How to save a life
1 Único
Notas iniciais
I would have stayed up with you all night
Had I known how to save a life.
The Fray
Quando a luz artificial atingiu seus olhos o homem quase amaldiçoou eternamente seu portador, quase, já que estava curioso demais para saber o porquê eles estavam ali, abrindo a cela de alguém que eles prometeram que apodreceria dentro das grades.
— Tsunade quer ver você. – O guarda disse, mal-humorado. O prisioneiro dentro da cela ergueu as sobrancelhas, surpreso, e levantou da cama precária que ocupava grande parte do aposento. O guarda robusto prendeu as mãos pálidas do preso e continuou a falar, numa voz séria: — Nada de gracinhas, Uchiha, ou vai ser a última vez que você vai ver a luz novamente.
Sasuke engoliu seco e tentou manter a pose pela qual era conhecido, mas falhou miseravelmente já que, pela primeira vez em muito tempo, ele sabia que aquilo era uma promessa. E Hyuuga Neji era conhecido por sempre manter suas promessas.
Sempre.
Eles caminharam pelos corredores enferrujados do bunker antigo que era utilizado como prisão ao som dos outros prisioneiros batendo em suas grades, soltando xingamentos para ambos. Quando chegaram a porta dupla que os separava do mundo afora o Uchiha prendeu a respiração por alguns segundos.
“O que era tão importante que fez com que o governo voltasse atrás?” Ele pensou e soltou o ar que havia prendido no momento em que a porta foi aberta e ele foi engolfado pela luz natural que não via a longos meses. Os olhos escuros arderam, algumas poucas lágrimas escorreram pelo rosto pálido e levou algum tempo para que ele se acostumasse com a claridade, mas quando o fez, Sasuke agradeceu por qualquer que tenha sido aquela mudança repentina, mesmo sabendo que provavelmente não era uma notícia boa para ele.
O último Uchiha, herdeiro daqueles que destruíram o mundo.
Suspirando, ele seguiu o Hyuuga para o caminhão e eles seguiram a viagem em completo silêncio, o homem de olhos escuros aproveitando aqueles preciosos momentos para respirar o ar puro e observar como a natureza, aos poucos, ia tomando conta daquilo que havia sido domínio da humanidade por tanto tempo.
Quando chegaram a base de Konoha, o antigo hospital geral, Sasuke pouco se surpreendeu como o local estava acabado. Marcas do tempo e da guerra se misturavam formando uma destruição que, se não fosse a situação, seria, de certa forma, bela. O Hyuuga levou o prisioneiro pelos corredores, descendo escadas e mais escadas até chegarem a uma sala de tamanho médio, luzes artificiais brilhavam sobre um painel que reunia diversas informações e a mesa no centro do ambiente também possuía diversos papeis espalhados por ela.
Ignorando o guarda que olhava fixamente para si, Sasuke caminhou até o painel, observando como ele estava montando e todas as informações contidas ali. Tudo em ordem cronológica, ele percebeu, desde os primeiros indícios de uma doença misteriosa que ameaçava uma pequena cidade no interior de Konoha até a guerra que quase eliminou os humanos que não haviam sido eliminados pelo vírus.
Surpreso, ele virou, pronto para perguntar para o Hyuuga sobre o que aquilo se tratava, mas ao invés do homem carrancudo, encontrou o olhar cansado e derrotado de Tsunade, médica do antigo exército e atual líder dos humanos que ainda tentavam sobreviver em Konoha.
— Olá, Sasuke. – Ela disse, a voz demonstrando o peso da responsabilidade que existia sob suas costas.
— Tsunade. – Ele respondeu, a voz rouca era resultado dos meses quase infinitos que passara calado dentro daquelas grades. — O que aconteceu para que você mudasse de ideia?
— Sasuke...
— Não me venha com essa de Sasuke. – O Uchiha disse, a raiva começando a brotar dentro de si. — Meses, Tsunade, meses encarcerado por algo que minha família fez. Sem nenhuma possibilidade de me defender, apenas jogado dentro daquele lugar como um rato qualquer.
— Não foi uma escolha minha, você sabe disso. – A loira tentou se defender.
— Mas tampouco você tentou mudar o que eles decidiram. – Se as mãos masculinas não estivessem presas pelas algemas, provavelmente ele teria as batido com força na mesa que separava os dois. — Por que você decidiu me tirar de lá agora?
A mulher caminhou até chegar ao lado do homem, encarando o painel por alguns segundos. Um dos dedos encontrou a fotografia antiga do que Sasuke sabia ser o marido da doutora, uma das vítimas do vírus mortal, e, por um momento, o Uchiha sentiu-se culpado por toda dor que sua família trouxera para o mundo.
— Nós achamos um jeito de concertar isso, Sasuke. – Ela disse voltando o olhar para ele. Dentro dos olhos castanhos ele pode enxergar cansaço, medo, nervosismo, mas uma pitada de esperança que ele não sabia o que era há muito tempo. — Nós construímos uma máquina do tempo e precisamos de você para voltar e mudar nossa história.
∞
Loucura. Essa era a palavra que definia aquilo que a Senju havia dito para ele três dias atrás. Sasuke passara as últimas 72 horas sendo furado, tendo o sangue colhido, sendo examinado e tomando medicamentos e injeções e tudo o que ele conseguia pensar era que tudo aquilo era loucura.
Não se podia voltar no tempo e muito menos alterar o que já fora feito. Tudo o que aquelas pessoas estavam fazendo era condená-lo a um destino muito pior do que passar os restos de seus dias trancados numa sela sem luz. Eles estavam condenando o último Uchiha a uma morte dolorosa, lotada de esperança em algo que era uma completa loucura.
Talvez aquilo fosse sua sina, ele pensou enquanto corria pela esteira e a máquina monitorava seus batimentos cardíacos e sua saturação. Talvez seja o destino dele pagar por sua família ter destruído o mundo. A constatação fez com que ele engolisse seco, a garganta trancada.
Sasuke não conseguia ser como os outros humanos na base, não conseguia ter esperança naquela estratégia suicida. Tudo o que havia aprendido ia contra aquela ideia de mudar o passado. Mesmo que fosse possível voltar no tempo, o que aconteceria se alguma coisa fosse mudada? Ele receava que a resposta fosse aquela que seus professores, num tempo diferente em que ele ainda era um jovem acreditando nas coisas boas do mundo, davam quando alguém perguntava algo sobre o assunto.
