Humanidade: A Queda

3 Capítulo 3 - Planejamento


Notas iniciais
Olha eu aqui novamente :D Vamos lá se animem, compartilhem a leitura e se surpreendam com os personagens. A propósito, nesse capítulo veremos um pouco mais do Luís, Rebeca também está de olho nas coisas, ela é uma criança bem inteligente. Um agradecimento especial a Isabela Bernardino que comentou no capítulo passado, isso é ótimo, apoio impulsiona qualquer escritor a seguir em frente ♥ Divirtam-se, até mais. *-*

Capítulo 3 — Planejamento

"A principal etapa de qualquer ação deve ser o planejamento. Nesse momento você define o que fará e como irá lidar com contratempos. Um bom planejamento antecede o sucesso." SOARES, Daniel

O Luís ficaria com a gente, pelo menos até se recuperar, aí eu pensaria melhor sobre a minha sensação ruim, meus instintos nunca costumavam me enganar, algo estava muito errado. Tentei limpar minha camisa, mas não dava, estava cheia de sangue do Luís, pois ele tinha sido baleado, na verdade o tiro pegara de raspão na lateral do corpo e só tinha um ferimento leve. Ana parecia um pouco desconfiada, ela tinha se aproximado alegando conhecer ele, mas o mesmo tinha dito que não lembrava de muita coisa. Rebeca ficou apenas de longe olhando tudo, parecia com medo do estranho, mesmo após eu dizer que ele era um amigo meu.

— Bob não voltou até agora, já faz faz mais de 4 horas que ele saiu. Disse que ia buscar umas armas e já voltava. — Ana parecia irritada. — Se ele demorar mais um pouco iremos embora sem ele.

— Se ele foi a delegacia do Cohatrac e não voltou até agora, provavelmente não vai voltar. — Luís se remexeu um pouco, pensei que estava dormindo, mas ele não tirava o óculos escuro e não tinha como ter certeza. — Esse tiro aqui eu levei por me aproximar. — ele tentou se levantar e eu o ajudei a ficar de pé. — Acho que tomaram a delegacia.

— Faz sentido. — Ana concordou. — Afinal, numa situação dessas é o primeiro lugar onde eu entraria, um lugar cheio de armas. Eles devem ser bons, para te atingir mesmo com o treinamento que você teve. — ela olhou pra Luís.

°°°°

Luís se sentia irritado com aquela tal de Ana que insistia que o conhecia. E o pior é que ela sabia do treinamento, o que significava que talvez ela o conhecesse mesmo, ele precisava saber o quanto para entender se ela representava algum perigo para a missão dele, mas agora que estava tão perto precisava tomar mais cuidado, tinha dado conta do tal Bob muito fácil, só precisou asfixiar e jogar o corpo dele para os zumbis. Com a tal Ana às coisas seriam difíceis, piores ainda levando em conta que ela o conhecia e provavelmente haviam treinado juntos. Apesar de serem muitas as variáveis, ele se mantinha calmo, ainda tinha tudo sob controle. Estava na hora de atuar.

°°°°

Ficamos até as 13 horas e optamos por partir, organizamos nossas coisas e saímos do estabelecimento. Poucos zumbis caminhavam na rua e Ana matava eles cruelmente usando seu facão, ela também tinha uma arma, mas obviamente não a usaria, chamaria muita atenção. Decidimos pegar o carro que eu e Rebeca estávamos para fugir daqui, iríamos para o Araçagi, Ana tinha uma casa de praia e ficaríamos lá até termos um plano.

A propósito, eu estava ajudando o folgado do Luís que praticamente se jogava sobre mim dramatizando sobre o tal tiro que ele tinha levado e que eu como amigo deveria ajudar sem reclamar e blá blá blá. Finalmente a sensação ruim estava passando, mas a qualquer momento eu jogaria ele no chão.

Quem eu quero enganar? Rebeca e Luís foram as melhores coisas que me aconteceram depois de toda essa loucura, me sentia ligado a eles de uma forma terrível, uma ligação profunda de perdas e mortes. Olhei para Luís e sorri, eu tinha uma irmã caçula para impulsionar minha coragem e tinha um irmão mais velho para me proteger quando eu precisasse, nem me importava que não fossem de sangue, eles estavam ali comigo e eram o mais próximo de uma família que eu tinha no momento.

— Podemos jogar ele no porta-malas? — perguntei quando chegamos ao carro.

