Hugo e os pássaros
1 Pontos Altos e Pontos mais Altos
Vamos tentar começar isso bem. Não é fácil para mim. De qualquer forma ninguém tem nada a perder, então não custa nada tentar. Quer dizer, mais ou menos. Se você não gostar vai ser uma perda de tempo. Ok, ok, vamos lá.
Meu nome é Hugo. Atualmente com treze anos e contando. Em vez de ficar falando bobeira demais ou ser direto demais, vamos aos pontos altos e os pontos mais altos da minha vida superinteressante enquanto escrevo isso no banco do parque, alimentando alguns pássaros desesperados também.
Desde que mudei para a escola que estudo, o que aconteceu há uns dois anos, tenho sofrido bullying. Calma, calma, aqui não é nenhum desabafo, não, só estou dando o contexto geral da situação. Enfim.
Denis, o garoto terrível horrível espantoso e horroroso (sim, ele merece essa referência) tem sido o nevoeiro mais denso que fica entre mim e os raios do dia, mas ele é bem levado, então me aproveito desse fato para me safar de seus crimes de jovem rebelde.
O dia mais marcante de nossa incomparável e desprezível existência sabendo um do outro aconteceu no primeiro dia de aula. Nessa época os delinquentes definem quem manda e quem é mandado naquele local.
Eu tinha acabado de chegar, com receio enorme de responder um “presente” quando a professora, uma tal de Srta. Werber, fizesse a chamada. Meus nervos não são nada fracos. Ainda por cima estava todo arrumadinho com a roupa e o cabelo que minha mãe fez questão que eu usasse. Eu usaria... até o momento que ela voltasse a dirigir aquele Opala Comodoro para bem longe daquele estágio pré-trevas .
Assim que passei por aquela porta com tinta verde descascada, e uma das janelas vidro com um estilhaço que seguia de uma extremidade a outra, esse é um fato interessante, comecei a desarrumar mais meu cabelo melecado em gel e tentar afrouxar os botões daquela camisa, esbarrei em alguém. Pensava que eu ia falar que era o Denis, hein! Te peguei, haha. Não tem um pingo de graça.
Ela devia ser um ano mais velha, sei lá. Não prestei muita atenção no rosto dela, só no rosto furioso que encarava enquanto me segurava pela gola no instante seguinte. Eu não tinha a menor noção do que era minha vida naquele ponto, e naquele ponto, menos ainda do que estava acontecendo.
Ele não me bateu, mas os fiscais de corredor estavam passando por perto, então ele realmente não tinha muita chance de escapar se fosse pego arrebentando o rosto de um novato logo no primeiro dia.
Imediatamente percebi que enquanto ele falava, não tinha modo algum com pessoas, mas isso era um caso certo de negligência afetiva misturado a uma avalanche de hormônios, se é que você me entende.
Preferi não confrontá-lo por pura estratégia, poderia até encontrar algum amigo novo, logo depois que ele se fosse. Isso aconteceu. Tipo aquelas cenas de filmes ou páginas dos livros de novela adolescente. Continuando.
‒ Vê se fica longe da Jenny, novato! ‒ Denis, o Grande, avisou e depois saiu, me soltando com uma sacudidela.
Simplesmente encarei aquela figura exorbitante sair do meu campo de visão enquanto se misturava à multidão de baratinhas tontas no corredor principal.
Um menino mirrado, não muito diferente de mim, estava observando aquele acontecimento glorioso do universo perto de um vão entre a porta que entrei e uns armários da mesma cor doentia. Encarei-o por alguns segundos, antes de perceber que ele não iria tomar nenhuma atitude de falar comigo. Não que eu quisesse logo um novo amigo para compartilhar a dor e aflição de ser novo no pedaço e já estar na mira de um valentão não correspondido.
Calmamente ia me abaixar para pegar minha bolsa largada no chão, o que foi o erro imenso, e tentei me situar naquele redemoinho de pessoas, quando o sinal toca para todos entrarem em suas respectivas salas. Os que estavam chegando atrasado corriam e chutavam minha bolsa como se fosse um saco de batata, sem batatas dentro, só uns cadernos e livros, para esclarecer.
Nem me desesperei, azarado do jeito que sou, ia correr feito uma lebre e ainda assim não pegaria a bendita mochila, sem contar nos possíveis machucados desnecessários, então simplesmente esperei o local esvaziar, o que não demorou muito, mas definitivamente tomaria bastante do meu tempo, pois ainda precisava encontrar a sala do primeiro período.
Vazio, só se escutavam os meus passos no caminho até aquela coisa azul, vulgo mochila. Me abaixei, verificando se o conteúdo do lanche estava intacto. Ah, como eu era ingênuo. Se o sanduíche estava achatado, imagine a banana. Sem comentários.
‒ E ela nem sabe que ele é afim dela. Que babaca. ‒ o menino que estava observando Denis destruir meu emocional estava em pé ao meu lado. ‒ Felix Skellin. Bem-vindo.
‒ Hugo Mayhew. ‒ Cumprimentei-o.
Ai! Pássaro maldito!
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