Se você alterar algo no passado, o que garante que aquilo que foi alterado não vá acontecer? E ainda de forma muito pior?
— Eu conheço suas dúvidas, Sasuke. – Tsunade disse entrando pela porta e encarando o homem que corria pela esteira. — Mas nós precisamos tentar.
— Por que eu? – Ele perguntou, finalmente soltando as palavras que estavam presas dentro de si desde que saíra daquela prisão.
— Você é um Uchiha, Sasuke. – A loira respondeu com um sorriso triste. — Sabe como a mente deles funciona, você é nossa melhor esperança para impedir que o vírus seja eliminado e que toda essa tragédia aconteça.
— E se isso não der certo?
— Essa é nossa última carta. – A médica respondeu balançando os ombros tristemente. — Nós não temos mais nada a perder, não existe mais esperança para a humanidade no futuro, Sasuke. Só no passado.
∞
Cinco dias desde que ele chegara na base, cinco dias treinando e passando por procedimentos médicos que ele não conhecia. Em nenhum momento ele chegou a ver a tão falada máquina, não até aquele dia pelo menos.
Quando ele entrou na grande sala que acomodava a máquina a respiração sumiu de seus pulmões. Ele conhecia a última esperança da humanidade, ou pelo menos os desenhos dela. Lembranças de um passado doce preencheram sua mente, memórias de sua graduação em física e conversas intermináveis com seu professor, Hatake Kakashi, invadiram seu coração e ele teve que segurar as lágrimas que surgiram em seus olhos.
— Kakashi... ele está? – A voz saiu embargada pelo esforço em segurar as lágrimas.
— Não. – A médica respondeu tristemente. — Ele faleceu na última mutação.
O homem apenas concordou com a cabeça e caminhou ao redor da máquina. Até mesmo os pequenos detalhes eram iguais aos do desenho do professor. Uma grande turbina estava na parte de trás, uma cadeira encontrava-se no meio, seguida por dois anéis que, se ela funcionasse do mesmo modo que o professor propora, se entrelaçariam ao redor da cadeira para teletransportar a pessoa pelo tempo.
Somente olhar aquilo era como voltar no tempo e ele fechou os olhos, tentando controlar suas emoções, batimentos cardíacos e respiração que saíram fora do controle. Demorou alguns minutos, mas finalmente ele voltou a abrir os olhos e encarar o objeto que poderia mudar o destino da humanidade.
— Não se esqueça, você precisa achar a Dra. Hyuuga. — Tsunade disse o ajudando a sentar no aparelho e aplicando a última injeção que protegeria o corpo do homem dos efeitos da máquina. — E me perdoe, Sasuke, eu gostaria que tivéssemos outra alternativa.
— Se isso realmente der certo. – Ele começou. — Eu espero que nos encontremos numa realidade melhor, Tsunade. De preferência em uma que você não me tranque em outra cela.
A loira permitiu uma pequena risada e o Uchiha sorriu de lado, tentando reprimir o nervosismo que toda aquela situação lhe trazia. Ele carregava o futuro de sua raça nas palmas da mão e, por mais que nos últimos dias os cientistas da base haviam afirmado que aquilo era seguro e daria certo, Sasuke tinha suas dúvidas.
Dúvidas essas que seriam sanadas apenas se aquilo desse certo ou ele acabasse morto, seu corpo estilhaçado pelas correntes de um tempo que não deveria ser perturbado.
— Boa viagem, Sasuke. – Tsunade se despediu com um sorriso triste e iniciou a sequência daquilo que podia ser um novo começo.
Ou apenas a confirmação de um fim.
∞
A primeira sensação que se espalhou pelo corpo masculino foi um leve pinicar, uma dormência incomoda, mas ainda sim fácil de suportar. Porém, quanto mais as turbinas da máquina rodavam, mais aquela sensação aumentava até um ponto em que parecia com que cada célula de seu corpo estava se desfazendo.
Nesse momento, Sasuke achou que iria morrer.
Ele não sabia dizer se aquilo havia durado segundos, minutos, horas ou até mesmo dias, mas quando acabou ele se viu de joelhos no chão, respirando tão fundo como se não fizesse aquilo há anos. Seu corpo todo era uma confusão de sensações que ele não podia descrever e o homem temia vomitar a qualquer instante. Demorou alguns momentos até que ele finalmente conseguisse respirar normalmente e, quando abriu os olhos foi como ele estivesse mergulhado em uma de suas muitas lembranças.
A pequena floresta que rodeava Konoha era de um verde vivo, as cores das flores e plantas vibravam e o Uchiha achou que ele estava sonhando. A guerra havia destruído tudo aquilo então a única explicação plausível era que a máquina funcionava.
Sasuke realmente havia voltado no tempo.
Ele precisou se apoiar em uma das muitas arvores já que a sensação esmagadora da verdade fez com que o corpo balançasse. Tudo aquilo era muito para a mente humana compreender completamente. Mexer com o tempo era algo que ninguém havia feito.
Até agora.
Inspirar, expirar. Inspirar, expirar.
Seguindo seu pequeno mantra Sasuke controlou as sensações que se entrelaçavam dentro de si e começou a caminhar até a cidade que conhecia tão bem. Konoha podia ser relativamente pequena, mas era um centro cultural e de grande importância para o país do fogo, daí porque o vírus havia se espalhado tão bem.
Quando chegou aos portões principais as lágrimas queimaram seus olhos, mas ele não permitiu que elas caíssem, não poderia deixar que suas emoções tomassem conta de si naquele momento. Ele continuou caminhando, tentando se misturar com as pessoas que se aglomeravam felizes pelo centro da cidade, observando as barracas de lembrancinhas e mimos, comendo as diversas iguarias e conversando alegremente.
Nenhuma sem imaginar o que aconteceria com um mundo em poucos anos.
Respirando fundo, Sasuke desviou dos turistas e caminhou em direção ao seu destino: o hospital geral de Konoha.
