How to Coach
2 Capítulo Bônus
Notas iniciais
Eu, deitada na cama, ouvindo kpop: Eu deveria atualizar Hollow.
A Parte Da Minha Mente Que Só Faz Merda: Você vai escrever uma continuação pra How to Coach.
Eu: Mas era só uma oneshot.
M: Você precisa.
Isso aqui era pra ser engraçado. Era. No final é 20% humor e aquele 80% Comassim. Em algum momento eu deixei Hollow falar mais alto e aí...bem, vocês vão ver.
Mais ou menos um ano se passou desde o capítulo I, aqui está a tabela de idades:
Yuuri - 17, Yuri - 27, Victor e Phichit - 18, Leo- 19, Seung-gil - 20, Otabek - 30,
Se perguntassem a Yuri Plisetsky há um ano se ele realmente acreditava que aquela história de técnico daria certo, ele mandaria a pessoa ir à merda, pois é claro que daria certo. Ele era o Ice Tiger, não havia nada que ele não podia fazer.
É, ele estaria mentindo. Porque mesmo tudo indo muito bem, ele sentia que o trabalho era como andar sobre ovos. Um deslize e a sujeira seria enorme. Mas era tão gratificante ver Yuuri acertando um salto, entendendo o programa, sorrindo no pódio. E saber que ele ajudara naquilo o enchia de uma alegria que ele não sentia desde o tempo em que competia. Quando Yuuri ganhou bronze na final do Grand Prix de 2015, Yuri não tinha certeza de como proceder dali em diante. Era óbvio que queria continuar treinando o garoto, mas onde? Havia deixado tudo para trás na Rússia, com a desculpa de tirar uma temporada de folga, e ficado no Japão por meses para treinar Yuuri. Ele não estava disposto a voltar às competições (ainda tinha que encarar Yakov para discutir a questão), mas São Petersburgo tinha uma estrutura tão melhor se comparada a Hasetsu. Todos os seus contatos de patrocinadores, médicos e professores de dança estavam lá. Facilitaria tanto a própria vida quanto de Katsuki. Mas ele se sentia culpado por retirar o garoto do núcleo familiar tão cedo. Não seria a primeira vez, ele sabia. O nipônico já passara dois anos morando em Detroit com Celestino Cialdini, mas a ideia ainda era estranha para o russo. Yuuri era muito jovem e seria um ambiente completamente diferente, com um idioma praticamente desconhecido. Contudo, quando confrontado a respeito na noite anterior à volta pro Japão, Yuuri parecia muito certo de sua decisão. — Não me importo de ir pra Rússia, sensei. — ele disse calmamente — Seria uma experiência interessante e eu sei o que é melhor pra mim. Gostei muito de trabalhar com você, então o que for melhor para a nossa parceria será escolhido. É, ele definitivamente era mais maduro e responsável que Yuri com a mesma idade. Foi assim que Yuuri Katsuki mais uma vez deixou o conforto de sua cidade natal para se aventurar em um país completamente novo. Victor venerou a ideia e passou semanas gravitando ao redor do mais novo para mostrar os lugares mais legais da cidade, dar aulas de russo ou exibir seus novos programas. E daria tudo certo se não fosse por uma coisa: Técnico Yuri Nikolaevich Plisetsky. Austeridade era um eufemismo para o que Yuri praticava quando o assunto era Yuuri e relações sociais. O garoto tinha horários muito bem estabelecidos pra sair, e tinha que voltar antes das nove horas da noite. Além disso, era preciso mencionar local, transporte e acompanhantes. Inúmeras vezes Victor fora barrado de convidá-lo pois seus amigos eram mais velhos. Se Plisetsky um dia fora comparado a um soldado, hoje ele era um general. "Ai" de Yuuri se não atendesse suas chamadas. Mila começou a chamá-lo de "Mama Yura" depois de um tempo, Georgi concordou. Após algumas palavras não muito educadas do mais velho, os dois se calaram.Claro que havia os dias ruins. Seu jovem pupilo era obediente, mas Yuri via quando ele simplesmente não queria repetir um salto que não agradou o mais velho, ou quando queria fazer alterações no programa e Yuri não deixava. Não eram rebeldias do nível de Victor ou do próprio Yuri, mas eram rebeldias do mesmo jeito. Ele estava crescendo, não podia evitar. E Plisetsky adorava desafios. Mas havia dias em que Yuuri tinha uma liberdade maior, como hoje. Com a Rostelecom Cup se aproximando, muitos dos amigos do mais novo viriam para a Rússia, e uma emergência logística da competição colocou São Petersburgo como cidade-sede ao invés de Moscou. Assim, tudo estava conspirando para Yuuri ter uma semana de diversão com seus colegas mais próximos, e não seria Yuri que impediria isso. O garoto se comportara por um ano inteiro, ele podia afrouxar as amarras. Só um pouco. Yuri aproveitou a véspera do Programa Curto para ter um dia só pra si. Yuuri saíra com os outros patinadores logo depois do almoço, devendo voltar antes das sete da noite. Agora era o meio da tarde e Yuri, como um adulto responsável que era, estava apreciando uma xícara de café num de seus pontos favoritos da cidade. Ah, e Otabek estava ali. — Confesso que não acreditei quando você disse que virou o treinador de Yuuri Katsuki. — o ex-patinador disse com um sorriso de lado — Imaginava que um protegido seu seria mais... instável. — Vou ignorar as implicações de seu tom, Altin. — realmente não daria muita corda para o assunto, pois Otabek tinha o talento de arrancar as verdades que Yuri tentava esconder. Era fato que sentia muita falta do cazaque. Desde que se aposentara há dois anos e assumido definitivamente o cargo de DJ, Yuri se sentira sozinho nas competições. Nunca tivera muitos amigos, agora o mais relevante deles estava se despedindo. E no lugar dele, uma completa nova geração. Como se lendo seus pensamentos, o músico comentou: — Alguns dizem que você se aposentou muito cedo para uma lenda. — Você acha isso? — ele perguntou com uma sobrancelha arqueada. — Não, mas é fato que não havia nada te impedindo de continuar. Bem, nada além da tarefa de treinar um patinador do Japão. — ele deu de ombros — Nunca cheguei a te perguntar o que realmente aconteceu, e você nunca deu uma resposta consistente à mídia. Se importa de dizer agora? O russo torceu o nariz, deixando seu café de lado. Beka merecia saber, considerando todo o tempo de sua amizade. Não era algo que queria esconder, também.
