Humanidade: A Queda

12 (Parte II) Capítulo 3 - Quebrados


Notas iniciais
Ainda tem gente aqui? Ou todo mundo virou zumbi? Bom, se tiver alguém espero que leia mais esse capítulo e preste atenção no que pode te salvar no fim do mundo. Vejo vocês nas notas finais. :3

Capítulo 3 — Quebrados

"Somos todos seres quebrados, tentando se manter firmes. Alguns parecem se consertar, mas no fundo somos todos seres quebrados." SOARES, Daniel

Thais estava num carro, acompanhada de soldados desconhecidos, alguns tentaram puxar assunto, mas ela não respondeu e eles decidiram respeitar o silêncio dela. Thais estava distante, seus olhos fixos em um ponto qualquer, mas sua mente vagava em memórias, sangue, dor, tristeza e muitas mortes. Sua amiga, a irmã de sua amiga, Dillan e ela não tinha como saber quantos além desses, tinham sido tomados dela. Ela era apenas medo e dor, tudo que a preenchia no momento, seu coração apertava no peito e as lágrimas caiam silenciosas, por mais que desejasse, ela sabia que as coisas jamais voltariam a ser como antes, ela e todos os sobreviventes estavam fadados a conviver com a dor até o fim de suas vidas. Thais voltou a si, olhou para os soldados, alguns observavam com curiosidade e compaixão aquela jovem, ela tinha perdido tudo, precisava de um tempo para si mesma, todos ali entendiam a dor que ela sentia, todos tinham sido destruídos por dentro e agora eram seres quebrados em busca de um alívio para suas dores.

Thais fechou novamente os olhos, não sabia o que fazer, tudo que mais queria era desistir de tudo naquele momento, felizmente ela não teve essa oportunidade.

°°°°

Milena tinha conseguido dormir um pouco, após passar intermináveis minutos rolando na cama, tentando fugir das lembranças e dos pesadelos que a assombravam e tiravam sua paz, pesadelos que eram tão reais quanto a realidade de todos que tinham sobrevivido a tragédia que tinha acometido a humanidade. Ela tinha começado a dormir um pouco antes do sol nascer, um sono profundo, ela tinha mergulhado numa escuridão amigável, quando de repente uma comoção chamou sua atenção e ela decidiu ver o que estava ocorrendo, em situações de emergência nenhum chamado, nenhum burburinho poderia ser ignorado, alguns segundos de hesitação eram a diferença entre a vida e a morte. Foi com essa convicção que ela se levantou, tentou arrumar o cabelo enquanto caminhava até a porta e abriu totalmente atenta.

Naquele momento ela travou, talvez fosse apenas um sonho, um pesadelo, mas foi com um terror crescente que ela se deu conta que aquilo era real e que Luís acabara de adentrar no esconderijo secreto deles.

°°°°

Wanderson patrulhava um corredor branco e estéril, era difícil imaginar que um lugar assim continuava de pé e limpo após os zumbis tomarem tudo, mas parecia que aquele lugar era um tipo de santuário imaculado da humanidade. "Está mais para um laboratório onde usam pessoas no lugar de ratos", a voz tinha voltado a falar com ele assim que as outras pessoas tinham sumido de vista.

— Onde você foi? — Wanderson sussurrou se sentindo um pouco louco por estar falando com uma voz da sua mente.

Wanderson continuou a patrulha, passou a mão em suas roupas, eram tipo fardas policiais, ele se sentia incrivelmente limpo. "Eu fui dar uma volta por aí", a voz soou presunçosa, "E pelo visto, foi preciso apenas isso pra você se meter em confusão".

— Está tudo bem! — Wanderson sussurrou. — E você não pode passear, afinal, você só existe na minha mente.

Wanderson passou por algumas salas onde cientistas trabalhavam, segundo a bióloga Cristine (que o tinha encontrado na avenida), eles estavam buscando a cura para o vírus zumbi. "Ok. Se você diz" a voz pareceu chateada e Wanderson continuou sua patrulha em silêncio, talvez ele estivesse mesmo enlouquecendo. "Eu não sou louco" Wanderson repetia mentalmente seu mais novo mantra pessoal, quando uma risada ecoou em sua mente e a voz surgiu mais uma vez "Ah! Wanderson! Todos somos loucos!".