∞
— O mundo que conhecemos hoje esta a beira de uma mudança drástica. – A Dra. Hyuuga, chefe do departamento de virologia do CDC e ganhadora de inúmeros prêmios em sua área, começou. Ela andou pelo palco de madeira e sorriu leve para seus espectadores. — As consequências das ações que vem acontecendo durante décadas, séculos, está batendo na nossa porta e cabe a nós, a comunidade científica, falar sobre isso para a sociedade.
Imagens proféticas, áreas de desmatamento, ondas de lixo que preencheram as praias em todo o mundo, espécies em extinção, notícias sobre novas doenças e doenças tão antigas quanto a própria humanidade que haviam voltado, tomaram conta do grande projetor atrás da morena.
— Eu não falo isso como uma profecia louca escrita por alguém depois de beber muitas garrafas de saque. – Ela disse e todos riram brevemente. — E sim como alguém que tem estudado e observado, junto com colegas de várias outras áreas, as mudanças que tem acontecido nos últimos anos.
— O nosso silêncio pode custar caro para a sociedade. – A médica disse, caminhando até a ponta do palco e sentando na beirada, encarando todos os presentes com seus olhos perolados. — O nosso silêncio pode custar vidas.
— Quantas tragédias já ocorreram porque as pessoas de bem acharam que elas eram tão surreais que elas nunca iriam acontecer? – Ela continuou. — Nós ficamos calados por muito tempo. E agora, quando finalmente a comunidade científica resolveu acordar, é tarde demais. Nós estamos sofrendo do que é chamado Síndrome de Cassandra.
— Cassandra, para quem não conhece, é uma personagem da mitologia grega que podia prever o futuro. Quando Cassandra não aceitou os avanços do deus Apolo, ele a amaldiçoou. – A Hyuuga apertou seu pequeno pointer e a imagem de Cassandra e Apolo brilhou no projetor. — Cassandra continuaria a prever o futuro, mas ninguém acreditaria nela.
A medica se levantou e voltou a caminhar pelo palco, séria, com os lábios não mais com o sorriso fácil e belo que sempre traziam. Aquele era um assunto que sempre debatera quando ainda era apenas uma aluna na escola de medicina, mas nunca pensara que chegaria aquele ponto.
— Nós não falamos quando o consumidor foi enganado pela pílula milagrosa que curava o câncer. Nós não falamos quando o movimento anti vacina começou a surgir pelos grupos de facebook e cada vez mais pais deixavam de vacinar seus filhos. Nós não falamos quando as pessoas passaram a utilizar antibióticos indiscriminadamente e, com isso, criar cada vez mais bactérias super-resistentes. Não falamos nada quando nossas florestas foram desmatadas e ecossistemas destruídos. Nós não falamos. – Por alguns minutos, apenas o barulho do salto batendo na madeira podia ser ouvido. — E agora ninguém acredita em nós.
— Já dizia James Stoddart, ganhador do prêmio Nobel, que os cientistas precisam tirar a cabeça debaixo da areia e assumir sua responsabilidade social. Nós precisamos falar com a sociedade. – A imagem no projetor mudou novamente, dessa vez demonstrando imagens de diversas epidemias ocorridas através dos anos. — Nós não podemos esperar por outra peste negra para que nossa voz seja ouvida. Não podemos esperar que uma tragédia natural destrua cidades inteiras para que nossos políticos parem de criar propostas que vão acabar com o pouco que ainda temos.
— Nós precisamos sair do escuro, senhores, precisamos sair dos bastidores e encarar a luz da realidade. Precisamos tirar a cabeça debaixo da areia. – Ela finalizou, apertando o pointer uma última vez e sorriu. — Muito obrigada.
O barulho de palmas preencheu o auditório do hospital e a médica se permitiu um breve sorriso, crente de que cumprira um papel importante junto aos seus ouvintes. A comunidade científica precisava se mover antes que alguma epidemia acabasse com todos de uma vez.
Com um suspiro profundo ela desceu os pequenos degraus que levavam em direção a plateia enquanto as luzes eram acesas. Alguns médicos, conhecidos e outros não, a cumprimentaram e ela respondeu a todos com delicadeza e simpatia que era tão conhecida por.
— Dra. Hyuuga. – Uma voz grave e desconhecida chamou a atenção da médica e ela virou para encarar um par de orbes tão negras quanto carvão. A aparência do homem era levemente familiar, como se ela já tivesse o encontrado antes, mas nenhuma lembrança especifica vinha a sua mente.
— Olá... – Ela começou um pouco confusa e estendeu a mão para o homem.
— Sasuke. – Ele completou e segurou a mão dela, no minuto em que suas peles se tocaram foi como se uma pequena onda de eletricidade tomasse conta de cada centímetro de seus corpos. — Uchiha Sasuke.
— Sasuke... – Ela murmurou e foi como se algo se iluminasse em sua mente. — Ah! O irmão mais novo de Itachi certo?
O coração do Uchiha bateu dolorosamente no peito ao se lembrar do irmão. Lembranças agridoces passaram por sua mente, palavras não ditas e momentos perdidos. Memórias sobre como o irmão encontrou seu fim o preencheram e os olhos escuros queimaram novamente. Ele apenas balançou a cabeça afirmativamente e sorriu triste para a médica.
— Itachi falou muito de você. – Hinata continuou com um sorriso. — Achei que você estivesse em Suna para a universidade.
— Eu estava... estou. – O homem disse, confuso. Não podia falar a verdade para ela ali, no meio de um monte de pessoas então pegou a primeira mentira que lhe veio na mente: — Resolvi fazer uma surpresa para Itachi e meus pais.
— Aparentemente a faculdade de física envelhece muito as pessoas. – Ela disse um tom brincalhão. — Você parece ter a mesma idade que Itachi!
O sorriso que a médica lhe dirigiu foi tão intenso e belo que fez com que o coração masculino batesse descompassado e uma certa vermelhidão aparecesse no rosto. Acostumado a um mundo de trevas e sem esperança o Uchiha foi pego totalmente despreparado por uma beleza tão grande e uma brincadeira inesperada.
— Ele vai gostar bastante da sua visita – Ela disse após alguns minutos sem o homem falar nada. — E quem sabe assim ele não sai um pouco de dentro daquele laboratório, faz dias que ele está trancado lá, desenvolvendo sabe lá Kami o que.