— Quando conheci Yuuri, já pensava em tirar uma temporada de folga para organizar minha vida. Pensar sobre quanto tempo eu ainda tinha no gelo, o que fazer depois que isso acabasse. Um ano com Yuuri me mudou completamente. — ele olhou pensativo para o céu sem nuvens, como se procurasse uma resposta — Não é apenas ensinar uns saltos, é ver outra pessoa crescer. É uma satisfação tão grande ver que você foi parte de uma conquista, do sorriso de um atleta. Não ajuda que Yuuri é um garoto cativante. — ele sorriu, balançando a cabeça — Eu não conseguiria voltar pras competições depois daquela sensação. Agora, aqui estou. — O garoto realmente tocou a sua parte sensível. É um feito histórico. — ele franziu o cenho, um ar questionador no olhar — Mas se não houvesse Yuuri, acha que teria ficado mais tempo? — Duvido. Meu trabalho foi concluído como símbolo da supremacia russa ou algo assim. — ele disse quase como um resmungo — E não tem mais graça em continuar competindo. Todos da nossa geração já se foram. A categoria Sênior virou uma creche. Sabe quem se tornou o mais velho quando eu saí? Michele Crispino. Ele tem 22 anos. 22, Beka. Eu não vou ficar mais um ano de babá. — Yura, você é muito novo pra ter uma crise de meia-idade. — Otabek disse rindo — Então, é isso? Vai passar o resto de seus dias como técnico? — Não tenho certeza. — ele admitiu — Eu gosto de trabalhar com Yuuri, mas treinar outros patinadores não é algo que me dê muita segurança. E eu ainda tenho aquele diploma de Moda e Design. — Como esquecer? Os melhores trajes já vistos no mundo da patinação. — ele disse num tom quase nostálgico, certamente lembrando das aventuras que ele e Yuri tinham nos tempos de faculdade. Mas o cazaque logo retomou aquele olhar de quem estava prestes a fazer o mais novo encarar a realidade. E a realidade sempre era problemática. — Talvez eu esteja enganado, mas parece que sua vida gira em torno de Yuuri agora. Por favor, me corrija se eu estiver errado. — Quem disse isso? Babicheva e Popovich? — ele revirou os olhos, entediado — Eles são idiotas. É normal um aluno receber mais atenção quando não tem mais ninguém pro professor ensinar. — Eu nem mencionei os dois. Mas já que tocou no assunto, eles realmente falaram sobre como você mima Yuuri demais. Como eles disseram? Ah, "Mama Yura". — ele disse tentando manter uma postura impassível, mas dava pra ver como os cantos de seus lábios se encurvavam levemente pra cima. — Eu não mimo ninguém, ok? Só tomo precauções. Yuuri não é nada como eu na adolescência, mas sem limites as coisas desandam. — ele suspirou, como se de repente fosse um velho sábio que já vira tudo no mundo — Você sabe como é, Beka. Você foi o meu único freio na juventude. — E isso ainda nos envolveu em muitos problemas. — o outro acrescentou — Mas não acha que está protegendo Yuuri demais com todos esses horários e restrições? Você não deixa nem Victor sair com ele. — Eu conheço Victor, Otabek. O modo de vida dele é muito condizente com o playboy que ele é. Sei que ele não faria nada por mal, mas são as circunstâncias. — ele levantou as mãos em desistência — Eu sou responsável por Yuuri. Se há constrangimentos que eu posso evitar, eu vou. Saberei que fiz um bom trabalho se Yuuri não acordar em um bar apenas de cueca, orelhas de gato e recados em checo escritos no braço. — Yuri murmurou antes de tomar um gole de seu café. A expressão de Otabek se tornou sombria e ele apenas assentiu, voltando para seu chá. É, foi uma noite estranha aquela. Uma que Yuri só mencionaria se fosse pra frisar a seriedade do assunto, como naquele momento. E como eles combinaram cinco anos atrás, o que acontece em Ostrava, fica em Ostrava. Pelo que pareceu cinco minutos, nenhum dos dois disse nada. Apenas observavam a passagem de pedestres e carros na rua movimentada. Então uma sensação tocou Yuri, um pressentimento. Daqueles que te fazem voltar pra casa pra pegar o guarda-chuva mesmo com um calor de 30°C, e no final acaba provando-se correto. Um desses pressentimentos chegou no russo e foi assim que ele se viu discando o número de Yuuri. Um toque, dois, três. Caixa postal. Yuri arqueou uma sobrancelha e tentou de novo. — Algum problema? — seu amigo perguntou notando a gradativa inquietude do loiro. — Yuuri não atende o telefone. — ele disse após a segunda tentativa falha — Ele sempre atende. — Espere um pouco e tente de novo. Ele deve ter ido ao banheiro ou algo assim. — ele disse, fazendo seu papel de voz da razão. E assim Yuri o fez, esperando talvez os sete minutos mais longos de sua vida antes de tentar uma terceira vez. Um, dois, três toques. Caixa postal. — Vou ligar pro Victor. — ele disse mal terminando de ouvir a mensagem e já procurando o número de seu agora ex-rival. Sabia que ele havia seguido Yuuri como das outras vezes, então se precisasse contatar o japonês, bastava chamar Nikiforov. — Yuri, não precisa ficar assim. — Otabek disse sério ao perceber a preocupação do técnico — Não deve ter sido nada, Yuuri está bem. — Shh. — ele disse ouvindo a chamada. Quando parecia que não iria ser respondida, uma voz alegre e levemente alterada responde: — Privyet~— havia música alta no fundo, mas Yuri ainda podia ouvir a voz do patinador. — Victor! Ainda bem, pelo menos você. Yuuri está com você, não? Como ele está? — Ele está lindo! — ele disse mais alto que o necessário — Ele é lindo, eu quero chorar só de olhar pra ele. Desde quando ele tem aquelas curvas?! Suéteres deveriam ser ilegais em Yuuri, pois eles escondem tanta coisa. — Victor, você está bêbado? — Yuri perguntou irritado, mas era clara a resposta. Só havia uma pessoa mais dramática que Victor e era Victor sob efeito do álcool. — I'm drunk in love!