— Jogue onde quiser. — Ana piscou para mim.

Acabei colocando ele nos bancos de trás e quando dei a volta vi Rebeca entrando na frente e ficando ao lado de Ana que iria dirigir, suspirei irritado e me sentei do lado de Luís.

— Que foi mano? — ele me perguntou sorrindo.

— Se continuar a me irritar eu te jogo pra fora do carro. — fingi estar sério. — Deixa eu experimentar esse óculos.

E foi como se de repente eu apertasse o botão que ativasse o vazio. Luís bateu nos meus dedos, afastou e segurou meu pulso com força girando um pouco, parecia com medo, assustado, sei lá, não dava para decifrar a expressão sem olhar os olhos. Eu pensei que ele iria quebrar meu pulso e minha outra mão já se esgueirava para trás em busca de algo para me proteger.

— Foi mal. — ele falou e soltou minha mão. — Foi um presente da minha mãe, prometi jamais tirar do rosto enquanto não a encontrasse.

E assim ele se virou para a janela enquanto o carro dava a partida, parecia ciente de que não fazia sentido o que tinha acabado de fazer, acabamos dormindo e quando percebi ele estava com o rosto caído no meu ombro e babando minha camisa que ele já tinha sujado de sangue. Eu devo ter feito algo muito ruim na vida para merecer isso, decidi ignorar e voltei ao meu maravilhoso sono, que não durou muito, pois sempre que eu tentava dormir meus sonhos viravam pesadelos onde minha família gritava por meu nome pedindo que eu os ajudasse e logo em seguida um deles se transformava em zumbi e vinha faminto em minha direção. Se isso fosse um pesadelo, então eu estaria tendo sonhos dentro do sonho, a cada minuto de horror eu fico mais ciente de que eu não irei acordar de repente achando que isso é apenas um sonho ruim.

— Droga! — me espantei, o rosto suado e os olhos assustados.

— Tá tudo bem Dani? — Rebeca me olhava preocupada.

— Pesadelos. — Ana constatou. — Acho que todos lidaremos com isso por um bom tempo.

— E quando acordar. — notei que Luís falava meio absorto em pensamentos. — Vai ver que o pesadelo continua aqui na vida real.

Estremeci, ali estava algo que me assustava, algo que mexia em alguma coisa na minha mente, eu me sentia quebrado por dentro e cada vez mais sentia que eu poderia entrar em colapso com tudo que estava acontecendo. Eu estava desconfiando de todos que me acompanhavam, meu coração batia forte e eu já começava a dar sinais de instabilidade.

°°°°

Luís fingia observar algo fora do carro, mas a única coisa que cortava a paisagem destruída era a visão de zumbis que surgiam atraídos pelo barulho. Mas isso não importava, Luís agora pensava, estava sendo cuidadoso, estava agindo com cautela, precisava desestabilizar aquelas pessoas, precisava tomar o controle da situação e precisava cumprir sua missão. Calculava cada palavra e cada atitude sua, não lembrava muito do seu treinamento psicológico, mas sabia o que fazer. Sua arma se encontrava escondida em sua bota, ninguém tinha pensado em revistar ele e isso era ótimo, ele não precisava que alguém descobrisse que ele tinha atirado em si mesmo para fingir um ataque, mesmo que fosse um pouco improvável que alguém fosse tirar alguma conclusão desde tipo, mas ele tinha aprendido a ter total cuidado com as pessoas.

Luís fechou os olhos, tentando lembrar a si mesmo porquê precisava seguir em frente, suas memórias surgiam turvas, ele tinha medo de perder todas e com elas sua humanidade, foi quando apareceu os rostos que o guiavam, ainda restava humanidade nele e isso significava que havia esperança para os seus. "Eu vou conseguir." Ele pensava. "Farei o que for preciso por vocês."

°°°°

Chegamos a casa de praia, demoramos pois paramos uma vez para abastecer e fomos atacados por um pequeno grupo de nove zumbis. Luís rapidamente matou três com um golpe ágil com uma barra de ferro que ele tinha, Ana partiu a cabeça de outros quatro, eu enfiei a faca na cabeça de um e quando a retirei outro se aproximou, mas foi detido por Luís que sorriu.

— Tá me devendo uma.

