua expressão não era das boas. Não que ele tivesse expressões boas, porque ele não tem nem um pouco.
– O que você quer? – ele falou asperamente.
Tudo bem, eu vim sem pensar em nada, apenas alegando que ter uma conversa casual com ele pudesse deixá-lo mais dócil, mas pelo visto, para falar com alguém como Bill, eu precisava de um motivo.
– Quero que você me treine – eu falei rapidamente, olhando para as armas em sua mão e arquitetando um plano em minha cabeça – Ensine-me a atirar.
– Para você matar todo mundo depois? – ele parou realmente surpreso, olhando para mim e tentando decifrar o que se passava em minha cabeça – De forma nenhuma.
– Não vou matar ninguém, só quero aprender para caso um dia eu precise usar. É mais para auto-proteção.
– Wilhelmine – ele suspirou – Você já é perigosa o suficiente sendo uma Humanoid, imagine com uma arma em mãos.
O que ele não imaginava era que eu realmente tinha uma arma e ela estava muito bem escondida. Eu queria testá-la, mas tinha medo de que a intensidade fosse grande o suficiente para causar muito estrago, por isso, precisava primeiro aprender a atirar. Bill, pelo visto, precisava de três armas para ensinar seus pupilos e eu poderia me tornar uma delas.
– Por favor, prometo não causar problemas – eu disse suplicando. Será que eu deveria chorar agora? – Não tenho mais nada a fazer.
Ele não disse nem que sim nem que não, apenas deu de ombro seguiu pelo saguão por um dos vários corredores que existiam ali. Como não posso desistir facilmente, o segui o tempo todo, enquanto ele descia escada, atravessava corredores e entrava em salas. Pensei que ele estava tentando me despistar quando finalmente abriu uma porta de metal, colocando a palma de sua mão em um sensor.
O local era grande em comprimento e havia vários pupilos com armas, apontando para um alvo que estava na parede. Percebi que os pupilos eram bem ruins, ou erravam o alvo, ou acabavam acertando o alvo do outro. A única coisa que separavam eles de Bill e eu era uma porta e uma janela de vidro que devia ser blindada.
– Eles são uma negação – Bill disse furioso – Tem medo de usar uma arma que está a favor deles.
– E você foi tão diferente deles quando tocou em uma arma na primeira vez? – eu retruquei, percebendo que a expressão ruim dele se tornou dura. Com certeza, quando Bill teve que atirar pela primeira vez foi bem pior do que para esses pupilos, afinal uma coisa é você matar uma pessoa, outra é acabar com robôs sem vida.
Claro que ele não respondeu, não se deu o trabalho nem de olhar para mim, só abriu a porta e entrou naquela sala perigosa, cheia de alunos atirando desenfreadamente. Percebi, que pelo olhar dele, eu deveria ficar ali esperando por segunda ordem. Pelo menos eu não fora tão rude e ele parecia um pouquinho mais calmo do que normalmente, sem falar que não houve nenhuma discussão.
– Nicklas, Jordan e Claude – disse a voz de Bill, baixinha por causa do vidro, mas bastante perceptível – A próxima vez que vocês quebrarem as armas, juro que vão desejar nunca terem nascido.
Os três pupilos se aproximaram de Bill para pegar as novas armas, todos temerosos, e depois voltaram para os seus postos e continuaram atingindo os alvos como se não houvesse amanhã. Juro que preferia ter ficado no meu quarto, se fosse para eu ficar só olhando aqueles garotos aprendendo a atirar e Bill dando ordens e tentando mostrar o jeito certo, mas era nessa hora que eu mais prestava atenção. Ele devia ter aprendido tudo àquilo na guerra, por isso os Dogs Unleashed o aliciaram. Apesar de seu jeito autoritário, Bill parecia ser realmente bom no que fazia.
– As aulas acabaram, é bom vocês mostrarem o quanto aprenderam depois de amanhã – Bill falou, abrindo a porta fazendo com que todos os pupilos saíssem. Novamente tive que aguentar aqueles olhares chatos, só que dessa vez eram de surpresas.
– Acho que o Tenente conseguiu uma namorada – um dos pupilos disse, rindo para mim e conversando com o amigo do lado. O sangue subiu no meu rosto, e não era de vergonha, era de raiva.
– E ele precisa mesmo – respondeu o outro, os dois rindo à beça.
– Johann! Ludwig! – Bill exclamou, me fazendo pular junto com os outros dois – Vocês querem limpar o saguão inteiro?
– Não, senhor! – os dois disseram, hirtos de pavor.
– Que bom, porque se eu ouvir vocês dois falando de novo, serão suas línguas que limparão o saguão.
Os dois fizeram que sim e saíram correndo junto com os outros pupilos, que caíram fora no momento que perceberam que havia algo de errado.
– Pena que eles não sabem que você só fala – eu disse rindo.
– E ainda bem que você provou que eu só falo, que eu me lembre, quase morreu ao ficar na solitária por três dias – ele me cortou, fazendo com que meu riso parasse – Vamos lá, não tenho todo o tempo do mundo, se quer aprender alguma coisa, entre logo!
Entrei rapidamente na sala enquanto ele fechava a porta, eu também não queria deixá-lo zangado, o que aconteceu na solitária ainda estava bem vivo na minha memória. Bill foi até as caixas cheias de armas e começou a dar uma olhada nelas e depois jogou uma para mim, me pegando de surpresa. Não esperava que ele me entregasse uma arma de tão boa vontade, principalmente para alguém que havia dito que eu era perigosa.