~— o platinado respondeu na outra linha — Ele é lindo, é a coisa mais perfeita que existe e... Oh meu Deus, ele penteou o cabelo pra trás, e com aquela calça. Aquela calça. Eu tô chorando de verdade, por que existem pessoas tão bonitas assim?! Decidindo que não tinha tempo para o drama de Victor, o mais velho foi direto ao ponto: — Victor, presta atenção: onde vocês estão? Que bar, que pub, que sarjeta...? — ele realmente estava pensando o pior. — A gente tá no N'King House, mas depois eu posso levá-lo a um cartório, pois eu quero me casar. Mas Yura não pode saber ainda. Se revirasse os olhos de novo eles poderiam ficar presos na sua cabeça. — Ok, entendi. Não saia daí e não tire os olhos de Yuuri. — Nem se eu quisesse!~— e a ligação terminou. — Eles estão em algum clube chamado N'King House. Eu não sei o que raios Yuuri está fazendo, mas Victor está bebendo e isso não é bom. — o russo disse se levantando e retirando algumas notas do bolso para pagar o café não finalizado. — Eu sei onde fica. — Otabek disse seguindo seus movimentos — Quer carona? — apontou a motocicleta estacionada ali perto, dois capacetes perfeitamente arrumados como se já soubessem que seriam usados naquele dia. Em outra ocasião, Yuri teria aproveitado a sensação familiar do vento batendo em seu rosto enquanto ele e Otabek corriam pelas ruas de São Petersburgo. Se quisesse sentir a verdadeira nostalgia, poderia fingir que havia um grupo de garotas loucas atrás de si e ele estava fugindo. Mas ele não conseguia. Não com a preocupação o corroendo por dentro e aquela voz idiota falando em sua cabeça: "Viu? Você sabia que isso iria acontecer. Você não serve pra isso. Se ele se machucar, a culpa será su-" — É aqui. — disse Otabek parando em frente a um estabelecimento aparentemente pequeno, com um letreiro vermelho escrito "N'King House" e uma fila considerável para o luz do dia. O segurança teria barrado Yuri se ele não estivesse acompanhado do ilustríssimo Otabek Altin, atualmente com quatro trabalhos fixos entre os vinte primeiros títulos da Billboard. E mesmo que não tivesse, Plisetsky derrubaria aquele segurança. Seus chutes ainda eram muito bons. Já lá dentro, acostumando-se com a escuridão e a música alta, os olhos do loiro procuravam sistematicamente por cabelos prateados e um par de óculos. Qualquer um dos dois seria útil no momento. — Eu juro que vou matar o Victor, aquele filho da- Suas palavras morreram quando ele percebeu um de seus alvos dançando animadamente no pequeno palco do lugar, com uma plateia indo a loucura.
Yuuri, em toda a sua glória de 17. Não era o único dançando, eram quatro meninos no total. Todos patinadores, os quais ele reconheceu como Phichit Chulanont, Leo de la Iglesia e Seung-gil Lee. Sim. O Seung-gil Lee, famoso por ter as expressões de uma parede de concreto estava dançando energicamente ao som de uma música com batida de reggaeton e uma expressão nem tão mal-humorada assim. E Yuuri estava lá. — Beka, eu tô passando mal. — ele murmurou segurando o braço do outro para garantir que o chão não estava se abrindo diante de seus pés como sentia. — Isso é Kpop. — Otabek afirmou e demorou um pouco para Yuri entender que ele se referia à música. — Foda-se que música é, Altin, por que raios Yuuri está dançando assim?! E que roupas são aquelas?! — ele disse não conseguindo tirar os olhos da apresentação de seu pupilo. Precisamente, Yuuri não havia saído daquele jeito de casa. Estava usando talvez a calça jeans preta mais colada que o russo já tinha visto (e ele já viu muitas), camiseta justa branca com gola V, colete preto, uma corrente prateada (!) e o cabelo puxado para trás com gel que dava um ar não muito inocente para o garoto. Os outros usavam a mesma palheta de cores e Yuri sentiu-se aliviado por Phichit ser o único de shorts. A caracterização só completava a performance. Yuuri dançava como um profissional, dava vida à música com cada movimento dos quadris e os olhares sugestivos para a platéia traduziam a música que Yuri não fazia ideia do que dizia. Era uma coreografia com papeis masculinos e femininos, e Yuuri era um dos femininos com Phichit. Yuri concluiu que combinava, sendo que ele era o mais baixo do grupo. E ele fazia um bom trabalho em seduzir a audiência, considerando que até duas horas atrás ele mal sabia dizer "oi" a Victor sem gaguejar. Aquilo ali certamente fora ensaiado por um bom tempo. Acima de tudo, ele estava se divertindo dançando. Não era a mesma coisa da patinação artística, mesmo que Yuuri adorasse o esporte. O japonês parecia mais livre naquele palco, sem as inseguranças de um salto ruim, um giro mal-feito ou pontos perdidos. Plisetsky quase se sentiu mal por estar tão furioso com o patinador. Isso até um dos movimentos colocá-lo tão próximo de Iglesia que o americano segurou sua cintura.Ugh. — Ele está tão frito. — Yuri disse cruzando os braços e semicerrando os olhos. — O que ele fez de mal? — o cazaque perguntou com a cabeça balançando levemente ao som da música. — Ele mentiu pra mim. — O que exatamente ele disse? — Que ia sair com os amigos, não que ia fazer um show numa casa noturna. — ele disse como se fosse óbvio. — Ele não parece bêbado, ainda está completamente vestido e realmente saiu com os amigos. Não vejo por que está nervoso. — Otabek escondeu um riso. — Ele tem dezessete anos. Você simplesmente não dança daquele jeito — ele apontou o palco — em público com dezessete. É perigoso, Beka, as pessoas pensam coisas erradas. — Ok, eu entendo a sua preocupação. Mas você é o cara que tirou a camiseta numa apresentação de gala com 15 anos. — Eu não tirei a camiseta, ela escorregou. E isso não é hora de ressuscitar "Welcome to the Madness". — Yuri