°°°°

Esse é um osso da perna, parece resistente. Esse aqui é do braço, esse outro aqui é da bacia, acho que esse aqui é do crânio. É sim, está quebrado, mas consigo perceber pelo formato. Esses ossos, ou melhor pedaços de ossos, parecem bons para o propósito, estou terminando de arrancar uns pedaços de pele e músculos que sobraram nos ossos, quero fazer uma surpresa para Daniel. Eu vi que uma pequena parte consciente dele reconheceu minha última vítima, então vou fazer um colar com esses ossos pra ele ficar de lembrança. Tenho até um tufo de cabelo, espero que ele goste, está me hospedando sem pedir nada em troca, nada mais justo do que eu dar um presente. Esse colar vai ficar muito bonito, carregaremos o primo de Daniel para todos os lugares que a gente for. Eu sou uma boa criatura. Não sou? Vejo a criança zumbi que me olha sem expressão e me sinto entediado. Preciso destruir alguma coisa.

°°°°

Milena estava em uma enrascada, não via mais nenhuma oportunidade de revelar quem era Luís, desde a chegada do mesmo com Ale no dia anterior. Milena temia pela vida dos seus amigos, mas ao mesmo tempo, uma parte dela queria acreditar que ele não era um monstro, ela quase acreditou que ele tinha mudado.

— Não vai me dar um abraço. — Milena quase grita ao fechar a porta da geladeira e dar de cara com Luís.

— Desculpa. Desde o início da infecção eu prefiro evitar contato físico. — Milena se afastou temendo que sua atitude revelasse que ela sabia algo.

Luís pareceu ter notado e segurou o braço dela aplicando uma força desnecessária. Milena sentiu o desespero crescer dentro de si, uma parte de sua consciência imaginou no que aquilo iria dar. Em pouco tempo Milena se encontrava no chão, as mãos de Luís apertavam o pescoço dela impedindo o ar de entrar, os pulmões dela ardiam e o coração batia acelerado no peito. Luís sorria e apertava ainda mais forte, até que Milena sentiu suas forças indo embora.

— Eu tava com saudades. — ele falou e sua voz ecoou na mente dela.

Milena puxou o ar com muita força e levantou da cama assustada, mais um pesadelo. Ela tremeu ao lembrar que parte daquilo tinha realmente acontecido mais cedo, tirando a parte da asfixia, seu medo aumentava ainda mais a cada minuto, ela não conseguia dormir e não sabia como avisar sobre a realidade cruel que cercava Luís. Para tornar tudo ainda pior, a chegada de Luís tinha feito bem a uma pessoa: Clícia. Como o estado dela tinha melhorado depois de uma conversa com Luís, ninguém iria querer tirar ele de lá, só porque ela achava que ele não era mais o mesmo. Ela precisava ficar atenta e cuidar de todos ali. Ela precisava ser cética, ela não podia acreditar.

°°°°

Clícia fechou os olhos enquanto lembrava de todas as cenas e contava tudo de forma detalhada a Luís, na verdade alguns detalhes simplesmente chegavam na mente dele. Agulhas grossas, líquidos estranhos sendo impelidos para o corpo dela, choques no corpo e no cérebro, milhares de microorganismos invadindo seu corpo e se espalhando por todos os locais, gritos de dor, medo e horror, por último uma fúria bestial sendo contida de alguma forma dentro dela, as mortes e finalmente a fuga. Ela não era a mesma de antes, jamais seria, algo estranho vivia dentro dela e existia um medo terrível de que essa coisa acordasse.

Luís enxugou com cuidado uma lágrima que escorria do rosto da amiga e sentiu uma coisa estranha que durou alguns segundos. Clicia fechou os olhos, ela ainda podia sentir os microorganismos rastejando sob a pele, brincando em seus órgãos, podia sentir que eles estavam brincando com seu corpo.

— Desculpa! Eu não... posso mais. — Clicia falou com certa dificuldade.