Sasuke sabia exatamente o que Itachi estava desenvolvendo naquele laboratório e o pensamento levou uma sensação gelada por toda sua espinha. Engolindo seco o quase-físico afastou as lembranças.
— Dra. Hyuuga...
— Hinata. – Ela o cortou suavemente. — Me chame de Hinata.
— Hinata. – O homem experimentou o nome dela em seus lábios. — Eu gostaria de conversar com você sobre Itachi e sobre... outras coisas. Você gostaria de almoçar comigo?
— Seria um prazer. – A Hyuuga respondeu sorrindo novamente. — Tenho que resolver algumas coisas aqui no hospital, mas encontro você no Ichiraku, tudo bem?
O viajante apenas concordou com a cabeça e sorriu de lado, observando a médica se despedir de todos e seguir na direção da saída do auditório. Por alguns momentos ele ficou ali, observando tudo e percebendo que aquela era a mesma sala em que máquina do tempo havia sido montada 20 anos para frente do tempo.
Engolindo seco, Sasuke saiu do auditório e caminhou para o restaurante favorito da pequena Konoha pensando em como diria a verdade para a Dra. Hyuuga de uma forma que ela não acharia que ele fosse apenas um louco de pedra.
Mas talvez fosse exatamente isso que Uchiha Sasuke era.
∞
No momento que terminava de guardar alguns documentos em sua gaveta a jovem médica ouviu três batidas firmes na porta de madeira clara. Ela disse um pequeno “entre” e logo a presença duvidosa do presidente da Corporação Uchiha preencheu o pequeno consultório. Ao contrário do calor que Hinata encontrava no olhar de Itachi ou até mesmo em Sasuke, apesar do pouco tempo que passara com o homem, os olhos escuros de Uchiha Madara eram frios e possuíam um brilho avermelhado que intimidaria muitas pessoas.
— Uchiha-sama. – Ela o saudou com um sorriso contido e uma pequena reverência. Apesar de suas ressalvas quanto a pessoa que ele era, ainda sim a Corporação Uchiha era a maior contribuidora para o hospital geral de Konoha. — Que surpresa agradável.
— Dra. Hyuuga, é um prazer vê-la novamente. – O homem respondeu tirando a luva que cobria a mão direita e cumprimentando a mulher com um aperto de mão firme. — Sua palestra foi incrível.
— O senhor assistiu?
— Claro. – Madara respondeu com um sorriso de lado. — Inspiradora minha cara, muito inspiradora.
— Fico feliz que nosso maior patrocinador tenha gostado. – Ela disse, sincera. — Apesar de não passar tanto tempo quanto gostaria aqui no hospital, tenho que reconhecer os benefícios que a Corporação Uchiha trouxe para nós.
— Ah minha querida, isso não é nada demais. Muito trabalho no CDC?
— Nos últimos tempos, sim. – A Hyuuga respondeu, temerosa pelo andar daquela conversa. — Muitos alarmes, alguns falsos e outros nem tanto.
— E muitos olhares na Corporação Uchiha também. — A voz fria do homem fez com que o sorriso no rosto feminino desaparecesse.
— Madara-sama... eu...
— Não preciso de uma explicação, querida. – Ele a interrompeu. — Só garanta que o CDC se mantenha longe dos assuntos dos Uchihas certo? Se não ficaria muito difícil para nós assegurarmos todos os tratamentos gratuitos que ocorrem nesse hospital tão querido.
E com essas palavras o homem colocou sua luva novamente e sorriu uma última vez para a médica antes de sair pela porta. Quando ele finalmente se foi, Hinata sentou e escondeu o rosto nas mãos, respirando fundo e sentindo toda sua espinha gelar pelas palavras da cabeça do clã Uchiha. Todos já ouviram histórias sobre aquele clã infame, mas ela não esperava algo assim, não quando conhecia pessoas tão boas naquela família.
A cabeça da cobra esteve aqui, o que está acontecendo, Tsunade?
Respirando fundo ela digitou a mensagem rapidamente e a enviou. Os dedos batucaram a tela desligada do celular por vários minutos, mas nenhuma resposta veio. Decidida que aquilo podia esperar mais um pouco, Hinata colocou seus pertences na bolsa e saiu do consultório.
Tinha um almoço marcado, afinal.
∞
Entrar novamente no restaurante Ichiraku o bombardeou com lembranças inesperadas. O viajante passara muito de sua infância e adolescência ali, quando os pais estavam ocupados demais para preparar refeições caseiras e ele precisava almoçar depois de voltar da escola. Fora ali, naquele lugar tão famoso e querido, que ele conheceu o que se tornaria seu melhor amigo.
Quando encarou o dono do restaurante Sasuke ficou com esperanças de que ele o reconhecesse. Mas logo o homem desviou o olhar e balançou a cabeça, como se tivesse tentando se lembrar de algo muito fortemente, mas não havia conseguido. Ele acenou com um sorriso triste para o homem e sentou em uma das várias mesas que havia por ali, esperando a figura bonita da Dra. Hyuuga entrar pela porta.
Batucando os dedos na mesa de madeira, Sasuke passou a pensar em todos os seus passos até ali. A infância ao lado do irmão, a adolescência com uma breve dose de rebeldia, o único ano que passara na faculdade e todas as mudanças que o fatídico dia V, como era chamado no futuro o dia que o vírus fora liberto, lançou em sua vida. Pensou na guerra e no julgamento injusto que recebera apenas pelo seu sobrenome. Pensou em como cada pingo de esperança escapou por seus poros quando fora trancafiado naquela cela imunda e escura. Pensou nas palavras que diria para que Hinata acreditasse em tudo que precisava falar. Sasuke pensou por muito tempo, até que doutora sentou na cadeira a sua frente com uma expressão preocupada e a pele mais pálida que o normal.
— Hinata. – Ele disse, surpreso. — Está tudo bem?
— O quão bem você conhece Uchiha Madara? – A Hyuuga despejou. Não esperava falar aquilo para o homem, não logo de cara pelo menos. Mas foi inevitável, durante todo o caminho até o restaurante a médica não havia conseguido parar de pensar nas palavras venenosas do CEO da Corporação Uchiha.