suspirou e olhou ao redor — Agora onde está Victor? Eu ainda preciso dar uma lição nele. — Até onde você sabe, ele não fez nada. — Otabek argumentou. — Ele ainda está bêbado durante um passeio com Yuuri. Eu não sei o que ele pretende depois de duas latas de Budweiser, mas perto de Katsuki ele não vai ficar. — ele veio com a missão de acabar com a moral de Victor e era isso que ele ia fazer. A apresentação terminou e todos aplaudiram fervorosamente, com direito a bis, assovios e muitos, muitos flashes. Só de pensar em como a mídia falaria daquilo em algumas horas Yuri quis um copo d'água. Ou vodka, se tivessem. Sinceramente, o que ele diria para os pais de Yuuri? Os quatro meninos agradeceram como se terminassem um programa nas competições, e num passe de mágica seu aluno tímido estava de volta, um sorriso levemente constrangido fugindo dos olhos alheios. Nada do fenômeno performático de minutos atrás. Um grupo de quatro garotas subiu ao palco, juntamente com um rapaz segurando um microfone. Ele parecia particularmente entretido. — Eu não vou me meter, sou da categoria de pares. — ele disse dando de ombros — Muito bem, patronos da N'King House, os aplausos decidirão esse duelo. Quem venceu: a patinação feminina — palmas ensurdecedoras — ou a masculina? — ovações igualmente ativas. — Acho que temos um empate. — o apresentador disse olhando para os dois grupos — O que vocês acham, meninas? Uma das moças, que Yuri agora reconhecia como uma patinadora da Sérvia, respondeu sorrindo: — Nós gostamos muito da apresentação dos meninos, eles realmente provaram do que são capazes. Foi uma competição muito divertida. O homem assentiu e virou-se para o outro time: — Rapazes? Phichit respondeu com prontidão: — Eu ainda não perdoei aquele tweet. — risos do público — Mas tenho que admitir que foi uma ótima disputa e vocês são adversárias incríveis. Fizeram um ótimo trabalho. — É isso, gente! Um acordo de paz foi feito, a patinação artística é a verdadeira campeã hoje! Aplausos e aplausos. Sinceramente, aquilo parecia um programa de TV. Não ficaria surpreso se os repórteres estivessem esperando do lado de fora do clube. Ele não se importava com aquilo no momento, estava mais interessado em levar Yuuri pra casa e ter uma palavrinha com ele. Só precisava passar por aquela multidão e... — Yura!~ — a voz de seus pesadelos surgiu. Realmente não estava com paciência para lidar com Victor no momento, mas lá estava seu pequeno castigo terreno de mechas platinadas. As bochechas mais rosadas que o normal, juntamente com o copo meio cheio em uma das mãos (a outra segurava o cotovelo de Yuri), eram o diagnóstico claro que Victor já havia bebido demais. — Victor, — ele estava com uma voz mais calma que o esperado — você não deveria estar acompanhando Yuuri? — Eu estou! Mas ele ficou ocupado com a apresentação e nem deu atenção pra mim. E nem Chris deu atenção pra mim. Ninguém me deu atenção. Só o barista fofo que me ofereceu uma bebida. — ele fungou dramaticamente — Eu estou sozinho, Yura. Como sempre. — Lá vamos nós. Olha, eu não vou me estressar com você agora, mas se você pretende sair com Yuuri para encher a cara eu mesmo arrumo a papelada para voltarmos pro Japão. Eu tenho que ir. Beka, por favor, não deixe ele cair- — Não, espere, eu preciso te pedir uma coisa! — Victor falou mais alto do que deveria em seu ouvido — É questão de vida ou morte! Hoje não era o seu dia, definitivamente. — Fala. — ele disse fechando os olhos. Homens de 27 anos têm rugas? Ele sente que as dele chegarão em breve. — Posso me casar com Yuuri?Quê? — O quê?! — ele olhou incrédulo para o mais novo e depois para Otabek, que parecia se esforçar para não rir da cena. — Eu quero me casar com Yuuri. — Victor disse convicto — Ele me faz feliz, é simplesmente maravilhoso. Antes dele minha vida era vazia, agora eu tenho um motivo para acordar todos os dias que não tem nada a ver com patinação! E ele é fofo, gosta de cachorros, dança muito bem e na hora que ele mordeu os lábios na apresentação, eu... — Victor, respira. — ele disse segurando o jovem pelos ombros — Você não pode se casar com Yuuri. Ele tem 17 anos. — Eu espero ele completar 18. — o outro encolheu os ombros com um sorriso. — Vocês nem namoraram. — por que estava discutindo com um patinador bêbado? Ah, sim, porque era seu colega de ringue e não podia deixá-lo daquele jeito — Yuuri sabe que você gosta dele? — Eu não sei. Eu dou todos os sinais e indiretas possíveis, mas ele se faz de desentendido! — o garoto parecia à beira de uma crise nervosa. Yuri quase riu, porque Katsuki não se fazia de desentendido, ele simplesmente não via. Ou escolhia não ver. Por um momento, teve pena de Victor. Aquela confissão parecia realmente sincera. Talvez ele não devesse se preocupar tanto com a chance de corações quebrados depois. — Talvez você devesse ser mais direto com ele. Yuuri gosta das coisas preto no branco. Sem máscaras, sem ambiguidade, nada disso. — ele forçou um pequeno sorriso — Apenas fale pra ele tudo que você me disse aqui. — E se ele me rejeitar? — Nikiforov parecia realmente assustado com a ideia. O mais velho segurou-se para responder que aquilo não iria acontecer. Ao invés disso bagunçou levemente o cabelo do outro, como fazia quando ele ainda era um iniciante. — Você só vai descobrir se tentar. — arqueou uma sobrancelha — Ou isso é demais para a nova lenda viva da patinação? — Não. — Victor disse parecendo mais sóbrio do que nunca — Eu vou me declarar e pedi-lo em namoro. Se ele aceitar, ótimo. Então no aniversário de 18 anos de Yuuri eu peço a mão dele em casamento. — Espera, não foi isso... — Eu posso dar um anel de presente! — ele disse com o brilho no olhar de