— Não pode o quê?

— Eles querem... — Clicia continuou ignorando a pergunta de Luís. — Me querem... não, não... eles querem o que tem dentro de mim. Eles estão vindo... eles estão... — Luís segurou o rosto dela tentando acalmá-la — Eu não posso... — ela falou sentindo a fúria crescer dentro de si. — Eu não...

De repente o olhar dela perdeu o foco, seu rosto se tornou sem expressão e ela voltou ao mesmo estado de antes, presa em algum lugar dentro de si mesma, fugindo de um inevitável destino de mortes e mais destruição.

°°°°

Pedro segurava com firmeza a arma, o perigo se encontrava a espreita, a qualquer momento um zumbi errante poderia encontrar o foco de resistência deles, um grupo de zumbis seria um problema. Ele estava em estado de alerta constante, Ale parecia exausto da expedição de dois dias que trouxe como resultado uma bolsa com alimentos e suprimentos médicos e além disso trouxe Luís como reforço para eles, era um alívio ver mais um rosto conhecido, era um alívio ter mais um ali para ajudar, de repente ali ao lado de seus amigos ele não se sentia tão ruim, o mundo era cheio de incertezas, mas pelo menos ainda existiam pessoas boas com as quais ele poderia dividir suas dúvidas e encontrar soluções, pessoas em que ele podia confiar. Pelo menos era o que ele achava.

°°°°

"Wanderson entra logo naquela sala." A voz o incomodava. "Eu sei que você está cheio de curiosidade." E era verdade, o sinal de alerta de Wanderson soava com insistência, aquele lugar parecia superficial demais, tudo parecia muito bom para ser verdade. Se tinha algo deveria estar detrás daquela porta, a porta proibida, o único local onde ele não poderia entrar, as respostas deviam estar ali. A voz não parava de falar e Wanderson sabia que no fundo aquela era a vontade dele, abrir a porta e ver o que tinha do outro lado. Wanderson virou as costas para a porta decidido a sair dali, mas algo o impediu. Pensamentos invadiram sua mente com tanta força, lembranças, sensações e ele precisava saber o que havia lá dentro. Ele foi em direção a porta e abriu, não tinha mais volta.

°°°°

Thais finalmente tinha chegado a base do exército, estava tomando um banho, esfregando seu corpo com força tentando se livrar dos resquícios de sangue que cobriam seu corpo. Ela limpava com força, quase como se pudesse arrancar dessa forma as lembranças que vinham o tempo todo, como se isso pudesse impedir que ela revivesse mentalmente tudo que tinha acontecido. Thais olha para o cano do chuveiro e não deixa de notar como aquilo poderia facilmente ser arrancado e usado como arma pra se defender, a tampa da caixa de descarga também daria uma boa arma, ela agora estava com essa mania, pra se distrair procurava coisas no ambiente que poderiam ser usadas como armas.

Frustrada com seus pensamentos, ela fechou os olhos pressionando a cabeça com as mãos e sentindo a água escorrer por seu corpo. Afastou a mão levemente do ouvido, o suficiente para ouvir gritos vindo do corredor da base. Olhou para a tampa da descarga e deixou que seus instintos a guiassem.

°°°°

— Silêncio. — Ale acabava de interromper o calmo café da manhã de todos, pedindo com urgência silêncio. — Eles estão lá fora.

Um dos homens, que atendia pelo nome de Ivan se levantou pegou uma faca e uma arma, todos levantaram ansiosos e silenciosos. Ale sinalizou para que todos se sentassem e continuassem em silêncio.

— Por favor, façam silêncio. Vamos cobrir as janelas com cuidado. Parece que eles estão procurando algo. — Ale constatou assustado.

— O que está acontecendo exatamente? — Milena perguntou enquanto olhava de relance para Luís.

— Eles estão em um número muito grande. — Ale suspirou.

— Mas fizemos patrulha ontem e só encontramos dois zumbis que matamos. — João falou um pouco alterado.

— Eu achei que estávamos seguros. — Thalisson falou confuso.

— Com "número muito grande" você quer dizer quantos? — Pedro tomou a palavra irritado e com medo.

