How to Heal

5 Capítulo 5


Notas iniciais
Aviso: Tentei não pegar muito pesado, mas ainda pode ser que afete pessoas sensíveis.

Summer e eu estávamos sentadas numa praça situada perto do local onde aconteciam as reuniões do grupo de apoio. O sol estava desaparecendo no horizonte, o vento balançava as folhas das árvores que nos cercavam e as crianças choravam porque ainda não queriam voltar para casa. Os pipoqueiros estavam fechando seus carrinhos e o homem que vendia balões de gás hélio sorria satisfeito pelo dia de vendas.

Tínhamos nos encontrado mais cedo naquele dia para passar o tempo. Summer não tinha nada que pudesse fazer para se distrair e eu precisava sair de casa pois o ar parecia pesado desde que eu havia falado sobre a morte de Liza. Tinha certeza de que meus pais conversavam sobre meu estado psicológico enquanto eu não estava presente. Por várias vezes ouvi sussurros na cozinha e quando me viam, paravam de falar no mesmo instante.

— Está ficando frio. Acho melhor irmos embora, você não acha? — sugeriu Summer.

— Pode ir. Vou ficar mais um pouco, ainda não quero voltar para casa. Meus pais estão me olhando como se eu fosse me matar a qualquer momento. É um pouco desconfortável.

— Você pode ficar na minha casa quando precisar, Lua. Sério, está escurecendo, não é seguro.

O céu já estava escuro quando chegamos na casa de Summer. O ar gélido nos cortava enquanto ela procurava as chaves dentro da mochila.

— Sério, Summer, por que você não usa bolsas? — perguntei rindo. — É muito mais simples de achar as coisas do que dentro de uma mochila que mais parece um buraco negro.

A garota riu e balançou as chaves recém-encontradas na frente do meu rosto.

Dentro da casa o ar estava muito mais quente e aconchegante. Agradeci mentalmente por não estar mais no frio cortante e me sentei no sofá. Summer me ofereceu um cigarro, que educadamente recusei, e se sentou ao meu lado.

— Eu não fui — soltou de repente. Encarei-a sem entender o que ela queria dizer. — Quando a gente se conheceu, você me perguntou o porquê de eu ter ido no grupo de apoio. Você tentou perguntar, mas eu te cortei. Se ainda quiser saber, eu não fui violentada.

— Fico aliviada em saber disso — confessei sincera.

— Mas você conheceu Liza através do grupo — começou receosa. Eu sabia onde ela queria chegar, mas eu não tinha certeza de que estava preparada para falar sobre aquilo. Summer pareceu notar meu desconforto. — Eu não aguento mais, sabe? Eu não consigo viver sem ela. E eu não entendo, sabe, Lua? Eu não entendo como ela se sentia, porque nunca passei por nada parecido. Sempre tentei estar presente para ela, mas eu sabia que não era suficiente, nunca seria suficiente, era só questão de tempo. Como ela estava se sentindo, Lua? O que ela estava sentindo quando viu que não aguentava mais? Por favor, eu preciso saber.

Minha garganta pareceu fechar. Eu não queria falar, não queria trazer tudo à tona. Cada vez que eu falava sobre isso era como se estivesse acontecendo de novo e de novo. Eu mal conseguia respirar.

— Sentia como se não valesse mais a pena lutar — as palavras saíram espontaneamente da minha boca. Summer me olhou e eu sabia que o mesmo nó se formava na garganta dela. — Como se a única saída para toda aquela dor fosse a morte. Não importava mais o discurso "tem muita coisa bonita no mundo que você ainda não viu", porque não valia mais a pena. Ela nunca se livraria daquela dor, e teria que continuar convivendo com os pais, tios e primos pois não tinha para onde ir. Ela sentia como se seu próprio corpo tivesse virado contra ela. Se sentia suja e usada. A sua mente a lembrava daquilo a todo instante. Estava em constante guerra consigo mesma. Era morrer ou conviver com aquilo a assombrando todos os dias pelo resto de sua vida. Talvez conseguisse controlar com remédios, mas ter que tomar remédios para viver normalmente... Isso não é vida, Summer. Realmente é melhor morrer do que viver desse jeito.