– Essa é uma arma de energia, serve, naturalmente, para explodir – Bill falou, se encaminhando até a mim – Causa sérios danos em humanos, mas é menos preciso que balas, ou seja, a chance de você sobreviver com queimaduras é possível e já vi acontecer. Mas sabe para o que é letal essa arma? Robôs. Não os destrói, mas danifica muito seu funcionamento.
– Quer dizer, que se eu atingir em você, há chances de sobreviver, mas em mim causará sérios danos? – eu perguntei realmente começando a entender o porquê de ele estar tão seguro.
– Não totalmente, eu posso morrer, da mesma forma que você pode sobreviver. O negócio de usar armas, é que você precisa acertar no lugar certo, independente de que jeito seja o indivíduo. E o melhor lugar para isso é a cabeça – Bill disse calmamente, me dando aulas de como atirar na teoria. Eu estava esperando pela prática.
– Posso tentar? – eu perguntei animada – Não em você, claro.
Pensei que ele podia levar o que eu disse na esportiva, mas apenas se afastou, dando passagem para que eu fosse a um dos alvos que estava mais inteiro. Segurei a arma, tentando mirar no ponto vermelho que havia no meio, então apertei o gatilho e nada aconteceu. Olhei para a arma sem entender o que estava acontecendo.
– Primeira lição – Bill disse, se sentando em uma cadeira e me olhando de forma divertida – Ver se a arma está carregada.
Olhei feio para ele. Esperava que ele tivesse me dado uma arma carregada, por isso procurou tanto na caixa, mas pelo visto, ele ficou procurando uma sem carga só para que eu passasse vergonha. Ele queria se divertir as minhas custas, me fazendo passar por idiota.
– E como se vê se uma arma está carregada? – eu perguntei com um profundo tédio em minha voz.
– A caixa está ali, compare as armas – ele disse preguiçosamente de sua cadeira, olhando para a caixa a e esperando que eu fosse até lá.
Minha vontade era de achar uma arma cheia e atirar bem na cabeça daquele desgraçado, mas eu precisava me manter calma, se conseguisse só tinha a ganhar. Fui até as caixas e comecei a dar uma olhada nas armas, tentando localizar algo que dissesse qual estava vazia e qual estava cheia. Então percebi cinco pontinhos luminosos em cima delas, quase imperceptíveis. Algumas armas tinham os cincos ligados, outras quatro, três, dois, um e nenhum. Peguei a que tinha cinco pontos ligados.
– Achei! – eu exclamei, indo até o alvo novamente e mirando para o ponto vermelho do alvo.
Eu tinha certeza que ia acertar, não parecia ser tão difícil, mas quando apertei o gatilho, uma força enorme fez meu braço ir para trás. Atônita, olhei para o alvo intacto e eu errara muito feio, afinal, lá estava uma mancha negra na parede, soltando vapor. Tentei novamente, mirei no ponto vermelho e atirei, mas novamente, a força fez meus dois braços – sim, tentei mais força – vacilarem e dessa vez o tiro atingiu o chão.
– Mas que diabos! – eu exclamei, olhando para Bill, esperando que me auxiliasse.
– Precisa de ajuda? – ele perguntou divertido, querendo que eu implorasse.
– É difícil – eu disse, não sei se falando de atirar, ou de pedir ajuda. As duas eram realmente complicadas.
Ele se levantou de sua cadeira e veio em minha direção, pensei que fosse pegar uma das armas da caixa, mas apenas se posicionou atrás de mim.
– Relaxe, você está muito animada para alguém que vai atirar pela primeira vez – ele disse, colocando sua mão em meus ombros e o abaixando – Abaixe os braços um pouco, vou te ensinar um segredo.
Bill passou os braços em volta de mim, até alcançar as minhas mãos. Seu corpo colou-se ao meu e pude sentir sua respiração e seu coração batendo tão próximos de mim. Juro que entrei em pânico, já que todas as vezes que eu me aproximava dele, algo ruim acontecia e agora, eu estava próxima até demais. O que me deixava com uma sensação bizarra, quase uma mescla de atração com desgosto.
– Falei para você relaxar, agora você está tensa – ele sussurrou com seu rosto encostado ao meu – Sabe qual é o segredo dessa arma e por que não consegue atirar? A energia dela é tão forte, que faz a arma ir para trás, mas como você está a segurando, tenta conter o impacto a levantando. O segredo é simples, apenas encontre um ponto abaixo do alvo que quer atirar, a arma irá se levantar e acertar em cheio.
Não conseguia nem ao menos entender direito o que ele estava falando, não conseguia prestar atenção em nada. Suas mãos seguraram a minha e as abaixou em um nível que achava bom o suficiente para acertar o alvo. Ele apertou o meu dedo e a arma disparou, acertando o ponto vermelho precisamente.
– Viu? É fácil. Lá fora ou você mata ou é morto – ele disse, se afastando enquanto eu tentava entender o que estava acontecendo – Tente você agora.
Mas eu fiquei petrificada, olhando para a arma em minhas mãos e depois para o alvo fumegante que se estendia a minha frente. Ele havia chegado perto demais, como ele pode fazer isso? Bill podia muito bem ter me demonstrado como se fazia, longe o suficiente de mim, mas ele teve que se aproximar! Olhei para ele, que estava sentado novamente em sua cadeira.
– O que há com você? – ele exclamou, vendo que eu o olhava duramente.
Olhei para o alvo, abaixei meu braço e atirei, acertando o ponto vermelho já sumido e quebrando o metal ao meio. Coloquei a arma novamente na caixa e abri a porta da sala rapidamente.
– Para onde está indo? – ele perguntou sem entender nada.
– Já aprendi, posso ir embora agora – respondi secamente.
E saí.
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