quem já conseguia ver um futuro brilhante a partir de uma simples ideia. Yuri não sabia como lidar com essa reviravolta na conversa, e ele ainda precisava ver Yuuri. Antes que pudesse dizer algo, Otabek segurou seu ombro. — Eu cuido dele, vá buscar Yuuri. — ele disse com aquele sorriso compreensivo de sempre. Yuri às vezes se pergunta o que ele fez para ter um amigo como Altin. Andando entre a multidão, que agora começava a se dispersar ou voltar a dançar ao som de música eletrônica. Próximo ao palco havia uma porta aberta, a qual o loiro concluiu que dava para os bastidores. Não havia guardas ou algo do tipo, então ele apenas entrou. Era uma espécie de camarim improvisado. As patinadoras estavam sentadas em bancos num canto conversando com Phichit e Leo. Seung-gil estava no telefone já completamente descaracterizado. E Yuuri estava no meio do processo de trocar de camiseta. Quando percebeu a nova presença, o adolescente gritou. Que voz fina a da puberdade. — Vista-se, Yuuri, não posso te levar a sério assim. — ele disse com a sua melhor voz de técnico responsável. Algo que mesmo após um ano ele ainda tinha certas dúvidas sobre. Enquanto Katsuki se atrapalhava com o suéter que colocara mais cedo, Phichit surgiu em sua defesa. — Ele não fez nada de errado, nós apenas dançamos! — ele disse ficando bem a frente de Yuri — Eu o convenci, não devia ficar bravo com Yuuri. Plisetsky apenas balançou a cabeça. — Eu não estou bravo com ninguém, Phichit. Mas eu queria ouvir a versão de Yuuri da história. — ele disse olhando para o japonês que agora se aproximava de cabeça baixa — Yuuri, olha pra mim. — Eu vim dançar por conta própria. — o mais novo ali disse levantando o olhar — Phichit deu a ideia e eu aceitei. — Isso não foi algo que poderia ter sido orquestrado em uma noite. — ele alternou o olhar entre os dois, curioso — Como isso tudo começou? — Foi culpa minha. — Phichit ergueu a mão. — E minha. — a patinadora da Sérvia disse se aproximando — Marina Pajović, categoria feminina Júnior, senhor. — Nada de "senhor", eu não sou um ancião. Me chame de Yuri. — ele disse apertando a mão da garota em cumprimento e cruzando os braços — Bem, quem vai me explicar o que houve aqui? — Começou com uma discussão no Twitter há uns três meses. — Phichit foi o primeiro a falar — Eu postei um vídeo de um programa improvisado com músicas da Katy Perry, e Marina postou outro logo depois com a mesma ideia, me marcando. — Começamos a disputar pra ver quem fazia a melhor dança no gelo ao som de músicas pop e logo toda a comunidade de patinação estava acompanhando e escolhendo lados. — Marina completou. — Eu acabei dizendo que ninguém na categoria feminina poderia me vencer em uma dança fora do gelo, aí começou o inferno. — Phichit disse com um sorriso sem-graça. — Sim, daqui em diante as conversas foram tão sérias que foram pro privado. — Marina disse quase rindo — Eu fiquei tão irritada com o que ele disse que perguntei se queria me enfrentar em uma competição de dança de verdade. — E eu disse "sim, por que não?" e mandei ela chamar as amigas pra ajudarem, pois ela ia precisar. Ela disse que eu deveria chamar os meus amigos também, então eu fiz. — ele disse com a maior simplicidade que alguém pode descrever um duelo de dança pela honra. — Nós organizamos tudo em segredo, pois sabíamos que se vazasse para um técnico tudo podia ir pelos ares. Por isso, só um grupo seleto de pessoas tinha conhecimento sobre o evento e não divulgamos nada abertamente nas redes sociais. — Marina parecia orgulhosa da trama quase ilegal que eles desenvolveram apenas para poder rir da cara um do outro depois de um duelo de dança. Yuri estava secretamente impressionado.
— Nós ensaiávamos pelo Skype. — Yuuri falou finalmente, um pequeno sorriso no rosto — Eu, Phichit, Leo e Guang-Hong. Escolhemos uma música kpop porque tinha uma coreografia legal, mesmo a minha parte sendo tecnicamente para mulheres. — ele corou com a última parte. — Mas Guang-Hong acabou não sendo escalado para a Rostelecom Cup como estava planejado e assim chamamos Seung-gil de última hora. — Phichit apontou o coreano que estava mais interessado no celular. — Você me obrigou. — ele corrigiu sem tirar os olhos da tela. — Você gostou mesmo assim! — Phichit resmungou e voltou para a conversa — Enfim, foi isso. Chamei Yuuri porque ele é um dos meus melhores amigos e dança muito bem. Acho que você viu. — É, eu vi. — ele assentiu — Mas vocês ainda são adolescentes dançando numa casa noturna. — Sr. Plisetsky, eu tenho que discordar. — foi a vez de Leo de la Iglesia entrar na discussão — Tirando Yuuri, todos os meninos aqui já são adultos. Sabemos o que estamos fazendo. Talvez tenha sido errado chamar uma pessoa mais nova, mas gostamos de Yuuri como se ele fosse um irmão. Nós nunca deixaríamos nada de ruim acontecer com ele. — Sim! Yuuri é quase meu bebê. Eu mataria um antes de alguém pensar em fazer algo com ele. — Phichit disse seriamente, passando um braço sobre o ombro do dito amigo — E ele controlou a ansiedade tão bem! Eu fiquei impressionado. — É, eu vi isso, também. — ele disse passando a mão sobre os cabelos loiros que ele sentia estarem ficando mais finos. Beka diz que é paranoia. — Só queria dizer que eu não vou repreender vocês ou falar com seus técnicos. Se bem que eu duvido que alguém no mundo da patinação não vai ouvir sobre essa história amanhã. — ele olhou para Yuuri — Agora nós vamos voltar pra casa e ter uma conversa séria, Katsuki. Diga "adeus" a sua gangue. Yuuri suspirou dramaticamente e acenou suas despedidas para os amigos. Ele estava passando muito tempo com Victor, não tinha outra explicação. A volta pra casa foi, no mínimo, constrangedora. Após