Rapidamente nos livramos dos zumbis e enchemos o tanque, optamos por não entrar na loja de conveniência e fomos para a casa de praia. Quando chegamos lá, estava próximo de anoitecer, Ana e Luís se candidataram a entrar na casa e ver se era seguro. Minutos depois saíram carregando dois corpos e jogaram na praia e fizeram sinal para que eu colocasse o carro pra dentro, passei para o banco da frente analisando o olhar divertido de Rebeca.

— Vai mostrar a eles como dirigir bem? — e sorriu.

Eu me concentrei e dei a partida, assim que ia sair o carro estancou. Suspirei enquanto Rebeca se divertia as minhas custas. Na segunda tentativa consegui ligar o carro e coloquei na garagem, mas acabei arranhando o carro no portão e quebrei um dos retrovisores.

— Como vocês vieram nesse carro? — Ana perguntou assim que eu saí.

— Melhor não perguntar. — Rebeca começou a sorrir.

— Depois te dou umas aulas cara. — até Luís parecia se divertir as minhas custas.

Pelo menos eles conseguiam sorrir, suspirei novamente. Onde estava meu senso de humor? Assim que entramos me surpreendi com a beleza do local, eu poderia morar ali e me esquecer do mundo (muito oportuno esquecer um mundo onde 90% das pessoas provavelmente não estão vivas). Pinturas diversas cobriam as paredes, havia uma estante cheia de livros e meio escondidos no rack, havia um PS4 e um XBox, só esperando por uma oportunidade de fazer alguém feliz. Ao tentar ligar a luz constatei triste que havia algum problema no fornecimento de energia, talvez os consoles não fossem tão úteis naquela hora, mas eu ainda tinha uma coleção de livros para escolher. Fiz careta quando vi um exemplar de Celular, do incrível Stephen King e terminei optando por um livro romântico que escolhi apenas pela capa.

°°°°

O tempo passou muito rápido, todos pensavam no melhor lugar para ir depois dali, mas não chegaram a nenhuma conclusão e não conseguiram ouvir nenhuma mensagem em rádio. Logo anoiteceu e Daniel e Rebeca foram dormir. Luís iria colocar seu plano em ação durante o turno de vigia.

Tomou um banho, jogou sua camisa suja de sangue fora e vestindo somente uma cueca e com a toalha se cobrindo foi procurar Ana. Já sabia o que deveria fazer.

— Ana? — perguntou gentilmente na porta. — Eu queria conversar contigo, sobre meu passado já que você parece lembrar de mim e eu perdi a maior parte das minhas memórias.

Ana por um momento travou diante de Luís, por mais bem treinada que fosse ela ainda era um ser humano, ainda era uma mulher e olhar aquele homem em sua frente somente de toalha com seu corpo totalmente definido, pelo treinamento duro que ela também tinha passado, fez com que algo dentro dela acendesse, o rosto da jovem ficou vermelho e pela primeira vez ela não parecia tão certa do que fazer.

— Pode entrar. — ela disse tentando se recuperar.

— Eu esperava que você pudesse me ajudar. Queria saber o motivo do nosso treinamento e tudo que envolvia, minhas memórias estão bagunçadas.

Luís precisava filtrar tudo que ela sabia, iria arrancar as informações dela e já sabia a forma. Ana parecia um pouco pensativa e levemente corada, a estratégia dele estava dando certo.

— Vou te ajudar com algumas informações, o resto tu precisa descobrir por si só. — Ana parecia obstinada. — Nossa organização nasceu dentro do exército, somos um pequeno exército dentro do exército, uma corporação em busca da cura para os males da humanidade. Já sabíamos da ameaça de um possível ataque biológico e o treinamento da ala dos soldados consistia em nos preparar para um cenário de guerra. Não estávamos preparados para os primeiros surtos de doenças e não entendemos o que aquilo significava, mas nossos objetivos mudaram para a proteção dos imunes. Ainda assim algo deu errado, tinham infiltrados no nosso meio e eu vi alguns de meus próprios amigos se virarem contra mim, nossos treinadores foram mortos e nos separamos para proteger os imunes, o que aconteceu em seguida nos desestabilizou mais, foi o início de um surto que mudaria a humanidade para sempre, o surto dos zumbis.

Luís já estava bem próximo de Ana, estava atento a história quando virou o rosto e olhou nos olhos dela.

— Tu nunca mais soube de mim?

— Perdemos contatos e preferimos nos isolar por conta dos infiltrados. — Ana argumentou.

