KRISTA

A porta parou de abrir, mas nada saiu de dentro do armário. A respiração ofegante parara, ou talvez a minha respiração tenha a sobreposto. Me aproximei do armário, e vi um movimento rápido atrás das roupas. Tentei correr, mas não consegui, pois o pânico tomava conta.

— Olá? – disse. Dei dois passos pra trás, mas tropecei em algo, e caí de costas.

Enquanto tentava me levantar, um menino saiu de dentro do armário.

— Ufa, você fala – ele disse. Meu coração bateu mais lento, pois eu conhecia aquele menino.

— Como assim eu falo? É claro que eu falo! – eu disse, indignada.

— Não é isso. É que eles não falam, e eu pensei que você era um deles.

— Um deles quem?

— Você sabe, os esquisitos.

Eu comecei a achar que o menino tinha enlouquecido. Olhei para trás e vi a porta do quarto de Lisa entreaberta.

— Ei, cadê sua irmã?

— Você conhece minha irmã? – ele disse, e seus olhos encheram de lágrimas. Eu não sabia o que fazer.

— S-sim, nós estudamos juntas. O que aconteceu? – perguntei e me aproximei do garoto.

— Ela não sabia que eu estava aqui dentro do armário. – a voz dele tremia — Ela falava com alguém no computador, e aí um deles chegou e tentou mordê-la, mas ela não deixou e saiu correndo.

— Alguém t-tentou mordê-la? – minha voz saía fraca.

— Era um deles.

— Um deles? Quem são eles? O que são eles? – eu já soava desesperada.

— Você não sabe o que aconteceu? – uma lágrima caiu de seu rosto.

— O q-que aconteceu? Você se refere sobre os carros nas ruas? As lojas vazias?

— É, mas sobre os mortos também. Você não viu nenhum enquanto vinha pra cá?

— M-mortos?

— Os mortos que voltaram. Há algumas horas, muitas pessoas que tinham morrido, voltaram para vida e começaram a matar outras pessoas.

Levei alguns minutos para perceber o que ele estava falando. Um ataque, um apocalipse zumbi começara e eu nem fiquei sabendo. Não que eu queria isso, mas eu gostava de assistir filmes de terror sobre zumbis. Eu saberia o que fazer caso ocorresse.

— André, cade seus pais? – perguntei, e me arrependi logo em seguida. Seus joelhos cederam e ele caiu no chão chorando.

— Eles morreram – ele disse em meio às lagrimas. Eu comecei a tremer. Eu gostava muito dos pais de Lisa, eles sempre me trataram muito bem, e eram muito simpáticos. Não pude segurar, e comecei a chorar também. Cheguei perto dele e o abracei. Choramos quietos por um tempo.

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André estava lá em cima arrumando suas coisas. Eu disse a ele que tínhamos que sair da casa e ir encontrar meus pais. Iríamos procurar Lisa antes de irmos, mas se não a encontrássemos teríamos que ir sem ela.

— Tudo pronto? – perguntei.

— Sim – ele disse, pulando os degraus para descer. Ele já havia parado de chorar, mas eu sabia que se alguém tocasse naquele assunto, ele desabaria novamente.

— Então vamos – fui para a porta da frente. Antes que eu chegasse até a saída, outra porta bateu atrás de nós. Pulei com o susto e quase caí novamente, mas ao olhar pra trás, vi que Lisa vinha correndo.

— Oi – ela abraçou André, e depois me abraçou. Comecei a falar sobre os pais dela, mas ela balançou a cabeça — Eu já sei – ela disse, visivelmente abalada, e com as lágrimas começando a escorrer. Eu a abracei mais forte – A gente tem que sair daqui, tem um monte deles vindo pra cá.

— Vem comigo, eu vim de carro e estava levando seu irmão pra minha casa.

— Tudo bem, vamos. Rápido.

Corremos para fora olhando para todos os lados, mas nas ruas não havia ninguém. Entrei no carro depois de Lisa e André, e comecei a dirigir lentamente. Contornei alguns carros e segui pelo mesmo caminho que tinha passado. Percebi que, mesmo antes de chegarmos à estrada pra sair da cidade, Lisa já estava dormindo. Passados alguns minutos, André também.