Eu já não sabia mais se ainda estava falando sobre Liza.

Summer me olhava com uma expressão melancólica no rosto. Seus olhos estavam marejados. Me senti subitamente desconfortável por ter me exposto daquela forma e quis ir embora. Estava inquieta.

— Você quer falar sobre isso?

Uma batalha se travava dentro de mim. Um lado queria que eu tirasse tudo do peito, já que na única vez que eu falei sobre, no grupo de apoio, eu não contei tudo. Uma parte de mim queria gritar o que havia acontecido comigo e a outra parte, a vergonha que eu sentia, queria esconder tudo aquilo.

— Lua, você pode confiar em mim.

— Eu tinha acabado de fazer dezenove anos, Summer. Era a melhor fase da minha vida — desabafei falhando em conter as lágrimas. — Minhas notas na faculdade estavam ótimas, eu estava morando sozinha. Meus sonhos estavam tão perto de se realizarem. Não era perfeito, mas era ótimo, sabe? Eu estava feliz e isso foi arrancado de mim. Não consigo pensar em uma forma mais cruel de destruir a vida de alguém do que fazendo essa pessoa não suportar mais o próprio corpo. Não tenho como sair daqui, desse corpo invadido e quebrado. Eles destruíram a minha vida, Summer.

"Eu estava voltando para casa depois da faculdade, acompanhada de uma amiga. Sempre íamos embora juntas pois sabíamos que era perigoso. Era pouco depois das 23h e estávamos a pé. Não morávamos muito longe uma da outra e nem do prédio onde estudávamos, então não era um problema. A gente conversava bastante e isso nos distraía. Naquele dia estávamos particularmente distraídas. Não vimos aqueles três homens se aproximarem. Quando percebemos, eles já estavam tão perto. Pareciam tão grandes. Ou eu parecia tão pequena. No início achei que só queriam mexer com a gente, nos intimidar. Eles falavam coisas nojentas, eu não consigo esquecer. Tentamos passar direto mas um deles puxou o meu braço com muita força. Vivian tentou gritar, então outro acertou seu rosto com um soco. Eu me debatia, mas não conseguia me soltar. Ele estava rasgando sua blusa. No ódio, consegui dar um chute forte em seu joelho, o que o fez cair e soltar minha amiga. Eu gritei para ela correr. Ela correu. Eu não a culpo, Summer. Fico feliz, do fundo do meu coração, por ela ter conseguido escapar daquilo... Agora eles só tinham a mim. Pareciam ficar cada vez maiores. Sorriam como o Diabo. Eu ainda tenho pesadelos com aqueles sorrisos. O maior deles agarrou meu cabelo e bateu minha cabeça na parede, me pressionando contra o muro. Outro abaixou a minha calça. Eu não via mais nada, eu só sentia aquela dor. Doía tanto. Quanto mais eu resistia, mais machucava. Todo o meu corpo lutava contra aquilo. Cada célula existente em mim implorava para que eles parassem. Eles me xingavam no meu ouvido. Diziam que eu estava gostando. Eu não conseguia parar de chorar. Não sei quanto tempo levou para eles se cansarem e correrem dali. Pareceram dias. Ninguém apareceu para me ajudar. Eu não conseguia me levantar, estava jogada no chão como um saco de lixo, e era exatamente assim que eu me sentia. Estava sozinha. A dor era tanta que levantar fora quase impossível, e andar machucava a cada passo. Eu não sei como consegui chegar em casa. Não sei de onde tirei forças. Ainda não sei de onde continuo tirando".

Summer limpou as lágrimas com as costas das mãos e me ofereceu outro cigarro.

Dessa vez, aceitei.

Notas finais
O que vocês acharam? Opiniões e críticas construtivas são bem vindas.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.