chamarem um táxi e Yuri convencer Otabek de que "conseguia cuidar de duas crianças" ao mesmo tempo, o cazaque voltou para seu hotel a pé enquanto os Yuris completavam a tarefa de levar um Victor semi-consciente até Yakov. Yuuri realmente não entendeu porque Victor olhava tanto pra ele se não queria dizer nada. Depois da aventura assustadora que foi aquele dia, técnico e aluno finalmente voltaram ao apartamento do mais velho. Yuri despachou o outro para tomar um banho antes de terem a derradeira conversa. Enquanto isso, jogado no sofá, Yuri checou as centenas de notificações de postagens que o marcavam no twitter e instagram. Todas eram ou fotos ou vídeos da apresentação de Yuuri no N'King. Outros treinadores foram acionados, mas como ele era o mais jovem e acessível, acabou por receber a maior parte da atenção. Ele sequer pensou em visualizar os artigos à la Buzzfeed que tinham como título variantes de "Yuri Plisetsky é uma má influência para o jovem Yuuri Katsuki?". Pessoas estúpidas escrevendo coisas estúpidas. Alguma resposta ele tinha que dar, apesar de tudo. Escolhendo um tweet aleatório com o vídeo, ele comentou:> > Se eu sabia? Não. 1/8 > > Se eu estou bravo? Não muito. 2/8 > > Se eu gostei? Sim. 3/8 > > O mundo tem que parar de pensar que Yuuri é um bolinho de arroz inocente que sempre segue as regras. 4/8 > > Ele é um menino gentil e muito responsável, mas tem direito de se divertir de vez em quando. 5/8 > > Até parece que vocês não presenciaram minha transição Ágape → WTTM. 6/8 > > Por isso, deixem Yuuri em paz. O mundo tem mais problemas que meninos dançando Kpop. 7/8 > > E ele está de castigo. 8/8 Satisfeito com a própria declaração sobre o quase escândalo, deixou o celular de lado e esperou que Yuuri aparecesse. Não demorou muito, logo ele estava na sala de pijama, cabelo recém-lavado e os inseparáveis óculos. Parecia nervoso, considerando que mal olhava Yuri nos olhos. — Isso não é um julgamento e você não é um réu. Não tem por que você não olhar pra mim. — o técnico começou, sentando-se e fitando o mais novo. Yuuri sentou-se no outro sofá e arriscou olhar pra cima, apenas para voltar a se esconder, brincando com os próprios dedos. — Eu nem tenho direito de ficar irritado com você, considerando tudo que eu já fiz pra Yakov. E era muito pior que fazer um cover de KARD. — com tantas notificações ele já tinha memorizado o nome do grupo e da música — Mas eu estou chateado e isso não vou esconder. Yuuri ficou visivelmente tenso, pelo modo que seus ombros se encolheram, mas ele levantou a cabeça e disse apressadamente: — Desculpe-me, Yuri-sensei. Não queria chatear você nem causar mal algum. Mas eu sabia que se eu contasse as chances de você me deixar ir seriam mínimas. Eu sei que preciso treinar e ficar perdendo meu tempo está fora de questão. Sinto muito. — Treinar? Acha que eu estou chateado por causa dos treinos? — ele soltou uma risada sem humor — Ah, Yuuri, você realmente é uma peça única. Ele franziu o cenho, não entendendo o que aquilo significava. — Eu não estou preocupado com o Yuuri patinador, que pode recuperar até semanas sem treino em poucos dias pela perseverança e trabalho duro. Não, eu sei que ele está bem. Eu estava preocupado com o Yuuri de verdade, o garoto que já está morando em outro país, longe da família, com uma pressão muito grande sobre si e a vontade de provar ao mundo do que é paz. Eu tenho que cuidar dele também. — ele dizia tudo calmamente, para dar tempo ao outro de assimilar o conteúdo — Eu te liguei hoje mais cedo e você não atendeu. Chame-me de psicótico, mas eu entrei em pânico. Liguei mais uma vez e nada. Tentei ligar para Victor e o babaca me atende bêbado e nem consegue me responder onde você está. — ele respirou fundo — Eu pensei o pior, Yuuri. Você não é mais criança. Sabe o que acontece em festas e bares quando não temos juízo. E se Victor já estava daquele jeito, quem diria você? Yuri já conhecia o garoto há tempo o suficiente pra saber que quando ele mordia lábio de uma maneira específica, significava que ele queria rir. Nunca se sentiu tão Yakov naquele momento. — Sensei, eu não sou tão influenciável assim. — Yuuri disse com um tom quase imperceptível de riso na voz — Se as regras dizem que eu não posso beber, então não vou beber. — O mundo não tem regras, Yuuri. — ele disse no tom mais sério daquela conversa — As minhas regras não impedem ninguém de tentar fazer alguma coisa com você. E você tem muita, mas muita sorte de ter amigos que cuidam de você como Phichit e Iglesia fizeram hoje. Porque quando eu te vi naquele palco, eu vi uma presa fácil. Mais do que isso, eu vi Yuri Plisetsky com dezessete anos. Um silêncio sufocante se apoderou da sala e nenhum dos dois ousava quebrá-lo. Mas aquele falatório deixara o russo com sede, de forma que ele se levantou para ir a cozinha, um movimento da mão sinalizando para o outro segui-lo. Em essência, a cozinha dividia espaço com a sala de estar, de modo que não andaram muito. Yuuri puxou uma cadeira do balcão para se sentar enquanto Yuri enchia dois copos com água. Um foi para Yuuri, que aceitou mesmo não estando com sede. Qualquer coisa para se distrair era válida no momento. — Ser um astro na patinação artística ainda muito jovem te afasta das pessoas. — Yuri retomou após um tempo. O copo d'água na mão e o olhar em memórias — A personalidade de um Ice Tiger não ajudava muito. Eu fui sempre muito sozinho, apesar de não perceber isso. E quando isso acontece, pensamos que podemos enfrentar o mundo com as próprias mãos e ignoramos pessoas que se importam conosco. Eu ignorei Yakov, Lillia, os patinadores mais velhos que nunca chegariam ao meu nível. Acontece quando um prodígio é