Notas iniciais
Oh pequeno,
Tinhas sonhos,
Tinhas medos,
Oh pesadelos, se afastem
De meu pequeno.
Seus sonhos, agora são cinza,
Seus medos perderam vida,
Sua lenda está em cinzas,
Pobre pequenino perdeu a luz da vida.

Era madrugada o homem entrara em casa com um forte cheiro de álcool, havia bebido por mais um dia seguido. Andando pelo corredor do prédio de classe média, vizinhos que viam a cena, homem bêbado tentando ficar de pé e chegar a sua casa.

Digno de pena.

Porém, não tinham pena do homem. Sim, de sua família. Vizinhos de andar e porta diziam ao chegar do homem, ouviam se gritos de discussão, barulhos de vidros se quebrando, e choro de criança, mas preferiam não chamar a polícia, não queriam se intrometer.

•

A mulher esperava sentada, ao sofá, a chegada do marido. Aquela seria uma noite turbulenta como as anteriores. A porta foi aberta pelo homem desarrumado, sua face avermelhada denunciava que havia bebido grande quantidade de álcool.

— Onde esteve? — Indagava pelo óbvio

— Não me enche mulher! — vociferava

— Até quando vai continuar assim?

— Até quando eu quiser!

— Mas essa família precisa de um homem, de um pai e não de um bêbado à toa

Pararam de discutir ao ver seu filho parado na porta do quarto chorando. A mãe correu até o filho e o abraçou forte tentando fazê-lo conter suas lágrimas.

— Você criou esse garoto como uma garota — disse o homem — Por qualquer coisa ele chora

— Dobre sua língua ao falar do meu filho! — vociferou a mulher soltando seu filho e voltando sua atenção ao homem, reiniciando a discussão.

O menino correu porta a fora, batendo-a forte.

Nevava, era inverno, era Dezembro. Estava parado sob uma marquise a três quadras de sua casa. Não se importava se seus pais lhe procuravam ou se podia morrer por causa do frio, pois estava com um agasalho fino, simplesmente não se importava.

As ruas aos poucos iam ficando cada vez mais vazias. Tarde da noite não havia ninguém na rua, além de alguns moradores de rua reunidos envolta de um latão com fogo. A fome e o frio iam lhe dominando, ia desmaiando. Alguém se aproximou.

Acordou apavorado tentando identificar onde estava. Pouco tempo já havia reconhecido seu desenho na parede. Estava em seu quarto, mas se perguntava como teria chegado lá, já que estava só e desmaiou.

— Você me assustou — disse a sua mãe, estava sentada ao lado da cama

— Me desculpe... — sentiu um nó em sua garganta, seus olhos castanhos escuros começaram a ficar marejados

— Calma... A mamãe está aqui — abraçou o garoto sentando-se na cama — Davis. Calma meu filho, vai ficar tudo bem

A noite foi-se embora, dando lugar a uma discreta luz que vinha através das cortinas do quarto. Ao acordar percebia algo diferente no ar, um silêncio, algo que nunca pertenceu
à sua casa.

Ao sair em passos lentos do quarto viu a cena mais impactante de sua frágil e curta vida. Sua mãe estava estirada ao chão com a garganta cortada. Correu até a mulher, chorava, chorava desesperadamente.

— Mãe! — chamava, esperando por algum sinal de vida — Mãe! Fala comigo! Mãe! Mãe...

— Ela está morta — disse seu pai no fundo do cômodo

O homem saiu das sombras, em uma de suas mãos havia uma faca ensanguentada, sangue que se estendia por sua camisa e rosto. Veio andando na direção do garotinho.

— Ela merecia morrer — falou ao garoto agarrado ao corpo

— Não! — vociferou — Ela era boa, se importava com você, não importasse o que fizesse com ela... Então, você a matou

— A vida não é tão simples assim — argumentou o homem

Parados no cômodo, imóveis. O homem se assustou ao ver que o menino sussurrava algumas palavras.

— O que você está falando? — indagou o homem

O menino nada respondia.

— Garoto! O que você está falando?! — excedeu-se

O menino ainda mantinha-se impassível as perguntas do outro.

— Eu mandei me dizer o que está falando! — O homem avançou sobre o garoto, ao virar ele assustou-se. Largou a faca e se afastou lentamente

O menino estava com os olhos amarelos e chorava lágrimas negras. A boca de Davis continuava se mexendo, repetindo, repetindo a mesma coisa.

Era uma canção que sua mãe cantava para ele dormir quando tinha medo.

Oh pequeno,

Tinhas sonhos,

Tinhas medos,

Oh pesadelos, se afastem

De meu pequeno

[...]

Enquanto cantarolava, em baixo tom, mais lágrimas negras caíam. O homem, vulgo Pai, pegou a faca e avançou sobre seu filho, o atingiu no pescoço assim como fez com sua mulher.

O ferimento sarou, e o menino terminava a canção.

[...]

Seus sonhos, agora são cinza,

Seus medos perderam vida,

Sua lenda está em cinzas...

— Pobre pequenino perdeu a luz da vida. — Terminada a canção o garoto andou na direção do homem que se desequilibrou. Caiu de costas

A cada passo de Davis o homem se jogava para trás tentando se afastar do garoto.

— O que é você? — indagou o homem

O menino parou e olhou fundo nos olhos do homem.

Gritos saíam do apartamento da família Lierft.

O homem se contorcia no chão, colocava a mão em sua cabeça. Finalmente ele parou. Os olhos de Davis voltaram ao normal, o menino desmaiou.

Não se lembra de nada sobre aquele dia, não se lembra de ter acordado. Só se lembra que estava na rua, sem casa, sem mãe, sem proteção. Nenhum orfanato queria um garoto que havia matado alguém próximo, então foi fadado a vagar pelas ruas, implorando por dinheiro e por comida.

Era noite, era fria, como toda ela.

Um homem parou e se aproximou do garotinho.

— Garoto... Acorde! — chamou o homem

O menino levantou se acuou ao ver o homem perto. Não conseguia ver o rosto do desconhecido, porém via seu sorriso incrivelmente branco com um ar de malícia.

— Venha comigo — pediu o homem. O menino ofereceu resistência, o homem em fúria o empurrou e o garoto bateu com a cabeça em uma quina.

Sangrou até morrer. O desconhecido pegou o corpo do garoto e após abusar dele, o jogou dentro de um rio. Caso o garoto realmente fosse só um morador de rua, ninguém daria por sua falta.

Estava certo.

A corrente levava o corpo que definhava lentamente. Espíritos que vagavam pelo rio se uniram a ele, eram espíritos de outros garotos e garotas que tiveram mesmo destino.

Tornou-se um espírito adulto, saudável, e fadado a passar o resto da eternidade, nas noites pedindo dinheiro, comida, abrigo.

Era noite e Davis estava sentado numa calçada esperando alguém para pedir algo, no entanto, viu uma garota de olhos violeta do outro lado da rua. Foi até ela e estendeu sua mão, ajoelhado.

Alie o tocou, um brilho surgiu desse toque de mãos. Ele havia sido libertado, de passar a eternidade repassando a mesma dor.

— Venha comigo — pediu Alie

— Quem é você? — indagou, porém segui a menina atravessando um portal que se formara entre duas árvores.

•

‘’Oh pequeno,

Como cresceste,

Como mudaste,

Oh pequeno,

Achaste um lugar

Onde encaixaste. ’’

Notas finais
Obrigada a atenção. Depois eu posto as duas ultimas lendas.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.