— Eu acho que você está me escondendo algo. — Luís colocou a mão suavemente no rosto da jovem mulher e virou para si. — Eu sinto uma sensação esquisita. Como se eu te conhecesse muito bem, mas minha memória não consegue distinguir muito bem, acho que precisa de um empurrão.

O rosto dele se aproximou perigosamente e de repente os dois começaram a se beijar, era a primeira vez que Ana o beijava e naquele momento sentia que era a coisa que mais queria no mundo, fechou os olhos se entregando, enquanto Luís tentava não sorrir durante o beijo, tudo estava indo como o planejado. Lentamente se deitaram na cama ainda se beijando, o mundo ainda não tinha acabado.

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Acordei assustada, Dani dormia profundamente na cama ao lado da minha, Ana e Luís deviam estar vigiando o turno da noite e eu aqui sem saber o que fazer na madrugada. Ah, eu sou Rebeca, muito prazer, estou aqui para falar o que eu vi enquanto Daniel dormia.

Então, eu me assustei com um barulho esquisito, parecia um gemido próximo e tive medo, zumbis viviam fazendo barulhos desse tipo e se tivesse um tão perto as coisas ficariam ruins muito rápido. Peguei minha faca e fui em direção a porta do quarto, coloquei o ouvido na porta pra ver se estava segura e coloquei a mão no trinco, eu tinha que ser corajosa.

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A noite seria ótima, tudo estava indo muito bem, quando em um movimento brusco, o cabelo de Ana bateu no rosto de Luís e levou o óculos para o outro lado do quarto. Ana que estava no colo de Luís teve seus olhos presos ao dele no mesmo instante, ela quase entrou em choque ao ver aqueles olhos a encarando, não era possível.

Ela com um rápido movimento, foi capaz de acertar o lado do rosto do rapaz com o cotovelo, se levantou assustada e com um lençol enrolado no corpo, abriu a porta e correu para fora, saindo da casa. Algum tempo depois, Luís saiu enrolado em sua toalha, se abaixou para pegar algo ali no chão e foi para fora da casa, enquanto isso Rebeca assistia aquela estranha cena sem entender o que estava acontecendo.

Luís correu e estava prestes a alcançar Ana, quando ela se deixou cair na areia vencida pelo cansaço.

— Você matou ele não foi? Você matou o Bob? — Ana parecia magoada.

— Desde quando tu se importa com um bandido qualquer? — Luís perguntou.

— Eu me importo com a vida Luís. — Ana segurou as lágrimas. — Coisa que nem sei se você entende.

— Eu ainda estou vivo Ana. Ainda estou vivo e sou um ser humano.

— Então porque está segurando uma arma nesse instante? Vai me matar?

— Não se tu disser o que eu quero saber. — Luís encostou a arma na nuca dela. — Quem sou eu?

— Você é o maldito de um infiltrado e além de tudo um novo infectado que não deve ser mais humano.

— Eu sou humano Ana. — Luís parecia calmo.

— Você nunca gostou de mim do jeito que eu gostei de você. Tudo isso é por ela né? Você ainda a ama, talvez tenha mais alguém envolvido, mas tenho certeza que é por ela. Sabe de uma coisa: você não ama ninguém, você nem é mais hu...

A frase da jovem nunca foi terminada, Luís não estava afim de estender aquilo por mais tempo que o necessário, sua mão tremia levemente, como se uma pequena parte dele não quisesse ter atirado, ele fechou os olhos lembrando do motivo, lembrando a si mesmo que ele precisava continuar. A mulher tinha descoberto as linhas brancas que cortavam o escuro dos olhos dele, o sinal de que a infecção também estava nele, com essa informação ela deduziu rapidamente o restante. Luís respirou fundo, precisava se livrar do corpo, abriu os olhos e viu algo que o deixou alerta.

°°°°

Meu coração batia forte, corri para dentro da casa e me tranquei no quarto junto com Daniel, não acreditava no que eu tinha acabado de ver, a discussão que não ouvi por causa do vento da praia e o tiro que matou Ana. Só tinha uma explicação para tudo aquilo: Luís era o cara mau.

Notas finais
:O OMG, e agora? Rebeca fez uma descoberta muito perigosa e agora tudo pode ir por água abaixo, a segurança, o abrigo, a sobrevivência. Luís está decidido a seguir o plano dele, seja qual for e parece decidido a fazer qualquer coisa para conseguir ir em frente. Sério, as coisas estão desandando bem rápido. O que será que nos aguarda? :O Tento postar o próximo até o fim dessa semana, até mais. :*