Liguei o rádio novamente para ver se algo funcionava. Nada. Peguei um CD que estava jogado no chão do carro e o coloquei. Quando a música começou a tocar, Lisa acordou assustada.

— Me desculpe, não quis acordá-la – eu disse, tentando acalmá-la. Ela olhou pra mim e depois secou as lágrimas.

— Não tem problema, eu nem queria dormir – ela se ajeitou no banco e virou para ver André – Tenho tanta pena dele. Vai ter que passar a vida sem os pais.

— Lis, olha, eu sinto muito...

— Tudo bem – ela me interrompeu. Eu olhei pra ela mais uma vez e depois continuei prestando atenção na estrada.

— Eu sei que você quer saber o que aconteceu com meus pais.

— Lis, não precisa falar sobre...

— Depois que eu comecei a falar com você, no computador – ela me interrompeu de novo – um zumbi me atacou. Eu caí em cima da tela e escorreguei para o chão. Consegui distraí-lo e saí correndo da casa. Eu fui até o jardim e entrei atrás de uma árvore, e esperei. Depois, quando eu olhei pra casa, eu vi André na janela do quarto, e um tanto de mortos andando pelo jardim, em direção à casa. Eu tomei um pouco de coragem, peguei um galho grosso de árvore que estava no chão e tentei derruba-los. Mas eram muitos, e quase não ficavam no chão. Era só eu conseguir fazer um cair, ele já levantava. Mas aí, uma mulher que estava na janela da outra casa, gritou pra mim, dizendo para acertá-los na cabeça. Não fui muito confiante, mas tentei. O zumbi que eu tinha derrubado depois disso, ficou no chão.

Ela parou um pouco. Percebi que ela ainda não tinha falado sobre os pais, mas fiquei quieta. Ela continuou.

— Eu tinha trancado a porta de trás da casa sem nem perceber, pois a trava era automática. Corri para a porta da frente da casa, e lá eu encontrei meu pai. Ele falou que minha mãe não tinha aguentado a febre e havia falecido. Naquela hora eu comecei a chorar, e ele também. Ele olhou para cima, para a casa, e acenou. Eu olhei na direção em que ele olhava, e vi que André tinha ido para meu quarto, que dava vista para a rua. Depois, olhei de novo para meu pai, e vi que ele ficava cada vez mais pálido. Percebi uma mancha de sangue na blusa dele, e depois vi um corte enorme no braço. Perguntei o que era, e ele disse que minha mãe o havia mordido antes de morrer. Mas ela já tinha morrido, e voltou logo em seguida. Descobri, depois, que a mordida contamina os vivos. Meu pai morreu ali, na minha frente. Eu não esperei ele se transformar. Corri para dentro de casa, me escondi atrás do sofá e chorei sozinha por bastante tempo. Não ouvi você chegar, mas quando ouvi você falando com André no primeiro andar, saí de trás do sofá eu fui até vocês.

Ela silenciou novamente. Eu continuei dirigindo, sem falar nada, dando a ela um momento para refletir. Era verdade que a mordida contaminava, pois quando eu cheguei à casa, não vi nenhum corpo lá. Ou seja, o pai de Lisa já havia se transformado e saído dali. André começou a falar sozinho, enquanto dormia.

Chegamos à minha casa, e eu percebi que algo estava errado antes mesmo de descer do carro. A porta da frente estava escancarada, coisa impossível da minha mãe deixar acontecer. Uma poça de sangue cobria os primeiros degraus da pequena escada que levava à porta.

— Você viu aquilo? – Lisa perguntou, assustada, apontando para a janela do segundo andar.

— Deve ser minha mãe, vamos lá ver.

Ela acordou André, e juntos entramos na casa. Antes de chegarmos à escada, vimos um rastro de sangue, vindo da porta que levava ao quintal e indo para a cozinha. Depois, pegadas de sangue que iam paro o segundo andar. Não aguentei e segui-as, deixando Lisa e André sozinhos. As pegadas levavam ao maior quarto, que viria a ser dos meus pais, mesmo quarto onde vimos alguém passando pela janela. Entrei, respirando ofegante, e vi alguém olhando pela janela, para a estrada. Um passo em falso e o chão rangeu, chamando a atenção da pessoa. Quando ela virou, vi que não era minha mãe, muito menos meu pai.