— Calma pessoal. Vamos manter a calma e ficar em silêncio. — Ale olhou nos olhos de cada um, inclusive no de Clicia que estava estranhamente focado nele e não disperso como sempre. — Com número muito grande eu digo algo em torno de mais de mil zumbis.

Todos começaram a cochichar, um burburinho se espalhou, mas foi rapidamente contido por barulhos de passos e gemidos vindo do lado de fora. Todos rapidamente se dispuseram a ajudar a fechar as janelas, colocaram cobertores, fecharam as portas, colocaram alguns móveis. Um cheiro ruim podia ser sentido ocasionalmente dentro da delegacia, os zumbis estavam muito próximos e eles precisariam ser cautelosos, além disso precisariam controlar o estoque de alimentos, sair dali não parecia uma opção e eles precisariam sobreviver com o que tinham por um tempo indefinido.

— Que Deus nos ajude. — Ale sussurrou para si mesmo, mostrava confiança, mas por dentro estava apavorado.

°°°°

Acordo com uma dor de cabeça terrível, sinto dor, sinto raiva, sinto medo e me sinto tão sozinho. Eu sinto uma tontura forte, coloco a mão no peito e sinto que tem algo amarrado no meu pescoço, olho pedaços de ossos, um dente humano, fios de cabelo e uma lembrança, que não é minha me atinge com força, meu primo. A dor que isso causa em minha mente é terrível, se eu estivesse em pé cairia de joelhos, mas a única coisa que consigo fazer é hiperventilar enquanto meus batimentos cardíacos explodem nos meus ouvidos, lembro do rosto dos meus familiares, lembro do rosto da pequena Rebeca e quase sou capaz de ouvir a voz dela me pedindo para lutar e resistir, lembro do Fernando, lembro da Ana e sinto saudades, lembro até mesmo do Luís e sinto falta dele também. Não posso continuar com isso, não posso permitir que esse vírus me use para destruir todos os que amo, não suportarei mais isso, preciso... eu preciso dar um fim nisso logo... abro os olhos e fito o teto atentamente...uma luz ofusca minha visão... coloco as mãos sobre meu peito e tudo começa a escurecer. Eu vou salvar vocês, vou salvar todos, acho que não poderei voltar Rebeca. Espero que o Fernando esteja orgulhoso de mim. Luís me desculpa por carregar essa dádiva que para você é um fardo, se eu pudesse daria a imunidade para você e sua... e sua... sua família. Eu preciso dormir para sempre, só assim posso conter o vírus em mim, eu preciso... eu preciso... sinto algo arder dentro de mim... preciso... DELA.

*suspiro e calmaria*

°°°°

Wanderson andava silencioso e com cuidado, viu algumas celas vazias e sujas de sangue, em outras viu zumbis horrendos destroçando e devorando carcaças sangrentas, viu zumbis presos em celas esterelizadas e de vidro. Mas algo chamou ainda mais sua atenção, vinha do final da sala, era um choro humano, misturado a soluços. Ele se aproximou com cuidado. "Acho que descobrimos algo, sabia que tinha armação nisso" a voz falou triunfante na mente de Wanderson, mas ele ignorou, queria escutar exatamente o que vinha detrás daquela porta metálica.

— Meu filho! — a mulher chorava. — Cadê você meu filho? — e os soluços recomeçaram.

Wanderson se aproximou confuso, mas foi apenas ouvindo novamente os resmungos que ele percebeu que sabia de quem era aquela voz.

— Eu conheço essa voz. — ele sussurrou para si mesmo e para a voz em sua cabeça. — É a mãe de um amigo meu. É a mãe de Luís Arthur.

Imediatamente uma sirene ecoou e Wanderson soube que tinha caído em uma armadilha. Um trovão ecoou vindo de fora, parecia que uma tempestade iria chegar e era exatamente isso que iria acontecer.

Notas finais
Depois da calmaria... Hahaha já sabem né? Esse foi meio lento, mas necessário para o que vem. Comentem aí o que acharam. Xoxo ♥ Vejo vcs nos comments :3