criado: ele fica livre demais. Não cometeram esse erro com Victor. — ele disse antes de outro gole. Não o fizeram porque Yuri estava lá como um reforço. O ex-competidor se via muito em Victor, e agora Yuuri. Muito jovens. Muitos sonhos. Muitas aventuras para viver. Mas sem regras há problemas. Eles precisam de limites. Yuri ignorou os limites impostos quando tinha a mesma idade. Yakov não estava acostumado com a contestação de alunos. Era uma nova era, uma nova geração de atletas que não estava mais presa pelo regime e queria ver mais do mundo. Yuri foi uma experiência complicada com sua personalidade agreste e a sede por vitória. Acabou por ver coisas que não deveriam ser vistas por adolescentes, com o passar dos anos. Amadureceu à força pela teimosia. Jovens precisam ter seus tombos, mas Yuri ainda achava que tivera quedas demais. Se pudesse evitar que o brilho da infância fosse retirado tão drasticamente de Yuuri e Victor, ele o faria. Por isso, estavam tendo aquela conversa. Provavelmente a mais séria desde que começaram a trabalhar juntos. — Onde quer chegar com isso? — Yuuri perguntou, certamente cansado de tanta baboseira. — Quero dizer que eu tenho muito medo de você acabar se machucando. Não falo de fraturas ou desilusões amorosas, não posso te proteger disso. Mas das pessoas, Yuuri. Há muitas delas, todas diferentes. E se você cair em mãos erradas, sentirei que a culpa é minha. — ele disse a última parte olhando nos olhos de seu pupilo. Yuuri negou com a cabeça. — Como pode ser culpa sua se... — Eu sentiria, Yuuri. — havia dor em sua voz, como se a verdade fosse áspera demais pra ser dita — É o meu trabalho. Quando eu concordei em tomar conta de você, a garantia de medalhas era só uma parte do contrato. Eu seria o seu responsável, praticamente seu pai aqui na Rússia. É meu trabalho te colocar no bom caminho, evitar que seja seduzido pelas coisas erradas. Eu reclamo de Victor, mas ele é a menor das minhas preocupações quando se trata de você, Katsuki. Por Deus, eu quase entrei em pânico quando você começou a chorar na Copa da China! — ele disse levantando as mãos para o céu exasperado, quase derrubando a água no processo — Eu entrei nesse esquema de técnico sem fazer ideia do que estava me esperando. Eu sei patinar, mas eu não sei lidar com pessoas. E se você acabar se perdendo no processo, eu vou saber que a culpa é minha. O meu egoísmo em querer fazer algo que eu simplesmente não entendo vai ser a razão para a queda de um atleta incrível. — ele riu de sua própria angústia, já sentindo lágrimas se formando no canto de seus olhos — É isso, Yuuri. Eu não faço ideia de como pilotar esse barco. Desculpe se te enganei esse tempo todo, eu sinto que enganei. A única coisa que eu sei fazer é ganhar medalhas inúteis. Lamento muito. Era a verdade nua e crua, ali, exposta para o adolescente analisar e julgar. No lugar dele, Yuri ligaria para os pais e pediria para o buscarem, porque ele tinha um louco como técnico. Ele estava se enganando desde que tudo isso começou. Como podia cuidar de outra pessoa se mal podia cuidar de si? Yuuri encarava-o com os olhos arregalados de quem havia visto um fantasma. Talvez fosse. O melhor patinador da Rússia não deveria ser aquela bolha de inseguranças diante do japonês. Quem queria enganar, esse título logo não seria mais seu. Apoiando-se no balcão, Yuri esfregou os olhos na manga da camisa. Que talento pra piorar um clima, hein? E já estava quase na hora do jantar. Se ele estava com fome, Katsuki deveria estar faminto. Justo quando virou-se para perguntar algo a respeito e quem sabe tentar esquecer todo aquele assunto, foi recebido por um abraço. Pêgo de surpresa, demorou um pouco para entender o que estava acontecendo. Mas lá estava Yuuri, braços no seu tronco, cabeça em seu ombro. Quando o outro havia ficado mais alto? Parecia que crescera num piscar de olhos. — Yuri-sensei, você é o melhor técnico que eu já tive. — ele murmurou como um segredo — Eu não estou dizendo isso pra te agradar. Você é sincero comigo, aponta meus erros, não faz elogios desnecessários, se esforça para me ajudar mesmo sem entender os meus problemas. Você não tem medo de me quebrar como os outros técnicos. Não, você sabe que odeio quando me escondem as coisas. Você de forma alguma me enganou. — ele levantou o olhar com um sorriso e Yuri viu que estava chorando também — Você me salvou, sensei. Se não tivesse aparecido naquele banheiro público em Sochi e exigido explicações para uma apresentação tão ruim de um patinador qualquer da categoria Júnior, eu não teria voltado pro gelo. Eu teria desistido de uma das minhas paixões e provavelmente teria me arrependido depois. Então não pense que você será o responsável pela minha queda quando já foi o motivo da minha ascensão. Oh.Oh. Quando Yuuri se tornara tão bom em consolar os outros? E quando Yuri se tornara sensível ao ponto de chorar copiosamente por causa de discursos bonitos? Ele não sabia, mas era exatamente aquilo que estava acontecendo. Enquanto ele soluçava como uma criança, Yuuri, com toda a sua paciência, umedecia um guardanapo e enxugava cuidadosamente as lágrimas do mais velho. Até parecia que ele era o técnico e Yuri, o patinador em crise. — Está tudo bem, sensei. — ele disse segurando sua mão — Você não precisa saber de tudo sobre ser um técnico. Somos uma equipe, não? O que um precisar, o outro ajuda. Não precisa levar toda a carga nos seus ombros. Foi naquele momento que Yuri entendeu porque as pessoas se apaixonavam por Yuuri Katsuki. O mesmo garoto que sofria de ansiedade era capaz de levantar a moral dos outros, mesmo não sendo sua obrigação. Ele só queria o melhor para as pessoas com quem se importava. O