— O que? – Sasuke perguntou, confuso. A mulher apenas o olhou ansiosa por uma resposta, qualquer uma. — Não muito, ele é tio do meu pai. Nunca fez muito o tipo familiar, não que qualquer Uchiha faça... mas Madara sempre foi mais distante, mais controlador. Não foi surpresa nenhuma quando ele assumiu a empresa quando meu avô faleceu. Porque? O que aconteceu?
— Ele me confrontou depois da palestra, no meu consultório. – Ela respondeu por cima, apesar de ter uma estranha sensação de que podia confiar no moreno, ainda sim ele era um Uchiha. — Aparentemente o CDC está vigiando a Corporação Uchiha.
— Então esses malditos sabiam de algo e não agiram. – Sasuke murmurou, irritado.
— O que?
— Olha... eu sei que isso vai parecer loucura, mas você precisa acreditar em mim. – O Uchiha mais novo disse, sério. — Eu não tenho motivos para mentir para você, para te enganar.
— Sasuke, você está me assustando.
O homem passou a mão direita nos fios escuros rapidamente, como sempre fazia quando estava nervoso ou muito ansioso. Não sabia como encontrar palavras para descrever tudo o que acontecera. Céus, tudo parecia apenas uma loucura!
— Daqui a dois dias um vírus vai ser liberto no aeroporto de Konoha. – Ele começou e os olhos claríssimos da médica se arregalaram. — Em uma semana ele vai ter se espalhado por todo país do fogo. Em menos de um mês para os países vizinhos. Em pouco mais de um ano ele vai ter dizimado um pouco mais da metade da população humana, além de alguns primatas.
— Sasuke, o que...
— Uma disputa pelos territórios vai matar grande parte daqueles que não morreram pelo vírus. – A garganta masculina doida, querendo se calar e não proferir aquelas palavras, mas ele as forçou para fora. – Cada vez que um antiviral ou vacina é descoberto, o vírus já sofreu mutação. Não existe mais uma esperança para a humanidade de onde eu venho.
— De onde... você... vem? – A Hyuuga perguntou, confusa.
— Do futuro, Hinata. – Ele suspirou pesadamente. — Daqui 20 anos irão construir uma máquina do tempo com a finalidade de impedir que o vírus seja liberto porque não existe uma alternativa ou esperança, em 20 anos não encontramos uma maneira de acabar com o Mollivirus sibericum.
— Espera. – Ela murmurou, mais para si mesma do que para o viajante. — Esse não é o vírus que encontraram na Sibéria?
— Sim. – Sasuke concordou. — Modificado e muito letal.
A doutora ficou em silêncio por vários segundos, milhares de possibilidades e dúvidas passaram por sua mente. Tudo o que Sasuke tinha dito era extremamente loucura, parecia algum roteiro de um filme de sci-fi clichê e mal elaborado. Mas quando ela pensava melhor, ligando todas as peças de um quebra-cabeça mortal, tudo começa a fazer sentido.
— A Corporação Uchiha fez isso, não é? – Ela perguntou com um suspiro pesado.
Sem encontrar palavras e com a garganta trancada, o Uchiha viajante do tempo apenas concordou afirmativamente com a cabeça.
∞
Caminhando de um lado para o outro na pequena sala de estar de seu apartamento, a Hyuuga tentava encaixar toda aquela loucura em algo que fizesse sentido. Sasuke estava sentado no sofá encarando-a enquanto ela se movimentava. Ela não devia ter trago um estranho para seu apartamento, mas algo dentro de si gritava que podia confiar no Uchiha, pelo menos naquele ali, e que ele não estava mentindo.
O que tornava tudo ainda pior.
Se tudo aquilo fosse apenas uma mentira, uma loucura, seria muito mais fácil. Mas todas as alternativas apontavam apenas para uma coisa: a Corporação Uchiha destruiria o mundo.
— O que, exatamente, você sabe? – Ela finalmente parou de andar e encarou o homem.
— Eles encontraram uma carcaça humana congelada na permafrost*. Nessa carcaça, encontraram uma versão um pouco diferente do vírus encontrado em 2016. Estudando o vírus eles descobriram que aquela mutação não infectava apenas amebas, mas humanos também. – Sasuke explicou, batendo os dedos nervosamente nos joelhos. — No fim eles conseguiram modifica-lo de modo que ficasse ainda mais virulento e mortal. Solta-lo no aeroporto foi o truque de mestre, já que o vírus se espalhava pelo ar e cada um naquele lugar acabou levando-o para regiões diferentes.
— Itachi está modificando o vírus. – Não era uma pergunta, mas uma afirmação. Ela começou a andar novamente, não acreditando que o amigo de anos pudesse ser capaz de algo do tipo.
— Eu nunca soube a verdade sobre isso. – O Uchiha confessou. — Mas ele morreu tentando impedir que o vírus fosse solto se isso traz algum alívio para seu coração.
— É difícil acreditar que tudo isso é real. – Ela suspirou.
— Eu te entendo... quando Tsunade me tirou da prisão para essa ideia maluca eu estava certo que ela havia enlouquecido de vez.
— Espera, Tsunade? – A morena perguntou, confusa. — Tirou você da prisão?
— Ela é uma das líderes do pouco que sobrou de Konoha. – Passando a mão pelos frios escuros ele continuou: — Praticamente toda a Corporação e o clã foram eliminados pelo vírus. Os Uchihas foram orgulhosos demais em achar que podiam controlar a natureza e eu paguei por isso.
— Mas você não teve nada a ver com a criação.
— Não, mas num futuro em que tudo está perdido, ninguém liga para isso. Eles apenas queriam um culpado para colocar atrás das grades, mesmo que não fosse tão culpado assim.
— Sinto muito, Sasuke. Pelo pouco que eu pude conhecer de você, e pelo o que seu irmão contou, você não merecia algo assim. – Hinata disse com um sorriso triste no rosto.
— Não adianta se lamuriar por aquilo agora, precisamos dar um jeito para que isso nunca precise acontecer. – Ele disse após longos segundos em silêncio. — Precisamos descobrir a real intenção da Corporação com a liberação do vírus.
— Precisamos ter uma conversa com a Tsunade. – A Hyuuga disse, firme. — E com Itachi.
