Huklast
1 Capítulo 1 - Um dia especial
A manhã já tinha nascido com uma chuva leve e Anthony queria conseguir mais uns minutos na cama como se não tivesse um compromisso tão importante naquele dia.
— Você ainda está aí? – Disse a mãe, Thaerlina, despertando-o.
— Ah não, mãe... Só mais uns minutinhos, não tenho doutrinação hoje! – Resmunga Anthony.
— Tony, você sabe que hoje é um dia especial. Só acontece na primavera! É a nossa única chance de ver seu irmão.
Nesse momento, Anthony que estava sonolento e preguiçoso se tornou sério e pensativo. Levantou-se vagarosamente, retirou seu cobertor grosso de pele de búfalo e se sentou de cabeça baixa na cama. Thaerlina notou a reação do filho e se prontificou a deixá-lo mais confortável:
— Vou fazer aquela mistura que você gosta. Vai precisar de bastante energia hoje! — Virou-se e foi em direção a porta, voltou-se em direção a ele com uma expressão séria – Você vai gostar, filho. Vai ser legal, eu prometo.
Tudo que envolvia seu irmão mais velho, Zephan, parecia deixar Anthony sempre pensativo e sobremaneira deprimido. Já fazia mais de dois anos que seu irmão tinha deixado a família – que já era pequena – para ir para grande cidade governante Penumbria. Anthony não sabia o motivo de aquilo ter acontecido de uma maneira tão súbita. Sempre foram muito próximos apesar de terem sete anos de diferença. Tudo que restou na residência dos Huklast foi Anthony, sua mãe, um quarto vazio, e um vazio maior ainda no coração destes que restaram.
A residência dos Huklast era humilde e ainda assim era a mais refinada daquela vila tão assolada pela pobreza e fome. A vila não tinha nome. Ninguém considerou dar nome àquele lugar que cheirava a desolação e tristeza diariamente. De noite escutava-se de longe os choros das crianças com fome. Os Huklast sempre ajudavam com o que podiam. Tinham uma fazenda de ervilhas, – que curiosamente era a única planta que conseguia nascer naquela terra infértil – algumas cabras e galinhas.
A mistura preferida de Anthony era um mingau de ervilhas com leite de cabra com ovos fritos mexidos. Era raro ter ovo, o ritmo das galinhas não era lá muito ágil uma vez que também passavam fome.
— Isto está uma delícia mãe! – Disse Anthony visivelmente mais animado.
Thaerlina deu um sorrisinho de alívio e se preocupou internamente. Até quando vai ser tão fácil fazer o filho esquecer tudo aquilo? Lidar com criança é bem mais fácil, basta distraí-la com algo que ela gosta e fazê-la sorrir. Era um peso que ela sempre carregava sobre sua consciência. Seu marido Zephar faleceu trabalhando numa mina de celânio próximo à cidade governante Penumbria quando Anthony tinha apenas um ano de idade. Desde então ela precisou ser mãe, pai e amiga dos seus dois filhos amados: Anthony ainda bebê e Zephan com 8 anos.
Thaerlina mesmo muito próxima a seu filho estava equivocada sobre o verdadeiro motivo da tristeza dele. Ela achava que a tristeza dele se devia a falta que o irmão fazia diariamente, por serem muito próximos. Porém, o que mais machucou Anthony foi exatamente ver o irmão de novo, na primavera passada. Sua expressão era neutra, morta. Ele parecia não o reconhecer mais e não dava atenção aos seus gritos longínquos clamando por sua atenção. Anthony temia sentir mais uma vez o que sentiu na primavera passada. Desprezo.
— Terminou, meu filho? Já estamos atrasados. Temos que falar com o mestre Algar antes de ir.
— Sim, mãe – Falou Anthony limpando a boca com os pulsos e se levantando da cadeira.