russo nunca se sentiu tão feliz por tê-lo como aluno. Puxando-o para outro abraço, Yuri disse com a voz levemente rouca: — Acho que eu estaria perdido sem você, Katsuki. Assim eles se completavam. Yuri muito rígido, Yuuri muito sensível. Sozinhos são extremos, mas juntos conseguem um equilíbrio. — Promete que vai atender o telefone na próxima vez que eu ligar? — Yuri perguntou em voz baixa. — Uhum. — E que não vai esconder nada de mim? Principalmente as ideias loucas? — Eu tenho escolha? — ele disse rindo. — Ao menos finja pra eu ficar mais calmo. — Yuri disse bagunçando suas mechas escuras — Pode não parecer, mas eu tenho um coração fraco para adolescentes patinadores. Não me mate. — Pode deixar. — seu sorriso parecia ter uma gotinha de maldade — Está se parecendo cada vez mais com Yakov. — Nem brinque com isso. E essa conversa me deixou com fome. — ele disse fazendo menção de ir até a geladeira, quando algo o parou. — Ah, quase me esqueci. — ele virou-se com os braços cruzados e um dedo sob o queixo — Seu celular está confiscado por três semanas, salvo para ligações para sua família. Quando a Rostelecom Cup acabar, quero te ver dando voltas ao redor da quadra desde as cinco da manhã, enquanto eu te acompanho na moto de Otabek como uma escolta presidencial. Yuuri fez uma careta de derrota e Yuri quase teve pena. Quase. Quando se conhece Katsuki por tempo o suficiente você supera os olhinhos anti-castigo. — Isso — ele adicionou com um sorriso — e quando a temporada terminar vou encaixar aulas de breakdance, balé contemporâneo e tango no seu horário. Vamos ver quais outros repertórios você consegue aprender. Yuuri arregalou os olhos, surpreso e ao mesmo tempo confuso. — Mais danças? Mas eu já sei balé. — Eu sei, mas eu vi algo muito interessante no N'King aquele dia. Eu vi um Yuuri Katsuki que se adapta a diferentes estilos de música, com diferentes formas de contar uma história. Você só precisa da teoria para aperfeiçoar esses novos estilos, então podemos usá-los nos programas. — ele sorriu de lado — E se tudo sair como planejado, eu nunca mais te faço usar músicas clássicas clichês. Vamos patinar ao som de rock, eletrônica, música latina, até as suas bandas de Jpop questionáveis. Yuuri sorriu, mas ainda havia incerteza em seu tom de voz. — Eu não tenho nenhum problema com as músicas clássicas. Além disso, não acho que eu ficaria bem em outra dança que não seja balé clássico. — confessou desviando o olhar. Sinceramente, as coisas que ele tinha que ouvir. Yuri suspirou. — Yuuri Katsuki, você é um tédio. — constatou ao final — Mas é o meu tédio favorito, então não vou cansar de te lembrar que é um garoto incrível e que consegue sim dominar cada estilo novo de dança que eu te apresentar no final da temporada. E caso ainda queira discutir, eu vou ligar pra Minako. Então estará sozinho, camarada. — o tom solene do final podia tanto demonstrar a seriedade das suas palavras quanto a leveza do assunto. De qualquer forma, aquilo pareceu convencer Yuuri o suficiente, que acabou apenas dando de ombros.
— Breakdance soa legal. — ele disse com um sorriso sem-graça. — É o máximo. — Yuri disse abrindo a porta da geladeira e analisando seu conteúdo — Hum, achei que ainda tinha pizza. Sou obrigado a cozinhar. O que acha de pirozhki de katsudon? Os olhos do moreno brilharam. Não havia tido sua comida preferida há meses. — Mas... Eu nem competi ainda. E o programa curto é amanhã, não deveria sair da dieta agora. — Você mexeu os quadris para uma plateia de cem pessoas sem minha autorização e está preocupado com dietas? Me poupe, garoto. — ele disse vasculhando os armários a procura dos utensílios — Anda, pega os aventais. Meu jantar não vai sair sozinho. Não era raro os dois cozinharem juntos. Entre fast-foods e regimes perfeitamente alinhados com o treino, eles tinham tempo para preparar algo mais familiar para ambos. Yuuri aprendera vendo sua mãe preparar os pratos para os clientes e Yuri crescera com as receitas de seu avô. Formavam uma boa dupla. Assim, enquanto Yuri preparava a massa e Katsuki cortava os legumes que iriam para o molho, os dois ficaram num silêncio confortável, até o russo dizer casualmente:— Quando você fizer 18, vamos tentar pole dance. Yuuri mal virou para encará-lo e seu rosto já ficara dez vezes mais vermelho. — Pole dance? Como um stripper?! — Se você não está tirando a roupa você não é um stripper, Yuuri. — ele revirou os olhos. — Por que eu precisaria aprender pole dance? — Fortalece os músculos dos membros e do tronco, aumenta sua resistência e melhora seu equilíbrio. — ele citou os benefícios normalmente — E te ensina a seduzir. — Quem eu iria seduzir? — agora Yuuri parecia apenas entediado, inclusive pegando o hábito de revirar os olhos — Eu tenho cara de criança, uso óculos, gosto de games e faço patinação artística. Yuri-sensei, eu sou um nerd. O loiro não aguentou e riu alto. Ele realmente não fazia ideia. Pobre Victor, Yuri pensou ainda rindo, Pobre, pobre Victor. Imaginava como seria quando aqueles dois finalmente ficassem juntos.
Notas finais
É, eu realmente não sei o que aconteceu. Mas sabe que eu amei desse jeito? Chorei demais escrevendo, agora quero consolo ;;
Yuri é um grande exagerado, a coreografia nem é tão pra frente assim. Se eu quisesse ser processada por exposição de menor eu escreveria o Yuuri dançando Blackpink.
E a minha estética é dar brechas pra Otayuri sem realmente escrever, sorry. Yuri foi muito mãe solteira aqui, mas Beka seria o melhor padrasto, tenha certeza.
Então, o que acharam dessa loucura? Deixem seus comentários!
XOXO
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!
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