Sasuke ponderou por alguns momentos, ele tinha certo receio do que confrontar o irmão podia revelar. E se Itachi sabia de tudo desde o começo? E se ele estivesse tão imerso na filosofia Uchiha que acabara cedendo aos pedidos absurdos de Madara?
Mas e se ele não estivesse?
Respirando fundo ele levantou do sofá e seguiu a doutora até a porta. Só existia uma forma de descobrir a verdade.
∞
— O que você quer dizer com que a Corporação Uchiha está modificando um vírus? – Tsunade perguntou, olhando para os dois seriamente. — Nós recebemos informações que eles encontraram algo na Sibéria e estava subornando o governo com isso.
— Eles encontraram uma mutação do Mollivirus sibericum, uma que infecta humanos, Tsunade. – Hinata disse. — E, de acordo com Sasuke, eles estão o modificando para ficar ainda mais virulento e mortal.
— Aquele filho da puta de Uchiha Madara! – Tsunade esbravejou batendo as duas mãos na mesa de vidro. — Eu não acredito que ele está desenvolvendo algo assim. E como você sabe disso?
Sasuke ponderou alguns segundos antes de responder a mulher, não podia simplesmente dizer a verdade pois sabia que podia alterar toda a linha do tempo da Senju se fizesse isso e poderia causar uma mudança tão grande que ela poderia não o enviar naquela missão e estragar tudo. Por fim, escolheu apenas parte da realidade.
— Eu sou um Uchiha afinal. – Respondeu simplesmente e juntou as mãos no colo. — Precisamos falar com Itachi, descobrir de que lado ele está.
— Do nosso. – A loira murmurou.
— O que? – O casal perguntou em uníssono.
— Quando recebi a informação sobre a Corporação fui atrás para saber quem havia mandado. – Tsunade disse, apoiando os cotovelos em cima da mesa e então o queixo em cima das mãos. — E hoje descobri que era Itachi.
Os olhos de Sasuke queimaram e uma sensação de alivio tomou conta de seu coração. Pela primeira vez em vinte anos ele pode ter o descanso para aquela questão que o atormentava dia sim e outro também. Pela primeira vez em vinte anos ele finalmente soube que o irmão dele tentara fazer a coisa certa.
— Nós precisamos nos apressar. – O homem disse, por fim. — O dia V é quarenta e oito horas, precisamos encontrar Itachi e descobrir uma forma de destruir esse vírus.
— Eu tenho uma reunião com aquele miserável do Madara amanhã cedo. – Tsunade disse. – Podemos usar isso como desculpa para vocês entrarem no prédio principal e procurarem por Itachi.
— Não é o ideal, mas já é algo. – O Uchiha suspirou e encarou as duas mulheres na sala. — Amanhã é nossa última chance, uma vez no aeroporto vai ser praticamente impossível deter o vírus.
— Então precisamos garantir que ele não saia daquele prédio. – Hinata disse e o homem pode enxergar força e convicção nos olhos perolados. Seu coração doeu ao lembrar que, no futuro, a famosa Dra. Hyuuga havia sucumbido nos primeiros meses da epidemia. Num ato automático ele pegou uma das mãos da médica e segurou entre as suas, sentindo aquela eletricidade do primeiro encontro passar por eles novamente.
— Nós vamos, Hinata. – Ele assegurou, tentando acreditar nas próprias palavras. — Nós vamos.
∞
Sasuke não conseguiu dormir naquela noite. Sonhos, ou pesadelos, sobre o futuro que vivera e as consequências de suas ações no passado se embaralhavam em sua mente formando algo assustador e ele acordou no meio da madrugada suando e ofegante. Ele estava deitado no pequeno, mas relativamente confortável, sofá da Dra. Hyuuga e o vento gelado entrava pela janela aberta tentando afastar o calor do verão que se aproximava.
Crente de que não pregaria os olhos novamente ele seguiu até a modesta cozinha atrás de um copo de água. O home se surpreendera quando a mulher lhe convidara para passar a noite ali, algo na morena parecia o atrair, fazer com que ele quisesse ficar perto dela, confiar na mulher e em suas palavras doces e sorrisos fáceis. Mesmo quando confrontada com algo tão sinistro quanto aquela situação, a médica Hyuuga nunca parecia perder as esperanças, o que era totalmente novo para alguém como ele.
Balançando a cabeça para afastar esses pensamentos, ele abriu a geladeira e pegou uma pequena garrafa de água presente ali. Quando fechou a porta do eletrodoméstico, se surpreendeu ao ver a figura esguia da doutora parada na porta, encarando-o.
— Não consegue dormir? – Ele perguntou após um grande gole de água.
— Não. – Ela respondeu, abraçando o próprio corpo, tentando se proteger do vento gelado ou de ameaças que pareciam correr em sua direção como um lobo atrás de sua presa. — Muitos sonhos, possibilidades, e se nosso plano der errado, Sasuke? E se Madara conseguir liberar esse vírus?
O homem não respondeu imediatamente. Ele se virou para encarar a lua que brilhava pela pequena janela da cozinha e suspirou. Sasuke vinha do lugar onde o plano do líder Uchiha havia dado certo, ele tinha sentido na pele as consequências das escolhas passadas e julgamentos injustos. Ele sabia muito bem o que aconteceria se os planos de Madara dessem certo.
— Não existe a opção do nosso plano dar errado. – Disse, por fim. — Nós precisamos fazer isso dar certo a qualquer custo, porque se não... Não vai existir futuro para nós, Hinata.
A mulher o encarou por vários minutos com seus olhos claríssimos, Sasuke podia enxergar um misto de sentimentos nele e por milésimos de segundos ele se perguntou o que aconteceria se eles tivessem se conhecido em outra situação, em uma em que o futuro da humanidade não estivesse em suas mãos.
— Eu não existo no seu futuro, não é mesmo? – Ela perguntou tristemente e a garganta masculina fechou, incapaz de responder aquela questão. Entendendo o silencio dele como resposta, ela suspirou e continuou: — Foi o que eu imaginei. Boa noite, Sasuke.
As palavras não vieram e ele apenas deixou que ela voltasse para seu quarto. O Uchiha não tinha como dizer que tudo ficaria bem, porque sua experiência só dizia ao contrário. Tudo o que podia fazer agora era torcer para que aquele plano desse certo.