O mestre Algar era o doutrinador da vila. Suas sabedorias iam muito além do visível e tangível. Ele parecia saber tudo do passado, presente e futuro. Sua residência ficava no centro da vila e as portas eram sempre abertas para qualquer um quer quisesse sua ajuda, a qualquer hora do dia ou da noite. Todo dia cedo ocorria a doutrinação. Crianças e adolescentes sentavam-se junto ao mestre para aprender sobre tudo que era necessário. As doutrinações eram divididas em dois tipos: mente e corpo. Na doutrinação da mente os doutrinados eram ensinados a respeito das ciências da natureza e de razões e necessidades sobre a existência e sobre a vida. Na doutrinação do corpo eram ensinados a lutar, sobreviver e dominar a mente.
Todos na vila gostavam dos ensinamentos e previsões de Algar. Já muito idoso, vivia de olhos fechados (dado como cego por conta disso) e em maior parte sentado sobre um tapete sujo que tinha um mal cheiro terrível. Tinha uma barba branca que, sentado, chegava a encostar no chão e na sua cabeça calva um símbolo de um dragão em formato de S tatuado intrigava a todos que reparavam. Era sempre acompanhado de um cachorro magro e igualmente velho que passava o dia deitado ao lado dele. O cachorro parecia nunca adormecer e estranhamente olhava a todos que entravam na casa de Algar como se entendesse o que diziam.
— Venham! Entrem! Estava esperando por vocês. – Já disse Algar rindo e tossindo intensamente notando a presença de Anthony e sua mãe à porta.
— Mestre Algar. – Falou Anthony reverenciando Algar.
— Ora, ora. Pare com isso, criança. Você sabe que você e sua mãe não precisam de cerimônia comigo! Hahahaha! – Riu novamente tossindo muito – Então... é chegado o dia né? Quarto dia da primavera. Está empolgado novamente para ver seu irmão, criança?
Anthony sentou-se de frente ao velho e antes de responder Algar já interrompeu:
— Hahahaha! Já sei, já sei. Não precisa dizer nada, criança. Sua preocupação é legítima e seu futuro é certo. Com o tempo irá entender tudo.
— Mestre... – Disse Anthony com uma voz melancólica – Por que meu irmão foi embora assim? Eu não entendo... O que aconteceu com ele lá?
— Filho, não é uma boa hora para esse assunto, deixe o mestre dizer o que ele tem a nos dizer! – Interrompeu Thaerlina visivelmente alterada e preocupada com o que o mestre iria dizer.
— Hahahahaha! – Riu forte o velho precedendo uma sequência forte de tosse – Está tudo bem, criança – Falou se referindo a Thaerlina – O coração do seu filho tem sede de justiça e propósito. Ele um dia será um leão nessa selva que é este mundo. – Tornando-se novamente para Anthony — Você terá de fazer uma escolha, criança: protegerá as ovelhas dos lobos ou os lobos das ovelhas?
Anthony fez uma cara meio decepcionada. Esperava uma resposta clara do velho, mas isso era pedir muito. Tudo que ele dizia era em metáforas. Tudo que ele dizia, dizia com tanta segurança que dizia sorrindo. Parecia até que estava enxergando na sua frente o que estava dizendo.
Algar inclinou-se para perto de Anthony e disse:
— Criança, em Penumbria você descobrirá algo. Quando descobrir, venha me contar.
— Sim senhor. – Concordou Anthony
Anthony particularmente não gostava de Penumbria. Além de fazê-lo lembrar fortemente o desprezo do irmão, as pessoas de lá tinham um jeito estranho de se portar. Tinham um olhar orgulhoso demais e olhavam para as pessoas que não eram de lá com muito desprezo. A presença de seu povo lá parecia incomodar a todos. Penumbria era uma cidade governante imensa. Ela regia todas as vilas no entorno e cobrava impostos pesados. Era conhecia por ser cercada de muros negros imensos e espessos que chegavam a se perder de vista: Era a cidade dos muros negros. Seu nome vem da grande sombra que seus muros faziam em seus arredores.
— Você está prestes a conhecer do que é feito este mundo, criança. Já está na hora de ser tratado como adulto mesmo sendo tão jovem. Não se assuste com as minhas palavras. Como eu disse, você é um leão. O mundo é seu para você reinar. – Disse Algar pela primeira vez com uma expressão séria e determinada.
— Obrigado mestre Algar. Que assim seja suas palavras.
— Hahahahaha! – Tosses — Assim será, criança. Agora vá.
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