KRISTA

Lisa para o carro e eu acordo, de repente. A música ainda tocava levemente e a rua estava vazia. Ela estava com os olhos arregalados, atentos, e as mãos ainda grudadas ao volante.

— O que você acha? – ela perguntou, e eu sabia do que ela estava falando. Antes de dormir, havíamos discutido sobre o que iríamos fazer. Ainda sem conclusões, decidimos ir até a casa do meu namorado, Luke, e de lá partiríamos para minha casa, juntos.

Luke morava sozinho já fazia bastante tempo. Quando era pequeno, seus pais o abandonaram e o deixaram com seus avós, que morreram logo em seguida, em um incêndio. Eu gostava da ideia de ter um relacionamento com alguém maduro a ponto de morar sozinho, mas a situação dele era extrema, não havia sido uma escolha.

— Vamos entrar – disse, abrindo a porta do carro. Nesse instante, André gritou. Com o susto, virei de uma vez, tropeçando e caindo na calçada. Lisa já estava com ele quando me levantei.

— O que foi que aconteceu? – exclamei.

— Ele acha que viu uma daquelas coisas – Lisa disse.

— Onde? – me direcionei a ele.

— Não sei... A-acho que estava sonhando...

— Provavelmente – disse Lisa, o abraçando.

Eu sabia que era possível que ele estivesse dormindo, mas mesmo assim, saí do carro e olhei em volta. Não havia movimento algum, nem mesmo das árvores balançando com o vento. Vários carros estavam ali na rua, mas, por mais estranho que pareça, todos estavam em linha reta, uma linha contínua que ia até o fim da quadra e dobrava a esquina.

A porta da casa estava trancada. Não era uma surpresa, mas eu sabia como entrar. Na parte de trás da casa, que era feita de tijolos expostos, um deles era falso. Diz a lenda da família de Luke que o tijolo foi arrancado em uma briga de pai e filho, o bisavô e o avô dele, que aconteceu há muitos anos. A casa foi conservada e restaurada, e foi colocado um tijolo de plástico no lugar do antigo, onde, embaixo, a família deixava uma chave extra.

Lisa e André me seguiram até a porta dos fundos. Quando cheguei próximo ao tijolo falso, ele não estava lá. Muito menos a chave. Porém, a porta não estava trancada. Entramos.

A porta rangeu quando abriu, e não me preocupei em não fazer barulho; na verdade, queria que nos percebessem. O barulho da bota se encontrando com o piso de madeira era anormalmente alto no silêncio total. André e Lisa me seguiram até o corredor, mas pararam quando eu entrei na sala.

A televisão estava ligada, o controle no chão. Olhei em volta, mas tudo estava normal. Porém, uma sombra surgiu na porta que levava ao corredor, alta demais para ser Lisa; a luz vinda da porta atrás dele me impossibilitava a visão.

Ele deu um passo a frente e abaixou a arma. Se aproximou e me olhou, curioso.

— Você está viva – não foi uma pergunta, mas mesmo assim eu respondi.

— Sim, e você também – eu disse.

— Quem é você?

— Meu nome é Krista, meu namorado mora aqui...

— Você é a namorada do Luke?

— Sim – exclamei, quase como um grito – Ele está bem?

Nesse momento, ele abaixou a cabeça, lentamente.

— Eu sinto muito, ele foi mordido hoje.

Meu coração parou. O chão parecia se abrir, e um buraco fundo pairava sob mim, até que, pouco antes de eu cair... uma gargalhada ecoou.

— Estou brincando, ele está lá fora.

Minha mente demorou em assimilar o que havia acontecido, e meus joelhos cederam, me levando ao chão. Meu coração bateu rapidamente, e o homem hesitou, mas conseguiu dar um passo à frente. Segurou meu braço desajeitadamente e me levantou, fazendo-me apoiar em seus braços. Minhas pernas ainda tremiam, mas ele falava algo calmamente, o que estava fazendo meu coração desacelerar.

Consegui escapar de seus braços, e corri para a porta. Não encontrei Lisa e André, mas não me preocupei com isso. Parei quando cheguei ao gramado; não tinha nada ali, antes da cerca. Um segundo depois, um pedaço do gramado se elevou, revelando uma mulher loira e jovem.

Ela estava um pouco suja de terra, e seus cabelos estavam amarrados em um rabo-de-cavalo. Ela sorriu ao me ver.

— Luke me pediu para vir encontra-la – disse – Venha.

Com essa última palavra pairando no ar, ela se virou e entrou, deixando o buraco no chão aberto. Hesitei. Olhei lá dentro, mas era só escuridão. Entrei. O espaço aberto não era grande, mas eu passava facilmente. Quando fechado, era impossível de se ver pelo lado de fora, como se o gramado estivesse perfeitamente normal. Uma escada de terra levava para mais fundo, e algumas pequenas tochas iluminavam o local.

Uma mão me puxou para o lado e eu sufoquei um grito.

— Shhh, tudo bem, sou eu — disse Luke. Eu virei, aliviada, e nós nos beijamos por um instante. Eu o abracei, e queria ficar ali para sempre. Mas algo me incomodava: a mulher loira, nos olhando do pé da escada.

— Darla, você pode ir agora — disse Luke, começando a corar. Eu soltei uma risada e apoiei minha testa em seu peito, corando também.

— Tudo bem, senhor, mas preciso que venha comigo.

— Certo — ele me afastou com a mão e olhou em meus olhos — Venha comigo.

Ele segurou minha mão e seguiu a moça, me puxando levemente.

— O que é... aqui? — perguntei.

— Podemos chamar de 'quarto do pânico', se quiser.

— Quartos do pânico são geralmente dentro das casas, sabe?! — falei, tentando ser irônica.

— Não é exatamente um quarto do pânico. Eu construi — ele fez aspas com os dedos, ao dizer "construi" — isso aqui. Foi algo meio amador no início, quando a casa foi assaltada na primeira vez. Se você entrar por aqui — ele apontou para uma porta de ferro alta em um canto — vai direto para uma escada, que leva para meu quarto. Tem uma entrada embaixo do tapete. Coisa de gente histérica.

— Com certeza.

Luke era exatamente um tipo de pessoa histérica. Muito preocupado, sempre arranjando meios de se proteger e proteger sua família. Esse "quarto do pânico" era um dos meios. Porém, era perfeitamente cabível nas situações atuais.

Em frente a porta de ferro, havia uma passagem aberta, que dava em uma sala com três computadores. Darla, a moça loira, estava sentada em frente a um deles, e digitava algo rapidamente. Luke passou por mim, afagando minha mão; depois, puxou uma cadeira e sentou-se ao lado dela.

— O que temos aqui?

— Dois deles, passando agora exatamente em cima de nós.

— Devemos derrubá-los?

— É melhor previnirmos, certo?

— Esperem — interrompi — Eu tenho dois amigos lá em cima. Você consegue enncontrá-los?

— Se estão na casa, sim — disse Darla. Ela moveu os dedos mais uma vez, e consegui ver Lisa e André na tela do computador.

— Aí — gritei — São eles!

André estava sentado em uma cadeira, na cozinha, enquanto Lisa procurava por algo nos armários, e o homem que eu tinha encontrado antes não estava ali.

— Sim, são eles — disse Darla. Ela moveu os dedos novamente, e depois enconstou um deles na tela — E esses, são os zumbis que estão entrando na casa agora.