Por que, se não desse, tudo estaria perdido.
De novo.
∞
O amanhecer chegou rápido de mais e com ele o futuro da humanidade. Quando entrou no carro bonito da Dra. Hyuuga pela terceira vez, Sasuke tinha as mãos tremendo. Não se orgulhava disso, é claro, mas cada parte de si temia pelo o que estava por vir. O crachá bem feito do CDC estava pendurado em seu peito com um nome que não era o seu e as roupas bem passadas que vestia o lembravam muito daquele que um dia fora seu amigo e depois seu carcereiro, Hyuuga Neji.
Quando entraram pela porta de vidro do complexo principal da Corporação Uchiha o nervosismo só aumentou. Ele transbordava aflição por todos os seus poros e foi preciso que a Hyuuga segurasse suas mãos e a apertassem fortemente para que ele respirasse normalmente.
“Vai dar tudo certo.” Ela havia lhe dito antes de saírem do apartamento. “Sai é tão parecido com você que eles nunca vão notar a diferença.”
— Nós temos uma reunião marcada com Uchiha Madara. – A voz imponente de Tsunade se fez presente. Ele encarou as costas da mulher com um misto de emoções quase impossíveis de se identificar. — Senju Tsunade, Hyuuga Hinata e Sai, nosso secretário.
O segurança encarou o trio por vários momentos, em seguida seus crachás e então com um sorriso educado, entregou três cartões para que eles passassem pelas catracas. Quando a portaria ficou para trás, o homem soltou um suspirou aliviado.
— Ora ora, nem parece um Uchiha. — Tsunade zombou ao olhar para o nervosismo do homem.
— Me perdoe se eu temo pelo futuro. – Ele respondeu ironicamente. — Eu sei exatamente o que todos nós vivemos ali.
Depois da resposta ácida, os três seguiram em silêncio até os elevadores, onde Tsunade seguiria para o último andar para sua reunião e o casal até o subsolo, onde se encontravam os laboratórios.
— Boa sorte. – Tsunade murmurou quando o elevador finalmente parou naquele que seria o destino de toda a humanidade. — Por favor, não estraguem tudo.
Com um rolar de olhos Sasuke virou as costas e seguiu em direção aos laboratórios mais protegidos e perigosos. Ele lembrava-se vagamente daquelas instalações quando o irmão o trouxera para conhecer o que era o orgulho daquela Corporação. Ele seguiu pelos corredores, sendo seguido por Hinata, até encontrar o que era o maior e melhor laboratório que os Uchihas construíram. Pela porta de vidro ele podia enxergar o irmão trabalhando e logo seu peito apertou e os olhos queimaram.
Afastando aquelas emoções, o homem bateu no vidro num misto de nervosismo e medo, fazendo com que o Uchiha mais velho voltasse os olhos do tubo de ensaio para o vidro que cobria parte da porta. Quando os dois pares de olhos escuros se encontraram, Sasuke pensou que seu coração tinha parado de vez.
— O que vocês estão fazendo aqui? – Itachi perguntou ao abrir a porta e sair para o corredor. — Sasuke, o que você... como você.... como você envelheceu tanto em pouco tempo?
E então os olhos calorosos de Itachi brilharam como uma forma de reconhecimento. Como se a última peça de um quebra cabeça gigante tivesse acabado de entrar em seu lugar. Uma lágrima rolou pelo rosto pálido e então ele abraçou o irmão com toda força que podia.
— Você não é o mesmo, não é? – Ele disse. — Agora tudo faz sentido. As palavras de Mikoto, as escritas naquele caderno velho... A merda que eu fiz foi grande não é mesmo?
O Uchiha mais novo não sabia o que responder, novamente as palavras estavam trancadas em sua garganta e ele sentia-se um tolo. Trinta e nove anos e ele sentia-se uma criança ao ver seu irmão novamente. O mais velho desfez o abraço e bagunçou os fios de Sasuke como fizera tantas outras vezes num passado distante.
— Itachi, nós sabemos de tudo. – A voz delicada de Hinata apareceu no meio dos dois. — Nós precisamos dar um fim nisso. Madara quer acabar com o mundo, não o melhorar.
— Eu descobri isso duas semanas atrás. – Ele confessou com um suspiro. — Enviei aquela informação para Tsunade com esperança que ela fosse o suficiente para pará-lo, mas aparentemente não.
— Ontem ele ameaçou tirar todo o patrocínio do hospital caso eu não fizesse o CDC largar qualquer investigação sobre a Corporação. – A Hyuuga disse e eles podiam enxergar a raiva que aquilo trazia para ela, mesmo que ela não demonstrasse abertamente. — E então Sasuke veio e me contou toda a verdade. Itachi, como você pode?
— No principio era apenas curiosidade, você, mais do que ninguém, entende a curiosidade de um cientista, Hinata. – O biomédico disse com um sorriso triste. — E então Madara veio com suposições estranhas, mas tudo passava de um teste para mim, então eu fiz.
— Quando percebi as reais intenções dele era tarde demais. – O tom triste que o Uchiha mais velho usava doía no coração do casal. — Agora eu criei algo mortal que quase nada pode destruir.
— Quase nada? – Sasuke perguntou. Ele conhecia o vírus, conhecia-o bem, mas esperava que pelo menos aquela primeira versão dele fosse menos resistente que a do futuro.
— Nesse momento só o fogo que é liberado pelo equipamento de proteção contra contaminação pode mata-lo de vez. – Itachi disse e foi como se algo se iluminasse em sua cabeça. — A proteção contra contaminação! É claro!
— O que?
— Todos os laboratórios têm um dispositivo especial para, em caso de contaminação, queimar tudo o que existe dentro dele num fogo tão quente que nada escapa. – O cientista explicou com um sorriso triste. — Creio que essa vai ser a forma de eliminar qualquer vestígio desse vírus, tudo oque temos sobre ele está dentro dessas paredes.
Sasuke encarou o irmão, digerindo cada palavra que ele dizia e tentando encaixar em tudo o que ele já sabia sobre aquele vírus e a situação. Se o que Itachi dizia funcionasse, tudo acabaria ali e agora.
— O que estamos esperando então? – A Hyuuga perguntou, ansiosa.
— Eu preciso que vocês façam uma coisa. – Itachi começou. — Estão vendo aquela sala de observação? Os controles ficam ali. Vocês precisam ir até lá para ativar o dispositivo.
— Certo, mas e você? – A preocupação na voz de Sasuke era palpável. O irmão tinha um olhar triste no rosto, um olhar que o mais novo reconhecera naquele fatídico dia do aeroporto.
— Eu preciso verificar uma coisa antes.
— Itachi, não. – Sasuke tentou pará-lo, temia que suas suspeitas estivessem certas. Temia perde-lo de novo. — Só vamos destruir essa coisa de uma vez.
— É rápido, Sasuke. – O abraço que o cientista deu no viajante foi apertado e lotado de sentimentos, um abraço que dizia adeus e não até logo. — Eu vou estar atrás de vocês, vão.
Itachi empurrou os dois em direção as escadas que levavam a sala e entrou novamente no laboratório, trancando a porta em seguida. Ele caminhou calmamente até a mesa principal, onde todo o fruto de seu trabalho estava contido num pequeno tubo protegido por uma capsula de metal. O Uchiha suspirou, pensando em toda sua trajetória, todas as desculpas que utilizara para estudar aquilo e a sensação esmagadora de orgulho quando conseguira modificar aquele vírus tão gigante.
"Você entrará para a história meu rapaz!” Seu pai havia dito e, naquele dia, tudo o que Itachi conseguira pensar era que finalmente havia conseguido o reconhecimento que sempre sonhara.
Ele respirou fundo algumas vezes até que pode ouvir o barulho do microfone que vinha da sala de observação. Desviou os olhos escuros até o irmão, que ele sabia ter vindo de outro tempo, e a médica que ele sempre considerara uma grande amiga. Certo de sua decisão, ele pegou a capsula de metal e a abriu com sua digital.
— Itachi, o que você está fazendo? – Ele pode ouvir a voz desesperada de Sasuke pelas caixas de som. — Itachi!
— A sala só vai ser lacrada em caso de contaminação. – O cientista explicou tristemente. — E não existe contaminação enquanto isso estiver lacrado.
A capsula se abriu em um pequeno puff e logo um minúsculo tubo brilhava na mão de seu criador. Itachi encarou o líquido transparente com um misto de emoções: pesar, tristeza e, mesmo sabendo que aquilo era errado, orgulho.
— Itachi, você não pode fazer isso! — O Uchiha mais novo gritou, desesperado. Ele não podia perder o irmão novamente.
— Não, Sasuke, eu preciso. – O mais velho disse, convicto. — Eu despertei esse vírus, eu fui a causa de um futuro destroçado. Nada mais justo que eu o leve junto para o inferno.
— Nós vamos arrumar outro jeito. – Sasuke implorou. — Por favor, não faça isso.
— Eu preciso que você tenha um futuro, Sasuke. Que todos as outras pessoas, inocentes, tenham um futuro. – Mesmo a distância, o casal podia enxergar as lágrimas no rosto pálido do cientista. — Me desculpe por tudo o que sofreu, pelo fardo que foi jogado nas suas costas por minha culpa. Viva agora e aproveite tudo o que foi tirado de você otouto.
— Como você sabe tudo o que aconteceu? – Hinata, que tinha se mantido em silêncio até agora e possuía lágrimas em seu rosto, perguntou. — Como você descobriu o futuro?
— Ela me contou. – Itachi confessou no mesmo momento em que estourava o tubo com as próprias mãos. — Mikoto.
O mais novo bateu desesperadamente no vidro reforçado, mas nada podia ser feito depois que o laboratório foi isolado pela contaminação iminente. O barulho de sirenes e do laboratório sendo completamente isolado preencheu os dois ambientes e o coração de Sasuke parou naquele momento: mesmo que eles conseguissem tirar o homem de lá, ele havia sido contaminado e o risco da história se repetir era grande demais.
— Eu preciso que você seja forte mais uma vez certo? – Itachi disse poucos momentos antes de uma tosse violenta o atingir. — Está vendo esse botão vermelho? Eu preciso que você o aperte junto comigo.
Completamente sem palavras, Sasuke apenas concordou com a cabeça. Todo o seu corpo doía pela força de tentar se manter forte. Todo o seu ser estava sendo esmagado por ter que presenciar a morte de Uchiha Itachi novamente e, dessa vez, ter participação naquilo.
— Eu amo você. — Os Uchihas disseram e juntos apertaram o botão que mudaria, para sempre, o futuro que já havia sido escrito.
Não houve gritos ou lamúrias por parte do mais velho, as chamas que preencheram o recinto eram tão quentes que a morte foi instantânea. Em poucos momentos tudo o que restava ali era cinzas. Sem mais Itachi, vírus ou mesmo a carcaça que originara toda essa bagunça.
Naquele momento Sasuke desabou no chão, o corpo inteiro tremia e a jovem médica temia pelo homem. Ele já havia sofrido muito na vida, ela sabia pelo pouco que ele tinha contado, e perder o irmão daquela forma era quase desumano. Hinata se agachou ao lado dele e o abraçou com toda força que tinha, tentando passar algum conforto e certeza em meio a tanto sofrimento.
— Acabou, Sasuke. – Hinata disse, segurando o rosto masculino com as duas mãos e encarando os orbes escuros que passara a gostar tanto. — Acabou, tudo vai ficar bem.
Por muito tempo Uchiha Sasuke havia perdido todas as esperanças de um futuro que brilharia uma vez mais para a humanidade. Tudo que ele conhecia era dor, tragédia e a escuridão da sua cela. Quando Tsunade aparecera com aquela ideia maluca, ele demorou para acreditar que funcionaria. Foi só com o maior sacrifício que ele podia imaginar que finalmente pudera ter alguma esperança. Sasuke finalmente podia voltar a sonhar.
Com um suspiro cansado, ele encarou os olhos que lhe lembravam duas luas e agradeceu silenciosamente. Num ato impensável o homem colou seus lábios nos da doutora em um beijo rápido.
Pela primeira vez, ainda que completamente destroçado pela dor, ele tinha esperança no futuro.
Pela primeira vez ele podia, realmente, viver.
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